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“Deus, família, pátria e liberdade.” Estes são os quatro pilares fundamentais na vida de Priscila Faria. A psicóloga e também terapeuta lidera a secção de Mauá, uma cidade dos subúrbios de São Paulo, do Partido Liberal (PL) das Mulheres, uma organização fundada pela antiga primeira-dama brasileira, Michelle Bolsonaro. Assume-se como uma mulher conservadora, cristã evangélica (congrega na Assembleia de Deus do Ministério Madureira) e defensora do que diz ser a “família tradicional”. “Sou casada, mãe de dois filhos — a Sofia de oito e o Benjamin de cinco”, conta, numa entrevista esta terça-feira ao Observador.
Quem também se define assim é Dayene Vital da Silva, que foi entrevistada pelo Observador juntamente com Priscila Faria, num pequeno café que a dona, Mara, “abriu apenas para fazer a entrevista”. Professora de educação infantil, participa nas reuniões mensais organizadas pela amiga, em que se debate o papel da mulher na sociedade. O conservadorismo e o patriotismo são valores que destaca como primordiais durante essas discussões — mas também a religião. “Queremos trazer esses valores para a sociedade. Um exemplo: quando se diz que roubar é contra a Bíblia, a gente não quer uma nação que rouba e não quer um representante nosso que esteja a prejudicar os outros”, elabora.
No Brasil, nas vésperas da segunda volta renhida das eleições presidenciais, a campanha de Flávio Bolsonaro tem-se focado em chegar às mulheres, um público que tem preferido nas urnas o Partido dos Trabalhadores (PT) de Lula da Silva. Há oito anos, na eleição que acabou por eleger Jair Bolsonaro, surgiu a mediática campanha #EleNão, que serviu para mobilizar o voto feminino na esquerda e para alertar para os perigos que poderia representar a chegada da direita ao poder. Agora, a tendência parece manter-se: recentes sondagens, como uma da Bloomberg, apontam que Lula reúne os votos de quase 60% do eleitorado feminino contra cerca de 40% para Bolsonaro — isto apesar de, no estudo de opinião, se prever a vitória do candidato do PL.
▲ Priscila Faria é líder do PL Mulheres em Mauá e Dayene Vital da Silva participa nos encontros realizados pela amiga
José Carlos Duarte
As duas mulheres conservadoras concedem que o PT é mais forte entre as mulheres brasileiras. “É falta de conhecimento”, justifica Dayene Vital da Silva, afirmando que existe também uma “dependência financeira” incentivada pelo atual Presidente, que afeta principalmente as mulheres. Para Priscila Faria, de discurso bastante polido, o importante passa por valorizar a autonomia das mulheres, algo que acredita que o PT não faz: “Quero que os meus filhos não vivam de um salário que o Estado tenha de lhes dar. Não quero que fiquem debaixo da minha saia”.
As duas mulheres rejeitam totalmente a ideia de feminismo, termo que advoga a igualdade entre homens e mulheres. “Somos femininas, não feministas”, declara Priscila Faria. Significa isso uma submissão ao sexo masculino? A psicóloga rejeita essa ideia e coloca os termos desta forma: “Queremos uma mulher bem posicionada na sociedade. Mas que também cuide bem da família e do seu marido”. O aborto é outra questão que, destaca, as “diferencia muito das feministas”.
Jair Bolsonaro como um “referencial” e os elogios à mulher Michelle: “É chique demais”
O surgimento de Jair Bolsonaro mudou a forma como Priscila Faria olha para a política. “Foi um despertar”, caracteriza. Antes dele, sentia que não “gostava do país”. “Quando era adolescente, queria ir viver para os Estados Unidos”, lembra. A perceção do Brasil onde nasceu alterou-se com o antigo Presidente. Foi graças a ele, refere, que “pôde dizer o quanto honra a pátria”.
▲ A chegada de Jair Bolsonaro mudou a percepção das duas mulheres sobre política
Sebastiao Moreira/EPA
Tendo uma participação mais ativa na política desde há três anos e meio, a psicóloga conta que foi Jair Bolsonaro quem “fortaleceu” o movimento em que se revê politicamente. “Ele trouxe visibilidade a algo que estava mais escondido. As pessoas falavam sobre o que eu defendo, mas não era com tanta intensidade. Ele trouxe essa visibilidade. As pessoas passaram a não ter medo de irem para as ruas”, relata. “Eu sou cristã, eu sou missionária, eu sou pregadora. Com tudo o que eu já pregava, identifiquei-me no partido. Defende aquilo que eu acredito. Isso fortaleceu a minha crença de ser uma pessoa tradicional e de adotar certas posições.”
Já no caso de Dayene Vital da Silva, a religião foi importante para apoiar o Partido Liberal. “Eu já tinha um certo senso de justiça, mas, quando se encontra Jesus, ele muda totalmente o nosso pensamento”, menciona. “O meu alicerce é Jesus. Então é de lá que vêm todas as minhas ações”, prossegue. Nesta lógica, em consonância com os seus valores cristãos, o Partido Liberal foi um grupo com o qual se identificou pela sua “essência e conceitos”.
Após a prisão de Jair Bolsonaro, o Partido Liberal ficou órfão de um líder. Numa disputa com a madrasta Michelle Bolsonaro, o filho mais velho, Flávio, herdou o movimento bolsonarista. Para estas duas mulheres, foi uma sucessão legítima e justificável. “Ele encabeçou muito bem” a liderança, avalia Dayene Vital da Silva, que aponta que o deputado Nikolas Ferreira também teve um “papel fundamental” no momento em que o antigo Presidente “não pôde mais ter voz”.
▲ As duas mulheres elogiam sucessão do movimento bolsonarista para Flávio
AFP/Getty Images
O julgamento do ex-chefe de Estado — condenado a 27 anos e três meses de prisão por tentativa de golpe de Estado — também motiva várias críticas da professora. Para Dayene Vital da Silva, o que aconteceu a 8 de janeiro de 2023, durante a invasão da Praça dos Três Poderes, deu origem a um julgamento “político”. Reconhece que houve “degradação do património público” naquele dia, mas iliba o antigo Presidente de ter orquestrado o possível derrube do Governo: “Ele não estava lá. Ia fazer o golpe por WhatsApp?”
Outra pessoa que moldou as opiniões políticas das duas mulheres foi a antiga primeira-dama, Michelle Bolsonaro. Questionada sobre como a mulher de Jair Bolsonaro a influenciou, Priscila Faria elogia “a sua postura”: “Eu olho para ela e eu falo que essa mulher é chique demais“. Para a psicóloga, a recém-eleita senadora é uma “referência”. “Ela tem postura, fala a verdade, ela nunca deixa de falar o que sente. Ela cuida muito bem da sua família, do seu marido”, continua.
Dayene Vital da Silva partilha a admiração por Michelle Bolsonaro. “Ela agora vai adotar medidas públicas. Até agora era através do marido, mas não vejo a hora de ela chegar lá [ao Senado]. Ela vai ser uma voz pelos mais necessitados e mais pobres”, prevê, referindo-se à mulher que conseguiu a maior votação de sempre para o Senado pelo círculo do Distrito Federal (Brasília). Também assinala que a antiga primeira-dama “traz princípios cristãos” aos cargos que desempenha. “A primeira coisa que fez quando o Jair tomou posse foi fazer linguagem gestual durante o discurso inaugural. Ela preocupou-se com um grupo esquecido”, acrescenta.
▲ Michelle Bolsonaro, a mulher que representa uma inspiração para Priscila e Dayene
Joedson Alves/EPA
Ainda em relação às mulheres da família Bolsonaro, a opinião também é positiva sobre Fernanda Bolsonaro, a mulher de Flávio. “Eu admiro-a. Ela é uma mulher que tem postura. Ela tem um cuidado fenomenal com as filhas, mostra carinho na maneira de falar”, refere Priscila Faria, acrescentando que, se o candidato do PL vencer as eleições no próximo dia 25 de outubro, Fernanda Bolsonaro “vai representar muito bem o Brasil” nas funções que vai ocupar. Os elogios focam-se mais na aparência física e postura pública de Michelle e Fernanda do que nas suas posições políticas.
Por oposição, afirmam que quem não ocupa cargo “com dignidade” atualmente é Janja da Silva. Num jogo de palavras com o nome, Dayene Vital da Silva atira que a mulher de Lula da Silva é a “Esbanja”. “Ela esbanja dinheiro em viagens com comitivas gigantescas”, ataca a professora, alegando que a primeira-dama não desempenha qualquer cargo público para as realizar. “É um tapa na cara da sociedade.”
A impopularidade de Janja é elevada: 52% dos entrevistados numa sondagem da PoderData, por exemplo, não aprovam a atuação da primeira-dama ao longo do último mandato. A frequente tomada de posições públicas e presença constante de Rosângela na campanha de Lula levou até a críticas vindas de dentro do próprio PT após a primeira volta das eleições. “Menos Janja e mais Alckmin [vice-presidente de Lula]”, pediu a ex-senadora Kátia Abreu.
▲ As duas mulheres criticam Janja da Silva
José Carlos Duarte
A rejeição do rótulo feminista e o diagnóstico negativo do Brasil de Lula
Com Lula da Silva no poder, Priscila Faria considera que o Brasil piorou. “Do jeito que estão as coisas, não dá para continuar”, desabafa. A economia é o principal fator apontado pela líder do PL Mulheres Mauá para ilustrar o declínio da qualidade de vida no país. “Infelizmente, tudo é caro”, lamenta, sublinhando que criar os filhos e garantir a sua educação é cada vez mais difícil. A psicóloga critica ainda a postura do Governo em relação ao crime: “Parece que o bandido é vítima da sociedade”.
Enquanto professora, o estado da educação é criticado por Dayene Vital da Silva, relacionando o declínio com a corrupção. “Há muita corrupção e o dinheiro não chega onde deveria chegar. Valorizam-se muito os penduricalhos e os privilégios do poder lá em cima”, explica. Algo que também a incomoda profundamente é a “educação” e a “ideologia” — maioritariamente de esquerda — que alega estar a ser transmitida nas instituições de ensino superior federais brasileiras.
“Eu mesma, quando fiz psicologia há oito anos, sofri uma certa perseguição”, alega Priscila Faria. Já a sua amiga acredita que Lula da Silva “não é Presidente do país como um todo, mas apenas de uma parte”. “Privilegia alguns assuntos que agradam ao público que vota nele. As pessoas de direita são excluídas”, argumenta, dando como exemplo o sistema de quotas por cor de pele instituído pelo Governo brasileiro. “Nós da direita lutamos por quotas sociais e não pelas quotas para os negros. Também há brancos pobres.”
Na parte final da conversa, após ser algumas vezes questionada sobre as questões sociais, Priscila Faria clarificou que não apoia a “desigualdade salarial entre homens e mulheres”. “Nós somos mulheres tradicionais, somos mulheres femininas, gostamos do rosa, gostamos da nossa casa e também lutamos, sim, para a mulher ter espaço no mercado de trabalho e para ganhar tanto quanto o homem“, aclara a psicóloga. Curiosamente, essa é uma das bandeiras de campanha de Lula da Silva, que defende uma maior fiscalização para garantir que a Lei da Igualdade Salarial é cumprida pelas empresas. Já Bolsonaro prefere focar-se em incentivos ao empreendedorismo para as mulheres, como por exemplo o seu programa “Ganha-Ganha”, que prevê uma concessão mais fácil de crédito às mulheres e incentivos para as que investirem em microempresas.
Ainda assim, há alguns assuntos que, sublinha Priscila Faria, as distinguem das “feministas” — estatuto que recusa categoricamente adotar. O aborto é um deles: “É crime”. A lei brasileira prevê penas de um a três anos de prisão para quem faça uma interrupção voluntária da gravidez, exceto em casos de violação, risco de vida para a mãe ou quando é diagnosticada anencefalia fetal. Enquanto Lula da Silva não quer mexer na lei, Flávio Bolsonaro quer endurecer as penas.
Outro tema é a alegada visão que a psicóloga tem das feministas: “Há feministas que dizem ‘viva as mulheres que não dependem dos homens’. Nos encontros que faço, fiz um recentemente em Mauá que reuniu mais de 600 mulheres, eu dependo dos homens. Preciso do meu marido para estar ali, precisei dos homens para carregar os equipamentos de som. Nós precisamos deles tanto como eles precisam de nós.”
Dayene Vital da Silva apresenta outro argumento: “Há mulheres que dizem que não precisam de homens, mas isso é bem contraditório. Não se engravida de uma mulher. Por mim, as mulheres até podem ficar com outras mulheres, mas é certo que não podem ter filhos uma com a outra”. Tal como Priscila Faria, assegura ser contra o aborto, mas mostra-se satisfeita com a moldura legal em vigor. “O que não defendemos é aquele aborto que é assim: ‘Engravidei ali do amiguinho e vou tirar, porque não quero ter o bebé.'”
▲ Em 2018, várias mulheres saíram às ruas protestar contra Jair Bolsonaro
NELSON ALMEIDA/AFP/Getty Images
Vitória de Flávio é quase um facto consumado: “Já estou a preparar o look“
A expectativa das duas mulheres para o dia 25 de outubro é bastante positiva. “Já estou a preparar a comemoração”, antecipa Priscila Faria com um grande sorriso, revelando que está a “preparar o look“ que vai usar. “Ainda tenho de fazer as unhas”, indica, enquanto a amiga mostra as unhas pintadas de verde — cor dominante da bandeira brasileira. Os próximos tempos serão, acreditam, bastante auspiciosos para as mulheres do Partido Liberal.
“Nós esperamos a mudança em todos os sentidos”, frisa a psicóloga, algo que refere já “estar a acontecer”. No dia 4 de outubro, nas eleições para o Congresso, muitas mulheres já foram eleitas deputadas e senadoras. “Quando as mulheres assumem uma posição de destaque, isso previne as questões de feminicídio, violência, abuso e tantas outras questões. Ter mulheres em cargos de destaque traz um fortalecimento para as mulheres e isso já está a acontecer. Quando Flávio ganhar, isso ainda se fortalecerá mais”, indica.
Na visão de Priscila Faria para o futuro, não há lugar para dúvidas: Flávio Bolsonaro vai chegar ao Palácio do Planalto e vai fortalecer as “políticas públicas para as mulheres, para as crianças, para os jovens e para todos”. “A gente precisa da vitória. Queremos trabalhar, acordar cedo e trabalhar, dedicar-nos ao lazer com a família e ter segurança”, complementa a amiga.
Para estas duas mulheres de São Paulo, o clã Bolsonaro, que representa as suas convicções, está prestes a regressar à presidência. “Não há forma de Flávio perder”, acredita Priscila Faria. O sentido de voto destas duas está mais do que definido — mas há muitas mulheres no Brasil que ainda mantêm dúvidas sobre Flávio Bolsonaro e o tipo de postura que adotará na presidência.
[Annie consegue estar presente nos últimos anos do pai, que não vai viver tempo suficiente para conhecer a sua sentença no julgamento do homicídio de Humberto Delgado. Entretanto, também ela vai ficar gravemente doente. Já pode ouvir o último episódio de “Os Escândalos de uma Revolucionária”, o novo Podcast Plus do Observador. Está disponível no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube.]