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Relativamente às tarifas aduaneiras que Donald Trump quer aplicar à União Europeia, isso certamente vai afetar Portugal, como é óbvio. E eu gostava precisamente de perguntar quais são os principais impactos que esta medida pode ter para Portugal e para a Europa?
Neste momento, entrar novamente numa política internacional em termos de tarifas, ou seja, de certo modo, criar uma guerra de tarifas entre os países, na minha opinião, não é positivo. Os últimos anos mostraram que o incremento do comércio mundial e a abertura da economia mundial foi globalmente positiva, quer para os países menos desenvolvidos, quer para muitos dos países com maior potencial económico. Evidentemente que cada um sofreu os impactos referentes ao modo como soube colocar-se nesse xadrez mundial. Para a Europa, penso que a situação vai ser negativa, irá afetar, provavelmente, os grandes países europeus, nomeadamente a França, a Alemanha e eventualmente a Itália, países esses que têm vantagens de exportação para os Estados Unidos nalguns produtos e noutros importam, claro. Nomeadamente o setor automovel. Isso pode ser negativo para esses países e nomeadamente para Portugal, já que os países que serão mais afetados na Europa serão aqueles para os quais Portugal mais exporta. Por isso, isso por si só já é negativo, independentemente dos efeitos sobre as exportações diretas portuguesas. Por outro lado, este fenómeno, como as cadeias de valor hoje estão repartidas por muitos países, vai criar perturbações de produção, nomeadamente na área industrial.
Em Portugal também.
Sim, naturalmente, porque efetivamente, hoje em dia, os produtos fazem-se com componentes vindos de diversos países e na base de políticas de preços estabilizados e com uma tradição dos últimos anos de só haver mexidas nessas políticas de preços por razões de falta de matérias-primas ou custos de energia, etc. Portanto, isto vai ser uma nova maneira de colocar as decisões económicas a reboque de opções políticas legítimas, qualquer país tem legitimidade, mas é provável que provoque a inflação nalguns países e podem inclusivamente criar precisamente retrações de poder de compra. Por isso, eu diria que não é uma boa novidade.
E quais é que são os produtos que importamos atualmente dos Estados Unidos, em que as tarifas podem afetar de imediato essa importação? E também a outra face da moeda, ou seja, os setores do comércio portugueses que mais são exportados para os Estados Unidos.
O que é mais exportado para os Estados Unidos, eu agora de memória não sei, mas existem questões desde produtos agrícolas a componentes automóveis, produtos de maquinaria. Enfim, existe todo um conjunto de produtos que são neste momento exportados. Em relação às importações, naturalmente, não sei qual é a política que a Europa vai fazer, mas o mais provável é retaliar. E aí também haverá efeitos. Em termos de exportações, neste momento, os Estados Unidos são o nosso quarto maior mercado e por isso, desde os vinhos à cortiça, todo um conjunto de outros produtos, esses setores serão claramente atingidos.
Isto se a Europa apresentar uma contra-resposta aos Estados Unidos, de que forma é que também vai ser sentida essa resposta europeia?
É difícil, neste momento, ter uma ideia exata de quais são os comportamentos expectáveis da nova liderança americana. Independentemente dos anúncios verbais, qual é a sua consistência em termos de continuidade, em termos de alteração, em termos de poder negocial, há todo um espaço novo que se vai abrir. Naturalemente que é expectável que a Europa responda, mas isso, mais uma vez, como eu digo, vai agravar toda esta movimentação com consequências económicas claras que inclusivamente poderão ter consequências económicas no emprego. Basta ver, por exemplo, o facto de a Alemanha ter estado em recessão nos últimos anos. Isso afetou, por exemplo, várias áreas de negócios em Portugal, nomeadamente o têxtil.
E Portugal pode ter de se virar para outros mercados, como por exemplo, a China?
Portugal tem tentado diversificar as suas exportações e terá que entrar por esse tipo de opções. Cada vez mais, aliás, é de bom senso que se dependa o menos possível de um número limitado de países para onde exporta. Aliás, Portugal tem feito esforço nesse sentido, mas está muito longe de estar independente, por exemplo, das exportações, tudo o que é para a União Europeia.