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E agora junta-se a nós José Manuel Anes, especialista em terrorismo. Antes de mais, bom dia, obrigado por estar conosco aqui na Rádio Observador. José Manuel Anes, em duas semanas, dois atentados em França. Está a aumentar o radicalismo na Europa? É caso para começarmos a nos preocupar?
Sim, de facto, em França, mas também já tinha havido outros ataques, por exemplo, em Inglaterra, não muito distante no tempo. Ora bem, é uma vaga de terrorismo chamado low cost, porque já não é feito com recurso a explosivos, a espingardas automáticas, como foi, por exemplo, o ataque à Bataclan. Basta ter uma faca e a vontade de matar. No outro dia foi o professor que foi decapitado, hoje aquela senhora foi degolada e os outros foram feridos mortalmente com facadas no tórax, etc. Isto é realmente um fenómeno altamente preocupante, porque é aquele terrorismo que é difícil de monitorizar, porque é um indivíduo que se radicaliza e que pode até nem fazer muitas expressões públicas da sua radicalização, e depois aparece e faz um atentado deste.
E como é que as autoridades podem controlar este tipo de radicalismo, este tipo de ataques, estas pessoas? Como é que se controlam? Monitorizando as redes sociais?
Sim, exatamente. Essa é uma das preocupações que as autoridades têm tido. E também verificar, porque há milhares de indivíduos que têm a ficha S, a ficha do radical. O problema é saber que tem que haver uma graduação dessa ficha S, porque é preciso saber aqueles que passam das palavras aos atos. É difícil, claramente. Tem que ter um conjunto de estratégias extremamente apuradas para tentar cercar esses indivíduos. Agora, não se pode ter um polícia atrás de cada um dos radicais, que são milhares. Tem de haver também a colaboração da comunidade muçulmana. E no outro dia houve uma resposta muito boa, quando foi a decapitação do professor, e aí muitos imãs, os líderes religiosos muçulmanos, manifestaram que estavam contra aquele tipo de ações. Até existe uma associação dos imãs moderados a nível europeu, à qual pertence o nosso xeque Nir. E é também um dos caminhos. O próprio Islão tem que rejeitar estas barbáries. Aliás, o nome barbárie é assumido por eles próprios. Há um texto extremamente importante no começo do Estado Islâmico, em que a gestão da barbárie é extremamente significativa, porque eles fazem isto de uma maneira calculada. É semear o terror, assustar os adversários e, ao mesmo tempo, atrair para si mesmos todos os radicais que estão por aí à solta.
José Manuel Anes, chega-nos agora também aqui em última hora esta informação que o consulado francês em Jedá, na Arábia Saudita, também foi alvo de um ataque. Um guarda ficou ferido, já foi transferido para o hospital. Parece que os alvos nesta altura está a ser França, ou seja, são alvos franceses. Conseguimos entender o porquê?
A França tem uma grande comunidade muçulmana, creio que são cerca de quatro milhões, mas além disso, ela teve algum tipo de intervenções, por exemplo, no Sahel, com as operações Serval e agora Barkhane. Esse tipo de intervenções. Claro que a França tem interesses na zona, mas tem sido importante para conter o estabelecimento de um Estado islâmico aqui, não muito longe do sul da Europa. A França torna-se, desde há muito, um alvo, e sobretudo, claramente um alvo para o terrorismo, e ainda por cima é alimentado recentemente pelo presidente Erdogan, que quer ser um novo sultão otomano e que fez declarações incendiárias relativamente à França.
Há também agora mais uma informação que nos chega aqui de um ataque ou de uma tentativa de ataque também depois deste de Nice, em Avignon. Um homem armado com uma faca também ameaçou pessoas na rua. O jornal o "Libération" está a dizer que o atacante foi abatido a tiro. Ou seja, parece que há aqui um ataque concertado. Haverá aqui alguma concertação internacional com estas três situações no mesmo espaço de tempo?
E repare, quando nós deitamos muitos foguetes, porque o Estado Islâmico tinha acabado fisicamente na Síria e no Iraque, é preciso ter cuidado, porque o mais importante são as ideias ultra-religiosas fanáticas, e essas permanecem. Essas vão alimentar estes radicais que surgem do nada, às vezes do nada, mas outras vezes em núcleos de amigos, familiares, etc. As ideias religiosas têm que ser combatidas, em primeiro lugar pelo Islão moderado, que existe, felizmente, e as autoridades têm que andar em cima e vigiar as redes sociais, claramente.
José Manuel Anes, falava também um pouco estas declarações de Erdogan, poderão estar a motivar este tipo de radicalismo.
Claramente, ele quer instigar e ser a vanguarda desta resposta contra a França. Ele é uma pessoa pouco recomendável. Eu não sei como é que ele continua a pertencer à NATO, mas a Turquia é um grande país e que eu prezo muito. Não tenho a mesma opinião relativamente a ele e à direção da Turquia atual. É um problema grave, um problema gravíssimo mesmo, porque ali no Mediterrâneo Oriental há uma situação e há provocações constantes da Turquia contra a Grécia, e também o papel dele ali na Líbia é complicadíssimo. Temos a situação muito complicada. A nível destes terroristas espontâneos, e também de uma estratégia do Erdogan que está a alimentar este ódio contra o Ocidente e contra a França, em particular.