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Vamos agora analisar este discurso de Vladimir Putin com a ajuda do José Milhaças, especialista em assuntos do Leste Europeu. Bom dia, José Milhaças.

Bom dia.

Ouvimos aqui uma ameaça nuclear neste discurso?

Claríssima, mas também já não é novidade da parte dos dirigentes russos. Ainda ontem, Dmitri Medvedev, o vice-chefe do Conselho de Segurança da Rússia, fazia exatamente a mesma ameaça. Ou seja, isso já não é novidade.

A novidade é a mobilização dos militares na reserva.

É a mobilização parcial. Eu quero sublinhar parcial. Como tu disseste, são 300 mil, segundo o Ministro da Defesa, ou seja, 1%. Ele diz que a Rússia tem capacidade para mobilizar 25 milhões de homens. Não serão mobilizados os soldados que estão a fazer o serviço militar, recrutas e também estudantes, a fim de não irritar uma parte da sociedade extremamente sensível a estas coisas. Há aqui uma coisa importante. No discurso de Putin, esperava-se ainda a declaração do estado marcial na fronteira entre a Rússia e a Ucrânia. Isso não aconteceu e ele apenas veio falar no reforço da fronteira com novas tropas, o que significa que ele não quis fazer figura de fraco ao instaurar o estado marcial aí. É também de chamar a atenção para um número que é claramente falso, mas que deve ser muito bem analisado, que foi feito pelo Ministro da Defesa da Rússia. Ele disse que durante estes meses todos de combate, morreram 5937 soldados russos e ucranianos, mais de 60 mil, e 40 mil feridos ucranianos. Ora, mesmo que fosse verdade que a Rússia só tivesse perdido 5937, eu quero lembrar que durante a guerra do Afeganistão, em 10 anos, a Rússia perdeu 13 mil. E agora, em meio ano, a Rússia perde metade daquilo que perdeu no Afeganistão.

Mesmo as estimativas mais baixas são muito fortes comparando com esse conflito no Afeganistão.

Exatamente. É também de chamar a atenção que este discurso é dirigido à Assembleia Geral das Nações Unidas. É claro que ele tenta justificar, acusando a NATO e tudo e mais alguém, as posições da Rússia. E volta com os mesmos argumentos já gastos, com o golpe de Estado de 2014 na Ucrânia, com a invasão do que ele chama as repúblicas separatistas da Ucrânia, como se não fossem os separatistas que começaram essa guerra logo a seguir à anexação da Crimeia. Ou seja, eu diria que voltando ao discurso de Putin, resumiria assim: trata-se de levantar em mais um grau a escalada, neste momento, no campo das palavras. E a escalada, que é a realização dos referendos nas quatro regiões que a Rússia quer anexar.