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Mário Muniz Pereira faria hoje 100 anos. Fica conhecido como o eterno Senhor Atletismo, que formou muitos campeões e por frases como: "Há treino todos os dias." Era mesmo assim?

"Há treino todos os dias" era a máxima dele. E "a sorte dá muito trabalho." Era isso que ele dizia. E não havia dias excepcionais, claro. Houve um ano, na equipa de voleibol, em que estiveram uns atletas iugoslavos e toda a gente dizia que o Sporting ganhava tudo porque havia esses dois atletas iugoslavos. E quando eles foram embora, dizia-se que não, que o Sporting havia de perder. E o Muniz Pereira disse: "Não, senhora, nós vamos ganhar. E para isso vocês vão se comprometer aqui comigo a treinar todos os dias." Depois um deles casou-se nesse ano e nesse sábado estava marcado treino e ele disse: "Pronto, como nós combinamos, este sábado há treino. Exceto para o Nojo, senão a mulher divorcia-se dele logo no primeiro dia e eu não quero ser responsável por isso. De maneira que é o único que está dispensado, os outros todos temos treino."

Mas apesar deste rigor, Mário Muniz Pereira era também conhecido pelo estilo de trato próximo e de preocupação com os atletas.

Sim, porque ele tentava que os atletas treinassem aquele número de vezes, mas tentava que para poder treinar, ajudar a organizar a vida deles. E portanto, se eles tinham que ter um emprego, ele ia ver como é que eles haviam ter um emprego, como é que o chefe na empresa lhe dava dispensa e comprometia-se que era por causa dos treinos que eles iam e portanto estavam a representar Portugal e pedia para eles, por exemplo, só trabalharem quatro horas por dia em vez de oito, que estudassem e tivessem apoio nos estudos se ainda fossem alunos, tivessem ainda a idade escolar. Ou que viessem morar para Lisboa e arranjar um lugar para ficar e responsabilizava-se perante os pais, ia buscar os atletas a casa e sobretudo as raparigas. E levá-las que era para os pais autorizarem que elas andassem no treino. Levava-nos aos treinos, sobretudo quando era para acompanhar as raparigas e era à noite, não andava sozinho com elas para não acharem que ele podia estar a meter com as alunas. Tinha todo esse tipo de preocupações, portanto muitos deles achavam que ele era um segundo pai.

Mas Mário Muniz Pereira, para além do Senhor Atletismo, era também um fadista com mais de 120 canções. Lembra-se de ouvir o seu pai cantar?

Perfeitamente. Ele tocava piano todos os dias. E ele achava, como eu dizia há bocado, para ele enquadrar os atletas, eles tinham que ter menos descanso e que a música e cantar eram uma boa maneira de relaxar. Como ele gostava muito de música, juntava as pessoas à volta do piano e punha-se a cantar e a tocar conosco, mesmo nas aulas. E ele fazia isso nos Jogos Olímpicos também. E era conhecido como tal, toda a gente. Eles já diziam que chegavam aos jogos, perguntavam se ele já lá estava, olhavam na cantina e iam sentar-se ao pé dele, mesmo os estrangeiros. E toda a gente tocava e ficava com ele. Isso também era uma maneira de agarrar os atletas e a seguir dizer que era hora de deitar, ninguém podia ir passear nem para a borga, porque num dia havia treino, noutro não sei quanto, e ter uma sessão à mesma agradável, quer dizer, eles aceitarem isso com facilidade.

Leonor Muniz Pereira, o seu pai morreu há quatro anos, teve uma vida longa e cheia. Do que é que tem mais saudades agora?

Eu tenho muitas saudades de estar com ele, de conversar sobre desporto e sobretudo de participar com ele naquilo que nós chamávamos o Congresso da Família, porque ele sempre também teve essa faceta. Ele gostava de estar com todos e tinha uma vida muito cheia. O que ele fazia? Uma vez por ano, telefonava para todos os membros da família e com a mesma persistência que fazia aos atletas, dizia que temos que ir, temos que nos encontrar, vamos para o hotel tal, no dia tal, este fim de semana que é comprido. Vocês não podem ter nada que fazer, vem toda a gente, nem que seja um dia para almoçar. Toda a gente chegava lá e era um congresso, mas um congresso à séria. As pessoas registavam-se, recebiam um emblema, inscreviam-se em provas.

E mesmo os congressos de família tinham o caráter do desporto?

Tinha, mas as provas podiam ser, por exemplo, como é que nós podemos fazer uma corrida, em vez de fazer corridas e ver quem é o melhor resultado do mundo, como num campeonato, dizias assim: "Vamos ver quem é que dá uma volta a este circuito aqui", que ele estipulava, "quem consegue num minuto, aos pares. E portanto, quem acertar perto do minuto sem relógio é quem ganha." Podia ir uma pessoa com 80 anos e outra com 10, não fazia mal.