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Edmundo Martinho, o senhor acusou há cerca de dois meses a atual administração da Santa Casa de o denegrir e disse também que a administração de Ana Jorge mostrou-se incapaz de definir estratégias. Faz bem o executivo de Luís Montenegro em exonerar a mesa da Santa Casa e com isso afastar Ana Jorge ou fica de algum modo surpreendido?

Ana Maré, boa tarde antes de mais e muito obrigado pelo convite para estar convosco. Eu continuo a pensar a mesma coisa, ou seja, não conheço as razões que estão por trás da exoneração, no seu detalhe, mas não me surpreende. E não me surpreende porque eu creio que o comportamento desta administração ao longo deste último ano, foi um comportamento no sentido de destruição permanente de valor. Ou seja, valor quer do ponto de vista patrimonial, quer do ponto de vista reputacional, quando tudo isto devia ser tratado de outra forma, em meu entender, obviamente. Porque é legítimo que se tenha uma atitude ou uma posição de discordância em relação a esta opção do projeto de internacionalização. É legítimo que se tenha esse tipo de posição contrária, enfim, nada obsta. Agora, tudo isto podia e devia ter sido feito, a meu entender, de modo muito mais sereno e preservando sempre aquilo que é o interesse principal, que é o interesse da Santa Casa da Misericórdia. Porque repare, eu saí há um ano, basicamente, no final do mês de abril de 2023. Nunca, até hoje, recebi qualquer contacto da administração no sentido de, por exemplo, explicar, detalhar, dar conta das opções. Nunca, nem um contacto. Isso não me parece nem normal, nem razoável. E é por isso que eu falo desta questão, que referiu há pouco, da minha imagem ter ficado muito danificada com tudo isto, de forma absolutamente desnecessária.

Mas esta exoneração não pode criar uma instabilidade maior numa altura em que a Santa Casa precisa de um plano de reestruturação para enfrentar esta crise?

Pois, não sei. Agora tudo dependerá. A nova equipa vai ter que encontrar as soluções, porque repare, o problema é: pode-se estar em desacordo com uma estratégia como era esta da internacionalização, que implicava investimento, que se sabia desde o início que implicava investimento, que esse investimento não era imediatamente reprodutível, como acontece com qualquer investimento. Agora, é preciso que quando se recusa um caminho, se apresente um caminho alternativo. E aquilo que a gente viu ao longo deste ano foi a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa ficar dependente das transferências do Estado e em particular da Segurança Social, coisa que não me parece de todo razoável, independentemente da justeza dessas transferências. Agora, se isto vai provocar ou não turbulência, eu não sei. Enfim, este tipo de circunstância acaba sempre por ter impactos. Agora, o que é facto é que a nova equipa vai ter que rapidamente definir o rumo a dar à Santa Casa, porque a Santa Casa tem todas as condições para poder singrar e poder manter-se e desenvolver-se como entidade residente na sociedade portuguesa.

Pelo que percebemos, no momento da transição do anterior governo para o atual, não foi apresentado qualquer dossiê relativo à Santa Casa. O ônus deveria estar também aqui no executivo socialista, Edmundo Martinho. E de algum modo também lhe pergunto se também se sente corresponsável pela situação a que a Santa Casa chegou?

Responsável, naturalmente que sim. Agora, responsabilidade é uma coisa, culpa é outra. Naturalmente que eu participei e em algumas circunstâncias liderei, um processo como foi este da internacionalização, que tinha o seu caminho a fazer, que podia e devia, em meu entender, ser acarinhado e acompanhado de forma muito direta e tudo isso estava preparado para tal. Adotaram uma posição diferente e eu, no momento em que saí, deixei um dossiê completo à provedora que me substituiu, a Dra. Ana Jorge, com informação detalhada sobre os temas mais complexos, incluindo, naturalmente, este da internacionalização. Ora, tudo isto foi sendo sempre feito com o acompanhamento e a informação permanente ao governo. Portanto, não houve aqui nenhuma espécie de via rogue, como se costuma dizer, pelo contrário, tudo isto foi sendo feito de acordo com as regras, de acordo com as normas, podendo ou não estar-se de acordo, é verdade isso, mas do meu ponto de vista, não foi esta a maneira melhor de abordar uma solução diferenciadora.