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Eu entro naquela sala de aula e vejo os miúdos e só o que me apetece é chorar. Como é que um miúdo tem resultados escolares e tem rendimento escolar, quando tem dificuldades em segurar uma caneta para tomar apontamentos, porque o frio é tanto que ele não consegue sentir os dedos?

O desabafo é do diretor do Agrupamento de Escolas nº 2 de Serpa, Francisco Oliveira. Mantas, luvas, casacos e meias. Tudo é usado para cobrir o corpo, dos pés à cabeça, num janeiro particularmente frio e difícil de suportar.

Temos as mãos geladas, temos os pés gelados. Nós chegamos a sair da escola ontem à tarde, eu não sentia os pés, porque as condições são horrorosas e nós, em contexto de sala de aula, não estamos de pé, não estamos a mexer-nos, não estamos a aquecer, estamos sentados a trabalhar.

Beatriz Mendes é aluna na Escola Secundária de Serpa, está no 12º ano. Nestes dias de inverno, não é fácil manter os estudos como prioridade.

Às vezes estamos mais ocupados e preocupados em tentar aquecer as mãos. Vemo-nos obrigados a trazer as nossas próprias mantas de casa, a vir com camadas e camadas de roupa, que depois torna bastante difícil estarmos a trabalhar em contexto de sala de aula.

O insucesso escolar também preocupa os professores. Vítor Brasão dá aulas nesta escola, admite que o frio já se arrasta há anos, mas a situação vê-se agravada com a pandemia.

Tudo aquilo que já era mau, tornou-se péssimo. Hoje em dia as regras mudaram. É necessário que os alunos se mantenham mais estáticos e, por isso mesmo, se as condições na sala de aula e se a climatização, mesmo que exista, não é a adequada, os alunos estão mais preocupados em proteger-se do frio do que acompanharem o desenvolvimento das atividades letivas.

O edifício tem mais de quatro décadas e várias limitações. Todo o esforço de aquecimento acaba por ser perdido pelas frestas das janelas. O diretor do agrupamento admite que é difícil cumprir as regras.

Ideal seria termos a possibilidade de ter as portas abertas durante as aulas, mas isto obviamente é completamente impossível de fazer. O que acontece, durante o espaço da sala de aula, fecha-se a porta, fecham-se as janelas e depois quando chega o final da aula, tem que se abrir tudo para fazer o arejamento.

O cenário é de tristeza e revolta. A Escola Secundária de Serpa está desde 2011 à espera de ser requalificada.