Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
Gabinete de Guerra na Rádio Observador, segunda edição do dia, esta tarde com o historiador Bruno Cardoso Reis. E vamos começar, Bruno, boa tarde, bem-vindo, por uma afirmação de Donald Trump, que não será propriamente estranha aos nossos ouvintes. Afirma o presidente dos Estados Unidos que a guerra com o Irão vai acabar em breve. Alguma razão que leva o presidente norte-americano a reafirmar aquilo que já disse em tantas ocasiões?
Olá a todos. Eu penso que a explicação dessa insistência eventualmente tem mais a vez que há com a própria campanha eleitoral e com o fato de Trump perceber que isto é realmente bastante impopular, esta guerra é muito impopular e contribui para a impopularidade dele e do Partido Republicano neste contexto eleitoral, em que vamos ter eleições agora na próxima semana, 3 de novembro, as intercalares. Na verdade, a votação antecipada já está a decorrer pelo correio. Do que propriamente algum dado novo em termos da estratégia para o conflito, ou seja, quando lhe é perguntado como é que isso vai acontecer, ele próprio diz que não sabe. Portanto, é uma espécie de fezada, mas é uma tentativa de tentar descansar alguns eleitores, mas isso realmente não parece estar a ter muito efeito. É evidente que não há aqui uma grande base para dar grande crédito a esse tipo de afirmações. É bastante evidente que Donald Trump não tem uma estratégia clara de saída do conflito, seja diplomática, seja militar.
Sente-se também, o presidente norte-americano, que os Estados Unidos não vão atingir o Irão antes das eleições intercalares agendadas para a próxima terça-feira, dia 3 de novembro. E depois?
E depois e até antes. O problema com Donald Trump é que ele tantas vezes diz coisas que depois não se concretizam. Inclusive, eu recordo que já houve dois episódios em que havia negociações em curso com o Irão e em que acabam por acontecer ataques contra o Irão. Portanto, o fato dele dizer isso, não é garantia de que seja mesmo assim. Pode ser até uma tentativa de criar uma impressão de falsa segurança entre os iranianos e permitir um ataque com maior eficácia antes de 3 de novembro. Mas teremos de ver. Em todo caso, e sobretudo, há esse outro aspecto, que é, como dizes, apesar de tudo, mesmo a acreditarmos no que está a ser dito, é só até 3 de novembro. E realmente o que nós vemos, objetivamente, é uma série de sinais de que pelo menos está a ponderar um novo ataque em grande escala, porque temos concentração de meios, desde a Base das Lajes até um terceiro porta-aviões, com toda a força-tarefa que o acompanha, que é basicamente do tamanho da Marinha Portuguesa, portanto a acrescentar aos dois que já estavam, com a evacuação de americanos, por exemplo, desta zona do Golfo, famílias, civis, pessoal diplomático não necessário, etc. Tudo isso aponta que há realmente uma possibilidade séria de voltar a haver uma escalada militar no conflito, seja antes, seja depois do 3 de novembro.
E agora uma pergunta: quem controla o Estreito de Ormuz e há garantias de navegabilidade em segurança por este importante ponto de navegação para a economia mundial? Ora, o Comando Central Americano diz que retirou todas as minas que estavam nas águas do Estreito de Ormuz, garantindo desse modo a passagem segura dos navios, sendo que de hoje há também a informação de que dois petroleiros que navegavam precisamente no Estreito de Ormuz foram interceptados pela Guarda Revolucionária Islâmica. Circulam os navios de forma livre e em condições de segurança ou não pelo Estreito de Ormuz, Bruno?
O que temos aqui muito claramente é uma guerra da informação. De um lado temos o responsável militar máximo norte-americano nesta região, este CENTCOM é um comando operacional conjunto que reúne todos os meios dos diferentes ramos numa determinada região, neste caso na zona do Médio Oriente. Realmente o almirante Cooper é um militar bastante prestigiado e que tem alguma credibilidade. Garantir que todas as minas foram retiradas é algo que a maior parte dos especialistas dirão que é muito difícil de garantir, porque inclusive não se pode garantir que mesmo que se tenham retirado todas as que estavam, entretanto não tenha havido umas quantas que foram instaladas, além de que há minas mais sofisticadas atualmente que se depositam no fundo do oceano, que são mais difíceis de detetar, etc. Que a Marinha iraniana no sentido convencional foi basicamente afundada, isso realmente é verdade. Infelizmente isso não é suficiente e mesmo estas garantias norte-americanas não são suficientes para dar completa segurança à navegação, porque realmente e objetivamente sabemos que basta passar um drone ou ser lançada mais uma mina para essa segurança voltar a estar em questão. É verdade que os norte-americanos conseguiram, de fato, com esta navegação mais a sul, mais próximo da costa do Omã restabelecer alguma da navegação pra exportação de petróleo e gás do Golfo, mas o problema é que isso também é num contexto de grande insegurança, de grande risco e portanto, ou são navios dos próprios países do Golfo, que assumam esses riscos por conta própria, ou sendo navegação comercial, e apesar de tudo, os países do Golfo não têm frotas suficientes, sendo navegação comercial, são fretes muitíssimo caros, porque obviamente as empresas querem fazer pagar por correr esse risco. O que é aqui bastante evidente é que Há uma guerra da informação entre os dois lados. Eu não sei se aquilo que diz a guarda revolucionária realmente é credível ou não. Eu tenderia a dar um pouquinho mais de crédito aos militares norte-americanos, não tanto ao presidente americano, mas aos militares americanos. Agora, objetivamente, o que também é verdade é que não se está numa situação normal. Basta ver todo o enorme esforço militar que os Estados Unidos estão a fazer, sequer para garantir a passagem de um número de navios, que é bastante inferior ainda assim àquilo que era antes do início desta guerra.
Ainda sobre o Oriente, as eleições em Israel, já há alguma luz ao fundo do túnel relativamente ao futuro político, particularmente à formação de governo em Israel, à luz dos resultados eleitorais?
Não. O que temos é, no fundo, a confirmação de eventualmente duas surpresas. Uma é: Netanyahu venceu, pelo menos tendo em conta as expectativas, objetivamente ele perdeu bastantes deputados e deixou de ter maioria absoluta. Mas a verdade é que, ainda assim, quer o seu partido, quer o seu bloco, ficaram à frente do bloco da oposição e do principal partido da oposição, 53 pro bloco Netanyahu, 48 pra oposição. A surpresa aqui é que Netanyahu tenha conseguido, apesar de tudo, resistir a esta queda de popularidade, muito por força do 7 de outubro. A outra grande surpresa, realmente, é a quase duplicação do número de deputados, de representantes dos partidos árabes, que subiram de 10 para 19. Isso basicamente significa que torna-se impossível formar um governo com maioria absoluta, a não ser ou que hajam de se fazer destes blocos, e que haja aqui uma espécie de governo de união nacional, mas, por exemplo, a oposição diz que só aceitaria isso se Netanyahu saísse, se fosse com o Likud, mas sem Netanyahu. Já há décadas que basicamente Likud e Netanyahu são a mesma coisa. Ou então que realmente haja aqui algum acordo com os partidos árabes. E o que se pode esperar, provavelmente, é bastantes dias de negociações muito complexas e eventualmente depois, até dezembro, isso teria a terminar, esse processo, e depois eventualmente novas eleições antecipadas. Sendo que se este nível de mobilização dos árabes israelitas se mantiver, a mim parece-me que a certa altura vai ter que se quebrar aqui este tabu de que realmente não se formam governos com a participação dos partidos árabes israelitas, sendo que também o que está em questão não seria propriamente eles participarem no governo como ministros, mas darem apoio parlamentar a algum governo.
Agora, a guerra no leste da Europa. Começava aqui por uma afirmação feita pelo conselheiro de política externa do Kremlin, Yuri Ushakov, que disse hoje que os representantes europeus podem assistir às conversações entre Estados Unidos, Rússia e Ucrânia em Abu Dhabi, mas com uma condição: não podem participar. Deve a União Europeia prestar-se à participação nesta cimeira tripartida nos moldes aqui definidos por Yuri Ushakov?
Bem, acho que desde logo isso tem que ser definido pelas três partes, e não apenas pelo lado russo. É preciso que os europeus também perguntem aos americanos: "Mas então é este o papel que estamos reservados?" E deixar também evidente que não vão aceitar que haja qualquer tipo de conversa ou dissidência em relação a questões que impactam a Europa, coisa como sanções ou bens congelados, etc, sem que os europeus estejam envolvidos. Mas além disso, acho que aí pode-se ponderar enviar um diplomata júnior para basicamente tirar notas, embora também não veja aí necessariamente uma grande vantagem, porque à partida os ucranianos mantêm os seus aliados europeus informados, mesmo que os norte-americanos já não façam isso, ou não façam isso exatamente com o mesmo crédito com que fariam eventualmente no passado. Portanto, não vejo propriamente uma grande vantagem na participação nessa modalidade, mas também não excluo que isso possa acontecer, mas a acontecer realmente seria com uma delegação de muito baixo nível, vamos dizer assim, porque realmente se é só pra tirar notas, não vale a pena ser a outro nível. Mas vamos ver, e como eu digo, à partida, isso teria de ser acordado entre todos os participantes e não pode ser assim uma espécie de um ditado apenas do lado russo. Portanto, acho que também será um teste pra ver aqui como é que é o estado das relações entre os Estados Unidos e os aliados europeus, por comparação com as relações com a Rússia de Putin.
Ainda uma nota final para a disponibilidade manifestada pelo porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, que disse hoje que Vladimir Putin está disponível para falar com qualquer líder mundial. Questionado sobre a disponibilidade do presidente russo conversar com o homólogo ucraniano, Volodymyr Zelensky, respondeu Peskov apenas que ainda ninguém ligou. Há aqui alguma abertura, uma abertura não manifestada até aqui, para uma conversa direta com Volodymyr Zelensky ou isto é apenas retórica?
Eu acho que isto corresponda, no fundo, à ideia de que não é pela Rússia que não há negociações, o problema é que a Rússia não negoceia de boa fé. Tivemos a semana passada uma conversa entre o presidente da Finlândia, o primeiro-ministro norueguês e o presidente Putin, e o que vem do Kremlin é que os europeus têm de aceitar integralmente e incondicionalmente as condições russas. Isso não é linguagem de uma negociação, isso é a linguagem que se usou no final da Segunda Guerra Mundial para exigir, não é por acaso que se utiliza esses termos, uma rendição incondicional. Mas vai-se conversar o quê? Se aparentemente a única coisa que há a fazer é receber as condições russas e dizer que sim. Aparentemente não se ganha muito com essas conversas. Ainda assim, parece-me que os europeus também, eu percebo que tenha havido aqui, logo a seguir à invasão da Ucrânia, tenha havido uma pausa nesses contactos, que aliás nem foi completa, o Macron ainda falou umas quantas vezes com o Putin, mas porque claramente a Rússia não estava de boa fé, tinha passado meses e meses a enganar os europeus e o resto do mundo, a dizer que não ia invadir a Ucrânia, etc. Agora, eu tenho insistido muitas vezes nisso, a diplomacia não é uma recompensa aos amigos, é algo que é preciso para lidar com adversários, para lidar até com inimigos. E eu acho que os europeus devem ter realmente contactos com o Putin, mesmo que a partida os sinais não sejam propriamente muito úteis. E realmente à Rússia convém passar esta ideia, que Putin não está assim tão isolado, mas como eu digo, haver contactos diplomáticos não quer dizer que se esteja de acordo ou que se esteja a abandonar a Ucrânia ou a defesa de determinados princípios e interesses dos europeus. Pelo contrário, é perfeitamente possível fazer isso em conversas diretas com o outro lado.
Uma genuína disponibilidade para aqui estar todas as semanas para comentar os temas relacionados com a guerra no leste da Europa e também no Médio Oriente. Manifesta o Bruno Cardoso Reis, historiador Bruno Cardoso Reis, a quem agradeço a presença nesta segunda edição do dia de Gabinete de Guerra, que está de regresso amanhã.