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Bem-vindos ao "Porque sim não é resposta" com o psicólogo Eduardo Sá. Hoje vamos falar de assédio moral no trabalho à boleia de um e-mail de uma ouvinte. Só um pouco de contexto: há cerca de 10 anos, esta ouvinte pediu para mudar de área porque queria casar e ter filhos. O grupo de trabalho não gostou, fez questão de o mostrar e quase um ano depois, numa reunião de serviço, a diretora disse que quem não engravidava num ano tinha problemas e devia ir ao médico e anunciou ainda que a rotatividade entre departamentos passava a nove meses, o tempo de uma gestação. Dez anos depois, esta ouvinte ainda fica nervosa só de recordar este episódio. O que isso diz, Eduardo - olá, boa tarde - sobre o impacto de um momento destes?

Olá, Judite. Diz-nos que nós vivemos num país feio, como é óbvio, um país onde estas práticas ainda existem com alguma frequência, às vezes de uma forma mais aberta, às vezes de uma forma mais subtil. Há muitas carreiras, vamos dizer assim, mesmo na administração pública, sejamos claros, onde as mulheres têm muita dificuldade em assumir que querem engravidar e que é um direito que lhes assiste, como não podia deixar de ser, mas onde muitas vezes são penalizadas em termos de avaliação, porque decidem exercer esse direito. E, Judite, eu já vou mais diretamente à sua questão, com esta particularidade: é que algumas destas instituições têm à frente pessoas com confissões religiosas inabaláveis pelos valores da família e tudo mais, sendo que, para efeito de atividade empresarial, esse tipo de valores parecem não existir. E, portanto, quando uma pessoa, ao fim destes anos, continua a reagir como se isto tudo tivesse ocorrido há um mês, significa o quanto se sentiu violentada, o quanto se sentiu humilhada. E eu acho importante que nós falemos de assédio moral. Judite, mas isto é bullying. E por mais que nós vivamos num mundo onde o bullying parece ter se banalizado, é importante que nós não percamos a coragem de dizer com todas as letras que bullying é violência. E quando se exerce violência de forma gratuita, já é só absurdo. Quando se exerce violência de forma gratuita, porque uma mulher decidiu engravidar, eu acho que nem sequer consigo classificar.

O grupo que estava nessa reunião alinhou rapidamente com um comentário destes. Isto é pressão que vem de cima ou já há contaminação?

Judite, nós às vezes, quando os nossos filhos são vítimas de bullying no recreio, ficamos zangados com o bully ou com os bullies, porque depois dentro do grupo há sempre um que é o líder e que instrumentaliza e que muitas vezes nem sequer assume o protagonismo, mas ficamos, sobretudo, muito zangados com os amigos dos nossos filhos, que se encolheram e foram de alguma forma cobardes em relação àquilo que era suposto que fizessem, que era proteger quem é violentado. Se nós trouxéssemos essas mesmas métricas pra aquilo que se passa nas instituições, nas empresas, sobretudo, como se compreende, quando existem este tipo de episódios, meu Deus, chegaríamos à conclusão que a cobardia não é um mal em vias de extinção, é qualquer coisa pela qual muitas pessoas se vendem, sempre com o pressuposto errado: é que fazer uma aliança com quem violenta não nos protege, como pode parecer à primeira vista. Quando nós fazemos uma aliança com quem violenta e somos coniventes por omissão, temos sempre a ideia de que hoje são estas pessoas, amanhã são aquelas, o que é bem a prova de que o bullying, seja nas empresas, seja noutro sítio qualquer, é uma forma de tirania. E era a altura de nós, nas escolas, explicarmos aos nossos filhos que eles têm a obrigação de lutar pela liberdade, pela autonomia, pela verticalidade e que sempre que se encolhem em nome do bullying, nós ficamos muito decepcionados, porque é legítimo que esperemos mais deles.

Onde é que acaba o mau chefe e começa o assédio? Como é que se estabelecem esses limites?

Judite, eu acho que tem a ver, fundamentalmente, com a sabedoria e com o sentido de justiça. O mau chefe é aquela pessoa que confunde a autoridade com autoritarismo e talvez porque não tenha podido crescer a dizer tudo aquilo que entendia dizer aos pais, quando tem uma pontinha de poder, acha que finalmente pode fazer tudo. Esse é um mau chefe. Um bom chefe é aquele que conjuga sabedoria, autoridade, bondade e sentido de justiça, e que não deixa de tomar um conjunto de decisões quando é preciso tomá-las, mas que obviamente é capaz de se pôr no lugar da equipe que coordena e perceber que se não é capaz de se pôr no lugar de cada uma daquelas pessoas, ainda lhe falta um bocadinho grande pra ser um chefe como deve ser.

É muitas vezes um processo de aprendizagem também. Eduardo, um grande abraço.

Assim seja capaz de o fazer, não é, Judite?

Claro. Um grande abraço. Obrigada. Até amanhã.

Um abraço e até amanhã, Judite.