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Luís Miguel Ribeiro é presidente da AEP. Realizou um inquérito com 1130 empresas sobre a semana de quatro dias de trabalho. Luís Miguel Ribeiro, muito obrigado por esta entrevista. Eu começo por perguntar-lhe quais é que foram os principais resultados que a AEP obteve a partir deste inquérito.

Bom dia. Os resultados são aqueles que nós esperávamos, mas de facto confirmados por estes 1130 inquéritos, onde se destaca aquilo que são as preocupações com os impactos que estes quatro dias de trabalho, ou esta medida que se pretende agora testar, teria nas empresas, quer sobre os lucros, quer sobre a capacidade de resposta perante os clientes, quer sobre também a reorganização interna da empresa, os impactos na competitividade e na produtividade que teriam nas empresas.

Mas nesse aspeto, é esperado um impacto negativo?

Sempre um impacto negativo, sim. O único impacto positivo que os empresários neste inquérito referiram é uma redução dos consumos de energia e também da taxa de absentismo, até porque as pessoas estando menos dias a trabalhar, provavelmente também haveria menos absentismo. No entanto, para além das respostas ao inquérito tal qual foi feito, temos depois uma resposta livre, onde obtemos preocupações acrescidas a estas questões que aqui estão, como o facto de, neste momento, se já vivemos um período de escassez de recursos humanos para as empresas, esta situação iria agravar ainda mais essa escassez, porque as empresas teriam de contratar mais pessoas. Por outro lado, isto iria implicar um aumento do custo da hora trabalhada e, por isso, esse aumento de custo reflete-se no final também no preço dos produtos e contribui para um aumento ainda maior da inflação. E também uma preocupação ou uma sugestão que foi referida por vários empresários, é que se devia cada vez mais pensar numa aposta na flexibilidade laboral e que estas preocupações que se têm da qualidade de vida das pessoas, da conciliação trabalho, família, etc, pudessem ser tratadas de acordo com aquilo que são as condições e as necessidades das empresas, nomeadamente dependendo do setor de atividade. Sabemos que na indústria é uma coisa, no serviço é outra, no comércio é outra. Sabemos que empresas de maior dimensão terão maior impacto, empresas mais pequenas terão outro impacto e por isso isto não se deve generalizar. Devia haver uma maior flexibilização na aplicação da legislação laboral e ter esta disponibilidade. Também é bom que tenhamos presente que se nós estamos preocupados com o bem-estar das pessoas, com a felicidade das pessoas, com a qualidade de vida das pessoas, devemos nos preocupar com o rendimento disponível das pessoas, com aquilo que de facto pode contribuir para as pessoas poderem usufruir de algumas regalias que atualmente, face ao aumento da inflação e à carga fiscal sobre o trabalho, não permite. Ou seja, de que adianta estarmos aqui a dar mais dias às pessoas, quando isso vai ter um impacto negativo no desempenho das empresas e certamente no aumento dos custos dos produtos e, por outro lado, as pessoas não terem rendimentos disponíveis que lhes permita conciliar e usufruir desse tempo disponível a mais que possam ter.

Era isso que eu queria também destacar. Acha que esta opção, portanto, diminuir a carga fiscal para depois subir os salários, daria mais qualidade de vida do que propriamente ter mais um dia de descanso?

Eu acho que sim. Aliás, é minha opinião e também está aqui destacada nos vários comentários que os empresários fizeram nestes inquéritos. Aliás, devo dizer que foi dos inquéritos mais participados em termos de opinião livre, depois, para além das questões que foram colocadas, o que de facto mostra que é um tema que os empresários estão bastante preocupados. Que é o facto de nós termos consciência que ao fazermos isto, as pessoas vão andar a encontrar depois alguma ocupação extra para esse dia a mais, claro que há muitos casos em que isso acontecerá e podemos estar até aqui a contribuir para algum trabalho paralelo, mas isso será uma consequência que estamos aqui a antever e que não temos nada em termos de análise mais científica, mais rigorosa que nos prove isso. Mas é aquilo que se espera. E, por outro lado, eu queria dizer, é preciso termos consciência que quando se pensa numa coisa destas, e ao dizer isto, não estou a dizer que O processo e esta reflexão não têm a devir a ser feita. Ela será feita, virá a ser feita, e deve ser feita num período de crescimento da economia e não no período que estamos agora neste momento, não num período de grande dificuldade, de grandes desafios e no contexto que se vive atualmente, mas num período em que a economia esteja a respirar bem, que esteja a crescer. Penso que se deve refletir sobre isso. Agora, deve-se refletir sobre isto tendo consciência de uma coisa: isto provocará uma mudança estrutural em toda a sociedade portuguesa, porque se nós pensarmos que esta questão dos quatro dias se começar a colocar ao nível da educação, ao nível da saúde, ao nível do funcionamento de serviços públicos, a todos os níveis, isto provocará uma profunda alteração estrutural da forma como temos organizado a nossa sociedade e o nosso país nos dias de hoje. E por isso é importante que se tenha consciência quando se pensa numa situação destas. E ao dizer isto, volto a sublinhar, não estou a dizer que não se deve vir a refletir sobre isto no tempo oportuno, no momento em que estas preocupações principais que hoje vivemos, num contexto de inflação, num contexto de aumento da taxa de juro, num contexto de consequência de uma pandemia, com o impacto que teve no aumento dos custos de matérias-primas, transporte e logística, com o grande aumento que estamos a ter nos custos energéticos, ou seja, com já um conjunto de desafios que as empresas têm, estar a colocar mais este, neste momento, parece-nos completamente inoportuno e que não acrescenta nada. Sendo certo que, ao nível do setor de serviços e ao nível daquilo que foi a aprendizagem que todos tivemos no período da pandemia, nomeadamente com o trabalho remoto, o teletrabalho e outras formas de trabalho híbrido a que nos fomos adaptando, que se venha cada vez mais a refletir sobre essa forma de organizar o trabalho, mas há setores de atividade, como é o caso da indústria, em que isso é muito mais difícil, tem muito mais impacto e é muito mais difícil de conciliar, porque as máquinas têm de ter as pessoas, por mais revolução tecnológica, mais transição digital que se faça, as máquinas têm que ter as pessoas por perto quando estão a trabalhar, as linhas de produção têm que ter as pessoas por perto e, por isso, é preciso termos consciência de que tudo isso implica pessoas, pessoas presentes, e que diminuir um dia de trabalho, mantendo os salários, aumenta o custo da mão de obra trabalhada e aumenta a necessidade de pessoas, que é uma coisa que nós hoje já temos dificuldade e com isto seria ainda muito mais agravada.

Como já disse que isto terá um impacto na própria organização da sociedade, esse problema não poderia ser resolvido com o final do fim de semana como nós o conhecemos e instalar aqui uma rotatividade nas empresas que se marcava também a estes dias de descanso? Ou seja, em vez de ter os dias de descanso fixos para toda a gente, ir rodando entre aqueles que trabalham numa segunda e aqueles que trabalham num domingo, por exemplo.

Sim, eu penso que toda essa reflexão pode vir a ser feita, deve vir a ser feita, toda essa reorganização deve ser feita. Agora, deve ser feita no momento certo e sempre tendo em atenção os impactos que cada uma dessas decisões provocará e medindo esses impactos, se são positivos e se devem avançar e de que forma e em que timing e com que medidas e com que condições é que elas devem acontecer. Eu penso que tudo isso deve ser refletido. Agora, penso que as pessoas percebem que numa fase em que nós vivemos uma grande preocupação, não só porque estamos a viver um cenário novo que já não tínhamos a memória da inflação e do aumento da taxa de juro, com os impactos que vai ter no consumo, com os impactos que nós vamos ter nas nossas exportações com os principais mercados das nossas exportações a entrarem em recessão, com os atrasos na aplicação dos fundos estruturais e a necessidade de investimento, com uma necessidade enorme de apostarmos cada vez mais na indústria nacional, dependermos menos de cadeias de abastecimento, diminuirmos importações, etc. Com todos estes desafios, não é certamente o melhor momento. Não é o momento em que nós vamos ter foco para estarmos preocupados e a analisar da forma que deve ser analisada e estudada da forma que deve ser estudada, esta nova reorganização do trabalho, com todos os impactos, e são muitos, que isto terá.

Luís Moreira Ribeiro, só olhando aqui para aquele fator talvez mais discutido ou aquele que está a levantar maiores divergências, até porque este inquérito conta também com os pontos de vista dos trabalhadores. E aqui o próprio inquirite, já era expectável que esta comparação trouxesse divergências, mas deixa-me aqui questionar sobre a questão da produtividade, porque há muitas pessoas que acreditam que tendo mais um dia de descanso por semana, que os trabalhadores vão aumentar depois a produtividade nas restantes horas em que estão a trabalhar. As empresas concordam que realmente este aumento da produtividade durante as horas de trabalho pode existir? E se concordarem, pergunto também se isso não poderá compensar depois o dia extra de descanso.

É preciso nós primeiro percebermos como é que se mede a produtividade e que fatores é que contribuem para a melhoria da produtividade E há fatores que têm a ver com os nossos recursos humanos, com as qualificações dos nossos recursos humanos, que têm a ver com a forma e as condições que os recursos humanos têm para desempenhar a sua atividade nas empresas, mas isso tem que ser conjugado com investimento tecnológico, com investimento de transição digital, tem que ser conjugado com a capacidade de acrescentarmos valor àquilo que produzimos e, por isso, a inovação como fator fundamental para acrescentar valor naquilo que produzimos, para que depois tudo isto se reflita na produtividade por hora trabalhada. E também não devemos esquecer a produtividade do recurso, a produtividade dos materiais, em que exige também que nós tenhamos aqui uma outra capacidade de reutilização dos produtos, dos materiais que utilizamos, etc. Mas concentrando na questão da produtividade por hora trabalhada, que é dessa que me coloca a questão, ela depende de vários fatores, incluindo, naturalmente, o fator recurso humano, que é um fator fundamental para isso. Mas o fator recurso humano e o contributo do recurso humano para a melhoria dessa produtividade, como sabe, eu diria que é o maior desafio que o país tem, porque se nós ultrapassarmos o desafio da produtividade, que ainda anda abaixo de 70% da média da União Europeia, nós resolveremos bastantes outros problemas, como a questão da remuneração das pessoas, como a questão da fixação de recursos humanos mais qualificados, como a questão da atração de mão de obra de outros países, porque poderemos pagar melhores salários. Agora, isto não depende só desta redução, nem penso que esta redução tenha o papel fundamental, depende da conjugação destes fatores e que por isso é que nós andamos a alertar e continuamos a alertar para a necessidade de investimento, para a necessidade dos programas comunitários estarem disponíveis para as empresas poderem investir mais em tecnologia, mais na transição digital, mais num conjunto também de fatores e no investimento dos próprios espaços das empresas, para que todos estes fatores conjugados com a mão de obra, com mais qualificação e requalificação dos nossos recursos humanos, nós tenhamos capacidade de acrescentar valor ao que produzimos e melhorar a nossa produtividade e dessa forma, combatermos aquilo que vem sendo o grande desafio e, por outro lado, termos consciência que nós temos, de facto, que olhar para as empresas como única forma de criar riqueza, de valorizar o trabalho e de nos preocuparmos com o indicador, como ainda hoje ouvimos, que é termos mais um país de leste a ultrapassar-nos no PIB per capita, que tem a ver com todas estas questões que anteriormente referi e que nos colocam cada vez mais na cauda da Europa.

Mas esta questão de ter um dia de descanso não poderá ser também um outro fator? Como já disse, a resposta para o aumento da produtividade passa por vários campos. Já aqui enumerou vários deles, mas volto a perguntar se este dia de descanso extra-

Pode contribuir, mas conjugado com todos os outros.

Ou seja, só este sozinho não aumenta o suficiente para compensar depois o dia perdido.

Seguramente que sozinho não é com este fator que nós vamos melhorar a produtividade. Poderemos melhorar conjugado com todos os outros que referi.