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Partimos para a análise neste jornal. Está conosco em direto Raquel Bacasis, editora de política do Sol e também colunista do Observador. Raquel, bom dia.
Olá, Carla. Bom dia.
Entendes a intenção de Passos Coelho?
Acho que não. Eu estava a ouvir, ninguém entende muito as intenções de Passos Coelho. Embora eu também deva dizer que eu acho que há aqui uma coincidência temporal que não me parece que tenha saído exclusivamente ou principalmente da cabeça de Passos Coelho ou da intenção de Passos Coelho. Este podcast da Maria João Vilas está a rodar há muito tempo na Rádio Observador, há muito tempo que o spot de promoção diz que Passos Coelho é um dos entrevistados. Eu, aliás, ontem quando ouvi o podcast, até perguntei para a rádio quando é que tinha sido gravada a entrevista, também para perceber isso mesmo. Eu acho que é uma coincidência, sinceramente.
A entrevista tinha sido combinada e prometida já há muito tempo, antes sequer das eleições.
Sim, era isso que eu estava a dizer.
Exatamente.
O spot que roda na Rádio Observador há muitos meses, que inclui o nome de Passos Coelho. Portanto, eu acho que houve uma coincidência, provavelmente infeliz para todos, na junção, no intervalo de poucos dias, daquela intervenção, essa sim intencional de Passos Coelho, na apresentação do livro. Não tanto por ter ido apresentar aquele livro, mas, sobretudo, pelo conteúdo das coisas que foi dizendo na apresentação daquele livro, que aliás, em grande parte não têm muito a ver com o livro, têm mais a ver com a política nacional. Aí sim, eu acho que houve uma intencionalidade. Ontem, a coincidência da entrevista que ele deu ter sido gravada um dia antes ou no dia seguinte dessa intervenção e ter ido para o ar ontem, parece-me que não é uma coisa intencional de Passos Coelho. Portanto, não acho que possamos prever que agora todas as semanas, acho eu, Passos Coelho vá aparecer com intervenções públicas. Acho mesmo que foi uma coincidência. Dito isto, acho que-
Há a questão do conteúdo.
Acho que há a questão do conteúdo, embora eu ouvi o podcast todo. E se é claro que Passos Coelho quer ali fazer um ajuste de contas, ou enfim, contar aquilo que se passou no tempo da troika, naquelas fases mais complicadas na coligação com o Paulo Portas e em relação à própria atitude de Paulo Portas, eu acho que já as críticas em relação ao Montenegro, para quem ouve o podcast todo, do meu ponto de vista, eu se não tivesse ouvido comentários, não acharia que aquilo era uma crítica a Luís Montenegro. Sinceramente digo. Acho que a Maria João Vilas faz as perguntas e acho que ele tenta responder com a maior contenção possível, dizendo até que acha normal que ele tenha passado ao capítulo seguinte, porque as pessoas não podem viver sempre agarradas ao passado. Agora, é evidente que uma pessoa como Passos Coelho e numa altura como estas, tudo o que diz é ali dado lupa, visto ao milímetro e, portanto, retirado do contexto, parece que está, do meu ponto de vista, acho que parece mais que está a criticar Montenegro do que ouvindo o podcast, se pode retirar essa conclusão. Já em relação à coligação Passos e a Paulo Portas, acho que ele tem absoluta consciência, quer contar de uma vez por todas a sua versão da história e não ficar como o patinho feio da troika, e portanto, acho que aproveitou esta ocasião para contar tudo.
E isso para quê? Porque Passos Coelho terá ambições políticas?
Eu acho que sim, acho que Passos Coelho não sabe fazer mais. Quer dizer, ele não tem estado na política, mas continua a ser um político. Aliás, cada vez que aparece ou fala, é um político. Eu não sei se ele tem os planos muito fechados sobre aquilo que quer fazer. Acho que está mais à espera de perceber qual é a oportunidade que vai surgir. Eu acho que ele há uns meses atrás achou, eventualmente, que poderia voltar a ser líder do PSD e quiçá candidato a primeirom-ministro. Acho que neste momento os tempos políticos retiraram esse cenário, mas eu acho que ele quer estar pronto para um cenário que apareça. E para isso ele precisa de contar a sua versão da história. E eu acho que ele ontem, claramente, mais do que um ataque ao Paulo Portas, quis contar a sua versão da história e explicar que não foi o bicho-papão que fizeram dele desde o momento em que ele abandonou funções governativas. E se o fez da melhor maneira ou da pior, eu acho que isso agora o tempo dirá, mas claramente aquilo que ele ontem quis fazer foi contar tudo, não deixar nada por contar. Enfim, tenho dúvidas sobre se uma pessoa que foi primeiro-ministro deve contar tudo assim como ele contou, mas também percebo que ele se sente injustiçado pela história e pela narrativa e que nunca teve esta oportunidade e quis ontem aproveitar essa oportunidade.
E foi isso que fez. Raquel Bacasis, muito obrigada por ter estado aí.
Deixa eu só dizer uma coisa. Até porque Paulo Portas tem conseguido fazer com a sua vida pós-troika. E Pedro Passos Coelho, até hoje continuava com este rótulo e, portanto, ele deve achar que chegou agora finalmente. Eu acho que ele agora está tudo para comentador, se calhar vamos ver Passos Coelho como comentador muito brevemente.
Aqui fica uma aposta. Vamos valorizar o teu feeling mais uma vez. Raquel Bacasis, obrigada por teres estado conosco neste jornal. Um bom dia também pra ti, editora de política do Sol e colunista do Observador, ainda com os ecos da entrevista de ontem de Pedro Passos Coelho.