“Se queres um álbum esperançoso, então dá-me algo em que eu possa ter esperança.” Abençoado com o dom da palavra, o vocalista Grian Chatten conseguiu, com apenas uma frase, sintetizar ao jornal The Times o sentimento dominante de Dopamine Chamber, o quinto disco dos Fontaines DC, editado há uma semana. Mas se em estúdio a banda irlandesa verteu neuras e ânsias perante o (aparente?) fim dos tempos com estoicidade contida, ao vivo continua tão elétrica como sempre — e o concerto desta quarta-feira em Lisboa, a abrir a digressão europeia, foi prova inequívoca disso.
Já foi narrada uma e outra vez a jornada meteórica do quinteto de Dublin — neste jornal, inclusive —, mas, resumindo, depois de uma entrada em rompante com Dogrel em 2019, os Fontaines DC tornaram-se uma das caras da música rock contemporânea ao quarto disco, Romance, de 2024. Embalados pelo sucesso de temas como Favorite e Starburster, passaram a ser cabeças de cartaz em festivais como os Primavera Sound em 2025 e em Reading este ano e a tocar em arenas e estádios. No entanto, se esse álbum já sinalizava uma guinada para fora da rota do seu post-punk embrionário, Dopamine Chamber foi passar um duplo traço contínuo sem pôr o pisca.
Não é nova a ideia de uma banda atingir o seu pico de popularidade e, ao invés de seguir o mesmo rumo, trocar a expansividade e/ou o facilitismo da fórmula pela introspecção e/ou o experimentalismo. Basta recordar como, depois do êxito de OK Computer, os Radiohead optaram por conceber um objeto alienígena chamado Kid A. Ou como, antes deles, ao saborear a doçura do sucesso mainstream com Kiss Me, Kiss Me, Kiss Me, os The Cure fizeram uma mudança de palato com o poço de depressão que é Disintegration.
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À partida, o caso que melhor parece assemelhar-se a essa mutação é o dos Arctic Monkeys, que após a ubiquidade radiofónica que atingiram com AM, vestiram-se de banda lounge com Tranquility Base Hotel & Casino — até porque o timoneiro dessa mudança foi o mesmo, o produtor James Ford. No entanto, parecendo estapafúrdio, o melhor exemplo até parece ser o da cantora que, justamente, tocou no mesmo palco depois dos Fontaines DC na edição do Primavera do Porto do ano passado, Charli XCX.
Charli xcx, um meteoro da pop que aterrou no Porto: bem-vindos ao primeiro “brat summer português”
Sintonizada ao zeitgeist como poucas outras figuras da cultura pop, a sua produção artística é uma espécie de canário na mina: onde Brat, de 2024, representava uma forma de hedonismo redentor perante as incertezas do futuro, Music, Fashion, Film, deste ano, é o apanhar dos cacos e das beatas depois da festa, com a confirmação que o melhor já passou e não há nada a fazer. Com as devidas diferenças, há um paralelo a ser traçado entre Romance e Dopamine Chamber: o primeiro já vinha tingido de incertezas e melancolia nas letras, mas contrapunha isso com música jubilante; este já incorpora forma e conteúdo em sintonia. Se a comparação parece demasiado forçada, encare-se esta declaração de Chatten numa entrevista ao LA Times quanto ao tema One Man: “Acho que é sobretudo sobre o sentimento existencial geral de impotência perante o que se passa no mundo”.
Dadas as quantidades cavalares de ennui que este novo projeto carrega, somando-se ao miasma de pessimismo que nos envolve diariamente, talvez fosse de temer que uma pessoa se arriscasse a sair da Altice Arena pior do que entrou — um contraste total face à experiência registada há apenas dois anos no Campo Pequeno. No entanto, verificou-se o oposto, foi uma experiência reconfortante, de que, para o bem e para o mal, estamos juntos nisto. Pode ser um truísmo cansado, mas se Aristóteles já tinha desencantado o termo “catarse” para descrevê-lo, quem somos nós para contradizer o mestre?
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Os Fontaines DC também facilitaram esse processo com a escolha de banda de abertura. Sem grande tempo para deixar uma boa impressão e escusando-se a gastá-lo com palavras vãs, os Chalk tomaram o palco de assalto com um post-punk mais Killing Joke do que Joy Division, munido de batidas rave despejadas com precisão industrial. Percebe-se porque é que Crystalpunk, o disco de estreia do projeto norte-irlandês, tem sido tão falado na imprensa britânica quando nos é apresentado ao vivo. Acompanhados por um baterista, Ross Cullen (na voz) e Benedict Hardie-Goddard (na guitarra e sintetizadores), dispararam Can’t Feel It, Get Fucked e Tongue entre danças e ritmos apocalípticos. Fãs de Model/Actriz, isto é para vocês.
Além do aquecimento oferecido pelos Chalk, também o quinteto dublinense tratou de garantir alguma energia neste regresso, não começando logo pelos temas de Dopamine Chamber. Foi antes com a familiaridade de Boys in the Better Land, sendo recebidos em estado de graça. A Altice Arena não esgotou, mas a eletricidade foi como se estivesse à pinha, com o refrão a ser audível por parte do público e muita gente nas bancadas de pé a dançar. Para a entrada apoteótica também contribuiu um excelente jogo de luzes e um som francamente bom e pujante — sendo apenas de apontar algumas dificuldades que Grian Chatten teve com o seu monitor in-ear já no final da atuação.
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Os temas seguintes — Here’s the Thing e Nabokov — mantiveram a mesma toada e confirmaram in loco que os Fontaines DC já são um fenómeno, dado que as primeiras notas destas e de subsequentes canções mereceram gritos imediatos de entusiasmo ao serem reconhecidas. Chegou, por fim, a altura de Marianne, o primeiro single do novo disco e aí tivemos a garantia de que estes e outros temas seriam abraçados com o mesmo fervor, visto que o público estava rendidíssimo. Sim, é verdade que o perfume a new wave que emana facilita o seu sucesso ao vivo, mas os outros temas foram igualmente bem recebidos. De destacar Tongue, de refrão bem mais explosivo nestas circunstâncias, e Happy for You, apresentada com um “Jesus fucking christ, this song is so fucking sad” e justificando os impropérios com uma cadência miserável que desemboca numa torrente emocional.
Foi, de resto, uma escolha de alinhamento inteligente e equilibrada, somando canções novas a temas incontornáveis para a banda — a extremamente The Cure Roman Holiday e o rebuçadinho jangle que é Favorite — e outros que, pela sua natureza, não destoariam nada de Dopamine Chamber: apesar de uma maior presença de guitarras consentânea com o som do terceiro disco, Skinty Fia, Jackie Down the Line assenta que nem uma luva nas suas ambiências soturnas. Já quanto a In the Modern World, é de crer que se trata do proto-exemplo de Romance do que os Fontaines DC haveriam de fazer a seguir. De resto, foi uma das canções que maior reacção provocou.
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A tirada repleta de calão acima grafada foi das raríssimas instâncias em que Chatten ou qualquer outro dos membros do conjunto se dirigiu ao público, algo já esperado dos Fontaines DC. De facto, pelo menos ao vivo, pautam-se mais pelo que fazem do que pelo que dizem. A noite de quarta-feira em Lisboa não foi exceção e, sendo uma das bandas mais vocais quanto à causa palestiniana, não só o vocalista recebeu um keffieh do público durante Big Shot e o colocou à volta do pescoço como, na derradeira Where is Gone?, fez o mesmo com uma bandeira da Palestina. Este tema, a encerrar a fase “regular” do concerto, tem causado sensação pela participação de Rosalía, levando até o primeiro-ministro espanhol a pronunciar-se. É justo, visto que é uma das melhores canções de Dopamine Chamber, um curioso exercício de aproximação ao trovadorismo solene de Nick Cave ou de Mark Lanegan. E a banda fez muito bem em não ceder à tentação espúria de fazer a voz da cantora espanhola soar artificialmente do PA, optando antes por mostrar que já era uma enorme canção antes da autora de Lux lhe dar o seu cunho.
Após uma pausa estranhamente longa (pelo que deu para perceber, houve algum tipo de problema técnico), os Fontaines DC regressaram ao palco para a nova balada Japan, cantada de tal forma pelo público que surpreendeu Chatten e levou-o a soltar um “vocês ouviram o álbum!” O que se seguiu podia ter sido a forma perfeita de terminar o concerto: primeiro, com I Love You a forçar a Altice Arena a esgotar os últimos cartuchos emocionais, depois com Starburster, canção que, como o cometa Halley, surge apenas uma vez a cada geração, de tão bizarra e infecciosa é a sua mistura de rap, rock alternativo e trip hop. Por esta altura, já eram poucos os que permaneceram sentados, mas o quinteto tinha uma última surpresa: acabar o concerto com uma canção de abertura. Six Shot Morning, um hipnótico casamento de Spiritualized com o ritmo motorik do kraut rock, talvez tivesse resultado melhor a seguir a Where is Gone? em vez de a terminar a atuação, mas o que sabemos nós? Os Fontaines DC também não chegaram aqui a seguir a regras.