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Só alguém que recebeu uma notícia como essa sabe o que é deixar de existir, porque um dia o telefone tocou e nos disseram que a pessoa que mais amamos no mundo deixou de existir.

A maior dor foi a solidão. E agora estou só eu, perdi tudo. Por isso é quase violento dizerem: "Mas tens os teus filhos, e a vida, e és tão nova", e tudo.

Sete anos depois, acredito que haja pessoas que se perguntem: "Ainda faz sentido ela comover-se com isto?" No dia em que morrer o vosso marido, eu faço-vos a mesma pergunta. Sete anos depois.

Uma das coisas que interiorizei foi que há um processo para o resto da vida. Não há um momento em que acaba.

Demora tempo até voltares a sentir que és quem eras. E ainda assim, nunca mais serás quem eras.

A pessoa a quem contamos é um terapeuta, tem uma racionalidade sobre, supostamente, uma experiência e sobre o que lhe estamos a dizer para batermos bolas de uma forma diferente. E senti que ia buscar energia, força, para me aguentar até à próxima semana.

Eu saía de lá e muitas vezes ia o caminho inteiro para casa a chorar e passava a noite a chorar e pensava: "Por que eu me estou a submeter a ainda mais tristeza?" Mas depois acordas no dia seguinte um bocadinho mais leve.

Alexandra Coelho, a terapia para enfrentar um luto ajuda a fazer isso? Um dia de cada vez, um bocadinho mais leve?

É a minha esperança que de facto ajude. É um processo muito longo, mas pode ser feito de uma forma conjunta, e é esse o objetivo.

Este é o Sair do Labirinto, eu sou o Paulo Farinha e vou conversar com a psicóloga Alexandra Coelho sobre luto. Ouvimos as vozes de Maria Botelho Moniz e Anna Westerlund em excertos das entrevistas Labirinto: Conversas sobre Saúde Mental, que pode encontrar no site do Observador. Não falaremos sobre estes dois processos de luto em particular. São histórias que a minha convidada não conhece e não é esse o propósito desta entrevista. Mas Alexandra Coelho conhece muitos outros processos de luto. É psicóloga clínica, professora universitária, investigadora na área do luto, especialista em cuidados paliativos. Uma realidade que conhece bem, porque coordena a consulta de luto da Unidade de Medicina Paliativa do Centro Hospitalar Universitário de Lisboa Norte, que engloba o Hospital de Santa Maria e o Hospital Pulido Valente. Alexandra Coelho, bem-vinda.

Obrigada.

Para sair do labirinto de um luto, há vários caminhos possíveis? Cada processo é um processo?

É um processo muito único e cada pessoa encontra a sua forma individual de o fazer. Não podemos, de forma nenhuma, rigidificar e tornar este um processo linear, porque ele não é. É tão individual como cada pessoa que passa por ele.

E duas mortes diferentes podem significar dois processos de luto diferentes?

Sim, com certeza.

E aquilo que se aprende, às vezes, num processo de luto, quando nos morre uma pessoa que nos é muito próxima, pode não se aplicar num outro processo de luto, noutra morte de outra pessoa próxima. E é preciso também trabalhar isso com aquele paciente que se senta à sua frente?

É possível que haja alguma aprendizagem de uma experiência para a outra, mas o luto tem, sobretudo, a ver com a intensidade da relação. Quanto mais intensa é a relação, mais doloroso, mais prolongado é o luto. E portanto, se perdemos duas pessoas diferentes, é natural que esses lutos sejam muito moldados por essas características típicas daquela relação.

Das relações que havia. Por que é bom fazer terapia para enfrentar um luto? Para aprender a viver com a dor?

Sim, exatamente. É para aprender, de alguma forma, a tolerar a dor, porque a dor faz parte do processo, é inerente ao processo, mas às vezes torna-se insuportável, torna-se não nomeável. E nós precisamos de pôr palavras para o saber integrar. Precisamos de o compreender para o saber dosear. E precisamos, sobretudo, de relação para o poder fazer de uma forma acompanhada, porque esse é o grande objetivo. E nós sabemos que muitas vezes a sociedade tem muitos estereótipos, tem muitos mitos à volta do luto e muitas vezes dizem-nos: "Não fales sobre isso, não é bom para ti estares sempre a chorar", e é realmente a necessidade desta pessoa. Portanto, na terapia de luto, em princípio, haverá esse espaço para uma conversa aprofundada, para visitar todos os campos, todas as áreas, todas as dimensões da pessoa, todos os aspetos únicos daquela relação e portanto, confere aqui um processo protegido, onde a pessoa se sente à vontade para aprofundar e também para aprender. É quase como se houvesse aqui uma aprendizagem das estratégias e da forma como cada pessoa aprendeu a tolerar melhor o seu luto.

Toda a gente morre, toda a gente vai morrer. E portanto, todos conhecemos pessoas que já morreram e todos sofremos com isso. Mas nem todos precisamos de terapia.

Nem todos precisamos de terapia. A maior parte das pessoas faz um luto perfeitamente normal e basta o apoio da família, dos amigos, para fazer esse processo.

E quais são os lutos que requerem terapia ou que beneficiariam de um processo terapêutico?

São lutos que se tornam muito intensos e muito prolongados. Portanto, esta intensidade que numa fase inicial, aquilo que nós chamamos de luto agudo, que é mais ou menos durante uns meses, dois, três, seis No máximo depois da perda, e é natural que aí todo mundo seja devastado e que a pessoa não tolere este sofrimento. É natural que todo o funcionamento fique afetado, que a pessoa não se consiga concentrar, que não consiga investir em outras relações. Tudo isso é normal durante este período, mas quando esta intensidade, esta disfuncionalidade, este aspecto dilacerante da dor se mantém ao longo do tempo, e os autores não são unânimes no tempo, diz-se que depois de um ano já se pode diagnosticar lutos prolongados, mas é natural que isto varie muito da intensidade para intensidade, relação para relação, e, portanto, nós não podemos dizer que depois de um ano, a pessoa já deve ter superado o seu luto. Lutos, por exemplo, de perdas de filhos, um ano ou a vida inteira.

Um ano não será nada.

Claro. Um ano é um tempo razoável para que a pessoa possa eventualmente procurar ajuda se depois desse ano e depois do primeiro Natal e depois dos primeiros aniversários, durante o primeiro ano são sempre muito mais intensas, mas se isto se prolongar durante muito tempo, se a pessoa tiver dificuldade em adaptar-se a novos interesses, em refazer as relações, em investir em si própria e na sua vida, então podemos, sim, falar de lutos prolongados. E o único benefício de falar luto prolongado é ajudar a pessoa a reconhecer que precisa de ajuda.

E uma terapia de luto, quanto tempo pode demorar? Ou também não se pode colocar a coisa nestes termos?

É difícil utilizar o critério de tempo. Eu tenho processos que demoram relativamente pouco tempo, cerca de seis meses, e tenho processos que demoram muito mais tempo, mais de dois anos, seguramente, algumas pessoas.

Até o paciente ter alta?

Até o paciente ter alta.

E em que momento é que se considera que aquela pessoa está preparada? É uma negociação com o paciente.

É uma negociação.

Quando a pessoa se sente que está preparada e o terapeuta também considera isso?

Quando a pessoa compreende que de facto o seu luto é algo com o qual ela vai lidar para o resto da sua vida, que é um vazio que fica ali, que ninguém vai poder substituir, mas que tolera essa dor e que consegue chorar em alguns momentos, mas depois voltar a reinvestir na sua vida, quando consegue partilhar a sua história com pormenores, sem isso ser dilacerante, sem isso ser traumatizante, sem haver flashback ou sensação de reexperiência, sem haver muita sintomatologia associada, então podemos estar a falar de pessoas que conseguem aprender a lidar com o seu processo de luto.

E podemos também falar da culpa sem isso trazer alguma culpa, porque por vezes surge a culpa do continuar a viver.

A culpa de sobrevivente, precisamente.

A culpa de sobrevivente ou a culpa da primeira gargalhada depois da morte de alguém. Como é que eu posso estar aqui a rir e a passar um bom momento depois? Isso também é uma coisa que é trabalhada num processo de terapia de luto?

Com certeza. É aquela fase em que as pessoas começam a reinvestir e sentem-se culpadas por voltar a experimentar alegria ou satisfação ou prazer na vida. Isso gera muitas vezes esse sentimento ambivalente, essa culpa de sobrevivente. A pessoa tem que compreender que a tristeza e a alegria podem coexistir. Pode haver espaço para os dois sentimentos. E o fato de se sentir alegre não significa que deixe de pensar ou de estar em contato com a pessoa que perdeu.

Até porque ultrapassar uma morte não é esquecer a pessoa que morreu. É preciso apaziguar um paciente com isso também e tranquilizá-lo no sentido de que a ideia aqui não é esquecer aquela pessoa, mas é ajudar a ultrapassar para continuar a viver com esta perda?

Isso é mais um dos mitos. Criou-se muito esta ideia de que fazer o luto, ultrapassar o luto, é resolver o luto, que implica quase como um processo de cicatrização absoluto, em que a pessoa depois acaba por se esquecer ou ter um reinvestimento na vida, quase como se estivesse a substituir aquela pessoa. De todo! Esta pessoa vai ocupar um lugar único na sua vida, vai continuar a fazer parte da sua biografia, da sua história de vida e vai deixar sempre ali um espaço que tem a ver com as características únicas daquela relação. Só aquela pessoa a fazia sentir daquela forma. E aquelas memórias estão inevitavelmente associadas àqueles episódios, àqueles momentos em que viveram juntos. E isso vai fazer parte da sua vida para sempre.

Numa unidade de cuidados paliativos, como aquela em que Alexandra Coelho trabalha atualmente no Centro Hospitalar Universitário de Lisboa Norte, Hospital Santa Maria e Pulido Valente, há uma ligação natural às famílias, e isso eventualmente, pergunto-lhe eu, poderá facilitar o processo de procura de ajuda por parte daqueles familiares?

Sim, nós temos um protocolo de avaliação e de follow-up dos familiares dos doentes que nós acompanhamos, desde a fase anterior até um ano depois da morte. Portanto, nós começamos a acompanhar estas pessoas na fase de cuidados paliativos, a fazer todo um processo de luto antecipatório, no sentido de as sensibilizar, de as preparar. A preparação aqui é mais um aspecto emocional. Nós não nos preparamos para aquilo que vai acontecer, para uma morte. Mas de alguma forma, antecipamos, fazemos alguns projetos no sentido de o que é que me deixaria mais tranquilo, já que a morte é inevitável, o que é que eu posso fazer para ficar um pouco mais segura face a isto? E atravessamos este processo juntas. E depois, no luto pós-morte, mantemos estes contactos, fazemos uma avaliação do risco e fazemos todo o acompanhamento sempre que as pessoas solicitam e reconhecemos essa necessidade.

Então há também essa preparação, no fundo, sabendo o que vem depois, prepara-se antes para a dor que vem a seguir. É um pouco isso que se faz numa unidade?

São várias dores. Dores de todas as perdas associadas a uma doença avançada, tudo aquilo que esta pessoa era e que deixou de ser porque já não é capaz, porque se tornou mais frágil, porque não desempenha da mesma forma os mesmos papéis. E, portanto, há aqui muitas perdas que são cumulativas e que culminam depois na morte física, na morte real do doente.

E esse processo de preparação inclui também a preparação para a despedida ou a própria despedida? Ajudar a pessoa a despedir-se daquele familiar ou daquela pessoa que nos é muito querida para podermos ficar em paz conosco?

Nem todas as pessoas dizem adeus, nem todas as pessoas fazem uma despedida formal. Isto tem muito a ver com a forma como nós nos relacionamos com a pessoa. Se em momento nenhum eu consegui falar sobre o que ia acontecer, se isto é tão doloroso que eu quero é falar sobre a vida e nunca sobre a morte, se eu não encontro palavras para o dizer, às vezes há gestos que traduzem esse sentimento. É o dar a mão, a presença, o conforto, a segurança que aquela pessoa garante e que mais ninguém, muitas vezes, consegue satisfazer ou providenciar. E, portanto, há aqui uma relação que é única e que tem antecedentes. Nós nem sempre conduzimos até à despedida, porque cada família tem a sua cultura.

Depende da relação.

E depende muito da relação.

Porque continuamos a ter uma grande dificuldade em lidar com a morte, em falar sobre isso, até por vezes em lidar com a dor de alguém próximo da pessoa que morreu e ficamos sem jeito, não sei o que é que hei de fazer, não sei o que é que hei de dizer. Uma terapia de luto também ajuda um paciente a apaziguar-se com as outras pessoas à volta?

Sim, esse é um aspecto muito importante, é o investimento nas relações. Nós sabemos que quando alguém que nos é tão próximo morre, ficamos inevitavelmente mais vazios. E a única coisa que nos segura, que nos dá segurança e que nos faz querer continuar a viver, são as outras relações que não se comparam, não substituem, mas de alguma forma são uma ligação à vida e é fundamental que essas relações estejam presentes. Nem sempre a pessoa em luto consegue acolher e estar bem na relação com os outros, porque a tristeza obriga mesmo a este retraimento, a este contacto com a tristeza, com o estar sozinho, com todas as memórias que ficaram. Mas é fundamental sentir que há pessoas que continuam a desejar e há um grupo, há uma família, há pertença a um sítio.

Essa abertura à ajuda que os outros estão disponíveis para dar, tem também o seu tempo. Há alturas em que precisamos de estar tristes, há alturas em que precisamos que alguém nos leve a passear, a ver o mar, a almoçar fora. Mas respeitar o tempo de alguém que perdeu um ente querido é uma coisa muito importante, mas como é que nós sentimos quando queremos ajudar alguém que está a passar por essa dor, como é que sentimos qual é o tempo daquela pessoa? Se calhar, perguntar-lhe?

Perguntar-lhe, exatamente. Não há nada como perguntar. "Eu estou aqui, como te posso ajudar?" Se bem que esta pergunta às vezes pode gerar um sentimento de ninguém me pode ajudar, porque a única coisa que me pode ajudar é realmente a pessoa que eu perdi voltar. Isto era a única coisa que daria paz e tranquilidade àquela pessoa. Mas ainda assim, é como diz, às vezes basta a presença, basta oferecer uma sopa, um passeio, um simples gesto de gratidão.

A logística, ajudar na logística no imediato?

Às vezes pode passar por aí. Outras vezes, mais tarde, pode passar por normalizar um bocadinho aquilo que a pessoa está a sentir. Cada pessoa vive à sua maneira esta perda, mas eu já passei por isto e sei que é muito duro e é natural que tu estejas triste nesta fase.

Mas importa também não minimizar a dor do outro, não é?

É fundamental não minimizar. Estamos aqui a oferecer reciprocidade quando dizemos: "Eu também já passei por isso". Mas se dissermos: "Tens que ultrapassar", ou "Isso não te vai ajudar".

Ou "Já passou tanto tempo, por que ainda continuas assim?"

"Já passou tanto tempo, por que ainda continuas assim?" Tudo isso são formas de desvalorizar a dor do outro e é isto que acrescenta muito sofrimento à dor da perda.

E em caso de dúvida sobre o que fazer, o que lidar, como ajudar alguém ou como eu próprio ultrapassar, há várias fontes fidedignas de informação, há psicólogos a que se pode recorrer, há também associações. A que portas é que se pode bater quando precisamos de saber mais sobre um processo destes? Eu reporto-me, por exemplo, à "Em Luto", a associação que Alexandra Coelho fundou. O que é que faz exatamente a "Em Luto"?

A "Em Luto" é uma associação sem fins lucrativos, criada recentemente no contexto da pandemia, precisamente para dar resposta aos diversos lutos que surgiram no decorrer do contexto pandémico. E o objetivo é, por um lado, formar profissionais, dar assistência às pessoas e para isso nós vamos tentar criar polos locais nas várias regiões do país, no sentido de aproximar esta resposta às necessidades da comunidade e também desenvolver a investigação na área do luto em Portugal.

Alexandra Coelho, obrigado por nos ter ajudado a perceber um pouco como a terapia pode ajudar a ultrapassar um processo de luto. E em caso de dúvida sobre como fazer, nada como consultar um psicólogo, pedir ajuda a alguém que sabe mais. Muito obrigado. Eu sou o Paulo Farinha, este foi o Sair do Labirinto. Até à próxima.

Mental, uma parceria Observador, Fundação Lus So Americana para o Desenvolvimento e Hospital da Luz, com a colaboração do Colégio de Psiquiatria da Ordem dos Médicos e Ordem dos Psicólogos Portugueses.