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Depois de ter vencido essas eleições de julho como candidato único, Paulo Cafôfo é agora oficialmente o novo líder do PS regional, com a moção global de estratégia que apresentou a ser aprovada por unanimidade pelos delegados ao Congresso, a moção "Avançar pela Madeira, pelas pessoas". Paulo Cafôfo, que já disse que o PS se afirma como uma alternativa credível ao PSD Madeira liderado por Miguel Albuquerque. E é Paulo Cafôfo que se junta agora a nós neste jornal. Muito boa tarde, Paulo Cafôfo. Obrigado pela disponibilidade. Começo por lhe perguntar: o agora ex-presidente do PS Madeira, Emanuel Câmara, disse este fim de semana que o partido vai avançar para as próximas eleições legislativas regionais em 2023 para partir a bengala do PSD, sublinhando que os social-democratas devem o poder apenas ao CDS. Como é que o PS Madeira pretende partir essa bengala?
Antes de mais, este foi um congresso de mobilização dos militantes do Partido Socialista. Um congresso de esperança, porque foi notória a vontade e a mobilização, um acreditar neste projeto. Nós, e eu, no Partido Socialista, tenho tido aqui um percurso desde a conquista da Câmara Municipal do Funchal, quebrando aqui uma hegemonia que sempre foi do PSD. Portanto, a capital madeirense foi um marco decisivo também neste processo, nesta caminhada da construção de uma alternativa. E a verdade é que nas últimas eleições regionais, nós ficamos a muito pouco de conseguir sermos governo aqui na região. Isso não somos porque o CDS juntou-se ao PSD, eu diria, numa coligação que não traz nada de bom pra Madeira, nem é pro bem da Madeira, é pra bem de alguns egos, para distribuição de lugares como nunca se viu na administração pública regional. E, portanto, aquilo que nós queremos é uma mudança na região. E uma mudança da região passa precisamente por termos outro modelo de desenvolvimento que possa sair desta teia de clientelismo que o PSD, durante mais de 40 anos, criou, uma teia de interesses próprios, porque temos um exercício de autonomia em que a autonomia está para servir um partido.
E considera que agora estão criadas as condições para que o PS possa chegar ao poder na Madeira?
Eu acredito plenamente que sim. E não é só pelos militantes do Partido Socialista. Há uma maioria social que já deseja uma mudança na região. Falta transformar essa maioria social numa maioria política. E, portanto, aquilo que foi a perda da maioria absoluta nas eleições regionais de 2019, agora é a afirmação dessa alternativa, no momento em que estamos a atravessar de dificuldades, como sabemos, a crise pandémica tem resultados ou tem consequências muito graves na região. A região já estava a atravessar, como região turística, problemas graves. Aliás, em 2019, fomos a única região turística do país que perdeu, seja nos proveitos, seja no preço médio por quarto, seja mesmo no número de dormidas. E, portanto, sinais eram claros de que este modelo não resulta. E com a crise pandémica, isso veio a agravar. Nós, em termos de desemprego, neste momento somos a segunda região do país com a pior taxa de desemprego. Isto é dramático quando temos o turismo, o nosso principal setor, e nunca houve a capacidade de libertar-nos, seja da construção civil e dos investimentos, alguns necessários, outros completamente desnecessários, e do turismo. Nós precisamos de diversificar a nossa base económica.
E como é que pensa reverter essa base económica para transformar a Madeira num arquipélago menos dependente do turismo?
Ora bem, esse é o grande desafio de diminuir a nossa dependência do exterior. Seja do ponto de vista da modernização ou da transição digital, nós precisamos de tornar-nos competitivos. Somos uma região insular, ultraperiférica, mas temos que rebater esta ultraperiferia. E isso faz, por exemplo, com que temos aqui uma rede 5G ou o nosso cabo submarino, que nos liga, na verdade, ao mundo, e são investimentos absolutamente determinantes. Mas temos dois instrumentos que são essenciais. Temos o Centro Internacional de Negócios e temos o Registo Internacional de Navios. Tanto um como outro, e lembro que temos o Registo Internacional de Navios que está no top três da União Europeia, em termos de navios que estão aqui inscritos, e nós estamos a potenciar uma coisa que está à nossa volta, o mar. E considero que a região pode ter condições para ser líder na inovação empresarial da economia azul, como em termos de testes e empresas que querem desenvolvimento, seja das tecnologias oceânicas, seja mesmo dos serviços de shipping, seja até da indústria conserveira. Temos aqui condições de utilizar o Centro Internacional de Negócios e os benefícios fiscais que obviamente este centro dá à região, com os navios que já estão credenciados no Registro Internacional de Navios, e potenciarmos, por exemplo, aqui uma economia do mar, que seria uma área em que a região deveria apostar.
Paulo Cafôfo, olhando aqui para as eleições autárquicas do próximo ano, Miguel Albuquerque, o líder do Governo Regional e do PSD Madeira, já disse este fim de semana que não há razões para que o PSD não saia vencedor das autárquicas do próximo ano. Qual é, neste momento, o objetivo do PS Madeira a pensar nessas eleições autárquicas? Qual é a fasquia que coloca para estas eleições?
Antes de mais, era bom saber, Miguel Albuquerque o que é que quer da sua vida. Eu digo isto porque o que temos visto nos últimos tempos é Miguel Albuquerque dar o seu apoio ao Chega Aliás, o próprio André Ventura convidou para mandatário da sua candidatura presidencial. Por sua vez, o próprio Miguel Albuquerque lançou a sua candidatura à Presidência da República. E não sabemos bem o que ele quer, porque tem que se decidir se é presidente do governo, se é mandatário do Chega ou se é candidato à Presidência da República. O que não está a suceder é presidente do Governo Regional e, portanto, nem sequer a zelar pelos interesses do próprio partido. E, portanto, o exercício que temos para as eleições autárquicas é efetivamente o Partido Socialista, que tem neste momento quatro câmaras municipais, e portanto, somos o partido que tem o maior número de câmaras, é reconquistar essas câmaras. Mas podemos ser mais ambiciosos e vamos com certeza apresentar, porque a nossa base eleitoral é uma base que está alicerçada no poder local, termos projetos arrojados de candidaturas que possam ser vencedoras, porque há algo determinante. Para nós podermos conquistar o poder na Madeira e podermos ser o governo regional, o poder local é fundamental. E, portanto, aqui o próximo ano será importante, não só na consolidação dos resultados, porque tivemos os melhores resultados de sempre nas eleições regionais de 2019. Consolidar esse eleitorado e com a nossa marca, marca do Partido Socialista nas câmaras e nas juntas, que faz a diferença relativamente aos outros partidos, podemos a partir daqui construir esse processo de alternativa aqui na região e que eu acredito que vai acontecer, porque, como disse, há uma maioria social que deseja essa mudança.
E a olhar para essas autárquicas, o PS Madeira admite coligações para conseguir algumas câmaras?
A estratégia e a moção global que apresentei e foi votada por unanimidade no congresso, precisamente prevê candidaturas próprias, mas prevê também coligações pré-eleitorais, como é o exemplo do caso do Funchal. Como sabe, eu fui presidente da Câmara Municipal do Funchal em 2013 e foi precisamente essa coligação pré-eleitoral que permitiu que o Partido Socialista se pudesse afirmar e que quebrássemos um poder de 37 anos na capital madeirense.
Essa, na altura, foi uma coligação que juntou vários partidos. Quais são, por assim dizer, as preferências, neste momento, do Partido Socialista para coligações?
As minhas preferências são aqueles que se identificarem com o projeto que iniciamos precisamente em 2013. Nós temos parceiros, temos diversos partidos. Há um que se tem mantido nesta coligação, seja 2013, seja 2017, que é o Bloco de Esquerda, e com certeza, como tem resultado essa parceria, iremos encetar conversações com o Bloco de Esquerda, mas também nós, sendo uma coligação de abertura, um projeto que tem em conta a cidade do Funchal, vamos também negociar e estabelecer compromissos com outras forças que, sendo mais pequenas, são importantes se se agregarem em volta de um objetivo comum e de um projeto comum, como é este que temos para a cidade do Funchal.
E essas coligações não dizem respeito apenas ao Funchal, dizem respeito também a outros concelhos?
Não. Neste momento, o único concelho em que prevemos que possa existir uma coligação pré-eleitoral é precisamente o Funchal. Se noutros concelhos existirem movimentos independentes em que vejamos que há uma clara vantagem em associarmos para proveito da população, também poderemos encetar, obviamente, esses acordos. Mas neste momento, a única coligação que está prevista é no Funchal, uma coligação pré-eleitoral. Aliás, na sequência daquilo que foi em 2013 e em 2017.
Paulo Cafôfo há pouco falava das eleições presidenciais e da forma como isso podia influenciar os próximos tempos na Madeira, até porque Miguel Albuquerque, o chefe do Executivo madeirense, já disse que vai avançar com a candidatura à Presidência da República, caso outros candidatos não defendam matérias que considera de interesse fundamental para a região. Ainda hoje ouvimos Carlos César dizer que o próximo presidente da República deve ser um contribuinte da estabilidade política e que possa atuar contra todos os extremismos. Eu queria perguntar-lhe também de uma forma muito clara, como é que olha para a candidatura de Ana Gomes, uma destacada socialista e neste momento ainda sem esse apoio oficial do Partido Socialista.
Eu queria dizer que as eleições presidenciais são eleições muito particulares. São, digamos, unipessoais, se assim entendermos. E neste contexto em que vivemos, neste contexto de pandemia, é claro que aquilo que disse o Carlos César hoje, aqui na Madeira, de um candidato que trazia estabilidade, parece-me absolutamente importantíssimo. Nós vamos viver momentos de incerteza. No mundo que vivemos desta pandemia, há muita incerteza, mas não podemos ter um futuro incerto. E não termos um futuro incerto é haver estabilidade política. E aqui o Presidente da República tem uma função determinante. Eu vejo que a entrada de uma candidata como Ana Gomes é positivo para o debate democrático e plural que se quer. Temos, obviamente, aqui alguém da área do Partido Socialista, mas como já dissemos, na minha opinião, estas eleições sendo particulares, e já vimos também diversos dirigentes do Partido Socialista que já optaram por apoios a diversos candidatos, pode acontecer que tenhamos, no Partido Socialista e com os candidatos que conhecemos, apoios a quatro candidaturas. Do meu ponto de vista, acho que o professor Marcelo Rebelo de Sousa, e aqui tenho que dizer, é uma declaração de interesses. Eu estabeleci com o professor Marcelo Rebelo de Sousa uma relação próxima, porque em 2016, estão lembrados Houve aqui um grande incêndio na cidade do Funchal com consequências muito nefastas, não só na floresta, mas foram mais de 200 casas afetadas e o presidente esteve cá. É uma coisa que eu tenho que é gratidão. E portanto, tenho aqui na pessoa do professor Marcelo Rebelo de Sousa, uma gratidão efetivamente com a sua ação enquanto presidente da República e o interesse que ele tem manifestado sempre pelas pessoas da região. Independentemente da área política, vamos viver aqui um tempo de alguma decisão, mas não esconde a minha simpatia pelo professor Marcelo Rebelo de Sousa.
E essa simpatia pode consubstanciar-se numa espécie de apoio oficial por parte da estrutura da Madeira do Partido Socialista?
Não, está neste momento a falar o Paulo Cafôfo, portanto, não compromete absolutamente o partido. Aquilo que eu lhe digo é que estas eleições tendo um leque diversificado, na minha opinião, não deve haver um compromisso do partido com alguma candidatura. E portanto, aqui a liberdade de voto, na minha opinião, como volto a referir, seria a melhor opção.
Paulo Cafôfo, queria perguntar-lhe também, já agora, tendo em conta essa declaração de interesses, se entende que nestas eleições os eleitores, neste caso da área do Partido Socialista, vão ficar relativamente esclarecidos caso o Partido Socialista opte por não apoiar de forma oficial qualquer um dos candidatos?
Eu acho que o debate é que tem que ser bem promovido, em termos do leque de candidatos. Agora o Partido Socialista, como diz Carlos César, tem que ter em conta a estabilidade política. Nós somos poder e somos governo, governamos o país e a figura do Presidente da República tem que ser alguém que tenha uma noção de Estado. Há aqui algo fundamental que é não ser alguém que promova populismos e extremismos. O bom senso sempre foi bom. Neste contexto político, social e económico que vivemos, é ainda mais importante. Temos que nos rever num Presidente da República como alguém que tenha em conta os interesses maiores, que são os interesses das pessoas. E aqui a estabilidade política é essencial de convulsões, com certeza, sociais que teremos, não terem reflexo em termos políticos, porque isso, depois de uma crise de saúde pública a que se sucede uma crise económica, nós não precisamos de uma crise política.
Só mesmo para terminar, Paulo Cafôfo, queria perguntar-lhe se não seria normal também que o Partido Socialista, tendo em conta tudo isso que diz em relação àquilo que seriam os predicados de um candidato presidencial, se não seria normal que o Partido Socialista tivesse um candidato da sua área que pudesse apoiar oficialmente.
Neste contexto em que estamos, acho que essa não é a questão mais importante. O mais importante é o Partido Socialista concentrar-se na governação do país e nessa governação dar as respostas necessárias que os portugueses precisam para, e aqui no caso concreto da Madeira, haver até uma discriminação positiva relativamente às regiões autónomas, porque temos especificidades muito próprias e teremos, como já sabemos, muito dinheiro da União Europeia. E esse dinheiro tem que ser muito bem aproveitado para não perdermos uma oportunidade de poder fazer reformas estruturais que possam tornar a nossa economia mais resiliente, até para embates futuros que possam acontecer, seja crises financeiras que tivemos no passado, seja mesmo crises de saúde pública como esta.