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O Serviço Geológico Britânico está a alertar para uma tempestade solar nas próximas horas que consideram canibal. Trata-se do mesmo fenômeno que deu origem a auroras boreais em Portugal e no mundo nesta última noite. Houve uma atualização das previsões para os campos geomagnéticos e prevê-se o nível G5, ou seja, o maior nível na escala de tempestades da Administração Oceânica e Atmosférica Nacional dos Estados Unidos. Agora aproxima-se uma nova tempestade, que vai ser a maior nos últimos 20 anos. Estamos com Rui Agostinho, astrônomo e investigador na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, para falar acerca deste tema. Obrigado por ter aceitado o nosso convite para esta entrevista. Te perguntava primeiro: como se formam estas tempestades solares?
Muito obrigado por esta oportunidade de estar a falar convosco também. O que está a acontecer é extremamente interessante. E a pergunta é sobre como se formam estas tempestades solares. Elas formam-se ao longo do ciclo de 11 anos que o Sol tem, em que a atividade aumenta e depois diminui. Portanto, não é sempre durante o ciclo, é quando o ciclo está no máximo. O máximo foi há cerca de um ano. Portanto, agora começa a diminuir. Mas de vez em quando, na parte alta da atmosfera solar, aquilo que já é entrar pela cromosfera e também pela coroa solar, o que acontece? O campo magnético solar é extremamente intenso, está preso com o gás todo altamente ou totalmente ionizado que o Sol tem. Este gás que está ionizado tem carga elétrica, portanto, ele próprio cria campo magnético e responde ao campo magnético que existe localmente. Esta dinâmica é tão grande que, por vezes, nas zonas mais densas, as linhas de campo fecham, chocam umas com as outras, fecham-se, fazem reconexões e por vezes, o que acontece? O fechar das linhas, metade vai para fora do Sol, a outra metade regressa ao Sol, mas a que vai para fora do Sol tem força suficiente para ser ejetada para o espaço. Isto acontece regularmente. Por vezes, quando temos o máximo ou próximo do máximo da atividade solar, podem acontecer estas designadas ejeções de massa coronal. São ejeções de muito maior quantidade de massa, quando se compara com aquilo que é o vento solar normal, por um lado. Por outro lado, é a velocidade também com que este plasma solar é atirado para o espaço. E isso interessa. Por quê? Porque uma parte disso atinge o planeta Terra. O planeta Terra é um pontinho lá perdido no meio do espaço, temos apenas menos de 13 mil km de diâmetro, mas quando vem este vento solar, na realidade não é um vento normal, é o que se é proveniente desta injeção de massa coronal, quando atinge o planeta Terra, vem com velocidades que podem atingir uns 2 mil, 3 mil km/s. Portanto, a quantidade de energia de cada partícula é imensa. Como é que o planeta Terra responde? O planeta Terra tem um campo magnético e aprisiona estas partículas no seu campo magnético. Desculpe, já estou a alongar, mas sua pergunta foi apenas a produção das ejeções de massa coronal e destas tempestades. Eu já estava também a avançar para a resposta que existe pelo planeta.
Sim. E podia fazer um balanço acerca do fenômeno que vimos na última noite?
Aquilo que foi observado, e será observado provavelmente esta noite também, é o choque que estas partículas causam. As partículas não são mistérios, são o quê? São prótons, são núcleos de átomos de hidrogênio, que têm elétrons separados, mas também aparecem átomos de hélio, que é a segunda partícula mais abundante. Na realidade, não é o átomo todo, é só o núcleo, partículas alfa. Quando atingem o planeta Terra, têm um comportamento diferente do que quando, por exemplo, atingem a Lua. É que a Lua não tem campo magnético. E estas partículas atingem com altíssima velocidade e embatem em tudo o que está à superfície da Lua. Estou a dizer isto porque viver à superfície da Lua, todas as pessoas que lá estejam, os instrumentos que lá estejam, na realidade, são embatidos por estas partículas que são de altíssima energia. Podem ter quase 800 kilo elétron-volt, que é muito. As ligações entre as moléculas são apenas um, dois, três, quatro. O que acontece na Terra é diferente. Como a Terra tem, de facto, um campo magnético forte, estas partículas com carga elétrica não atingem a superfície, porque ficam a espiralar no campo magnético fortíssimo que a Terra tem. Mas o campo magnético da Terra não passa sempre ao lado. Na realidade, na zona dos polos magnéticos, na parte do geomagnetismo, quando eles se aproximam da superfície terrestre, canalizam o movimento deste rodopiar das partículas presas nas linhas de campo e atingem a alta atmosfera terrestre. O que acontece? Na realidade, a atmosfera terrestre já tem uma densidade de partículas que é elevada. E então estes prótons e partículas alfa embatem contra os átomos. Na altíssima atmosfera, já as moléculas estão desfeitas em átomos e há átomos ionizados. E então o fenômeno dos átomos de oxigênio e de azoto, nitrogênio Perderem ou capturarem eletrões e excitarem e desexcitarem, produzem essa emissão de luz que se observa à noite como sendo auroras boreais. Este efeito, que é consequência das injeções de massa coronal do Sol, dependendo da velocidade com que forem emitidas pelo Sol, pode demorar um dia, dois ou três dias a chegar à Terra. Depois transformam-se num espetáculo na Terra, na altíssima atmosfera, que é esta emissão de luz, que é muito dinâmica, porque a cada segundo aquilo vai variando, a cada minuto é extremamente diferente e torna-se um espetáculo para quem está e pode observar isso. Neste caso particular de ontem e de hoje, houve duas, três injeções muito grandes no Sol, no dia 7, no dia 9 e agora também, recentemente, dia 11, houve novamente uma injeção. Estão a chegar à Terra e proporcionarão este espetáculo, que se posiciona essencialmente do lado do Canadá todo, passa um bocadinho pela Gronelândia, o norte todo da Europa e depois também o norte da Ásia, à volta do polo magnético.
Sim. Então prevê-se para esta noite uma tempestade mais forte que pode afetar tecnologias como os sistemas de rádio e GPS em Portugal, certo?
Não sei se Portugal será afetado diretamente. É raro chegar com força até latitudes tão baixas. O norte de Portugal está nos 42 graus, portanto é possível. Já tivemos recentemente a visualização de auroras boreais no norte do país, mas, na realidade, são extremamente longínquas. Devido à curvatura da Terra, é possível observar, portanto, não é exatamente sobre o nosso país, mas nos países em que aquilo acontece mesmo sobre o país, o que acontece? O fato da ionosfera terrestre ser carregada com uma avalanche de partículas também altera os potenciais elétricos entre a superfície terrestre e a alta atmosfera. As linhas de alta tensão são sensíveis a isso, as de muito alta tensão, mas em particular é na ionosfera que se refletem também ondas de rádio e as comunicações de rádio então são altamente perturbadas, ficam cheias de ruído. Isso faz perder as telecomunicações. Portanto, a emissão da Terra para os satélites fica altamente perturbada também. E isto resolva-se, por um lado, poder haver impacto sobre as linhas de alta tensão, isto é no solo mesmo, porque temos linhas de alta de 400 mil volts e há quem tenha, há países que têm 500 mil volts. Esta pequena diferença, na realidade, puxa muita corrente aos transformadores que estão nas pontas e há casos em que se apaga a distribuição de alta tensão, por um lado. Por outro lado, é na parte das telecomunicações, indo os próprios satélites. Portanto, os satélites, a eletrónica que está a bordo, o satélite é investido por esta grande densidade de partículas e, por vezes, estragam os equipamentos a bordo. São efeitos que acontecem. Na parte de rádio, sim, durante umas horas perde-se alguma comunicação, mas depois é restabelecida, porque este é um fenómeno que não dura dias a acontecer, mas é uma questão de uma hora, duas horas e depois passa.
Então a possibilidade, em Portugal, de sofrer implicações é bastante reduzida, mas se acontecer, será em locais de maior altitude.
Sim, se quiser pensar dessa maneira, mas eu diria que há uma probabilidade baixíssima, mesmo se virmos os mapas que a NOAA publicou sobre o impacto que é esperado para hoje. Chega, de facto, a um nível G4, G5 é mais alto, deixa a possibilidade de haver o nível G5, mas isso está muito concentrado. Esses valores elevados não estão do lado europeu, estão mais do lado asiático, do norte asiático todo, ou mesmo a parte do Polo Norte, mais o Canadá. Na latitude de Portugal, não há nada que seja considerado de alto risco. Longe disso, mas muito longe disso mesmo. Agora, como aconteceu já há dois anos, creio, ou o ano passado, até foi há dois anos, 2023, o início de 2024, de Portugal conseguiam-se ver, de facto, auroras a acontecer bastante mais longe do nosso país. Mas eu acho que no nosso país nada acontecerá.
Rui Agostinho em declarações à Rádio Observador