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O Prémio Nobel da Medicina foi hoje atribuído a dois investigadores pela descoberta do microRNA. Eu pergunto-lhe numa linguagem percetível para os ouvintes o que é o microRNA?
Nas nossas células e em muitos outros organismos, temos o núcleo, que é como se fosse uma divisão dentro das células, em que está o nosso DNA, os nossos cromossomas, etc. E esse DNA tem que dizer qual é a mensagem para a célula e para as futuras células quando o organismo está em crescimento. Então, daí é produzido com uma cópia, com a informação precisa, que é o RNA mensageiro. E esse passa para o citoplasma, que é como se fosse outra divisão, e traz, por assim dizer, o plano e vai tentar produzir o que o plano do DNA dizia. Mas esse DNA produz também outros tipos de RNA, que não levam uma informação precisa para produzir algo, que neste caso são as proteínas, não é para construir, vamos assim dizer, mas são RNAs mais pequenos, daí também se fala microRNAs, e há outros tipos de pequenos RNAs também, que são reguladores. Então o que acontece? Tendo em conta as condições do ambiente, as condições do desenvolvimento do ser, estes RNAs vão se ligar aos outros que levam informação e autorizam ou não que eles possam dar essa informação. E como é que eles autorizam, que a concretizem? O que eles fazem é: ligam-se a uma parte desse RNA mensageiro, onde ele vai começar a produzir as tais proteínas e impedem que elas sejam produzidas, porque acham que não é conveniente para a célula nessa altura, ou porque as condições ambientais mudaram, ou porque as condições de crescimento mudaram. Há outros tipos de RNAs, também muito pequenos, como os pequenos RNAs de interferência, que já tinham dado um Prémio Nobel em 2006 e de facto o RNA tem estado felizmente nos últimos anos a dar muitos prémios Nobels, como há dois anos as vacinas de mRNA. E o que acontece? Estes microRNAs podem também ser característicos quando estão numa quantidade anormal, por assim dizer, são também diagnóstico de certas doenças, porque começam a fazer uma regulação imprópria do sistema. Noutra forma, só vou dar exemplo de um deles, que é muito importante, que se chama let-7. Este microRNA é tão importante que ele é que dispara a diferenciação das células. O que é isso da diferenciação? É assim: uma célula começa por ser uma célula, mas não se diferenciou em ser que tipo de órgão. Mas depois este é que dispara a célula ser célula do fígado, ou ser célula dos pulmões, ou ser célula do pâncreas, ou o que for. Esta distinção das células desde o embrião, é este microRNA que ajuda a disparar e a regular esta diferenciação celular, que é tão importante para a nossa vida. Em seres muito pequeninos, como as bactérias e micróbios, existem não microRNAs, mas existem outros pequenos RNAs reguladores também muito pequenos e que não codificam para proteínas.
E no fundo, qual é a importância desta descoberta? Tem a ver com o facto de permitir detetar doenças?
Não só detetar doenças, como conseguir compreender, estudar e poder utilizar uma nova forma de regulação, até então desconhecida, que nos faz compreender não só como é que as células funcionam, mas também como é que elas se diferenciam e como é que a mesma informação genética pode agir de modo diferente em diferentes tipos celulares, em diferentes estágios de desenvolvimento, em diferentes estágios de doença e mesmo no desenvolvimento, porque há microRNAs que são característicos de um ser quando está na sua infância e quando está adulto, já agem de outra maneira diferente. Portanto, no fundo, é uma outra forma de regulação com a qual se pode modular imensa coisa e se pode diagnosticar até muitas doenças quando eles estão alterados.
Portanto, é uma descoberta revolucionária, até aqui não havia nada.
Exatamente. É claro, agora foi o Prémio Nobel, isso já se sabe há muitos anos. Já se sabe muitas doenças, já se sabe muito destes microRNAs. Mas normalmente os prémios Nobel demoram uns tempos. Quando foi das vacinas de RNA, quer dizer, foi uma coisa que impactou tanto a humanidade, a infância, veio muito rápido. Mas normalmente os prémios Nobel demoram. Só que os prémios Nobel não podem ser dados a pessoas que já tinham falecido. Por exemplo, quando foi do Prémio Nobel da descoberta do DNA, do Watson e Crick, havia uma senhora, que era uma professora, que era a Rosalind Franklin, que não esteve no Prémio Nobel porque ela já tinha falecido na altura.