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Em direto neste jornal das 20h, está agora a antiga eurodeputada e antiga dirigente socialista Ana Gomes. Muito bom dia, Ana Gomes. Obrigada pela disponibilidade. Já temos este primeiro candidato assumido à liderança do PS. Vai ficar à espera de Pedro Nuno Santos?

Vou ficar à espera que haja uma competição saudável no PS. Acho que é o que convém ao PS e ao país. E portanto, haverá outros candidatos, mas acho que é um candidato sério, com um bom registro como ministro e que mostra que há a possibilidade de fazer uma campanha que seja, espero eu, de rutura com todo um esquema de promiscuidade com negócios que infelizmente foi marca de algumas direções do PS, incluindo esta última, como estamos a ver.

E portanto, nesta altura o que está a dizer é que é preciso mudar de ciclo e de caras dentro do Partido Socialista?

Não, sobretudo de políticas. De políticas de promiscuidade, entre a defesa de interesses privados, que muitas vezes não coincidem com o interesse público. E é essa promiscuidade que efetivamente é extraordinariamente nociva à própria confiança dos cidadãos nos instrumentos de poder democrático, como são os partidos políticos, designadamente o PS, que é um instrumento fundamental da democracia em Portugal.

E é em clima de pré-campanha que vai haver oportunidade de se fazer essa reflexão dentro do Partido Socialista?

Com certeza tem que ser, é um momento de crise profunda para o país. Eu estou em Bruxelas e pude ver o estrago tremendo que isto fez na imagem do país, que está a fazer na imagem do país. Já fez. E portanto, é bom que tenhamos consciência disso e temos que mudar em todos os sentidos. É perfeitamente inaceitável as soluções misóginas que foram contempladas e oferecidas pelo próprio PS para esta fase interina. Desde logo, é difícil explicar que um primeiro-ministro que está sob investigação criminal, com ou sem fundamento, isso ver-se-á, fica em funções por mais quatro meses. É muito difícil de explicar. É muito difícil que a governação, mesmo de gestão, que se possa fazer neste tempo, não ofereça sérias questões, até para observadores externos. Depois, é inacreditável que nos nomes contemplados por soluções interinas, que foram descartados, desde logo, se comprometa a independência do Banco Central, que é tantas vezes apregoada como essencial. E é evidente que ela está comprometida a partir do momento que é o governador do Banco Central, que aliás não tem nenhum registro conhecido no PS, tem sim na governação anterior, mas não no PS, que é oferecido como solução interina. E sobretudo, parece-me ainda mais escandaloso que não haja uma única mulher nesse leque e que inclusivamente a solução que seria óbvia, que é a solução que tem sido de substituição do primeiro-ministro António Costa, que é a vice-primeira-ministra Mariana Vieira da Silva, tenha pura e simplesmente sido descartada. É extraordinário que isso tenha acontecido. E é significativo de uma forma de fazer política profundamente antidemocrática para um setor que até é majoritário na população, que são as mulheres, e profundamente careta, antiquado. Estamos aqui nesta situação de limbo por quatro meses, que eu compreendo que é de alguma maneira necessário para permitir justamente a recomposição no PS, mas tem que ser uma recomposição que, de facto, faça a rutura com o esquema de promiscuidade com negócios que tem sido demasiado visível, não só na forma de governação do PS, mas também noutros principais partidos, como o PSD, que estiveram também no poder entretanto, nas últimas décadas, e com resultados absolutamente desastrosos.

Como é que se pode fazer então essa rutura dentro do Partido Socialista? Defende que o próximo secretário-geral do Partido Socialista seja uma mulher?

Não defendo que tenha que ser necessariamente uma mulher. Defendo é que, obviamente, há mulheres capazes no Partido Socialista, como tem havido no governo, e elas não podem ser descartadas pura e simplesmente. Quando se faz uma lista de quatro nomes para sugerir uma solução interina, é perfeitamente inaceitável que não haja nenhuma mulher nesses quatro nomes, em particular aquela que tem funcionado efetivamente como vice-primeira-ministra do país, para uma solução interina. De qualquer maneira, o que importa é que a direção futura do PS seja escolhida com base no programa e, naturalmente, no registro histórico das figuras que encabeçarão esses programas. E esse programa tem que ter um compromisso claro, decisivo, para todos os cidadãos, não apenas para os socialistas, que se faz uma rutura com os esquemas promíscuos dos negócios, que são os esquemas que já levaram a um julgamento muito negativo sobre o PS na governação Sócrates e que, obviamente, neste momento estão também em causa nesta crise. E independentemente das responsabilidades Que venham a ser apuradas ou não as responsabilidades criminais do próprio Primeiro-Ministro, nos termos de um comunicado do Ministério Público que é bastante nebuloso. Mas a verdade é que, independentemente desse parágrafo nebuloso, que aponta para uma investigação criminal que impende sobre o Primeiro-Ministro e que é o que, de alguma maneira, está na origem desta crise, há outros fatores que também demonstravam que o Primeiro-Ministro não teria condições para continuar. E esses são os que presidiram ao seu fraquíssimo julgamento de convidar para seu chefe de gabinete e para negociador em nome do Governo do país, um seu amigo, que obviamente tem todo um historial altamente perturbador, de exemplificação exatamente dessa promiscuidade entre os negócios e as redes de tráfico de influência. Além da questão do ministro Galamba utilizado para afrontar o Presidente da República, do ponto de vista político.

Perante a gravidade da situação que está a descrever, Ana Gomes estaria disponível para assumir a liderança do Partido Socialista?

Eu sou uma mera militante de base, não faço parte de nenhum órgão do Partido Socialista, não posso sequer ir lá dar a minha opinião. Dou-a sempre que tenho a oportunidade no espaço público. Tenho uma intervenção cívica e assumo sempre ser socialista, porque é esse o meu partido, é o meu ideário, é o meu programa de referência para a governação do país e da Europa. Mas a minha intervenção é de cidadã, não tenho cargos, não pretendo ter cargos e portanto vou continuar a ter este tipo de intervenção e não me movo por quaisquer desígnios de cargos. Acho que, pelo contrário, eu sou de uma geração, estou a fazer 60 anos em breve, e acho que é a altura de outras gerações assumirem responsabilidades. Felizmente, não faltam pessoas capazes, com provas dadas, e portanto eu espero que a competição no PS seja uma competição saudável, clara, e que faça uma rutura com estes modos promíscuos de governar o país. E portanto, já temos um candidato declarado, que eu penso que é um candidato honorável e com provas dadas. Espero que haja outros, espero que Pedro Nuno Santos seja exatamente uma das candidaturas que se concretize. Espero que haja candidaturas de outras pessoas, designadamente mulheres, e que haja, de facto, uma competição saudável e um compromisso claro de rutura com esses esquemas corruptos e promíscuos do passado.

Ouvimos ainda há minutos Vitalino Canas aqui na Rádio Observador defender o nome de Alexandra Leitão.

Com certeza, é um bom nome. Aí está um outro bom nome. E é o nome de uma mulher que eu acho que traria também um salutar debate e portanto definição de uma nova orientação do PS. Eu penso que o PS continua a ser um referencial fundamental para a democracia em Portugal e portanto é o próprio PS que tem que se regenerar e tem que pôr a mão na consciência, tem que fazer aquilo que não fez, que António José Seguro tentou fazer e que foi interrompido quando ele foi afastado, exatamente porque António Costa decidiu assumir e disputar a liderança. Nessa altura, lembro-me que António José Seguro claramente disse que, no fundo, Sócrates e muita gente ligada a Sócrates e aos esquemas de funcionamento de Sócrates permaneceriam no poder. E infelizmente, foi isso que a governação de António Costa demonstrou quando nomeou, por exemplo, o antigo chefe de gabinete de Sócrates, para seu próprio chefe de gabinete, sabendo todo o historial, sabendo até que no intervalo ele tinha passado pela Martifer, outra empresa altamente suspeita dos esquemas de tráfico de corrupção, de tráficos de influências, etc., no país. Eu estou-me a lembrar, por exemplo, do seu papel na privatização de Estoril Sol, aliás, feita no tempo do governo Passos Coelho, Portas, e outras pessoas, designadamente a história do tal amigo que era sistematicamente com um historial pesado, que é nomeado, por exemplo, para administrador da TAP. Esse amigo que até tinha todo um percurso de responsabilidade sobre os prejuízos acumulados da TAP até esse período, por causa daquele sinistro negócio da aquisição da VEM no Brasil, e para outro tipo de funções em representação do Estado. Por exemplo, eu lembro que o Primeiro-Ministro nomeou Diogo Lecesso Machado para negociar com a Isabel dos Santos a salvação do BPI e, portanto, a saída do BFA angolano do BPI e todo o esquema relacionado, por exemplo, com Isabel dos Santos.

Posso concluir, portanto, que a militante de base Ana Gomes ainda não sabe quem vai apoiar para a liderança do Partido Socialista?

Não, eu não sei é quem são todos os candidatos e candidatas.

Precisa de saber disso.

Mas eu posso a partir daqui dizer que se Pedro Nuno Santos se candidatar, eu serei apoiante de Pedro Nuno Santos.