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Temos em entrevista agora na tarde informativa da Rádio Observador. Vamos então olhar este estudo da OMS sobre jovens de 45 países, revela que apenas 9,5% dos adolescentes portugueses dizem gostar da escola. Este estudo sobre a adolescência, que se repete a cada quatro anos, destaca Portugal pelo fraco gosto pela escola e também pelo pouco exercício físico dos alunos. O inquérito, que abrangeu mais de 5800 jovens portugueses de 11, 13 e 15 anos, foi realizado em 2018. A investigadora Tânia Gaspar, vice-coordenadora deste estudo em Portugal, está agora conosco. Muito boa tarde, Tânia, obrigado por estar com a Rádio Observador.
Muito obrigada também pelo convite. Boa tarde.
Começamos por estes dados em destaque, no caso do gosto pela escola, o gosto dos jovens portugueses pela escola, ao que parece, tem vindo a cair desde 1998?
É verdade. Este dado preocupa-nos. Realmente tem sido uma constante os jovens referirem que não têm tanto gosto pela escola como nós gostaríamos, mas é importante também perceber que a escola tem vários componentes. Tem os colegas, os intervalos, os professores, as aulas, a comida, outras atividades. É importante percebermos o que eles gostam e gostam menos na escola para podermos também depois agir e melhorar esta situação.
E do que é que menos gostam?
Efetivamente, eles gostam menos da comida, por estranho que pareça. E, por outro lado, também em relação às aulas e à matéria ser difícil, ser demasiada. Muitas das questões têm a ver com a própria matéria e a forma como ela é transmitida. E, por outro lado, também a pressão que eles sentem relativamente aos trabalhos de casa.
Os indicadores que resultam deste estudo têm servido para que as escolas procurem adaptar os métodos de ensino e reforçar o gosto dos alunos pela permanência nestes estabelecimentos?
Sim, eu penso que há um aumento de consciência desta situação. Nós, como equipa, temos desenvolvido uma série de atividades junto da Direção-Geral de Educação, do Ministério da Educação e também em diversas escolas, no sentido de refletir com os professores, também com os alunos, sobre como é que poderemos melhorar e como é que eles podem vir a gostar mais da escola. Eu penso que passa muito por algumas questões. Uma delas tem a ver com o maior envolvimento na escola e um gosto pelo global da escola. Eles sentirem-se melhor na escola, mais felizes, sentirem que pertencem àquele espaço, que podem contribuir, que são ouvidos e que a opinião deles também conta para realmente melhorar o seu ambiente, o seu estar na escola e, consequentemente, a sua aprendizagem.
Como é que se alcança esse desígnio?
Por um lado, conseguindo ouvir os jovens e arranjar um enquadramento para eles serem ouvidos e que tenha consequências práticas, sugestões que eles dão. Por exemplo, uma das questões que eles muitas vezes referem é que eles gostam muito dos intervalos e dos colegas, e que isso contribui muito para o seu bem-estar na escola. E por vezes, cada vez mais fomos a ver, há menos tempo de recreio e eles acabam por ter pouco tempo nos recreios. Uma solução para isto poderia ser aumentar também os recreios ou então, por exemplo, mesmo em contexto de sala de aula, desenvolver atividades de aprendizagem que eles realizem em grupo, em que tenham que debater, em que tenham que trabalhar em conjunto e mesmo no contexto da sala de aula, poderem interagir com os colegas. Ou então também atividades que sejam fora da sala de aula, por exemplo, na escola, no recreio ou mesmo fora, na comunidade, em que eles vão pôr na prática e assistir no dia a dia aquilo que aprendem na sala e provavelmente vão aprender melhor, vão estar mais motivados e vão aproveitar este gosto que eles têm com os amigos. E, consequentemente, indiretamente, também vão melhorar a sua aprendizagem e a relação com os professores. No fundo, deve haver uma tentativa de ver o que eles gostam, o que eles têm mais dificuldade e aproveitar as vantagens e as coisas positivas para melhorar as coisas menos boas.
Não sei se é abordado no estudo, mas este pouco apetite pela escola tem reflexos na capacidade de aprendizagem dos alunos?
Efetivamente, é um facto. Se o aluno está menos envolvido na escola, se gosta menos da escola, acaba por não investir tanto, por não aprender com tanto gosto e, portanto, o seu potencial fica reduzido. Neste caso, se o aluno se sentir melhor na escola e gostar mais da escola, poderá aumentar o seu potencial a nível também acadêmico. Mas é importante ver que o sucesso de um aluno são as notas, mas também é todo o seu desenvolvimento global, toda a sua integração, o desenvolvimento de competências socioemocionais. Temos que ver os alunos e temos que ver os adolescentes com desenvolvimento global, em que as notas são uma componente, mas que também é importante outras áreas importantes, como por exemplo, a saúde mental, o bem-estar, a felicidade e a sensação de pertença.
Este pouco gosto pela escola, esta percentagem tão baixa registrada em Portugal é extensível a outros países que foram alvo desta investigação?
Também há outros países que têm estes valores. No entanto, em termos da média, nós encontramos abaixo desses países. Por um lado, temos feito esse exercício e penso que também o Ministério da Saúde, da Educação e também a Direção-Geral de Educação têm feito o esforço de ver outros países que têm mais gosto pela escola, digamos assim, para compreender que práticas é que são utilizadas e podermos também utilizar algumas dessas técnicas cá em Portugal. No entanto, também temos uma cultura específica que temos que ter em conta. No fundo, observar o que está a ser feito lá fora e, se possível, poder aplicar aqui e adaptar aos nossos alunos e à nossa realidade cultural, social, etc.
Pode dar-nos alguns exemplos de países que estão no topo desta lista, das preferências dos alunos?
De um modo geral, os países nórdicos acabam por ter melhores valores, provavelmente relacionado com a questão da autonomia dos alunos. Nós vemos que na adolescência, uma das suas funções é a autonomia, é os alunos criarem sua identidade, terem o seu cunho. Quanto mais nós pudermos promover essa autonomia e fazer com que eles realmente consigam aprender por eles próprios, acabamos por conseguir que eles tenham mais sucesso, adquiram mais competências e com mais gosto. Portanto, deveremos aprender e tentar fazer o mesmo conosco. Se bem que há muito boas práticas e temos diversas escolas que conseguem realizar projetos, intervenções, estratégias que promovem esse bem-estar. Uma outra sugestão é as escolas partilharem, mesmo internamente, as escolas que estão a conseguir desenvolver um melhor trabalho com os alunos na promoção do bem-estar, podem efetivamente partilhar umas com as outras, aprender e poder construir um resultado final mais positivo.
Esta não é a única abordagem da investigação, é estudada também a obesidade e o excesso de peso. E neste ranking, Portugal é, segundo creio, o sétimo com resultados mais negativos. Quais são os fatores que levam a que Portugal ocupe esta posição na tabela?
Relativamente à obesidade e ao excesso de peso, até os dados em termos internos estão estabilizados. E relativamente ao comportamento alimentar, até temos um valor melhor que a média europeia, e também, por exemplo, as refeições em família, o que também normalmente é considerado um fator protetor. No entanto, esta questão da alimentação também prende-se com a questão da atividade física. E verificamos que nós, comparativamente à média europeia, também temos uma fraca atividade física. E aí, provavelmente associando a alimentação à fraca atividade física, poderemos ter valores preocupantes ou pelo menos que nos levem a refletir relativamente à obesidade e excesso de peso. Em relação à prática da atividade física, o que nós verificamos é que realmente tem diminuído, e vai diminuindo ao longo da adolescência. Portanto, enquanto que os jovens mais novos ainda praticam mais atividade física, dentro e fora da escola, à medida que vão desenvolvendo, ou seja, ao longo da adolescência, vão perdendo esses hábitos. E aqui as raparigas acabam por estar ainda em maior risco, porque ainda praticam menos. Então, há que refletir nestes dados, pensar que a prática da atividade física pode contribuir para várias questões, tanto para o estilo de vida saudável e para a questão do controle do peso, mas também para promover a competência, a perceção de competência, relações interpessoais positivas, estabelecimento de regras, ocupação do tempo livre e do lazer de uma forma saudável. No fundo, a atividade física de um modo geral, poderá ter várias vantagens e ser um fator protetor. E portanto, também deveremos estar atentos como é que poderemos promover mais esta prática nos nossos jovens, nomeadamente nas raparigas.
E a escola cumpre esse papel de incentivar os alunos à prática de exercício físico?
Sim, uma das componentes da escola é exatamente a prática de atividade física, e portanto, isso já é uma contribuição. No entanto, temos duas questões: uma é que por um lado é insuficiente, ou seja, a prática deveria ser mais do que duas vezes por semana que eles praticam na escola. E por outro lado, a prática da atividade física na escola muitas vezes é virada para a competição, muito virada para o desempenho, e alguns dos nossos alunos realmente não têm tanta aptidão para a prática dos desportos mais comuns, e depois acabam por ficar desanimados, não se envolver, tentar recusar ou então fazer uma prática mais reduzida. Portanto, por um lado, seria interessante as próprias aulas serem mais diversificadas, encontrar outras atividades que sejam do gosto também das raparigas e de um leque mais alargado de jovens, que não seja tão focado no desempenho, mas sim, por exemplo, na atividade, na diversão, no sentido de eles não desistirem. Consequentemente, também a escola pode organizar outros, por exemplo, núcleos de desporto com atividades que também as raparigas gostem, ou outras modalidades relacionadas com a dança, etc. Ouvindo os jovens, mais uma vez, ouvir os jovens para ver o que eles gostam e conseguir desenvolver atividades não curriculares, mas extracurriculares, que possam ser desenvolvidas na escola para os jovens continuarem na prática. E, por outro lado, também fazer a ponte com a comunidade. Ou seja, por exemplo, podem mesmo fazer acordos com os ginásios desportivos da área, com natação, etc. E portanto, eles poderem utilizar os recursos da comunidade. E, por outro lado, até ficando com esse conhecimento, por exemplo, nos fins de semana, podem até utilizar esses recursos, o parque ou o ginásio, com os pais, com a família, com os irmãos. E dessa maneira, passar da escola também para o dia a dia e para a comunidade.
E eventualmente até influenciar os próprios pais. A Organização Mundial de Saúde tem alertado para a deterioração da saúde mental dos adolescentes em vários países. Este indicador medido pelos sintomas de nervosismo, irritação e tristeza. Este estudo também aflora este aspecto?
Exatamente. Nós, a nível da saúde mental, também é outra das nossas preocupações. Verificamos que estes dados aqui em Portugal também têm vindo a agravar-se a nível dos tais sintomas físicos e psicológicos, especialmente os psicológicos, nomeadamente o que referiu, a tristeza, a irritabilidade, etc. Neste caso, ainda estamos com valores melhores do que a Europa, do que a média europeia. Portanto, Portugal, neste ponto, está melhor que a média europeia. No entanto, tem vindo a piorar. É algo que nós temos que refletir, por que os nossos jovens realmente têm vindo a aumentar este tipo de sintomas.
Alguma explicação para esse facto?
Há várias explicações. A sociedade tem vindo a ter cada vez mais desafios. Muitas vezes há muita exigência, tanto dos pais, como da escola, como da própria sociedade. E os jovens, por vezes, podem não desenvolver competências socioemocionais adequadas para lidar com a situação Todos nós temos situações e todos os jovens vão enfrentar desafios, vão enfrentar situações em que não sabem tão bem como lidar. E o que nós devemos fazer é trabalhar a nível da prevenção, ou seja, de alguma maneira, desenvolver competências socioemocionais, nomeadamente de comunicação com o outro, de gestão emocional, de autorregulação, de autoconhecimento, para quando os jovens tiverem essas situações de desafio, conseguirem lidar melhor com elas e não sucumbirem. Porque, por exemplo, a ansiedade face aos exames, provavelmente vai estar sempre presente. Agora, se os jovens tiverem maior preparação em termos preventivos, se calhar em vez desses níveis serem muito elevados, acabam por ser menos elevados. No fundo, é prepará-los para enfrentar as situações mais desafiantes ou mais de risco que eles vão encontrar. Por outro lado, também temos jovens que já estão em situações mais graves e mais complicadas. Temos a situação preventiva, no sentido de os munir de competências para lidar com os desafios, e depois também temos jovens que os seus níveis de ansiedade e tristeza já são mais elevados, e aí a intervenção terá que ser mais específica, nomeadamente através do apoio psicológico e da articulação com a família e com a escola.
E o que podem os pais e as famílias fazer para que os jovens tenham essas competências a que faz referência?
Isto é um processo que deve acontecer desde que eles nascem. É um processo de acompanhamento que essencialmente se foca em duas questões, que é os pais saberem ouvir os filhos, saberem respeitar os filhos, mas também se fazerem respeitar. Portanto, haver aqui um equilíbrio entre o afeto e haver algumas regras e supervisão. Essa é a chave. Os jovens devem ser ouvidos, os pais devem ouvir os jovens, acompanhar, supervisionar, mas uma supervisão que dê autonomia e que dê espaço ao jovem. No fundo, é estar ali, a assistir, a verificar como é que o jovem está, mas sem interferir muito no seu desenvolvimento, porque faz parte do papel da adolescência, realmente esta autonomia e esta necessidade de espaço. O papel dos pais, principais, é realmente ouvir, acompanhar, e ir através da comunicação e promovendo uma comunicação positiva com os filhos. E também eles próprios servindo de modelo no sentido de regular as emoções, de não ter comportamentos agressivos, nem comportamentos passivos, porque às vezes a passividade também é um fator de risco. No fundo, é comunicar, ser assertivo e ajudar os jovens a autorregular-se e a gerirem melhor as situações de vida. Este trabalho deve ser feito numa perspectiva global, deve ser feito tanto com os pais, como com a escola, como com a própria comunidade. Muitas vezes através, por exemplo, de programas de competências socioemocionais, por exemplo, realizados na escola ou realizados em conjunto com os pais ou até em articulação entre a escola e os pais, podem-se criar momentos de debate, formação, reflexão sobre as dificuldades que os jovens têm, as dificuldades que os pais têm, que os professores têm, e assim realmente as pessoas terem também uma perspectiva dos outros, das dificuldades, vantagens e recursos que os outros têm, e conseguir todos juntos melhorar esta situação, tanto a nível da escola como a nível da saúde mental.
Tânia Gaspar, investigadora, vice-coordenadora deste estudo em Portugal, que estivemos a olhar nos últimos minutos nesta tarde informativa. Tânia, muito obrigado por estar com a Rádio Observador.
Muito obrigada e continuação de bom trabalho.
Obrigado. Estivemos nos últimos minutos então a olhar este estudo da OMS, Organização Mundial de Saúde, sobre os jovens de 45 países, que revela alguns dados interessantes. Por exemplo, 9,5% dos adolescentes portugueses dizem gostar da escola.