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Agora, em direto neste jornal está o socialista João Soares, a quem agradeço a presença. Muito bom dia, João Soares.
Muito bom dia. Obrigado por me receber.
Obrigada nós por estar conosco. A primeira pergunta é aquela que se faz quando uma figura desta dimensão desaparece: como é que ficará para a história Francisco Pinto Balsemão?
Ele fica seguramente, como disse salvo erro, o Presidente da República e outras pessoas que têm estado a referir, como uma das figuras mais marcantes do último século português. É, de facto, um grande combatente pela liberdade, um homem com uma obra notável, que deixa uma marca incontornável na vida democrática portuguesa e antes da vida democrática portuguesa também, na defesa sobretudo da liberdade de imprensa. Foi um grande praticante da liberdade de imprensa, primeiro no Diário Popular, que era, salvo erro, de um familiar próximo dele, um tio.
Um tio, creio, sim.
Teve um papel muito importante na promoção daquele que foi um dos grandes jornais vespertinos em Portugal. Nós tínhamos, na altura, quatro jornais vespertinos com tiragens imensas, que eram distribuídos em Lisboa, que eram distribuídos em todo o país, e ele esteve à frente do Diário Popular, a que deu uma grande projeção numa perspetiva que foi a do respeito pelo trabalho dos jornalistas. Há uma coisa que é uma dominante naquilo que foi o trabalho dele, primeiro no Diário Popular, depois no Expresso, depois de o ter fundado e até ao fim, e nos outros dois órgãos de comunicação social, por cuja criação foi responsável, a SIC e a SIC Notícias. Foi a liberdade dos jornalistas para exercerem o seu metiê enquanto escritores e enquanto coordenadores, no caso da televisão, de outra forma, e sobretudo com respeito muito grande pela liberdade de cada um deles. E no Diário Popular, ele teve um alforre de jornalistas das mais diversas origens ideológicas. Teve pessoas republicanas, monárquicas, esquerdistas, comunistas, das várias sensibilidades comunistas, anarquistas e democratas liberais tradicionais.
E deixa, de facto, uma marca enorme no jornalismo e a nível político, Francisco Pinto Balsemão optou por ter uma carreira mais curta a esse nível.
Não, não creio que a expressão adequada seja optar. Foi obrigado a. Não fugiu às suas responsabilidades quando o doutor Francisco Sá Carneiro faleceu, nas condições que são conhecidas, na tragédia deste acidente em Camarate, ele sucedeu a Francisco Sá Carneiro na liderança do PSD e também na liderança do governo. Esteve três anos na liderança do governo e nesse quadro também, uma das revisões constitucionais mais importantes, salvo erro, foi feita nessa altura com o acordo que foi feito com o PS e com a liderança do PS, que era assegurada nessa altura pelo meu pai, Mário Soares, e por Francisco Salgado Zeia, que eram os dois primos inter pares do PS. Ele também funcionou um pouco nessa base com Francisco Sá Carneiro no PSD, foram os dois primos inter pares do PSD, por isso é que ele se manteve como militante número um do PSD. Ele teve muito boas relações com meu pai, Mário Soares, isso tem que ser salientado também. Desde antes do 25 de Abril, eles foram ambos objeto de uma armadilha que lhes foi montada pela PIDE. Escreveu uma carta a Sá Carneiro, Francisco Pinto Balsemão, como se se tratasse do meu pai. Eles fizeram isso falando um com o outro e perceberam que se tratava de uma armadilha que tinha sido montada pela PIDE, que até os divertiu e sobre a qual eles fizeram comentários sempre ao longo da sua vida, de uma forma muito interessante também. Além do mais, e isto também para fazer a ligação com o papel que o meu pai Mário Soares teve também, ele é alguém que deixa uma biografia, que é uma biografia sobre a sua vida e o seu trabalho enquanto grande homem da imprensa e da liberdade de imprensa, e grande combatente político, que é uma coisa muito semelhante, em termos de dimensão, com o "Portugal, a herdança" do meu pai antes do 25 de Abril. É um livro escrito por um protagonista que faz a história, viveu e que foi protagonista de uma forma isenta e absolutamente incontornável pra quem quiser fazer a história dos últimos 50 ou 60 anos.
Claro que sim, nada como ter essas memórias. No entanto, o João Soares dizia que não foi uma opção de Francisco Pinto Balsemão sair da política ativa.
Ele teve que enfrentar muitas dificuldades dentro do seu próprio partido, e sobre essa matéria também não podemos esquecer. Ele não saiu por ter decidido sair, ele saiu porque foi obrigado a sair. E a vida política na nossa terra e por todo lado também tem isso. Quer dizer, há aquilo que as pessoas gostam de fazer e querem fazer e provaram que sabem fazer bem. E depois há também as dificuldades que resultam de não os deixarem fazer aquilo que eles querem fazer.
Dentro do próprio partido.
Dentro do próprio partido, sobretudo. No que diz respeito ao doutor Pinto Balsemão. Agora, era um homem também extremamente atual. Eu não tinha nenhuma relação de intimidade, mas ele tratou-me sempre muitíssimo bem. Chegamos a assinar um acordo, eu enquanto autarca de Lisboa, no final já do meu segundo mandato como autarca de Lisboa, com o Grupo Expressos para a relocalização do grupo Impresa, antes de ele ter ido para Oeiras, onde estava agora. Aliás, em instalações magníficas, pra que eles ficassem em Lisboa, já próximo da zona oriental da cidade. Depois isso não foi pra frente, porque eu perdi as eleições.
E não conseguiu dar essas condições. João Soares, muito obrigada por ter estado conosco em direto neste jornal. Um bom dia, João Soares, antigo ministro da Cultura, antigo presidente da Câmara de Lisboa, aqui recordado a lembrar Francisco Pinto Balsemão