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Junta-se em directo a este jornal das 10 horas o embaixador Victor Angelo, antigo secretário-geral adjunto das Nações Unidas. Bom dia, Victor Angelo. Obrigado por se juntar a nós nestas manhãs 360 de fim de semana. Que significado tem exatamente este reconhecimento do Estado da Palestina por Portugal e pelos restantes países, sendo que nesta altura já 146 dos 193 estados membros da ONU reconheceram o Estado da Palestina?
Muito bom dia. O significado é bastante importante, embora seja simbólico, mas politicamente tem muita força, porque na realidade aos 146 países que já reconhecem o Estado da Palestina, juntam-se agora países do Ocidente e sobretudo países com grande peso na comunidade internacional, como é por exemplo o caso da França. Além disso, o facto de haver uma aliança entre a França e a Arábia Saudita na apresentação desta moção também é bastante importante, na medida em que não é apenas uma iniciativa dos países mais desenvolvidos, como eu disse, é uma iniciativa importante, mas é também uma iniciativa que engloba países da região e nomeadamente o estado mais importante da região a que pertence Israel, ou seja, a Arábia Saudita.
Ou seja, isso confere um peso adicional a este reconhecimento?
Sim, certamente. Agora, a grande questão é o que é que vai acontecer a seguir. A Assembleia Geral vai certamente por uma muito larga maioria aprovar o reconhecimento da Palestina como um Estado e vai reconhecer o direito da Palestina a ser um membro de pleno direito das Nações Unidas, mas isso não é suficiente, porque na realidade o que é preciso também é que o Conselho de Segurança das Nações Unidas aprove essa resolução.
E aí haverá maiores dificuldades, não é?
Nós sabemos que ao nível do Conselho de Segurança haverá certamente um veto, que será o veto dos Estados Unidos.
Ou seja, na prática, que efeito é que este movimento de reconhecimento poderá ter? Poderá vir a não ter nenhum efeito prático?
Em termos práticos não tem, mas em termos políticos é extremamente importante e como sabe, é importante ao nível das relações internacionais e é importante ao nível da comunidade das nações que um Estado seja reconhecido como cumprindo as normas internacionais ou não cumprindo essas normas. E o que isto vai mostrar é que Israel é considerado por uma grande maioria dos países membros das Nações Unidas como um Estado que não cumpre as resoluções das Nações Unidas. Por isso politicamente tem um efeito muito forte em relação a Israel e mais uma vez vai mostrar que Israel está isolada e que na realidade apenas os Estados Unidos e um pequeno grupo de países, alguns deles minúsculos em termos da capacidade de intervenção nas relações internacionais, como por exemplo as ilhas do Pacífico, por isso apenas uma mão cheia de países reconhece Israel e não quer reconhecer o Estado da Palestina.
Victor Angelo, olhando noutra perspectiva para esta questão, de que forma é que se consegue garantir que este reconhecimento do Estado da Palestina não dá mais força ao Hamas? Como é que ficam também as relações com Israel nesta perspectiva de que existe ali um conflito que é entre Israel e o Hamas?
O reconhecimento do Estado da Palestina dá força ao povo palestiniano, em primeiro lugar, e em segundo lugar, à autoridade da Palestina, que na realidade é a autoridade que deveria governar os interesses e governar tudo o que está relacionado com a Palestina. Eu não penso, de modo algum, que isto venha reforçar o Hamas, até porque o Hamas está numa situação de estar praticamente destruído pelas ações levadas a cabo pelo governo de Israel.
Mas acredita que tudo isto pode vir a ter algum efeito no conflito entre Israel e o Hamas ou ali na região da Faixa de Gaza, pode ter um efeito positivo para o evoluir deste conflito?
Eu penso que não. Eu penso que o que é preciso é que ao nível do Conselho de Segurança e sobretudo ao nível dos Estados Unidos, haja uma mudança de posição e que efetivamente se exerça uma pressão política sobre Israel para que este conflito termine. Evidentemente, também exercer pressão para que os reféns sejam libertados, mas fundamentalmente para que o conflito termine, tendo em conta os custos humanitários, os custos em termos de vidas dos palestinianos que este conflito tem trazido. Este conflito tem várias dimensões que violam a lei internacional e era fundamental que ao nível do Conselho de Segurança das Nações Unidas houvesse uma decisão no sentido de forçar Israel a parar a ofensiva contra a Faixa de Gaza, que é na realidade uma ofensiva contra a população de Gaza e por isso vários observadores internacionais de reputação indiscutível têm dito que se trata de um genocídio.
Victor Angelo, muito obrigado por ter estado em direto conosco, antigo secretário-geral das Nações Unidas, a ajudar-nos a olhar para esta decisão de Portugal e de mais outros nove países que amanhã vão reconhecer o Estado da Palestina.