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O Museu Calouste Gulbenkian vai receber um autorretrato de Rembrandt, o pintor holandês do século XVII, que é considerado um dos maiores artistas visuais da história da arte e o mais importante da história da arte holandesa. Fez parte da chamada Idade de Ouro da Holanda. A conservadora de pintura do museu, Luísa Sampaio, fale-nos um pouco deste autorretrato de Rembrandt e do privilégio de poder observá-lo ao vivo.

Muito boa tarde. Eu tenho todo o gosto de falar, não só neste autorretrato de Rembrandt, como o pretexto que este autorretrato nos dá para perceber uma parte significativa da obra deste grande pintor. Concordo com tudo o que disse sobre Rembrandt. Rembrandt tem uma obra vasta, de 300 pinturas, não tantas, talvez, quantas pessoas inicialmente pensariam ser, porque no fundo é um homem que pinta coisas excepcionais, mas não pinta numa quantidade absolutamente esmagadora. Mas dessas 300 pinturas que estão efectivamente autenticadas como sendo da sua autoria, cerca de 10% são autorretratos. Ou seja, estamos a falar de cerca de 40 autorretratos. E nesses autorretratos, quando nós temos a ideia que vamos conhecer Rembrandt ao longo dos tempos, ou seja, ele faz-se autorretratar desde os seus 20 anos até à data da sua morte em 1669. Pensou-se durante muito tempo, tínhamos aquela ideia romântica do pintor introspectivo que olha para si próprio e para o envelhecimento, mas percebemos, depois da investigação que tem sido feita, que foi talvez o pintor que teve um corpo científico mais dedicado, mais intenso, que deu origem a sete volumes de 700 páginas sobre a sua obra. Estamos a falar de 300 pinturas. E realmente houve um grande estudo e percebemos hoje em dia que Rembrandt utiliza a sua própria imagem para contar outras histórias ou falar de outros pintores. Ou seja, neste caso da pintura da Thyssen, do autorretrato que temos agora na Coleção Gulbenkian, ele faz-se representar à maneira dos pintores do século XV para homenagear os pintores flamengos Dirk Bouts e Rogier van der Weyden. Também fez isso noutros autorretratos, homenageando, por exemplo, os grandes mestres do Renascimento. E isto tem ainda outra leitura. Não só ele homenageia a pintura do passado, como ele, no fundo, está a querer dizer: "Eu também serei lembrado no futuro". E foi, efectivamente.

Ele é, de resto, um pintor que nunca saiu da Holanda, mas ainda assim tinha influência de pintores italianos e que mesmo não trabalhando fora do país, conseguiu ficar eternizado na história da arte.

Sim, ele tem uma clientela vastíssima. Ele também atuou como colecionador de arte, como marchand também. Ao fim e ao cabo, estes homens também tinham um grande sentido comercial e o facto é que a sua obra se estendeu rapidamente e a sua fama por toda a Europa. E de facto, ele teve uma clientela poderosa e de diversas origens. Estas pinturas vão rapidamente sair da Holanda e ir para coleções internacionais. Esta pintura, por exemplo, a primeira proveniência conhecida é exatamente um enteado de Napoleão, Eugène de Beauharnais, que é a primeira proveniência conhecida desta peça. Mas é facto, são pinturas que têm um percurso internacional muito forte.

E para além deste autorretrato, quais são as restantes obras que podemos encontrar?

O projeto que agora se inicia da obra visitante também tem como objetivo dinamizar a nossa coleção. A Coleção Gulbenkian é uma coleção fechada no sentido em que é a coleção de um homem, o senhor Calouste Sarkis Gulbenkian, que morreu em Lisboa em 1955, que nos deixou este legado extraordinário que são as suas obras que deram origem ao Museu Gulbenkian. E sendo a Coleção Gulbenkian uma coleção fechada nesse sentido, não adquirimos obras por princípio. É nosso dever dinamizar a coleção e trazer confrontos com outras obras com que se podem estabelecer relações interessantes para também chegar ao público de outra forma, de uma forma mais renovada, refrescada. E quem melhor que Rembrandt para iniciar, de facto, esta nova programação da obra visitante, que terá continuidade daqui para a frente