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Domingos Abrantes, muito obrigado pela disponibilidade e por falar com o Rádio Observador. Fazem hoje 50 anos que foram libertados os presos políticos aqui em Peniche. O que eu lhe pergunto é: como é viver este dia, 50 anos depois? Imagino que o 25 de Abril, há dois dias, tenha sido emocionante, mas hoje seguramente também.

Sim, acho que as comemorações do 25 de Abril é uma coisa impressionante. São manifestações de muita confiança, porque é uma massa gigantesca em todo o país, que vem provar a adesão aos valores de Abril. Mas hoje, 27 de Abril, não é menos importante. Para os presos, naturalmente, é uma data histórica, visto que há 50 anos estas portas abriram-se e estiveram quase a ser fechadas. Quando pensamos no dia 27, saudamos a libertação dos presos, mas não podemos deixar de lembrar que havia quem quisesse manter os presos na cadeia. O 25 de Abril só chegou aqui 48 horas depois. Portanto, esta data que hoje se comemora é a derrota de um plano que houve, que é sabido, para manter a PIDE e os presos políticos. Como deve calcular, a abertura das cadeias foi um momento, na caminhada da liberdade, de enorme importância.

Viveu vários anos na clandestinidade. Como é que foram vividos esses anos e como é que foi vivido o momento da revolução?

Repare que eu nasci em 36. Metade da minha vida vivi sempre privado de liberdade e prisões. Metade da minha vida passei privado de liberdade e muitos anos de prisão. Portanto, é natural que eu veja o 25 de Abril com os olhos um pouco mais abertos e mais alegres do que quem não teve a felicidade de viver esses momentos. A conquista da liberdade é talvez o momento mais significativo da nossa história, até porque pôs fim a uma longa ditadura. Basta dizer que o nosso povo ganhou novo ânimo, nova confiança. Quem viveu aqueles dias da libertação, é uma coisa espantosa, tanta alegria na conquista da liberdade. Passámos a ser um povo diferente.

Viveu vários anos aqui no Forte de Peniche. Consegue nos contar mais ou menos como é que era o dia a dia dentro da prisão?

Claro, este museu também tem uma parte dedicada só ao quotidiano dos presos. Repare, esta prisão é uma das prisões mais sinistras do sistema prisional fascista, porque era dedicado a presos condenados, quase todos. E, sobretudo, era assente num regime que tinha como objetivo destruir, sobretudo física e psicologicamente, os presos. Era a continuação das estruturas policiais. O objetivo da organização deste sistema prisional era, sem dúvida, levar as pessoas a abjurar as razões, as convicções que os levaram aqui. Aliás, havia até uma frase que costumavam usar com muita frequência, de que o preso quando sai aquela porta, deve sair com vontade de nunca voltar. Ora, ninguém tinha vontade de voltar à cadeia. Voltava-se à cadeia porque queria lutar pela liberdade. Mas isto dá-lhe logo uma ideia da violência, da arbitrariedade, da mesquinhez, do ódio aos próprios presos. Eu costumo dizer que os carcereiros eram verdadeiros chacais. Não exagero. Têm um ódio terrível. Aqui eu ouvi muitas vezes dizer, por exemplo, que os presos políticos deviam ser fuzilados, como fazia o Franco, que a existência de presos políticos era um desperdício para o orçamento de Estado. Isto dá-lhe uma ideia do clima que aqui se viveu. Mas também é justo dizer que no meio de tanto sofrimento e arbitrariedade, havia sempre uma enorme confiança que o fascismo fosse derrotado. E não nos enganávamos.