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Já passa das 11 da noite e é a última chamada do dia. Marisa Matias resiste, mas já acusa o cansaço a poucos dias do fim da campanha.
A última semana foi uma semana particularmente exigente, porque com a ida aos Açores e à Madeira, com o debate de todos os candidatos no dia cedo, depois de um longo dia. A parte boa é que só há alturas em que sinto alguma coisa. Já começo a conseguir dormir melhor. Mas a primeira semana, a seguir à queda e à fratura das costelas, foi muito dolorosa. Foi muito difícil pra mim fazer os debates, por dor permanente e desconforto. E depois, a partir daí, gradualmente tem sido a melhorar. De vez em quando há uns dias em que se sente mais, sobretudo nos dias que está mais frio, mas estou muito melhor, não tem comparação.
Com mais de 2000 km de estrada, Marisa Matias acaba por passar muito tempo com o staff de campanha numa carrinha de nove lugares. A música é boa e apesar de não ter uma almofada própria, garante que há conforto.
Somos uma bolha de quatro pessoas desde o início da campanha. Estou com o Luís Costa, o João Curvelo e o Adriano. E é confortável, sim, a companhia é boa, as conversas também, a música também, é super confortável. Não tenho nenhuma almofada, agora foi uma boa ideia, pena que isto esteja a acabar. Não, não tenho almofada, não. Tinha dado jeito.
Apesar do bom ambiente no núcleo duro da campanha da candidata apoiada pelo Bloco de Esquerda, os dias foram uma constante incerteza. A agenda era organizada quase de dia para dia e foram feitas várias mudanças por conta da pandemia.
Bem, nós tivemos que mudar várias coisas, não é? Porque a campanha foi toda desenhada já para tempos de pandemia, mas tive que mudar umas ações no dia a seguir ao teste positivo do Marcelo Rebelo de Sousa. Não porque tivesse tido recomendação da Direção-Geral de Saúde, não, da autoridade de saúde, não tive, pelo contrário, mas como tinha feito o teste, preferi aguardar pra não estar a pôr ninguém em risco, se fosse o caso. E agora hoje também tivemos que mudar, por causa de um dos trabalhadores da empresa que íamos visitar ter tido um teste positivo e embora não fôssemos estar em contacto com ele, acho que toda a precaução é necessária. Agora, nós temos tantas limitações que não há muita margem de manobra.
Apesar disso e de sentir falta dos abraços na rua, o balanço é positivo.
É uma campanha que nos desafiou muito. Tivemos que pensar novas formas de estar em contacto com as pessoas, mas o balanço global é muito positivo. As iniciativas que temos tido on-line têm permitido que todos os dias centenas e centenas de pessoas estejam conosco, dos mais diversos sítios do país. O ir conversar com menos pessoas também ao mesmo tempo permite concentrar-nos mais na história específica dessas pessoas e obviamente associar às lutas mais coletivas, mas não é tudo mau. Acho que há coisas que são claramente positivas e que até nos podem ajudar pra iniciativas futuras.
Depois de André Ventura ter criticado Marisa Matias por usar batom vermelho, surgiu uma onda de solidariedade. O batom vermelho mudou toda a campanha para melhor, diz, e não apenas a da candidata.
O que mudou foi, acho eu, um movimento muito bonito de solidariedade e de conscientização coletiva dos perigos e das ameaças racistas, xenófobas e machistas. E todos estes movimentos precisam sempre de símbolos. Se o símbolo foi o batom vermelho, que seja. Uma campanha que estava muito morna, se calhar, acabou por trazer esta coisa de estarmos juntos, de forma coletiva, a defender valores contra uma ameaça à democracia. E isso é sempre bonito.
Uma ameaça que Marisa Matias tem preferido não tratar pelo nome, ao contrário de todas as pessoas com quem se cruzou na campanha.
Ele usa tantas vezes o nome dele, até na terceira pessoa, que eu acho que já usa as vezes suficientes. O que importa é o debate de ideias e o que representam cada uma dessas candidaturas e esta candidatura em específico, o que é mais preocupante é mesmo o programa e as ideias que representa. Em relação ao silêncio, depende. Há vezes que o silêncio é melhor, há outras que não. Normalizar não é bom, por isso é preciso intervir e não de forma silenciosa. E quando há insultos que atacam comunidades inteiras, pessoas pela sua cor de pele ou mulheres, como foi o caso dos últimos, eu penso que aí o silêncio é impossível de manter.
Antes de desligar a chamada com o Observador e de se deitar para mais um dia de campanha, Marisa Matias revela com o que gostaria de sonhar nessa noite.
Mudar o mundo? Eu sonho de forma muito humilde. Acho que mudar o mundo é mesmo o sonho que nos ajuda todo dia, todas, em Portugal e pra além de Portugal.
Antes de mudar o mundo, Marisa Matias espera mudar Portugal já este domingo.