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Bruno Cardoso Reis, bem-vindo. Normalmente falamos apenas ao sábado, é mau sinal estarmos aqui a falar também ao domingo, Bruno. O Irão diz que a missão está cumprida, mas que vai ser mais firme e forte se houver uma resposta. Essa resposta é a decisão de Israel. Vai ser fácil convencer Netanyahu a não reagir? Pelo menos Joe Biden, pelo que percebemos, já começou a tentar.

Bom dia a todos. Realmente, do meu ponto de vista, não vai ser muito fácil. Temos ainda esta questão daquela criança que está em estado crítico, pode morrer ou não, esperemos que não, mas isso pode afetar um pouco o cálculo. Mas, sobretudo, parece-me que esses dois dados são mais ou menos os seguintes: por um lado, os Estados Unidos estão a procurar, até publicamente, fazer alguma pressão sobre Israel no sentido de dar a questão por encerrada. Portanto, a mensagem de Biden foi: "Isto foi uma vitória. Israel mostrou que tem uma capacidade de defesa que consegue anular o ataque iraniano, e portanto, a questão fica encerrada". Mas sabemos que atualmente os Estados Unidos têm um grande interesse em evitar uma escalada regional do conflito e que o próprio presidente Biden tem feito de retirar o mais possível os Estados Unidos do Médio Oriente e de outras regiões de conflito, aliás. Portanto, retirar os Estados Unidos de conflitos ativos uma prioridade, embora já tenha sido forçado, depois do 7 de outubro, a reforçar a presença militar nesta região. Por outro lado, também sabemos que Netanyahu realmente tem esta postura há várias décadas, desde que começou a estar ativo na política israelita, de que no Médio Oriente, um país que demonstre fraqueza está a correr um risco enorme. Aliás, disse há poucos dias: "Quando nos atacam, nós respondemos, nós atacamos de volta". E portanto, realmente, eu acho que isto é um teste, no fundo, àquilo que vai prevalecer, se é a pressão americana e eventualmente o receio de Israel também de que possa haver uma escalada regional que também complique as coisas, por exemplo, do ponto de vista da ação contra o Hamas em Gaza. Ou se o que vai prevalecer é esta ideia de que um ataque a Israel sem precedentes, porque é a primeira vez que o Irão ataca diretamente Israel e nesta escala, não pode deixar de ter algum tipo de resposta.

E Bruno, falávamos há pouco do papel dos Estados Unidos da América. Como dissemos, Biden já tentou aqui conter alguns danos. O jornal Axios diz que o presidente norte-americano ligou para Israel, como dissemos, terá dito a Netanyahu para ficar com esta vitória. Diz também Joe Biden que não vai apoiar uma retaliação israelita contra o Irão. Esperavas também esta tomada de decisão tão firme por parte dos Estados Unidos da América, de se afastarem desde já de qualquer apoio?

Essa é uma pressão importante. O principal instrumento de pressão é os Estados Unidos dizerem: "Nós temos uma presença militar importante na região, bastante menor do que foi no passado, mas ainda assim significativa, tem uma enorme base, por exemplo, aérea no Qatar, uma presença naval quer no Golfo, quer no Mediterrâneo, quer no Mar Negro, quer no Mar Vermelho. E vamos usar essa capacidade", aliás, foi usada para ajudar Israel a responder a este ataque, a defender Israel. De acordo com as informações, aliás, não só os Estados Unidos, mas também a Grã-Bretanha e a França, que têm alguma presença na região, terão ajudado a interceptar alguns destes drones e mísseis de ataque lançados contra Israel, a par da Jordânia, que também é um caso interessante, que mostra que não é verdade que todos os países da região estejam alinhados necessariamente contra Israel e ao lado do Irão, mas que não está disponível para ajudar Israel a atacar o Irão, não está disponível para se envolver diretamente num ataque, numa dimensão ofensiva contra o Irão. Portanto, isso parece-me corresponder àquilo que seria expectável.

E Bruno, olhando ainda para as relações externas de cada país, excluindo aqui os Estados Unidos da América, a China também já deixou uma reação, diz que está profundamente preocupada com os ataques. Esta reação surpreende também e pergunto que influência é que pode ter este papel também à margem da China?

Eu acredito que a China, ao contrário da Rússia, enquanto a Rússia tem o interesse em promover o caos, a violência e a guerra por todo lado, é uma forma de distrair as atenções das atrocidades que continuam a cometer na Ucrânia, é uma forma de desviar também forças, meios, nomeadamente dos países ocidentais, para outras regiões que não a Ucrânia. Mas ao contrário realmente da Rússia, a China tem algum interesse num sistema global minimamente estável, seguro, pacífico, porque é uma potência que, ao contrário da Rússia, não tem apenas meios militares e depois duas ou três matérias-primas que até negociam com uma certa volatilidade, um certo elemento de risco que leva muitas vezes ao aumento do preço, por exemplo, do petróleo. Mas a China realmente tem interesse em que haja alguma segurança, alguma estabilidade a nível global para poder continuar, por exemplo, a exportar produtos manufaturados, para poder continuar a importar, por exemplo, petróleo a preços acessíveis, etc. E, portanto, acredito que realmente a China, que se aproximou bastante do Irão, portanto, ganhou aqui algum peso adicional, como também da Arábia Saudita. Hoje em dia é dos principais clientes, aliás, do petróleo, do gás natural desta região do Golfo Pérsico-Arábico, portanto, ganhou aqui alguma capacidade de pressão adicional que realmente não tem interesse numa escalada descontrolada. Agora, também acredito que não queira propriamente deixar cair o Irão. Portanto, vamos ver como é que mais uma vez a China consegue aqui fazer este equilíbrio entre os diferentes interesses que tem numa certa estabilidade regional. Por outro lado, uma aproximação com o Irão, que é uma potência que tem tido aqui um impacto bastante desestabilizador na região.

Bruno Cardoso Reis, uma última questão antes de fecharmos. Israel diz que interceptou 99% dos drones e mísseis que foram enviados pelo Irão. É o melhor cartão de visita já mostrado desde sempre pela Cúpula de Ferro, desde que foi implementada em 2011?

Sim, Israel é considerado talvez o melhor sistema antiaéreo do mundo. Também tem uma vantagem, por exemplo, em relação à Ucrânia, que é um país bastante mais pequeno, mas tem vários sistemas multinível, com diferentes alcances, quer em termos de distância, quer em termos de altura, e é realmente um sistema bastante completo. Ao mesmo tempo, mostra que realmente não há sistemas 100% eficazes. Mas é realmente um nível de interceção excecional. De acordo com as informações que eu vi, à partida, todos os drones terão sido interceptados, que são meios um pouco mais lentos e só uma pequeníssima parte dos mísseis é que terão conseguido escapar à interceção do sistema. Mas sim, se pensarmos em qualquer sistema ter uma taxa de sucesso de 99%, uma taxa de erro de 1%, é realmente excecional. Sobretudo num conflito armado, isso é extremamente raro. E portanto, sim, é uma grande vantagem que Israel tem.