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A primeira pergunta que eu lhe faço é sobre a sua reação. Sei que são momentos difíceis e as palavras não são sempre as mais fáceis de dizer, mas sei que soube há momentos do falecimento do Nuno Guerreiro. Qual a primeira reação?

É a mesma reação a quente, porque acabei de saber através de vocês. Tinha o telefone desligado. Quando liguei, era uma mensagem vossa que tinha e, portanto, é a quente. Estou chocada, muito triste e a fazer aquilo que todos nós fazemos quando parte alguém de quem gostamos, que é contar a história outra vez toda, desde o momento em que nos conhecemos até à última vez que o vi. E a última vez que o vi foi a fazermos uma homenagem à Sara Tavares, de quem éramos ambos não só amigos, como admiradores. Eu conheço o Nuno desde a adolescência, porque o Nuno andou no Conservatório de Dança, tal como eu andei no Conservatório de Dança, portanto conhecemo-nos desde aí. E depois quando ele começou a cantar, eu estive sempre muito perto desse seu sonho de concretizar o seu talento através de um projeto musical e foi muito através da Ala dos Namorados, que eu acompanhei muito de perto. Acompanhei inclusivamente tantas vezes as pessoas a ficarem completamente inebriadas com a voz. E eu não gosto de desvalorizar os adjetivos, mas com a voz única, muito singular do Nuno. Era absolutamente reconhecível. Não se podia ouvir uma voz do Nuno na rádio sem se saber imediatamente que era o Nuno Guerreiro. Era um menino-homem, com muitos medos, uma generosidade muito grande. Ainda com dificuldade em acreditar. E guardo aquilo que partilhámos quando a Sara partiu, em que ele também estava muito triste e também dizia: "Vou ter muitas saudades da Sara". E eu também vou ter saudades do Nuno, porque apesar de não sermos amigos no dia a dia, crescemos e quando nós estamos lá no início do nosso crescimento, há sempre uma coisa que fica para todo o sempre.

A Catarina já enumerou alguns dos aspetos mais importantes daquilo que era o Nuno, da voz única, da vossa amizade logo ao início das vossas vidas. Eu creio que a Catarina, não estou a dizer nenhuma mentira, escreveu uma letra com o Nuno para a música "Solta-se o Beijo".

Não, eu escrevi a letra, não escrevi com o Nuno. De facto, escrevi algumas letras para a Ala dos Namorados, sempre compostas pelo João Gil, e uma delas foi o "Solta-se o Beijo", que eu escrevi, dei ao João e o João musicou e tornou aquilo que eu escrevi numa letra de uma canção e numa canção. Transformou as minhas palavras, que foram escritas por mim, numa canção e na altura, para mim, foi muito óbvio que fazia muito sentido juntar as duas vozes ímpares, a do Nuno Guerreiro, que era o vocalista da Ala dos Namorados, e da Sara, que nada tinha a ver com a Ala, mas que na altura eu propus ao João Gil que a convidassem para fazer um dueto com o Nuno. E a partir daí nasceu também esta amizade entre os dois. E portanto, o "Solta-se o Beijo", escrito por mim, simboliza também esse encontro entre duas pessoas tão talentosas, tão singulares, o Nuno Guerreiro e a Sara Tavares.

Para terminar esta entrevista, já falou da voz única, da voz inconfundível. Cada vez que nós estamos na rádio ou até meramente a ouvir músicas numa plataforma, sempre ouvimos a voz do Nuno Guerreiro e sabemos quem é. É essa a marca que ele deixa para a música portuguesa daqui em diante?

Sim, eu acho que aquilo que ele deixa é uma voz inconfundível, uma capacidade de emocionar, porque eu vi muitas vezes. Assisti a muitos concertos da Ala dos Namorados e vi muitas vezes o público muito emocionado com aquela voz que era meio de anjo, meio de pessoa humana. Levava-nos para sítios onde podíamos de facto estar acima da terra. E eu espero que ele tenha encontrado paz.