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Sem falta na Rádio Observador, como sempre com o Pedro Henriques. Pedro, seja muito bem-vindo. Boa noite.

Boa noite.

Vamos falar sobre o trabalho do árbitro Ivan Kruzliak, 42 anos, é eslovaco, esteve no comando deste encontro entre o Shakhtar Donetsk e o Sporting para a Liga dos Campeões. Sem mais demoras, Pedro Henriques, vamos aos lances que escolheste analisar deste encontro na Liga dos Campeões, sendo que começas logo aos quatro minutos com um cartão amarelo que ficou a faltar para um jogador do Sporting, neste caso, Maxi Araújo.

Sim, o árbitro esteve bem a assinalar a falta do Maxi Araújo. Recordo que é uma entrada do Allison que vai tentar entrar pela área conforme estava a atacar o Allison pelo corredor direito e, portanto, ia entrar lateralmente na área, o que significa que se não sofresse a falta, é uma jogada sempre de perigo, é um ataque promissor. O Maxi Araújo toca o joelho direito na perna direita do Allison, desequilibrando. O árbitro vem marcar a falta, mas tem que mostrar cartão amarelo porque o jogador entrava na área, cortou uma jogada de perigo, um ataque prometedor e ficou aqui, portanto, o tal cartão por mostrar ao Maxi.

Um cartão amarelo que ficou por mostrar a Maxi Araújo, jogador do Sporting. Vamos avançar, Pedro Henriques, para o minuto 13, segundo lance que escolheste analisar neste "Sem Falta", mas é um lance de grande área onde, no teu entender, Pedro Henriques, não há pênalti sobre o Ioannidis.

Sim, o Ioannidis tem um lance de disputa de bola com o seu adversário. O Ioannidis acaba por cair, mas há um contato ligeiro inconsequente, neste caso, com a parte da perna esquerda do jogador do Shakhtar, na zona do glúteo do Ioannidis, que sentindo esse contato, deixa-se cair. E, portanto, os contatos são permitidos. Obviamente, se a carga for incorreta, os empurrões, agarrões, naturalmente, essas infrações são penalizadas. Aqui trata-se exatamente de um contato, não é propriamente um pontapé, uma rasteira, não é um empurrão, não é um agarrão. A questão, depois, tem a ver muito com aquilo que nós determinamos da intensidade, ou seja, que é a palavra usada em termos mais populares, mas que na lei é causa e efeito. Ou seja, esse contato, vamos até poder chamar carga, foi suficiente para que o jogador não ficasse com a bola, perdesse a bola, não conseguisse rematar. Portanto, é esta análise que tem que ser feita. E no meu ponto de vista, o Ioannidis ao sentir esse contato, deixa-se cair. Não é carregado de forma ilegal, não é isso que o impede. É aquilo que eu disse, que é o contato ligeiro inconsequente e, portanto, para mim, boa decisão, sem pênalti.

E aqui também acaba por não haver intervenção do VAR, Pedro.

É assim, o VAR intervém sempre. Eu percebo a ideia, quando se diz intervenção do VAR, é o VAR intervir para contrariar a decisão do árbitro, que é essa a possibilidade. Eu relembro, que ache importante ficar esta ideia, porque às vezes as pessoas em termos do dia a dia dizem: "O VAR nem sequer viu o lance". Não, o VAR vê sempre. Sempre que há um lance de área, sempre, qualquer lance de área, o VAR vê. O que o VAR faz é: valida a decisão do árbitro, ou não diz nada, ou então diz ao árbitro, caso o jogo pare, qualquer coisa como "segue jogo, não há infração". Só vai intervir no sentido de chamar o árbitro ao monitor, etc, se achar que a decisão do árbitro foi errada. Portanto, o VAR vê sempre, viu, ainda por cima o Ioannidis caiu na área e reclamou pontapé de pênalti. A questão é que o VAR disse ao árbitro "siga" e foi relativamente rápido a dizer, e o árbitro até fez aquele sinal no auricular como quem diz não é nada.

Pedro, já abordamos os lances da primeira parte deste Shakhtar-Sporting. Vamos avançar para o segundo tempo, de novo, um lance de grande área, agora seria favorável para o Sporting, mas no teu entender, Pedro, Bondar, o defesa central do Shakhtar, não fez a grande penalidade.

É a questão está bom. É aquele lance em que a bola é interceptada pela perna esquerda do próprio Bondar, que ao interceptar a bola, pontapeia a bola, ela sobe e vem bater no seu braço esquerdo. Nós consideramos isto um ressalto, neste caso, do próprio corpo, e neste caso, até é uma situação mais inusitada. Não é aquele pontapé que a bola vai à parte do corpo e depois sobe ao braço. É o próprio jogador que ao pontapear a bola para a interceptar, para cortar, faz com que ela, no espaço de um metro, porque a distância que vai da perna está toda levantada em relação ao braço, é pouco mais de um metro e acaba por pontapear contra o seu próprio braço. E essas são daquelas situações, a não ser que o braço estivesse completamente fora do plano do corpo, imaginemos o braço no ar ao ir claramente agarrar essa bola, aí naturalmente seria pênalti. Mas essas situações em que ou porque bate e vai ao braço, ou porque é o próprio jogador que pontapeia a bola e ela depois vai ao seu braço, normalmente, eu digo normalmente, que não é lei taxativa de 100%, depois depende da ação do braço, normalmente encaixa-se nos ressaltos e neste caso concreto, esta é muito evidente e portanto, sem motivo para pontapé de pênalti, bem o árbitro e depois o VAR a confirmar.

Pedro, vamos avançar para o lance seguinte. Aconteceu três minutos depois, minuto 66, cartão amarelo mostrado a Maxi, o primeiro cartão neste encontro.

Sim, e bem mostrado, porque é um lance entre o Maxi e o Vinicius Tobias. O Vinicius Tobias está a atacar pelo corredor direito, faz a finta para fora, mudança de velocidade para acelerar e o Maxi, de forma deliberada, levanta o antebraço e acerta no rosto do Vinicius Tobias. Portanto, sabemos que tudo que estes movimentos de braços, cotovelos, mãos, a nível do rosto, da cabeça, da cara, do pescoço, são punidos sempre, tecnicamente, com livre direto e depois amarelo ou vermelho, consoante a gravidade. Neste caso, não há agressão, obviamente, não há conduta violenta, é apenas a negligência. Não tem em conta o perigo e as consequências do seu ato. E estas ações de braços à cara dos adversários inserem-se também naquilo que é uma ação antidesportiva. Portanto, livre direto e cartão amarelo bem apostado.

Vamos avançar, Pedro Henriques, mais um lance de grande área, mas no teu entender, não há, de novo, grande penalidade que tenha ficado por marcar. Aqui envolve Maxi Araújo e um possível braço na bola.

Sim, a definição é uma bola quase cruzada, barra rematada muito perto. O Alisson está na área do Sporting, uma vez mais correu do direito, mas aqui já mesmo coladinho à linha de baliza, e quando faz o cruzamento de bola, o Máxi Araújo está mesmo colado a ele e está em queda. E a distância entre o pé que remata ou que cruza a bola e o braço direito do Máxi Araújo, que já está no chão, portanto a apoiar a queda, é menos de um metro. É uma bola inesperada, de perto, com o Máxi Araújo a cair e praticamente de costas pro lance. E relembro que os jogadores, quando caem, têm direito, por lei, a apoiar um braço, ou o direito, ou esquerdo, ou ambos, para apoiar a sua queda, sobretudo quando é vertical. E neste caso concreto, e sobretudo quando há muita volumetria, é um movimento praticamente vertical. E foi o que aconteceu. Não há como tirar o braço dali, não há como evitar este contato de braço na bola, neste caso até foi a bola ao braço, e tudo certo, sem motivo para pontapé de penalti.

Pedro, vamos avançar pro minuto seguinte, provavelmente o lance mais importante de todo o encontro, no que diz respeito à arbitragem, um lance de grande área que envolve Eduardo Quaresma e uma situação de possível grande penalidade.

Sim, pra mim, motivo para pontapé de penalti, sobretudo com a imagem. Há duas repetições, há uma que acompanha a corrida vista por trás, da maneira como o ataque do Tobias, que estava a atacar, acho que é Vinícius Tobias, mas como o Tobias estava a atacar e a forma como o Quaresma vai defender, visto no movimento da corrida. Mas há uma imagem que vem no sentido oposto, que é a imagem por trás da linha de baliza. E essa é uma imagem muito clara. Eu quero relembrar o seguinte: um take deslizante, o carrinho, é sempre um lance de muito risco. Por quê? Porque ou acertas na bola e tocas primeiro a bola, e isso é sempre mate-mante, ou então, se nem sequer tocas na bola, o que normalmente acontece é que uma das pernas, ou a direita, ou a esquerda, ou até as duas, muitas vezes acertas no teu adversário e derrubas. E se o fazes, sobretudo se vais com grande velocidade, a deslizar, com grande intensidade, de forma muitas vezes descontrolada, isto entra naquilo que nós chamamos entradas negligentes. E estas, mesmo que o adversário já se tenha desembaraçado da bola, pontapeado, cruzado, se for uma entrada negligente, são sempre punidas. O que a UEFA não quer é quando é só uma entrada imprudente, tipo, tu chegas tarde a um jogador que entretanto cruzou e acabas depois por lhe dar um toque ligeiro, um pisão, a chamada imprudência. Aqui não. E o que aconteceu foi exatamente isso. O Tobias toca a bola com o pé direito, o Quaresma vai entrando deslizante, não toca na bola com nenhum dos pés e depois, a expressão que não é muito bonita, mas é mais perceptível, varre autenticamente o Vinícius Tobias. Ou seja, acerta na coxa direita do adversário e também acerta com a perna esquerda, na perna esquerda, mais concretamente na zona da canela do adversário. Ou seja, as duas pernas do Quaresma varrem e acertam nas duas pernas do seu adversário. Por isso é que eu digo que é varrer só vendo o lance. E era motivo para pontapé de penalti. O árbitro não tem esse entendimento, o VAR também não, mas eu acho que é daqueles lances que é claro e óbvio e que ficou aqui um penalti por assinalar.

E aqui, mais do que o árbitro principal, acaba por ser o VAR a ter maior responsabilidade.

Claro, o VAR fez a sua interpretação, pode ter interpretado dentro desse enquadramento que a UEFA, quando o jogador já tocou na bola, digamos que o lance já não tem impacto propriamente dito, porque se ele já se desembaraçou da bola, já não poderia fazer mais qualquer coisa, mas dentro da tal imprudência que a UEFA disse, quando é assim, não se penaliza, só se realmente forem entradas muito duras, negligentes. E esta enquadra-se aí. É a opinião do VAR, que era italiano, e não quis interferir no lance no sentido de não contrariar a decisão, mas eu, se estivesse no VAR, contrariaria e acho que é motivo para pontapé de penalti.

Ficou por marcar então um penalti contra o Sporting, diz Pedro Henriques. Vamos avançar, minuto 74, e aqui mais um lance de disciplina.

Sim, o Isaac Silva por trás, sobre o Silas Anders. Esta entrada é claramente negligente, porque ele estica a sua perna. E o que faz? Conforme estica a perna, faz a falta e quando apoia o corpo e cai, cai sobre o calcanhar do Silas Anders. Ou seja, não é só a perna à frente que estica e que faz a falta por trás, é quando esticas e cais, cais sobre o calcanhar. Ele tem a perna dobrada e estas quedas, às vezes, sobre o calcanhar, traz lesões com alguma gravidade. É claramente negligente esta abordagem e o árbitro vai mostrar o cartão amarelo.

E o último lance que queres falar, Pedro, é já os 90 mais três, envolve de novo o Isaac Silva, porque no teu entender, ficou por mostrar aqui um segundo amarelo.

Nós dissemos isso no direto, só que depois, como o livre foi batido, e era o último lance do jogo e podia ser perigoso, foi depois até o Suárez que bateu o livre, já não deu pra fazer essa intervenção. O Isaac Silva tinha visto o cartão amarelo, como descrevemos agora no minuto 64, e aqui tinha que ser expulso. Por quê? Porque o que ele faz é: o Salazar vai entrar na área adversária, tem um adversário pela frente, ou seja, está ali a pouco menos de um metro, metro e meio de distância. Se entra, entra com perigo, é um ataque prometedor. E o Isaac Silva, que até já tinha visto o tal cartão amarelo, o que faz é ter essa entrada por trás, estica a perna e com o esticar dessa perna, acaba por acertar e derrubar claramente o Salazar. É entrada à área e livre direto, que o árbitro assinalou, mas ficou o cartão amarelo por corte de ataque prometedor.

Pedro Henriques, analisados os lances, falta saber a nota. Ivan Kruzliak, este árbitro eslovaco, passa na tua análise?

Não, vou dar negativa, porque obviamente o Sporting ganhou um a zero e aqui eu estou a analisar a arbitragem, obviamente, como português, que é sempre que as equipes portuguesas ganham, mas aqui a análise tem que ser feita em relação à função do trabalho do árbitro e se houver erros, independentemente de quem beneficiou ou prejudicou, naturalmente, tem que ser analisado sob esta forma. Eu dou nota quatro, porque há um amarelo claro ao Máxi que não é mostrado. Há uma expulsão que até podia não ter muito impacto, é no último minuto, conforme dissemos, pro jogador, pro Isaac Silva, e há sobretudo o lance de penalti, no momento em que o Sporting está a ganhar um a zero e que podia, eventualmente, trazer o jogo noutro resultado. E são três erros, sobretudo dois que têm importância, o penalti e o segundo cartão amarelo, porque tem impacto sempre no jogo e com esta análise que fiz e com estes três erros, sobretudo o penalti e a questão da expulsão, eu dou nota quatro, nota negativa.

Nota quatro dada pelo Pedro Henriques ao trabalho de Ivan Kruzliak, que esteve no comando deste Shakhtar Donetsk-Sporting, jogo da Liga dos Campeões, que a equipe portuguesa, os Leões, venceram por um a zero. Idrissa Doumbia fez o único gol da partida. Pedro Henriques, está feito mais uma edição do "Sem Falta". Um grande abraço e até uma próxima oportunidade.

Um abraço, obrigado.

O "Sem Falta" fica, como sempre, disponível em podcast.