Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
Junta-se agora a nós Gustavo Tato Borges, é vice-presidente da Associação Nacional de Médicos de Saúde Pública. Muito boa noite, Gustavo Tato Borges. Agradeço-lhe também por se juntar a nós nesta emissão aqui na Rádio Observador.
Boa noite, Inês. Como está?
Começava por lhe perguntar aqui de uma forma geral em relação ao plano de desconfinamento que foi apresentado por António Costa. Já aqui ouvimos as datas, também os serviços, o tipo de comércio que vai reabrir ao longo dos próximos dois meses. Começava por lhe perguntar se este é um plano bem pensado. Como é que olha para estas datas, para este plano apresentado?
Eu creio que o senhor primeiro-ministro apresentou aquilo que é para si o plano desejável, ou seja, que de 15 em 15 dias vamos poder abrir mais e mais setores da sociedade e com mais lotação e com mais permissões. E de fato, isso leva a uma mensagem errada, naquilo que é a minha leitura, de que as pessoas agora vão estar a marcar no calendário quando é que é o dia em que vão abrir esta estrutura ou que vão passar a poder ter mesas no restaurante, quando de fato este calendário, este cronograma que o senhor primeiro-ministro apresentou, pode cair por terra daqui a 15 dias, quando por um azar qualquer, possa haver um surto de tal maneira grande outra vez ou uma quarta vaga e faça com que todo este calendário que ele apresentou caia por terra. O senhor primeiro-ministro, se calhar, teria sido mais eficaz se tivesse apresentado níveis de desconfinamento, dizendo que de 15 em 15 dias se abriam e dizendo que o critério para ir avançando no nível de desconfinamento era exatamente a definição que ele fez lá dos 120 casos por 100 mil habitantes nos últimos 14 dias e do índice R estar acima ou abaixo de um. Que, de fato, foi o único pormenor mais científico, mais concreto, que nos permite ter uma noção de como é que as coisas vão evoluindo. Agora é preciso aguardar para ver como é que a evolução da pandemia vai ocorrer, para perceber como é que vamos poder desconfinar e com que velocidade.
O primeiro-ministro devia ter sido mais cauteloso na forma como passou a mensagem. Devia ter sido mais contido para não dar, de certa forma, uma falsa sensação aos portugueses, é isso?
Pois, aquilo que eu considero é que ele devia ter começado pelos critérios, pelos quatro níveis de risco que ele definiu, e depois sim dizer que consoante os níveis de risco estarem sempre no verde, nós vamos avançar nesta escala de desconfinamento e dizia qual era a escala e dizia quais eram as datas de reavaliação. Porque agora as pessoas estão com uma ansiedade para que daqui a 15 dias se abra mais não sei o quê, e daqui a mais 15 dias abre mais um restaurante, e daqui a outros 15 dias já comecem com os ginásios, quando ele deveria ter dado margem para que, caso as coisas infelizmente corressem mal, não desconfinássemos tão depressa. E depois há aqui outro pormenor que eu também não entendo: para desconfinar é o país todo, para confinar é por regiões. Isso não faz sentido. Ou desconfinamos todos, ou fechamos todos, ou desconfinamos e fechamos por regiões. Não podemos para umas coisas é o nível nacional, para outras coisas já é mais pormenorizado, porque ao reabrir nacionalmente, podemos estar a dar azo a que num local que tenha mais concentração de casos, depois possa piorar muito mais rapidamente.
Mas faz sentido confinar todas as regiões do país se apenas uma delas, por exemplo, e aqui hipoteticamente, tiver um índice de casos mais alto do que as outras regiões, é isso?
E eu faço-lhe a pergunta: acha que faz sentido abrir o país todo quando apenas uma região está bem e está a contrapor-se? O Porto e Lisboa são os principais motores daquilo que é o número de novos casos a nível nacional. Não há cá dúvidas nenhumas. E se nós tivermos o Porto e Lisboa bastante controlados e tivermos uma outra região pior, vamos desconfinar essa região? Não faz sentido. Se o critério para confinar é por regiões, e a mim parece-me que esse, sim, é o critério correto, para desconfinar também deveria ser por regiões e não o valor nacional. Era uma análise que devia ser mais cuidada. Agora, em termos genéricos, as etapas de reabertura parecem-me genericamente bem. Claro que, como falou o anterior comentador, há de fato aqui alguns pormenores que escapam, meramente a questão das missas e outras áreas completamente não divulgadas pelo senhor primeiro-ministro, que também se calhar não era função dele anunciar, mas poderíamos estar aqui mais tempo a falar em vários pormenores que faltam esclarecer e que com certeza nos próximos dias teremos esse esclarecimento.
E Gustavo Tato Borges, ainda ontem se falava da questão dos riscos do índice de transmissão, o chamado RT, que está nesta altura elevado e que poderia levar a uma revisão das medidas. Este é um calendário de medidas que se justifica tendo em conta esse risco de transmissão da doença? Já ouvimos aqui vários alertas. O próprio Gustavo Tato Borges dizia aqui há dias, aqui também na Rádio Observador, que se o RT continuar a aumentar, o governo devia admitir recuar com este plano de desconfinamento. Como é que olha para esta questão?
O índice RT é um dos fatores que estamos sempre a analisar para perceber como é que a pandemia está a evoluir, se bem que isto dar-nos a noção do que aconteceu há dias atrás e não necessariamente nesta semana em que nós estamos. E é um indicador muito importante. Acho piada que hoje anunciou-se que estávamos com 105 casos por 100 mil habitantes nos últimos 14 dias e com o RT dito há dois dias de 0,78. Pois, ok. Mas o que nós estamos a perceber é que esta semana, se calhar, o RT vai ser anunciado na sexta-feira, que vai ser superior àquele que o senhor primeiro-ministro anunciou. Felizmente, vai ser inferior a um e também estamos com abaixo de 120 casos, portanto, estamos na zona verde na mesma. Mas é preciso começar a perceber que esta variação, se o índice RT hoje era 0,7 e amanhã ou na próxima semana é 0,92, nós já estamos a caminhar de uma forma rápida pro um. E portanto, se não houver aqui também uma avaliação mais cuidada e com certeza mais cautela a abrir a economia e abrir as instalações e as atividades, nós podemos na semana abrir, dar mais um passo no desconfinamento, e depois de passado 15 dias, que também é o período normal de avaliação, deve ser 15 dias, não está mal. Passado 15 dias, estamos a parar tudo outra vez. E portanto, esta análise e esta promessa de que de 15 em 15 dias vamos abrir, de fato, é uma promessa que o senhor primeiro-ministro não podia fazer e que se calhar vai-lhe custar quando um dia tiver que anunciar que vamos ter que voltar atrás.
E as restrições para o período da Páscoa já eram admitidas pelo governo, essa proibição de circulação entre os conselhos, e há agora esta confirmação. O governo está aqui a mostrar, de certa forma, cautela, também para não se repetir aquilo que aconteceu com o Natal, quando tivemos um aumento significativo de casos de Covid-19?
Sim, considero que sim. Considero que o governo, depois de ter passado o Natal e o Ano Novo e ter dado uma esperança aos portugueses e ter aberto uma porta que se calhar não devia ter aberto, tendo em conta a carga de doença que existia no país, que agora, felizmente, é bastante menor, acho que eles estão a ter muita cautela e que até à Páscoa, que é normalmente uma época em que as pessoas e as famílias se encontram, que vêm de longe para estar juntos e para dar mistura de vários agregados familiares vindos de vários locais, estarem a mostrar esta cautela e a pedir às pessoas, de uma forma se calhar mais intromissiva, mas às vezes tem mesmo que o ser, de que as pessoas não convivam com liberdades na Páscoa e a pedir esta cautela aos portugueses. Portanto, considero que estas medidas, apesar de não serem muito agradáveis, faz sentido que se mantenham até à Páscoa e esperemos que depois disto já consigamos ter hábitos de vida e uma nova normalidade que nos impeça de voltar atrás no tempo.
Gustavo Tato Borges, aproveitava ainda para lhe perguntar, só mesmo para terminar, nós escutámos o primeiro-ministro, mas aproveitando aqui a opinião de um especialista, quais é que são nesta altura e com todos os fatores que temos atualmente, as linhas vermelhas que devem levar o governo a recuar neste plano de desconfinamento? O que é que é preciso acontecer para que o governo recue, no fundo?
O governo próprio já estabeleceu dois parâmetros muito importantes, que é ser mais do que 120 casos por 100 mil habitantes nos últimos 14 dias, que é um critério bastante apertado e considero que é bem acertado que seja assim para que não atinjamos valores como já tivemos há pouco tempo atrás, e um RT acima de um. Portanto, são dois critérios que estão definidos, são critérios apertados e que fazem sentido, e que assim podemos ter maior controle sobre a pandemia. Creio que aqui faltará ainda perceber a questão da ocupação a nível de internamento hospitalar, quer de cuidados normais, quer de cuidados intensivos, e também perceber o número de óbitos. Porque nós podemos ter relativamente poucos casos, mas estarem a falecer mais, porque de facto é a nova estirpe do Reino Unido ou é uma nova estirpe do Brasil, e também a proporção de casos que podem vir a aparecer associados a estas novas estirpes, pode também ser um indicador de que há necessidade de não reabrir. E portanto, são estes diria três critérios que o governo poderia ter equacionado para pensar. Claro que a apresentação destes níveis de risco com cinco critérios não é uma apresentação fácil e não é fácil as pessoas entenderem. E portanto, é mais fácil mostrar estes dois critérios simples, dos 120 casos e do RT, e depois eles próprios, a nível técnico com a DGS, analisarem as outras variantes para poderem depois dizer que: "Ok, temos muita proporção de casos associados à estirpe do Brasil ou à estirpe do Reino Unido, ou temos muitos óbitos, ou temos o internamento a aumentar, vamos avisar as pessoas que apesar de estarmos com um índice relativamente baixo, como temos estes níveis preocupantes, vamos manter-nos assim apertados." E portanto, poderá haver essa avaliação posterior. Mas assim de um nível geral, penso que estes critérios apertados, como o governo apresentou, poderão ser um bom passo inicial para fazer esta avaliação de 15 em 15 dias.