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A Polícia Judiciária fez esta manhã buscas de norte a sul do país numa megaoperação relacionada com crimes de ódio contra imigrantes. Pelo menos 37 pessoas foram detidas, todas com ligações ao grupo nacionalista de extrema-direita 1143, grupo este que é liderado pelo neonazi Mário Machado a partir da prisão. Os elementos são suspeitos de difundir mensagens e conteúdos racistas nas redes sociais, que serviriam depois para incitar ao ódio contra imigrantes. As buscas foram conduzidas pela Unidade de Contraterrorismo da Polícia Judiciária. Está conosco o coronel Francisco Rodrigues, presidente do Observatório de Segurança, Criminalidade Organizada e Terrorismo. Muito obrigado por ter aceitado o nosso convite. Começo por lhe perguntar como é que a PJ prepara este tipo de operações que servem para desmantelar grupos deste tipo.

A PJ prepara este tipo de cooperação, como qualquer autoridade, quando tem que desenvolver uma operação no decurso do cumprimento de mandatos, que é o caso, a PJ, a Polícia, a PSP ou a GNR não pode, de sua livre iniciativa, a não ser que seja em flagrante delito, chegar à casa de uma pessoa ou uma empresa e desenvolver uma operação com estas características. Necessita sempre do chamado mandado, por parte da autoridade judicial competente. Neste caso, com certeza que o departamento de investigação e ação penal, acho que é de Lisboa, que é quem está envolvido nesta operação, emitiu os respectivos mandados e a Polícia Judiciária, naturalmente, desenvolve-os. É evidente que a investigação é toda feita no âmbito da Polícia Judiciária. É a Polícia Judiciária que faz todo o processo investigatório e depois pede que sejam emitidos os mandatos. No fundo, é isto. Quando estão em causa este tipo de organizações, o processo de investigação é um processo normalmente moroso, que tem as suas dificuldades inerentes dada a complexidade do processo, e quando estão reunidas todas as condições e, principalmente, elementos de prova que permitam solicitar os mandatos, que foi este o caso, de certeza absoluta, a Polícia Judiciária promove a realização das operações necessárias para o cumprimento desses mandatos e tentar, naturalmente, que sejam alcançados os objetivos que estão na origem do pedido de emissão desses mesmos mandatos.

Claro que sim. E neste caso, por exemplo, é possível desmantelar completamente as operações do grupo, tendo em conta que há uma grande parte, por exemplo, de mensagens nas redes sociais, como é que isto acontece?

Este grupo, como outros grupos criminosos, com origens ideológicas ou não, ou somente ligadas ao crime organizado, tem estruturas que estabelecem a possibilidade da continuidade das lideranças. Neste caso concreto, está identificado o Mário Machado como líder do 1143. Não é pelo fato de Mário Machado estar preso que o grupo desaparece ou deixa de operar. O que eu quero dizer é que por mais operações que sejam realizadas no sentido do desmantelamento destes grupos, dificilmente se conseguem desmantelar na plenitude. Não tínhamos dúvidas que o grupo pode sofrer um revés, no caso de serem detidos muitos elementos constituintes do grupo. Neste momento há cerca de 30, segundo parece, 30 e tal elementos, mas isto pra dizer que o grupo não é composto só por 30 elementos.

Claro que sim.

É evidente que é muito importante este tipo de operações, mas estas operações não fazem terminar os grupos. Não conseguem desmantelar na plenitude os grupos.

Falou do Mário Machado e que ele é o líder deste grupo. Como é que ele consegue controlar o grupo a partir da prisão?

Eu parto do princípio que isso é uma afirmação verdadeira.

Claro que sim, é o que está a ser também noticiado pelos jornais. Exatamente, é isso.

Eu não sei se é o Mário Machado que continua a controlar ou dar indicações para os restantes membros do grupo. Mas o que é que acontece? Nos estabelecimentos prisionais, cá como no estrangeiro, existem fragilidades na segurança. E essas fragilidades podem ser fragilidades no âmbito, por exemplo, de controlar o que é que os reclusos têm na sua posse, no caso concreto, meios de comunicação para o exterior, como seja o caso dos telemóveis. Nós sabemos que nos estabelecimentos prisionais, em Portugal ou no mundo, procuram ser introduzidos telemóveis para que os reclusos continuem a ter contato com o mundo exterior, mas estamos a falar, inclusive, de reclusos do foro comum, daqueles que praticam os furtos Não estamos a falar de alta criminalidade, certo? Qualquer recluso procura, naturalmente, continuar a ter a possibilidade de comunicar com o mundo exterior, com a sua família, com seus amigos, com os constituintes, porventura, se for um grupo organizado de crime, com o seu grupo. E depois, por outro lado, naturalmente que as visitas podem trazer indicações para o exterior. As visitas autorizadas ao recluso também podem ser portadoras de indicações para outras pessoas. Há várias formas de o fazer. Aquela que efetivamente é a mais recorrente e que funciona mais do ponto de vista operacional, se me permite o termo, é a utilização de telemóveis.

Falei das redes sociais, que agora há estes crimes associados a crimes de ódios e esta operação está ligada a isso. As redes sociais são uma nova guerra do século XXI e os comentários são usados como arma?

Claro. As redes sociais, eu costumo dizer que podem ser utilizadas para o bem e para o mal. E é pena, naturalmente, quando elas são utilizadas para o mal e nós vemos isto. Recentemente nós continuamos a assistir a casos relacionados com a pedofilia, com a violência psicológica. As redes sociais continuam, naturalmente e infelizmente, a ser utilizadas também para darem suporte a atividades ilícitas ou ilegais. E é evidente que sim, principalmente naquilo que é a propagação das ideias, ainda agora com as eleições foi muito falada a importância das redes sociais no discurso político, na mensagem, no discurso político. As redes sociais são efetivamente um elemento a ter em conta hoje em dia em tudo aquilo que é a disseminação de ideias, principalmente.