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Neste jornal da 13h, dia 25 de dezembro, dia de Natal, Diana Soller, investigadora do Instituto Português de Relações Internacionais, vai ajudar-nos a ler essas declarações do Vladimir Putin nesta entrevista. Diana, muito boa tarde. Obrigado por se juntar a nós.
Boa tarde.
E bom Natal também.
Bom Natal.
Diana, olhando para o que se passa com esta entrevista e o que foi dito nesta entrevista, temos mais uma vez Vladimir Putin a dizer que a Rússia está pronta para negociar a paz. Kiev também, no último mês, elencou um plano para a paz, para aquilo que podem ser negociações. Vemos sempre respostas do lado oposto a dizer que não a esse tipo de negociações das propostas que são feitas cada um dos lados. O problema aqui é que temos noções de paz diferentes entre Rússia e Ucrânia?
Exatamente. As noções de paz ou as condições para negociar a paz da parte da Rússia e da parte da Ucrânia são mutuamente exclusivas, excluem-se uma à outra. No fundo, o que a Rússia pretende, quando diz que quer negociar a paz, é a anexação definitiva das quatro províncias anexadas ilegalmente em setembro, é uma desmilitarização da Ucrânia, é a garantia de que a Ucrânia não vai fazer parte da NATO. Enfim, são condições que para a Ucrânia, nos seus famosos três pontos para a paz, não pode aceitar, porque o que a Ucrânia exige é precisamente o contrário. É que a Rússia abandone o território que invadiu a partir do dia 24 de fevereiro, que abandone também a Crimeia, que foi anexada pela Rússia em 2014 e que negoceie uma paz que dê garantias de segurança à Ucrânia e que garanta à Ucrânia, de alguma forma, que não vai voltar a haver uma invasão. Ora, se ambos os lados querem ou acham que têm o direito de obter os mesmos territórios e as mesmas garantias de segurança, é evidente que a paz está muito longe. Eu faria só mais uma pequena observação. Polodiak disse nas suas declarações no Twitter, além daquilo tudo que vocês já disseram, que a Rússia está a tentar desresponsabilizar-se da sua responsabilidade neste conflito. E eu penso que esta, de facto, é uma análise muito certeira do que verdadeiramente está a acontecer. A Rússia, no último cerca de mês e meio, dois meses, tem pontuado diariamente o seu discurso, quer seja de Putin, quer seja de altos responsáveis do Kremlin, nomeadamente do seu porta-voz, tem dito diariamente que está disposta a negociar a paz, que a Ucrânia e principalmente o Ocidente, que fez da Ucrânia uma proxy para enfraquecer a Rússia, não estão dispostos a negociar a paz. Ora, isso não é verdade. De facto, ambas as partes dizem que estão dispostas a negociar a paz, mas como acabei de dizer, as tentativas de chegar a uma paz são tão opostas e o conflito no terreno é tão inalterado, ainda que esteja num impasse, que a única coisa que podemos concluir é que, de facto, não há condições para negociar paz nenhuma e, em última análise, se houver responsabilidade é da parte da Rússia, que invadiu o território e que se recusa a abandonar o território invadido.
Sim, as noções de paz são claramente diferentes entre os dois pontos. As noções de guerra também. Como sabemos, a Rússia não trata esta situação como uma guerra, mas sim como uma operação militar em terreno ucraniano para libertar o Donbass. É a mesma expressão utilizada nesta altura pelos ucranianos, libertar o Donbass. Olhando para o que pode acontecer, estamos à beira de 10 meses de guerra. Vamos ter o próximo ano, 2023. Já vimos vários políticos, alguns a apontar para uma guerra que se pode prolongar, outros a apontar para o fim do conflito armado e o início quase de uma Guerra Fria. Temos, de facto, vários cenários em cima da mesa, mas é difícil apontar, nesta altura, uma situação de caminho concreto para uma situação de paz neste conflito.
Sim, a única forma que eu vejo de poder haver um caminho para a paz é uma pressão internacional de algum dos intervenientes externos à guerra, dos Estados Unidos ou da China, para que uma das partes negoceie a paz. Não me parece também que isso esteja a acontecer, ainda que saibamos muito mais daquilo que se passa nos Estados Unidos do que aquilo que se passa na Rússia. Mas da parte dos Estados Unidos, tivemos uma nova garantia do presidente Biden, que está disposto a deixar a Ucrânia decidir quando é que vai negociar a paz, independentemente das pressões internas das alas mais radicais do Partido Democrata e do Partido Republicano. Da parte da China, tivemos hoje comentários muito negativos para o Ocidente. Esses comentários vieram do ministro dos Negócios Estrangeiros, dizendo que a China sempre se manteve neutral no conflito, o que, na verdade, não é a verdade, porque a China viabiliza a existência da Rússia neste conflito através dos parceiros ou da ligação que a China constitui para o mundo exterior, que Moscou precisa mais do que nunca. Mas as declarações chinesas iam no sentido de que são os Estados Unidos que estão a inflamar o conflito Relativamente ao apoio à Ucrânia para que não haja uma paz mais rápida. Vemos que nem os Estados Unidos, nem a China estão com vontade de pressionar os seus parceiros, a Ucrânia e a Rússia, respetivamente, para chegarem a um acordo de paz mais rapidamente. Portanto, aquilo que podemos prever nos próximos tempos é que a guerra se mantenha.
Olhando aqui rapidamente e pedindo-lhe alguma brevidade nessa análise final. Ontem vimos Zelenskyy publicar também um vídeo muito bem produzido, com uma mensagem muito direta, uma mensagem de Natal. Estamos a falar de um país com uma cultura maioritariamente ortodoxa, que não celebra propriamente o Natal no dia 24 ou no dia 25. Mas vemos este vídeo a ser publicado e tem uma intenção, faz parte desta organização de comunicação de Zelenskyy, de comunicar sempre nas alturas certas e nos pontos essenciais para poder fazer uma mensagem para todo o Ocidente. Podemos ver dessa maneira?
Faz, com certeza. Não deixa de ser Natal na Ucrânia, apesar do Natal ser uma data relativamente pouco importante para a Igreja Ortodoxa, que comemora verdadeiramente o Natal no início de janeiro.
No dia 7.
No dia 7, exatamente. Mas a verdade é que Zelenskyy compreende que os corações dos ocidentais estão mais sensíveis nesta época do ano e usa isso para mostrar que de facto a Ucrânia se mantém em guerra, no momento em que o Ocidente tem as famílias reunidas e está a viver um momento de paz e de harmonia e de festejo mais universal no mundo ocidental. É evidente que esse vídeo muito bem produzido serve para que os ocidentais, de alguma forma, continuem a apoiar a Ucrânia nesta sua empreitada relativamente à Rússia. Do meu ponto de vista, e para terminar, é um vídeo que serve essencialmente para as opiniões públicas, para que as opiniões públicas não se esqueçam que quando estão a celebrar o Natal, há um país na Europa que está em guerra, uma guerra não provocada, e que é preciso apoiar essa guerra.