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Nós temos que perceber que poderemos ter aqui, pelo menos, dois tipos de impacto: um impacto no próprio desenvolvimento das crianças e dos jovens e no desenvolvimento do ponto de vista global, do pensamento, do raciocínio moral, do desenvolvimento intelectual das crianças e dos jovens. E, por outro lado, também perceber que há uma influência das experiências prévias. E as experiências prévias não envolvem só o contexto da guerra, mas envolvem também um contexto ainda anterior a esse, que é o contexto de perdas que ocorreram durante o período da pandemia e que podem ser também, de alguma forma, potencialmente traumáticas para as crianças e para os jovens, consoante o grau de proximidade de experiências reais que tenham sido vividas no espaço da família, nos contextos da relação com amigos e afins. Nós não podemos isolar este acontecimento e esta exposição das experiências acumuladas de exposição a determinadas situações. E aqui nós podemos ter dois tipos de situação. Podemos ter aqui uma situação em que a própria criança ou jovem criam uma espécie de habituação à exposição a este tipo de conteúdos e começam a normalizar conteúdos que também não são normalizáveis, porque não é suposto que eles aconteçam no dia a dia das crianças e dos jovens e não é suposto que façam parte do dia a dia das crianças e dos jovens. E cria-se aqui uma espécie de dessensibilização face a estes conteúdos, que diminui também o sentido crítico em relação aos mesmos e que pode promover até comportamentos mais desajustados face a essas experiências. E temos também a outra possibilidade, que é de crianças ou jovens que, ainda não estando expostos de uma forma sistemática e sucessiva a estes conteúdos, possam revivê-los quando eles acontecem. Este novo acontecimento, que foi o sismo e a afetação na Turquia e na Síria, podem estar a revivê-los, aumentando aqui a dimensão mais traumática, que gera também dificuldades do ponto de vista, por exemplo, da ansiedade e até da própria ansiedade, do medo da perda, influencia também a relação com os outros e há aqui uma ligação íntima entre estes aspetos.
Falou das crianças e dos jovens. São as crianças e os jovens a população mais suscetível a estes episódios de ansiedade e de medo da perda perante as imagens que temos visto, ou há outra faixa etária ou outra parcela da população mais suscetível a esse tipo de episódios?
Essencialmente, eu destacaria as crianças até os 12 anos, porque as crianças até os 12 anos não têm o pensamento, o seu potencial intelectual e cognitivo totalmente desenvolvido, que lhes permita uma interpretação adequada e ajustada e uma acomodação destas experiências que não são normativas e que são experiências com algum potencial traumático. As crianças até os 12 anos não têm o pensamento organizado para responder a este tipo de situações que são sentidas por elas como ultrapassando talvez a capacidade de resposta delas e isto pode resultar numa situação em que a criança começa a criar espaços vazios no seu pensamento e a procurar respostas para aquilo que está a acontecer, que não consegue encontrar e tornam-se situações menos bem resolvidas e que geram menor capacidade de adaptação por parte de crianças mais pequenas. Nessa perspetiva, aquilo que nós temos aconselhado também às próprias famílias é supervisionar mais e controlar mais o acesso aos conteúdos desta natureza, deste tipo de acontecimentos. E sabemos que, por exemplo, nos horários nobres, nos horários em que as famílias estão juntas, mais ao final do dia, etc, que estes conteúdos, ainda para mais sendo ao final do dia, têm um impacto, se forem passados de forma sucessiva, na vida das crianças. Por isso, é necessário, de alguma forma, prepará-las, não é retirá-las totalmente da exposição aos conteúdos, porque, de alguma forma, não se consegue ter o controle dessa exposição, porque se ela não acontece no contexto da família, pode acontecer no contexto da escola ou pode haver conversas que depois as crianças não entendem. De maneira que é importante que estas situações sejam apresentadas pelos próprios pais ou cuidadores aos seus filhos e sejam os primeiros a falar sobre estas dimensões do que se está a passar, mas sem depois permitir uma exposição em horários onde a exposição é superior e sem permitir uma exposição sucessiva a este tipo de acontecimentos. Para responder mais diretamente à sua questão, de facto, as crianças, sobretudo as crianças até aos 12 anos, são um grupo mais vulnerável. Há outros grupos também mais vulneráveis, em função daquilo que se consideram ser a proximidade de experiências. Por exemplo, se nós estivermos a visionar imagens que sabemos que há crianças que não foram sobreviventes desta situação, isto vai impactar mais uma criança, porque ela se sente mais próxima de um seu semelhante de uma mesma idade. Isto tem este tipo de impactos. Naturalmente que, se estamos a falar de jovens que tenham algum tipo de vulnerabilidade, por exemplo, ou de adultos com algum tipo de vulnerabilidade, e vulnerabilidade também pode ser apenas a exposição a experiências acumuladas de eventuais perdas, nomeadamente aqui já vamos num terceiro acontecimento com significado mundial. Essa maior vulnerabilidade mais pessoal pode gerar dificuldade em lidar com acontecimentos sobre os quais as pessoas não têm controle.
Deixe-me tentar ver se percebi bem a ideia que me tentou transmitir. As crianças não devem ser mantidas na ignorância em relação a estes temas, devem saber e ser incluídas. No entanto, deve haver algum controle por parte dos pais no contacto com estas imagens.
Certo, exatamente. O que é que isto significa na prática? Que, por exemplo, em determinados períodos, janelas temporais, nomeadamente mais à noite, que vai coincidir com os horários anteriores à ida das crianças para a cama, não é positivo que estejam expostas a este tipo de imagens e também não é positivo que sejam expostas a este tipo de imagens sem antes haver um diálogo prévio da família para introduzir este tema e poderem conversar sobre esse tema e tirar as dúvidas das crianças. Teria que ser uma abordagem com uma identificação dos conteúdos que são mais apropriados para as crianças assistirem. Talvez não seja bom a exposição das crianças de uma forma mais continuada, quando estamos a falar, por exemplo, de documentários mais prolongados sobre o tema, onde se revisitam vezes sem conta exatamente as mesmas imagens. Basta uma vez para que isto possa ser tema de conversa dentro da família e ser aproveitado também para tentar apoiar as crianças na integração das experiências a que estão a assistir. E não é preciso estar a repetir a visualização das imagens vezes sem conta.
E principalmente, pelo que percebi também, imagens que envolvam crianças também, por ver alguém seu semelhante envolvido.
Sim, elas sentem uma maior solidariedade quando são afetados os seus próprios pares. Da mesma idade, ou quando se trata de famílias, que são os contextos de vida principais das crianças e quando sentem que há alguma similaridade entre a sua situação pessoal e a situação que está a acontecer, esta experiência externa, então ela vai aumentar o seu sofrimento e as reações de ansiedade, de irritabilidade, de zanga, de tristeza, vão também aumentar.
Uma questão agora, acredito que possa ser um bocadinho já fora da sua área e ainda assim gostava de, enquanto psicóloga, perceber qual é a sua visão. Entende que estas imagens devem ser expostas com tanta abertura como são?
Enquanto psicóloga, aquilo que me parece importante referir é que, é muito provável que a exposição a este tipo de eventos e de acontecimentos tenha impacto no próprio desenvolvimento das crianças e no desenvolvimento global das crianças, independentemente se elas vão reagir melhor ou pior do ponto de vista momentâneo à situação. E depois também importa considerar outras questões que só as famílias, conhecendo bem as suas crianças, podem ponderar. Por exemplo, se estamos a falar de crianças que habitualmente já são crianças que se preocupam com o tema da morte, que referem muitas vezes o tema da morte. Por exemplo, há períodos do desenvolvimento das crianças, nomeadamente por volta dos quatro anos, que é comum que as crianças fiquem preocupadas com a possibilidade de perderem os seus pais. Ora, se estamos a falar de uma fase em que as crianças possam estar a viver algumas preocupações sobre estes temas da morte, da perda e afins, então também devem os pais estar mais alerta para esta situação e perceber que elas poderão estar numa situação de maior vulnerabilidade e que isso pode afetar, de facto, o seu desenvolvimento. Do ponto de vista, por exemplo, da comunicação social e da exposição e da transmissão de conteúdos que são mediáticos e que são, ao mesmo tempo, conteúdos com algum grau de violência, porque qualquer situação de perda, de morte, de catástrofe é uma situação geradora que pode ser visualizada como uma experiência violenta. É importante também que, à semelhança daquilo que acontece nos filmes que não são apropriados para serem visionados por crianças e que são identificados com um círculo, que sinalizam que as crianças não devem visualizar, também isto deveria acontecer com determinados tipos de notícias. E isso permitiria também aos próprios pais antecipar determinado tipo de situações e melhor supervisionar a exposição das crianças aos conteúdos mediáticos, sendo que, por inerência das idades que estamos aqui a falar e sabendo que é um grupo com maior vulnerabilidade, deve haver uma limitação da exposição das crianças até aos 12 anos. Mas com isto não quero dizer que elas não devam assistir a nada. Quero dizer que elas devem assistir a conteúdos mais apropriados, sem ser de forma repetida, e poder ter um enquadramento familiar do ponto de vista do diálogo com elas sobre estas situações, permitindo que elas coloquem também as questões que as preocupam e dando respostas que sejam o mais adequadas possíveis àquilo que é a sua capacidade de compreensão e de entendimento em função das diferentes idades.