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João Goulão, pedia-lhe, em primeiro lugar, uma análise a estes números que foram conhecidos hoje, as conclusões do estudo da Universidade do Minho, que mostram que há 100 mil pessoas com problemas de jogo em Portugal e que a maioria dos jogadores da raspadinha têm rendimentos abaixo dos € 1000. Tem já manifestado alguma preocupação com este caso nos últimos meses. Pergunto-lhe se estes números o surpreendem de alguma forma.

Não, eu diria que são consistentes com os dados que temos com outras origens. Eu ouvi agora a notícia, não conheço o estudo em detalhe, mas francamente não me surpreende. Preocupa-me, mas não me surpreende.

Que medidas é que podem ser feitas para mitigar esta situação? Já tem vindo a alertar para o potencial aditivo que está associado às raspadinhas, em particular também numa altura de maior crise económica. Que medidas é que podem ser feitas para mitigar, de alguma forma, este impacto?

Uma das observações que foram feitas a propósito deste estudo é que a principal motivação para o jogo é a tentativa de resolver ou mitigar problemas económicos. Eu penso que a grande preocupação tem que ser em torno das melhores condições que a nossa população possa usufruir. Também penso que é observável, até a olho nu, que há uma grande preponderância de atividade de jogo, nomeadamente a utilização da raspadinha, por parte de pessoas bastante vulneráveis do ponto de vista socioeconómico, também ao nível da literacia. Portanto, acho que é fundamental, por um lado, trabalhar na melhoria das condições de vida das pessoas e, por outro lado, difundir informação. O próprio investigador comentava há pouco que a ilusão de que se possam resolver problemas económicos por via do jogo é isso mesmo, é uma ilusão. Por outro lado, há outras medidas que é importante considerar. Penso que já foram dados alguns passos importantes ao nível da publicidade, mas é fundamental, de facto, a informação e o trabalho preventivo relativamente a isto. Parece-me que medidas de limitação do acesso ao jogo são bem mais complicadas, mas a informação é preponderante.

Portanto, face à complexidade, de certa forma, de avançar com medidas mais restritivas, o primeiro passo deve ser do ponto de vista de sensibilização e de prevenção.

Sim, sem dúvida. E o tal esforço de melhoria das condições de vida da população em geral, que está perfeitamente esmagada, e esta tentativa de resolver magicamente os seus problemas está muito presente no imaginário das pessoas.

E de um ponto de vista mais relacionado com a psicologia, também há alguma forma de impulsionar essa resposta de um ponto de vista de ajuda psicológica ou sensibilizar basta?

Temos desenvolvido um esforço para oferecer cuidados às pessoas que os solicitam. De qualquer forma, a assunção de que existe um problema, a história da negação, que é clássica nos comportamentos aditivos, está muito presente. O primeiro passo, creio eu, será de facto na esfera da prevenção e da melhoria das condições de vida das pessoas e, por outro lado, na disponibilidade de ajuda psicológica, de tratamento, acompanhamento a todos aqueles que o solicitam. Há alguma proatividade também no suscitar a aproximação das pessoas que têm este tipo de problemas às respostas de saúde. Agora, há também muito a fazer. Eu tenho a expectativa de que a reconstituição do instituto dedicado aos comportamentos aditivos, a par da aprovação do plano nacional que congrega a participação de múltiplas entidades com responsabilidades afins, pode ser um passo importante para que aumentemos a eficácia e a capacidade de resposta a estas pessoas.

Mas essa resposta tem sido insuficiente de alguma forma? Não está a ser dada a atenção necessária a este tema?

Este é um tema que, insisto, as pessoas que espontaneamente solicitam ajuda, obtêm a ajuda. Agora é necessário trabalhar no sentido de promover essa aproximação, de fazer sentir às pessoas que pode haver um problema e que há condições para as ajudar.