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Pedro, bem-vindo. Fica também disponível através de podcast Rádio Observador, este "Sem Falta" com António Nobre. Espetáculo que não foi bonito para o desporto, para a arbitragem. Vais analisar caso a caso aquilo que aconteceu no Estoril Porto. António Nobre com o VAR de Tiago Martins. Primeiro lance de análise, minuto 28, sem pênalti de Mangala.
Sim, Alen Varela remata, a bola vai ao braço direito de Mangala, que está dobrado, encostado, impelido junto ao corpo e portanto sem a tal volumetria. Boa decisão, sem pênalti.
Entretanto, minuto 36, amarelo para João Mário.
Sobre Tiago Araújo, um amarelo, um pisão no corredor direito, corta ali um ataque já com algum perigo, porque o Tiago ia lançado no corredor, cartão amarelo bem mostrado.
Final da primeira parte, 45 mais dois, amarelo também para Evanilson.
Não me foi mostrado e devia ter sido mostrado. O Evanilson com o Bernardo Vital no chão, dá um cheirinho com a perna nas costas sem qualquer necessidade e até tocou com o joelho na zona da nuca e portanto um comportamento incorreto por parte do jogador do Porto e devia ter visto o cartão amarelo.
Primeira parte ainda marcada por um amarelo a Vinícius aos 45 mais três.
Sim, o árbitro começou a perceber que ia considerar o jogo, empurra claramente o Nico.
E tu chamaste a atenção nessa altura.
Exatamente, eu disse que o início da segunda parte iria ser assim e foi logo. Portanto, cartão amarelo bem mostrado, neste caso.
Cartão amarelo também para Herberto, minuto 46, logo à abertura da segunda parte.
Exatamente. Sobre Galeno, um pisão com o pé esquerdo, uma entrada muito dura, negligente, cartão amarelo bem mostrado.
Minuto 57, muito bem o VAR reverter o pênalti.
Sim, este é o caso do jogo.
Exatamente.
Eu acho que não vai dividir muito a opinião dos especialistas em arbitragem. Dividirá mais, naturalmente, as pessoas que possam estar mais afetos a um clube ou outro e que poderão achar que é ou não é pênalti, até porque depois fazem sempre comparações com o que foi o caso ontem do jogo do Benfica, e é daí que vem um pouco esta polêmica. Para mim, não há motivo para apontar pênalti. Aliás, tive muitas dúvidas logo com as imagens corridas e comecei por dizer que não estava a ver onde é que era a infração ou onde é que estava o motivo para apontar pênalti. Isso centrado, sobretudo, em dois pontos de contato que existem ali. Um é a nível da mão direita, no ombro do Francisco. Esse é um contato muito ligeiro e insuficiente para a queda. Depois, o contato que existe mesmo é ao nível da perna. E o que acontece é que o Mangalá tem a sua perna já fixa no chão e o que vai acontecer é que o contato é promovido pelo próprio joelho esquerdo do Francisco Conceição na parte de trás da perna do Mangalá. Esta é que é a questão principal. Não é o Mangalá que não para o movimento e toca ou arrasta o seu adversário. Eu depois fui buscar as imagens, fui rever melhor aqueles dois momentos, aqueles dois ângulos que o vídeo deu ao árbitro para tentar perceber por que ele estava centrado ali. E ele está centrado exatamente nessa situação para mostrar claramente que quem promove o contato é o próprio joelho esquerdo do Francisco Conceição na parte de trás da perna do Mangalá, não é o contrário. Para mim, não há motivo para apontar pênalti, e daí que eu considero muito bem a reversão deste lance por parte do vídeo-árbitro.
Entretanto, está aqui o cartão vermelho, parece-me das expulsões, aquela que é mais pacífica, que é o lance do Diogo Costa.
Sim, para nós é pacífico.
Exatamente.
Mesmo assim, nas redes sociais, até alguns ex-jogadores, neste caso, afetos ao clube do Porto, acham que não. Nós percebemos que muitas vezes a paixão pelos clubes, e naturalmente eu percebo isso, leva a que as pessoas até em lances que são claros e passíveis, há quem ache que não é cartão vermelho. E aqui a questão do cartão vermelho não tem a ver com a entrada em si, porque a entrada é uma falta absolutamente "normal", que é passível de gol directo como foi assinalado. Aqui a questão chama-se clara oportunidade de gol. É porque o Wagner, o Diogo Costa ao falhar a interceção da bola e o Wagner ao ficar com a bola, praticamente tem o Diogo Costa e tem o defesa que aparece ali na zaga, mas tem a baliza aberta. Isso chama-se clara oportunidade de gol, com os tais quatro fatores: a direção, a distância, a bola controlada e a possibilidade de vir mais alguém poder intervir no lance que não existiu. É por isso, de resto, o próprio Diogo Costa percebeu, porque não só não protestou como saiu logo embora porque sabia que ia ser expulso.
Entretanto, cartão amarelo para o Pepé, protestos, minuto 66. Aqui o jogo já estava descontrolado.
Exatamente. Começou aqui já o descontrole e os protestos. Eu vou dar sempre como boas decisões, com exceção de uma, obviamente, como boas decisões dos cartões amarelos, porque o árbitro que está lá supostamente vê a linguagem corporal, os gestos, os protestos e, sobretudo, as palavras. Aqui darei sempre como boa essa decisão.
Também minuto 77, mais um amarelo, jogador do Porto, Nico.
Sim, é sobre o Matheus Fernandes, também um cartão amarelo bem mostrado, porque é a chamada falta tática, é um momento em que o Matheus sai em contra-ataque, há saída à área e o Nico derruba, faz um género de um tackle para cortar esta saída em contra-ataque, portanto cartão amarelo bem mostrado.
Minuto 77, cartão amarelo para o Chico Conceição. Acabou realmente mais tarde por ver um cartão vermelho, mas esta sua primeira atitude, a forma como se dirige à equipe de arbitragem, para ti era logo vermelho direto.
Sim, repara uma coisa. Nós aqui temos a questão que a realização por acaso mostrou, porque mostra claramente o momento em que o Francisco Conceição vem na direção.
E dá para perceber o que é que ele diz ao árbitro.
Exatamente. E dá para dizer o que é que ele disse. E é mesmo na cara do árbitro. Uma coisa às vezes é nas costas, de lado, mais longe, que com os auriculares é muito complicado para o árbitro muitas vezes perceber, e de forma honesta, a linguagem que é utilizada. Esta é mesmo na cara do árbitro. O Francisco Conceição já arriscou quando foi de direção ao árbitro assistente com todo aqueles gestos e linguagem corporal que por si só já poderia ir um pouco para além do amarelo, mas eu percebo que também mostraria apenas cartão amarelo. O problema está quando ele vem à cara do árbitro e diz-lhe aquilo que disse. E nós vimos isso claramente, não é uma questão de estar aqui a tentar perceber a linguagem ao ver os lábios, não. É que se percebe, por acaso a realização deu mesmo para ver. E aquilo é uma daquelas situações em que o árbitro não é só perder a parte disciplinar e o controle e o respeito para este jogo, é muito mais do que isso, é para o resto da sua carreira, porque ficará sempre como alguém que na cara levou uma ofensa daquelas que não dá hipótese. E repito, uma coisa é no campo, às vezes uns palavrões, umas asneiras, à distância, longe, que não dá para perceber. Na cara do árbitro, não pode ser. E isto é uma situação que requer coragem por parte dos árbitros, que é não vacilar, nestes casos, é cartão vermelho. Aqui ficou claramente um cartão vermelho por mostrar ao Francisco Conceição.
O guarda-redes Marcelo Carné vê um cartão amarelo ao minuto 81. Perda de tempo
Exatamente, perda de tempo. O resultado estava a seu favor. O árbitro entendeu que a 10 minutos do fim tinha que mostrar para tentar cortar o mal pela raiz, para evitar essas perdas de tempo e, portanto, cartão amarelo bem mostrado.
E ainda nesse minuto 81, há também aqui um cartão amarelo para João Marcos. Creio que é uma entrada junto à linha lateral.
Exatamente, é junto à linha lateral, uma entrada bastante dura no dirigente, cartão amarelo bem mostrado, portanto, um meio pisão e por isso nada a dizer.
Jogo já muito perto do final. O Porto, recordemos, estava a perder por 1 x 0 e cartão amarelo para o Chico Conceição, que foi o segundo ao minuto 89 e cartão vermelho, obviamente.
Sim, eu acho que este também é pacífico, porque o Francisco Conceição ao colocar a mão na cara do seu adversário, não é a mão na cara para fazer uma festinha. É um comportamento incompetente, desportivo, está inserido. É só estudar as leis de jogo para perceber que este tipo de ação e atitude é punida com cartão amarelo. É o segundo, foi expulso. Depois, obviamente, que há todo um conjunto, desde bater palmas, não sair do terreno de jogo, ir ao longo da linha, porventura até coisas que a realização mostra, o Francisco Conceição virado para os adeptos. Tudo isso, se a equipa de arbitragem colocar no relatório o que aconteceu, todo esse tipo de comportamento poderá agravar a sua penalização. E digo isto por quê? Porque os dois amarelos, normalmente, consequente vermelho, dá um jogo de castigo, mas se o jogador, depois de ser expulso, tiver determinados tipos de comportamentos incorretos, injuriosos, o que quer que seja, e se o árbitro colocar isso no relatório, isso poderá agravar a penalização. E por isso é que às vezes há situações de dois amarelos que os jogadores não levam só um, mas levam mais jogos de castigo. E não foi bonito aquilo que o Francisco Conceição fez, obviamente, a posteriori, com o bater de palmas, etc.
E com o jogo a decorrer e ele ainda dentro do relevado, se bem me recordo.
Exatamente.
Minuto 91, amarelo para Otávio. Na altura também aqui te questionei, porque depois de ver a repetição e o jogo estava já em roda descontrolada, é uma entrada para vermelho, parece-me. Não sei a tua opinião.
É para vermelho direto.
Uma entrada duríssima.
Exato, porque uma coisa é tu ires tentar disputar o lance com o adversário e seres pisado, seres mais duro, gastar. Ali, não, o jogador não tem qualquer intenção de jogar a bola, isso percebe-se claramente com as repetições. A intenção dele é mesmo ponteapear. Isto insere-se na chamada conduta violenta, quando utiliza as forças excessiva, brutal, em relação ao teu adversário, que de alguma maneira te põe em risco a segurança e integridade física do mesmo. E portanto, o que o Otávio fez foi ponteapear claramente as pernas do adversário. Isto era cartão vermelho direto e aqui o VAR tinha que intervir, porque se tratou de uma situação que com imagens era muito fácil de justificar esse cartão vermelho.
E para fechar, há aqui ainda duas situações, a primeira das quais é um cartão amarelo para Pepe ao minuto 91.
Sim, dá-me a ideia que tem a ver com o bater de palmas. Será tudo naquela sequência daqueles protestos, daquele bater de palmas, dos comportamentos incorretos. Deduzo que seja por isso que o cartão amarelo, porque depois as imagens, a própria realização, eram tantas as situações que a própria realização muitas vezes já estava a dar repetições e uma coisa é nós estarmos no terreno de jogo a ver, outra coisa é estarmos na televisão a ver e aí estamos sujeitos àquilo que a realização nos dá. Portanto, este cartão amarelo deve-se inserir nesses comportamentos incorretos e daí o respectivo cartão amarelo, que deduzo ter sido também bem apostado.
E finalmente, também aqui um cartão vermelho, parece-me. Este também é pacífico, tal igual como o do Diego Costa, o cartão vermelho para o central Bernardo Vital.
Exatamente, é pelo mesmo motivo, não é pela entrada em si, que a entrada é uma falta, uma falta por livre direto, mas é o chamado clara oportunidade de golo. O Naas tem a bola controlada, vai na direção da baliza, a distância que falta percorrer já é pouca e não há mais ninguém que pudesse, digamos, em tempo útil, para aquilo que faltava chegar, poder interferir. E portanto, isto significa que são os quatro fatores que estão contemplados na lei 12, na chamada CLG, clara oportunidade de golo e por isso o cartão vermelho direto bem mostrado.
Eu recordo-me no início da partida, quando fizemos aqui a antevisão, quando te chamei até pela primeira vez, tinhas falado do António Nobre, que era uma grande oportunidade para limpar a imagem do Espanha-Brasil. Ora, este não foi um jogo de todo para limpar a imagem.
Não, o António Nobre, para já, foi fazer esse jogo, que não era para ele, era para o João Pinheiro. O João Pinheiro estava lesionado e aí havia uma excelente oportunidade para um jogo de grande mediatismo.
Aliás, foi ele e foi o Artur Soares Dias também no Brasil-Inglaterra ou Inglaterra-Brasil, não foi?
Exatamente. Não percebo por que não houve vídeo-árbitro. Isto na perspectiva que houve vários jogos, o Portugal-Luxemburgo também não teve vídeo-árbitro. Acho que foi uma má decisão, porque estes jogos as pessoas têm que perceber que já não há jogos a brincar, no sentido de amizade. Os jogadores quando vão jogar esses jogos, vão para ganhar. E portanto, o vídeo-árbitro, sendo jogadores que estão habituados a competições de vídeo-arbitragem, não fez sentido nenhum não haver vídeo-arbitragem nesses jogos. E tivemos diversos casos pela Europa, alguns deles podiam ter sido resolvidos. O caso do António Nobre nesse jogo foi até inclusivamente um penálti muito mal assinalado a favor da Espanha, que qualquer vídeo-árbitro iria ajudar a resolver aquela situação. E lá está, era uma situação que era revertida e se calhar o jogo tinha-lhe corrido bem, ao contrário de depois de todo o elenco em torno disso. Depois, eu percebo que o objetivo de um árbitro é ser nomeado, eu percebo que há sempre: "Até mas se correu mal, se calhar o melhor é, como as minhas filhas dizem, ir para a jarra e descansar". Não é bem assim. É como qualquer jogador que corre mal, um guarda-redes deixa passar a bola entre as pernas, o ideal é não termos jogos já a seguir para rapidamente darmos a volta. Agora, se começa a correr muitas vezes mal, então se calhar aí faz sentido descansar. É a mesma realidade para um jogador, como é para o árbitro. Esta era uma grande oportunidade, era um jogo com mediatismo, que ele podia ter agarrado, mas ele não agarrou. E não agarrou, sobretudo na parte disciplinar, que eu acho que é o erro maior. É lógico que para a nação perdida, obviamente, vão se centrar em torno da questão do pontapé de penálti, e é daí que tudo nasce, mas os erros graves são na parte disciplinar e curiosamente onde o Francisco Conceição devia ter sido expulso diretamente, o próprio Otávio. E nesse aspecto, o árbitro não conseguiu segurar o jogo, no meu ponto de vista, porque eu considero que a decisão, se calhar, a técnica mais importante e que dá origem a tudo, que é a restrição de penálti, para mim, é de uma forma muito clara, bem decidida, e as imagens são muito claras na situação que, para mim, não é penálti.
Então que nota para o António Nobre?
Eu vou dar uma nota muito negativa, vou dar uma nota dois.
Espera, não me recordo de uma nota tão baixa, Pedro.
Repara uma coisa: aqui não é tanto pela questão de ser penálti ou não ser penálti, que isso é importante, obviamente, até a questão do Otávio, do pontapé, tem muito a ver com a situação do Francisco Conceição. Tem muito a ver porque aquilo é tudo que os árbitros numa carreira-
Depreendo da tua perspectiva enquanto árbitro, ex-árbitro, neste caso, demonstrou falta de autoridade?
Exatamente. E sobretudo, eu não gosto muito desta palavra, porque é muito duro para um árbitro, mas é falta de coragem. Que é a questão de tu estares a ser insultado na cara, e hoje, no contexto atual, com imagens, com televisões, não é há 30 anos ou 40 anos atrás, que era muito mais complicado. Com todas as questões de segurança que os árbitros têm. Uma coisa é um palavrão mais negro, dito ao longe, à distância, na cara não pode ser. E portanto, com tudo o que a gente sabe, as câmeras estão lá. Isto põe claramente em causa aquilo que é, no fundo, o mais importante, que é a autoridade de um árbitro, porque erros todos cometemos, o Diogo Costa cometeu, se calhar o árbitro, os árbitros também cometem quando não sinalizam penáltis, foras de jogo, etc. Aqui não, aqui trata-se de uma questão de personalidade, de princípio, de autoridade e sobretudo desta palavra que eu utilizei, da coragem. É por isso que eu vou dar uma nota baixa, negativa, tem a ver exatamente com uma arbitragem que foi muito negativa do meu ponto de vista, e para ser um pouquinho mais brando, em matéria disciplinar. Mas que resume muito neste lance do Francisco Conceição, aquilo que nunca pode acontecer a um árbitro, que seja bom para ele ver e rever e para todos os árbitros que estão no ativo verem e reverem. Falhem onde querem que falhem, mas não podem falhar nestas situações.
Está dada esta nota, nota dois de Pedro Henriques. António Nobre, o árbitro da polémica deste polémico Estoril Futebol Clube do Porto, que fica também disponível através de podcast. Pedro, uma boa Páscoa pra ti.
Obrigado, um abraço, boa Páscoa.
Fica disponível através de podcast. Recordo que mal terminou o jogo, foi à sala de imprensa o presidente do Futebol Clube do Porto criticar não só António Nobre, mas também Tiago Martins, o árbitro que neste caso estava na Cidade do Futebol no papel de VAR.