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Vasco, esteve nos protestos em Nova Iorque. Que retrato nos consegue fazer da situação? Há muitas pessoas nas ruas neste momento?
Eu não tive a noção, nem consigo quantificar, mas eram uns largos milhares. Era um torrão enorme que se iniciou e concentrou em Union Square e depois acabou por percorrer e sacudir as ruas de Manhattan pelo West e pelo East Side e andaram terminando agora mesmo, ao final da tarde aqui em Union Square. Foi uma manifestação pacífica, maioritariamente de jovens, invocando frases a pedir justiça, essencialmente, e também a insultar a polícia nova-iorquina, neste caso. Era a parte de insultos pior. Não vi nenhum momento de tensão, exceto agora quando acabei de sair. Vi pessoas a correr e a polícia com uma movimentação diferente. E é o normal do fim de uma manifestação, que há sempre alguém que vem com intenções de perturbar e criar problemas na manifestação.
Mas estamos a falar então de uma manifestação calma, comparativamente com alguns estados dos Estados Unidos.
Muito calma. Eu fiz a manifestação toda. Eu fiz o percurso todo e não vi qualquer momento de tensão. Foi completamente pacífica. Agora, eu saí e comecei a ver alguns manifestantes que ficaram mais para o fim a correr e a polícia também a correr e alguma movimentação da polícia. Não sei o que é que isso representa, mais tarde poderei ter acesso a isso. O que é que me parece importante dizer? Este tipo de manifestações, e é lógico que eu não consigo despir essa minha faceta de investigador em comunicação política. Esta manifestação não é espontânea, dá para perceber isso. Ela foi marcada primeiro nas redes sociais, foi anunciada tardiamente pela imprensa nova-iorquina e eu percebi que ao longo de todo o percurso havia um batalhão de aparentes voluntários que iam distribuindo água, snacks, gel, andavam com umas garrafas enormes de gel desinfetante e máscaras. Ou seja, notava-se que havia uma organização por trás de toda essa manifestação, o que também é normal. Espontâneo, na política, só os tiros mesmo e mesmo esses às vezes são simulados.
Mas estamos a falar de um evento que também tem vindo a acumular-se nos últimos dias, este protesto por causa do que aconteceu ao jovem George Floyd. Considera que estas ações já estão a ser preparadas desde esse dia?
Não sei. Eu não consigo especular nem fazer leituras. O que eu reparei é que essa manifestação é normal. Poucas são as manifestações, quer em Portugal, quer aqui pelo mundo fora, que não há uma estrutura organizativa por trás. Quem, eu não sei, não lhe consigo desvendar quem está. Agora, que havia uma máquina por trás dessa manifestação, havia, mas com toda a legitimidade. Eu participei mais numa lógica de observador não participante, sendo que sou completamente solidário com os motivos do protesto, e bem-intencionados os motivos do protesto. Por isso, independentemente de quem está por trás ou não da organização de uma manifestação dessas, há aqui uma intenção que aparentemente parece humanista. É um pormenor de alguém que vem com uma atenção diferente. E deu para perceber que havia um batalhão de voluntários a distribuir água, e era gente nitidamente organizada. Tudo bem, é um apontamento. Não consigo fazer leituras muito mais para além disso.
Disse que está a ser uma manifestação pacífica, também com alguma organização por trás destes protestos. No entanto, comparativamente com outros estados onde há uma maior violência e onde até já foi decretado o recolher obrigatório, por exemplo, Los Angeles foi um dos últimos estados onde isso aconteceu, acha que também há de acontecer em Nova Iorque?
Não sei. Nada disso dava a entender durante os protestos. Nada disso deu a entender. Como lhe digo, eu saio agora e ao sair vi alguma movimentação de um conjunto de jovens que acabaram por ficar e que nitidamente, tal como aconteceu já e acontece sempre nas manifestações na Europa, aqui também há sempre alguém que fica para o fim para criar absurdos e no fundo para manchar esta que foi uma grande manifestação pacífica, muito bem-intencionada e sem qualquer tipo de momento de tensão. É isso que lhe quero dizer. Não consigo fazer comparação, eu não vi o noticiário e só consigo ver quando chegar a casa, mas já soube, já recebi alertas no telemóvel e já percebi que em Los Angeles, em particular, foi muito violento, o que é lamentável sempre, mas não consigo mais também comentar isso.
Falando de Donald Trump e da forma como tem estado a lidar com esta situação. Ontem culpava grupos organizados pelos protestos e disse também que o exército poderia estar mesmo pronto a intervir. Hoje mudou um pouco o discurso e diz que vai estar sempre contra a violência. Que balanço é que uma pessoa que vive nos Estados Unidos pode fazer da forma como o presidente norte-americano está a lidar com toda esta situação?
O presidente norte-americano, como sabe, é o cúmulo Da trapalhada institucional e sem um pingo de orientação para aquilo que devia ser as funções de um estadista. O facto de ter dito que era organizado, e é, eu concordo. É o mesmo que acontece também na Europa. Há sempre grupos organizados que até podem ser associações de estudantes, seja o que for, há aqui um movimento com uma intenção humanista e eu acho que é isso que é preciso sublinhar. Na política, mesmo em qualquer manifestação que exista, raramente nasce do nada os tumultos, surgem quase sempre com pivôs organizados para desencadear qualquer protesto aqui, como na Europa, como em Portugal, enfim, de todo lado. O Donald Trump está certamente com os olhos na eleição que aí vem e deve ter sistematicamente estudos de opinião que lhe permitem navegar um pouco ao sabor daquilo que a opinião pública norte-americana vai dizendo. E eu julgo que é isso, é uma narrativa política só para conseguir agradar ou para captar ou para manter o eleitorado dele. É o que me parece que neste momento ele está a fazer, tal como o candidato democrata também fará. Mas o Donald Trump, esta brutalidade que nem os próprios assessores certamente sabem ou conseguem controlar aquilo que ele diz, e por isso os disparates vão saindo uns atrás dos outros, não me surpreende. E também não sei o que é que posso dizer mais. Pronto. É o Donald Trump. Não há aqui mais nenhuma leitura para além desta. Ele deve nitidamente estar a tentar captar ou segurar o seu eleitorado