Ano após ano, o Manchester United continua a surpreender — e não pela positiva. Com Michael Carrick a manter-se no cargo sem que ninguém consiga propriamente perceber como ou porquê, os red devils chegaram aos nove jogos seguidos sem ganhar, algo que não acontecia desde 1988. Esta terça-feira, na Liga dos Campeões, a possibilidade de chegar ao 10.º jogo seguido sem ganhar puxava o registo para trás, já que tal não acontecia desde 1984.

Vindo de uma derrota dura no fim de semana contra o Chelsea, o Manchester United deixava a Premier League onde está à beira da zona de despromoção e voltava à Liga dos Campeões onde também só tinha três pontos em três jornadas. Assegurando que não acha que será despedido no fim do próximo ciclo de três jogos, antes da interrupção de duas semanas para os compromissos das seleções nacionais, Michael Carrick manteve o discurso sóbrio e às vezes até inexplicável, acrescentando que não questiona o compromisso de Lisandro Martínez e Bruno Fernandes, os dois jogadores que se mostraram publicamente críticos do momento atual do clube.

Não foi um voto de confiança, foi um presente envenenado que deixou tudo na mesma: United perde e leva nove jogos sem ganhar

“Não tenho qualquer preocupação quanto ao compromisso. As coisas acontecem no futebol. Por vezes fazemos coisas, por vezes tomamos uma decisão, por vezes cometemos erros. Mas o compromisso não é um problema, de certeza. O balneário é um sítio muito bom, por isso as perceções são algo curioso. Podem fazer as coisas parecer de várias formas e levar a pensar em coisas muito diferentes. Já o disse antes: o compromisso dos jogadores com o clube, comigo e entre si é algo que não questiono de todo. Precisamos de jogar melhor, podemos tomar melhores decisões, mas o compromisso não é uma questão”, disse o treinador inglês, sendo que tanto o argentino com o português terminam contrato no fim da época, sendo que os red devils têm a opção de acionar uma cláusula de extensão por mais um ano.

Ora, o adversário desta terça-feira, porém, não era o mais acessível para alcançar um resultado positivo. O Manchester United recebia a Roma, equipa de Gian Piero Gasperini que ainda só perdeu um jogo nesta temporada e contra o Real Madrid, na Liga dos Campeões, e que vinha de uma motivadora goleada em casa da Udinese. Em Old Trafford, de forma clara, encontravam-se dois balneários com ambientes muito diferentes.

Assim, Michael Carrick lançava Matheus Cunha, Bruno Fernandes e Amad Diallo no apoio a Bryan Mbeumo, com Kobbie Mainoo e Carlos Baleba no meio-campo e Diogo Dalot na esquerda da defesa, sendo que Ayden Heaven era titular ao lado de Harry Maguire e em detrimento de Lisandro Martínez. Do outro lado, Gian Piero Gasperini tinha Matías Soulé, Rodrigo Mora e o crónico Donyell Malen no ataque, com o ex-Benfica Bryan Cristante a aparecer também no setor intermédio.

A primeira parte até começou equilibrada, mas o Manchester United depressa entrou no vórtice do costume: passes errados, decisões inexplicáveis, falta de confiança e autodestruição. E a Roma aproveitou. Matías Soulé abriu o marcador ainda no quarto de hora inicial, finalizando completamente sozinho na área depois de um enorme passe de Rodrigo Mora (11′), e Donyell Malen aumentou a vantagem pouco depois, contretizando uma grande penalidade após Ayden Heaven intercetar um remate com a mão dentro de área (17′).

Gian Piero Gasperini foi forçado a mexer ainda na primeira parte, trocando o lesionado Devyne Rensch por Emanuele Lulli, e os italianos foram gerindo o resultado sem grandes sobressaltos e até com oportunidades para voltar a marcar, com Malen a obrigar Senne Lammens a uma boa defesa (45′) e Soulé a ficar perto de bisar (45+1′). Os red devils não tinham uma ponta de criatividade no ataque e o único remate enquadrado apareceu já nos descontos, por Kobbie Mainoo e para uma intervenção fácil de Devis Vásquez (45+2′). Ao intervalo, em Old Trafford, a Roma estava a vencer tranquilamente em Old Trafford. 

Gian Piero Gasperini mexeu logo ao intervalo e tirou Rodrigo Mora para colocar Niccolò Pisilli, enquanto que Michael Carrick foi forçado a fazer a primeira substituição logo nos instantes iniciais por lesão muscular de Carlos Baleba, lançando Tielemans. Ainda dentro da hora de jogo, Old Trafford assistiu a minutos de golpe de teatro: Gianluca Mancini fez falta sobre Matheus Cunha no interior da área, Bruno Fernandes começou por permitir a defesa de Devis Vásquez na conversão da grande penalidade, mas Bryan Cristante tinha entrado na área e o português, na repetição, não falhou (58′).

Os ingleses poderiam ter empatado logo a seguir, num lance inacreditável em que Mbeumo rematou, a bola bateu nos dois postes e não entrou (59′), e os italianos iam sendo algo castigados pela forma demasiado descansada como entraram na segunda parte. Os red devils cresceram, subiram no relvado, asfixiaram o adversário e ainda viram Harry Maguire ficar muito perto de marcar de cabeça (66′), mas a Roma foi conseguindo respirar.

Michael Carrick voltou a mexer à beira do derradeiro quarto de hora, lançando Shea Lacey e Lisandro Martínez, e o empate apareceu mesmo já nos últimos 10 minutos, com Leonardo Balerdi a cometer um erro infantil e Matheus Cunha a aproveitar (83′). Instantes depois, Old Trafford explodiu: um desenho perfeito, Matheus Cunha recebeu de Lacey na área e atirou em força para bisar (86′), lançando-se já sem camisola para os braços dos adeptos num momento de absoluta euforia que as bancadas não viviam há dois meses.

Matheus Cunha ainda foi expulso por acumulação de cartões amarelos, o que significa que falha o jogo com o Sporting na próxima jornada, mas o Manchester United venceu mesmo a Roma com direito a reviravolta, evitando o 10.º jogo sem ganhar e somando mais três pontos na Liga dos Campeões, relançando-se na corrida pelo apuramento. Mais do que isso, o Manchester United ganhou um autêntico balão de oxigénio: e Michael Carrick aguentou tanto e tanta coisa que teve direito a um milagre de S. Matheus.