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Muito bom dia, bem-vindos a esta emissão especial do "Sob Escuta". Hoje começa oficialmente o terceiro período do ano letivo, um terceiro período escolar como nunca foi visto em Portugal. Também a situação que vivemos assim o justifica e é também ela inédita. Estamos em estado de emergência. É provável que no final desta semana esse estado de emergência seja renovado e por isso mesmo, para falarmos dessas e de outras questões, convidámos o Primeiro-Ministro António Costa. Muito obrigado por ter aceitado o nosso convite. Hoje também, e eu não fiz referência a isso nesta introdução, é o dia em que terminam aquelas medidas excecionais que impôs para o período da Páscoa, considerado um período mais de risco dentro deste mês de abril, que é considerado decisivo pelo governo. Já é possível fazer algum balanço de como é que correu, se as medidas que foram tomadas foram ou acertadas ou não?
Muito bom dia. Em primeiro lugar, permita-me que comece por desejar a todos os alunos, professores, a toda a comunidade educativa, que inicia este terceiro e último período deste ano letivo, uma boa conclusão deste ano letivo, desta forma tão difícil, tão diferente daquilo que é habitual, mas tão importante como todas as conclusões dos anos letivos para o futuro das nossas crianças e dos nossos jovens e portanto a todos, as maiores felicidades. Eu creio que o balanço genérico destes cinco dias, que era a questão que me tinha colocado, essencialmente positivo. Acho que não houve um número anormal de situações de incumprimento. Há sempre alguma resistência às medidas, como disse, eram de facto mais restritivas, mas as pessoas, como tem sido nota desde o princípio desta crise, têm sido muito conscientes que a melhor colaboração, o maior apoio que podem dar ao nosso Serviço Nacional de Saúde, aos profissionais de saúde, que estão na primeira linha da frente do combate ao Covid, é manterem-se isoladas, evitarem circular excessivamente e portanto, acho que toda a gente tem catado isso de forma genérica.
Em todo o caso, hoje passou esse período que era simbólico, era importante. Hoje começa o outro, ao qual também já dedicou aqui alguns segundos de atenção. Uma das grandes dúvidas, ou pelo menos uma das grandes certezas, na verdade, a palavra certa é essa, é que o método encontrado para resolver o problema para este terceiro período vai provavelmente agravar as desigualdades de acesso dos vários alunos, das várias famílias ao ensino. Está particularmente preocupado com esse risco? Acha que é possível resolver isso ainda neste terceiro período ou essa é uma questão que já afastou?
Uma coisa que ficou mais evidente é que obviamente a escola é um local que ajuda a combater as assimetrias e que a separação de cada um para os seus domicílios expõe-nos, naturalmente, de uma forma mais evidente, às desigualdades pré-existentes fora da escola.
Mas admite que quem tem famílias mais desfavorecidas, por exemplo, que não tenha acesso a equipamentos, imaginemos computador ou internet, vai claramente sair prejudicado neste terceiro período.
Claro, por isso procurámos neste terceiro período introduzir uma nova ferramenta, que irá para o ar já a partir da próxima segunda-feira, e que é um apoio através da televisão e através da televisão digital terrestre, portanto, acessível a todas as pessoas e utilizando um canal que já está programado, sem necessidade sequer de haver ressintonização da caixinha da TDT, para efetivamente criar aqui uma condição mais mitigada, de alguma forma, a essa desigualdade, quer no acesso à rede, quer no acesso aos equipamentos. Agora, a consciência disso levou-nos a acelerar aquilo que tínhamos previsto no programa do governo e fixámos o objetivo de, no início do próximo ano letivo, assegurar a universalidade do acesso às ferramentas digitais a todos os alunos do ensino básico e secundário.
Mas neste ano letivo, neste fim de ano letivo, essa ferramenta que o governo arranjou, a telescola, o próprio programa...
Não é a telescola, porque a telescola, quando existia, a verdadeira telescola, que a minha geração ainda se lembra, por isso é que convém fazer a distinção, era um sistema semipresencial. Porque aliadas poucas pessoas tinham televisão em casa e portanto havia uma televisão numa sala de aula, os alunos iam à escola, estavam em sala e havia quem os guiasse ou os acompanhasse.
A outra diferença é que este é complementar, foi esta a expressão que usou. A questão da desigualdade vem precisamente por aí, porque há não só o problema de muitas famílias não terem equipamentos para os filhos poderem assistir às aulas, e há muitos professores titulares que também não estão preparados para depois preencherem a outra parte do complementar. Como é que vai resolver esta situação?
Eu acho que os professores, em particular, deram uma prova extraordinária de capacidade de adaptação. E eu acho que nós verificámos em 15 dias um avanço na literacia digital que seria pouco pensável ser possível sequer numa ação programada. E houve um esforço extraordinário que os professores fizeram por si próprios, com o apoio muitas vezes dos seus filhos, e encontraram as ferramentas mais diversas. E a verdade é que nós encontramos demonstração de, seja por via digital, seja por via do telemóvel, seja por via do telefone, seja até por via do correio, os professores e os diretores de turma fizeram um enorme esforço de manter o contacto com as turmas, manter o contacto com os seus alunos, e isso é muito importante. E é importante que esse esforço se mantenha e prossiga, obviamente, por uma questão, aliás, que tem a ver com a igualdade. Em primeiro lugar, porque hoje com a autonomia, os programas não são dados como eram dados antigamente, com o bloco do primeiro período, o bloco do segundo período e o bloco do terceiro período.
As matérias variam durante o ano.
As matérias variam de acordo com a escolha do próprio professor ao longo do ano letivo. Portanto, as emissões que vamos fazer obviamente não podem ter em conta os diferentes ritmos de distribuição das matérias ao longo do ano letivo. É, digamos, de largo espectro. E portanto, a afinação daqueles conteúdos àquilo que é a aprendizagem já efetuada pelo aluno, só pode ser feita pelo professor. Segundo lugar Precisamente porque temos em conta que este terceiro período e a parte final do segundo período foram feitos em condições diferentes do que é tradicional, é que valorizamos muito, neste ano letivo, os processos de avaliação através da escola e do próprio professor. Por quê? Porque é aquele que melhor conhece o aluno e, portanto, melhor pode compreender, quer o esforço maior que está a fazer pelas condições que tem, quer também ter em conta as condições mais adversas em que está a trabalhar. Ora, os professores conhecem os alunos, pelo menos do primeiro período, de grande parte do segundo período e muitos deles até de anos anteriores. Portanto, são eles que estão nas melhores condições possíveis e por isso limitamos os exames nacionais.
Vai haver uma exigência para os professores fazerem o acompanhamento específico dos alunos? Vai haver essa fiscalização? Fiscalização no sentido de acompanhamento daquilo que está a ser feito, porque o ensino complementar que o governo garante é isso, é complementar.
Vamos lá ver, nós não vivemos num estado policial em que temos que estar todos sempre a fiscalizar uns aos outros. E acho que se há algo que nos podemos coletivamente orgulhar enquanto país, é que sem ter necessidade de meter as Forças Armadas na rua, de metralhadora em punho e tanques em cada esquina, as pessoas têm cumprido pacata e com enorme sentido cívico, os seus deveres. E assim tem sido também. Nós estamos num estado de emergência, até agora não tivemos que requisitar um único equipamento, uma única instalação, não tivemos que obrigar ninguém a ir trabalhar. Portanto, as pessoas têm se adequado da forma mais natural possível. Se me pergunta se é normal a situação que estamos a viver, é evidente que é profundamente anormal a forma que estamos a viver. Agora, dentro desse contexto, eu acho que tem sido um esforço feito positivamente por todos. Acho que precisamente também no processo de avaliação, os professores terão em conta as matérias que lecionaram, as matérias que não lecionaram e por isso restringimos a existência de exames nacionais ao mínimo, que era absolutamente essencial, que são os exames de acesso à universidade, porque o não o fazer seria um enorme fator de injustiça relativa, porque ou impedíamos uma geração toda de entrar na universidade quando tinha a expectativa do entrar ou não assegurávamos as condições mínimas de igualdade a todos no acesso à universidade.
Para os restantes anos, já aqui falou de uma promessa que já deixou, de garantir equipamentos e ligações à internet no próximo ano letivo. Consegue garantir que esses equipamentos e essas ligações estarão todas entregues a quem precisa delas no arranque do ano letivo?
Temos que trabalhar para isso, é esse o objetivo que nos propusemos e é com base nisso que estamos a trabalhar com a indústria, com os editores e produtores de conteúdos pedagógicos. Estamos a trabalhar com as entidades, com os agentes comerciais, de forma a garantir o número de equipamentos suficiente e a trabalhar com os operadores para assegurar um reforço da cobertura do espaço escolar, das zonas de residência, de forma a termos uma cobertura mais robusta do que aquela que existe.
E já tem uma estimativa de custos quanto é que isso vai custar?
Não, neste momento ainda não temos, estamos a fazer esse levantamento, mas enfim, este era um programa que nós tínhamos para desenvolver ao conjunto ao longo da legislatura.
E tiveram de acelerar precisamente por estas circunstâncias.
Temos, obviamente, que acelerar.
Mas acha que vai ser preciso isso, que o próximo ano letivo vai provavelmente ser nos moldes em que está a terminar este ou acredita que vai haver um regresso relativamente normal à escola com as aulas presenciais para todos os anos de ensino?
O avanço para a transição digital é sempre necessária, portanto, esse é um investimento que seria sempre necessário fazer. Vamos seguramente ter de antecipar. Não me peça agora a adivinhação de como vai ser o próximo ano letivo. Há uma coisa que nós temos que olhar para o próximo ano letivo, da mesma forma que temos olhado para estes dias que temos vivido, desejando o melhor, mas preparando-nos sempre para o pior. E por isso, nós temos que estar no próximo ano letivo preparados para responder a uma situação como esta, que decorra de uma forma mais prolongada, e não ter que improvisar, como temos improvisado ao longo destes meses, onde ninguém estava à espera que de repente a meio do ano nos acontecesse uma coisa desta. Agora, para o ano já sabemos duas coisas. Sabemos, primeiro, que o vírus não acaba antes do início do próximo ano letivo e que as melhores previsões, enfim, agora já há outras, mas enfim, mas com grande probabilidade não teremos vacina antes do final do próximo ano letivo e, portanto, vamos ter que ser capazes de conviver um outono, um inverno e uma primavera ainda, para além do verão, com este vírus. E para conviver com este vírus, temos que nos preparar para isso. Há equipamento de proteção individual, porque porventura não podemos estar tão confinados como estivemos nesta vez. Não podemos estar um ano letivo inteiro, com certeza, fechados em casa, mas temos também que ter melhores ferramentas para poder prosseguir as nossas atividades à distância, porque havendo esse vírus, por muito controlada que seja a pandemia, nada nos pode garantir que não...
Tende a continuar a haver medidas de restrição.
Há de haver medidas de restrição e pode haver picos. E portanto, nessas situações nós temos que ter uma rede de segurança para podermos continuar a funcionar, dizendo que este além do mais é um investimento que faz sentido, que vale a pena.
E que tiveram, em todo o caso, de antecipar por via das circunstâncias. Deixe-me perguntar-lhe, porque já falou da forma como se vai viver nos próximos tempos. Eu queria perguntar-lhe a curto prazo já, porque na sexta-feira supostamente termina este estado de emergência que está em vigor neste momento. Já sabemos que o presidente da República tenciona renová-lo, já sabemos também que o governo apoia essa decisão, mas a minha pergunta é se admite levantar já algumas medidas de restrição que estão em vigor?
Felizmente chegamos à fase em que se começou a debater qual deve ser o momento e qual deve ser a estratégia de saída. Como eu disse na semana passada, a propósito das escolas, o processo de saída há de ser sempre gradual e progressivo. Por quê? Porque há uma coisa que nós sabemos. Primeiro: não podemos levantar estas medidas restritivas enquanto o risco de contágio não tiver sido reduzido para um nível que seja controlável. E neste momento, nós temos vindo a diminuir, felizmente, o risco de expansão da pandemia, mas ainda não chegamos à fase em que começamos a entrar na fase de declínio da pandemia. Portanto, é prematuro, neste momento, tomarmos uma decisão e os cientistas não são capazes ainda de antecipar com suficiente precisão quando é que lá chegaremos. Será no final deste mês? Será em meados do próximo mês? Será no final do próximo mês? Não sabem dizer.
Portanto, não conta mudar nada daquilo que está em vigor neste momento, para já.
Para já, nós não sabemos quando vamos ter uma condição de pandemia diferente daquela em que estamos. Há uma coisa que sabemos: afastámo-nos claramente do crescimento exponencial. Temos estado, aparentemente, na última semana, naquilo que os cientistas designam como planalto, ou seja, mantivemo-nos sempre ali na casa dos 6%. Depois há sempre dias em que há altanas, há dias exponenciais. Já sabemos que ontem foi anormalmente baixo, mas tivemos uma sexta-feira anormalmente baixo. Tivemos uma sexta-feira anormalmente alta, depois voltámos a estabilizar. Portanto, vamos ver. Temos que ir acompanhando, porque todos os números são prematuros e, sobretudo, se as pessoas vão achando que as coisas estão bem e vão elas próprias aligeirando o seu comportamento e as suas defesas, isto passa a correr mal imediatamente. Agora, o que nós sabemos? Sabemos que no dia em que começarmos a retirar essas medidas, naturalmente, os contactos vão aumentar e aumentando os contactos, o risco de aumento dos contágios também aumenta.
Portanto, ainda é cedo para retirar algumas dessas medidas.
Não, será cedo. Vamos lá ver. Hoje é cedo, mas mesmo quando começarmos a retirar, o vírus não desapareceu. Está a ver? Não vamos poder esperar pelo dia da vacina.
Não espera até sexta-feira para ter alterações assim tão grandes?
Não.
Hoje já se saberá se é para manter tudo igual na sexta?
Sim, mas deixe-me só acabar de terminar. Eu acho que vamos ter que sempre retirar de uma forma gradual, progressiva. Por quê? Porque quando começarmos a retirar, seja sexta-feira, seja daqui a 15 dias, seja daqui a três semanas, seja daqui a um mês, o que acontecerá sempre, inevitavelmente, é que quando começarmos a tirar, o nível de contágio vai de novo aumentar. E, portanto, deve ser sempre gradual e progressiva. Para quê? Para garantir que esse aumento nunca ultrapassa o limite do que é controlável. Porque se perdemos o controle, voltamos a ter que adotar estas medidas. Aliás, hoje mesmo, a Comissão Europeia está a discutir uma recomendação sobre uma estratégia comum de saída, com um conjunto de princípios, com um conjunto de orientações, onde isso, aliás, é muito claramente afirmado, deve ser sempre gradual, deve ser sempre progressiva e deve ter em conta que cada vez que retirarmos uma medida, o risco de aumento do contágio, inevitavelmente, vai aumentar.
Agora já acabou o raciocínio. Na sexta-feira é o dia para começarem a ser retiradas essas medidas, porque hoje é terça, não é? Imagino que nesta altura já tenha essa reflexão feita.
Vamos lá ver. Como sabe, o estado de emergência tem um processo institucional que eu acho que temos que respeitar. Primeiro, é a iniciativa do senhor presidente da República, e é o presidente da República que propõe o desenho concreto do conteúdo do estado de emergência no projeto de decreto, que submete ao governo para o governo se pronunciar. Portanto, o governo só se deve pronunciar depois de lhe ser apresentado o decreto por parte do senhor presidente da República. Depois, ele segue para a Assembleia, a Assembleia da República autoriza ou não autoriza. No trabalho que temos mantido, e o senhor presidente da República tem feito sempre isso, tem trabalhado sempre com o governo na preparação do decreto. Este tem sido um trabalho de grande proximidade. Eu diria que haverá algumas restrições institucionais, designadamente em matéria de direitos coletivos dos trabalhadores, que provavelmente serão eliminadas. Relativamente àquilo que são as limitações à circulação e ao conjunto de atividades, não antevejo, para já, vá existir qualquer alteração.
E já existe um plano? Por exemplo, quando fala nesse gradualismo e até nas indicações e nas balizas que vão ser concertadas a nível europeu. Em Portugal, vai acontecer ou planeia que aconteça aquilo que está a acontecer em Espanha, que é alguns setores de atividade começarem a regressar mais cedo ao trabalho?
Vamos lá ver, em Portugal nunca aconteceu como em Espanha. Enfim, não tenho a certeza como é que aconteceu em Espanha. Em Portugal, nós nunca encerramos todos os setores de atividade.
Sim, é diferente o nível de restrição.
Por exemplo, a atividade industrial manteve-se em funções. A que está encerrada, basicamente, é ou por falta de procura ou por falta de fornecimentos. Mas desde que tenham condições de segurança no interior das instalações da fábrica e de proteção individual dos seus trabalhadores, podem funcionar. No setor dos transportes, idem, limitámos as lotações. Basicamente, o que foi encerrado foram os serviços de atendimento ao público ou de grande concentração de pessoas. É o caso das lojas, é o caso das que não sejam de bens essenciais, como os alimentares, ou lojas de ferragens. Enfim, houve algumas que se mantiveram abertas. Agora, o comércio em geral foi encerrado. A restauração foi encerrada, as cafetarias foram encerradas. Aí houve o conjunto dessas medidas.
Numa situação muito mais dramática, foi definida uma data para regresso à normalidade, que é 26 de abril, em França também 11 de maio.
11 de maio. Há uma data na sua cabeça para começar esta retirada gradual de medidas?
Como lhe disse, várias das atividades não foram encerradas. Mesmo nas áreas de serviços, desde que se possa manter em teletrabalho, podem continuar a funcionar.
Mas, por exemplo, a restauração é um lugar tão dramático neste país.
Segundo lugar, relativamente à escola, já definimos o calendário. Eu não tenho escondido que nós gostaríamos, por exemplo, que as aulas presenciais do secundário pudessem começar o mais cedo possível a partir do dia 4 de maio. Por quê? Porque quanto mais cedo começarmos, mais conseguimos recuperar o número de semanas que não tivemos aulas presenciais e, portanto, menos afetaríamos todo o processo educativo. Eu acho que nós, políticos, temos que nos impor uma enorme disciplina neste processo, aceitando que temos que respeitar aquilo que é, no fundamental, a orientação técnica dos cientistas, porque isto é, antes de mais nada, uma questão de saúde pública.
Mas em Espanha e em França também respeitam orientações técnicas. Por que eles já têm uma data e Portugal não estabelece essa data? Não é importante haver também essa linha do horizonte?
Mas há uma coisa que é muito importante, é que, porventura, a sua comunidade científica está em condições de ser mais precisa do que a nossa está. Também porque começaram a pandemia, descendo os infetados da pandemia mais cedo, portanto, porventura, chegarão mais cedo também ao final desta curva. Terceiro lugar, eu não me quero pronunciar sobre as decisões dos outros. Sei qual é o nosso método de decisão. E o nosso método de decisão tem sido assente no conjunto de estudos das equipes de epidemiologistas que têm trabalhado para a Direção Geral de Saúde, tem sido, aliás, uma informação aberta e partilhada. Quase todas as semanas, o presidente da República, o presidente da Assembleia da República, todos os líderes partidários, todos os parceiros sociais têm tido acesso a essa informação como nós temos e, portanto, conhecem qual é a previsão que os cientistas definem para a evolução possível desta pandemia. Como sabe, nem no seio da comunidade científica há total acordo. Há quem entenda que já atingimos o momento de maior risco de contaminação. Há aqueles que entendam que estamos na fase de planalto, há aqueles que entendam que o planalto está subestimado. Enfim, a própria comunidade científica não tem um entendimento. Há uma coisa que os políticos devem ter o cuidado, é de evitar que a sua vontade se sobreponha ao conhecimento da ciência, precipitando decisões que depois podem ter custos elevados. Eu acho que quando lerem hoje as recomendações da Comissão Europeia, todos vão ficar a perceber melhor qual deve ser o processo de decisão. Não querendo concordar com tudo o que a Comissão Europeia diz, o método corresponde exatamente àquele que nós definimos, porque há uma coisa que nós sabemos, e insisto nisto, conforme formos levantando as medidas, o risco de contaminação aumenta. E, portanto, não podemos deixar aumentar para um nível superior. Há quem sugira que entre o levantamento de uma medida e o levantamento de outra, deve demorar pelo menos umas semanas a um mês, de forma a medir bem o efeito do levantamento dessa medida.
E isso parece-lhe razoável?
Este vírus é novo, mas há coisas que nós vamos sabendo. Quer dizer, nós sabemos que entre a contaminação e a essência dos primeiros sintomas, demoram pelo menos cinco dias. Nós sabemos que há muitas pessoas que podem ter a contaminação sem terem qualquer sintoma. E é isso que torna tudo mais perigoso. Porque, em princípio, quando nós temos uma doença, o que é que fazemos? Sentimos a doença e nos trancamos em casa para nos tratarmos. E, portanto, não andamos por aí. Agora, nós estamos aqui, cinco pessoas neste espaço, com bastante distanciamento entre nós. Todos nós julgamos não estar infetados.
Mas não podemos garantir.
Nenhum de nós pode garantir isso.
Pode haver esse caso.
O mínimo que podemos fazer é estarmos à distância para garantir que se algum espirrar, não infete os outros.
Falou dos conselhos da Comissão Europeia. Ainda este fim de semana a presidente da Comissão Europeia dava algumas dicas daquilo que serão as orientações de Bruxelas nessas matérias. E uma das que avançou foi que provavelmente as restrições para os mais velhos devem ser mantidas pelo menos até o final do ano. Acha que é razoável? Também lhe parece que isso será uma medida que entrará em vigor aqui em Portugal?
É evidente que sendo os mais idosos o grupo de maior risco e o grupo daqueles que, sendo atingidos pela doença, mais graves consequências a doença tem. Basta comparar a taxa de mortalidade entre os maiores de 80 anos, os maiores de 70 anos e o resto da população para perceber como de facto as consequências são radicalmente distintas. Bem sei que muitas das pessoas certamente não morreram por causa do Covid, mas com o Covid, porque teriam outras doenças associadas. E, portanto, isso significa que obviamente, todas as medidas de contenção e distanciamento que vamos ter que manter até podermos viver em total segurança com o vírus, e isso só acontecerá Quando houver uma vacina ou um tratamento que inequivocamente permita dar uma resposta pronta a esta doença, é evidente que vamos ter que manter essas restrições e elas serão tanto mais exigentes para quem tem maior risco.
Portanto, pode haver um país a duas velocidades, mais velhos em casa ainda, quando o resto das pessoas já voltou ao trabalho.
Sim, vamos ter seguramente um país com múltiplas velocidades, porventura de regiões diferentes, de setores de atividade diferentes, de pessoas com riscos diferentes. Vamos ter seguramente isso.
Portanto, levantar restrições, por exemplo, em zonas diferentes do país?
Pode ser, é uma hipótese que não devemos excluir neste momento.
O Presidente da República falou outro dia no perigo de criar guetos aqui, até falava na população idosa, que representa um terço da população portuguesa, e que isso poderia criar aqui também um fosso. Tem essa preocupação? Como é que dá a volta a este problema, tendo em conta que está a dizer que há uma possibilidade de a população idosa ficar mais tempo em casa do que o resto da população?
Qual tem sido o princípio fundamental que nos tem guiado? O máximo de contenção com o mínimo de perturbação. Portanto, nós devemos sempre procurar impor o menor número de restrições possíveis. A restrição deve ser a exceção, não deve ser a regra. Agora, por que é que tem um isolamento obrigatório cuja violação é crime quem está contaminado? Porque quem está contaminado tem um risco para o conjunto da comunidade. Por que é que nós, relativamente aos idosos, o que estabelecemos foi um dever de proteção especial? Porque eles não são um perigo pra sociedade. Eles estão expostos a um risco especial, porque são mais frágeis e podem ser contaminados, e são mais frágeis e por isso a sua contaminação pode ter causas mais graves. Enquanto que a confinação obrigatória, e por isso é crime a sua violação, é pra proteção da sociedade, neste caso, o que estamos a falar é a proteção dos próprios. Estou a falar dos idosos, que obviamente não estão contaminados. Portanto, esse dever de proteção é um dever de proteção que nós temos para com os idosos.
Mesmo que corra o tal risco do gueto de que falava o Presidente da República?
Há uma coisa que nós sabemos aqui. Este vírus é um vírus que não anda sozinho. Somos nós que os transportamos. E que vai circulando entre nós em função da nossa proximidade. Por isso, quando dizemos às crianças: "Não é altura de visitar os avós", não é por maldade para com os avós, não é pra pôr os avós num gueto. É pra proteger esses avós. Eu, aliás, já disse isto. A minha mãe, que em toda a sua vida foi a pessoa mais indisciplinada que eu alguma vez conheci e a maior amante da liberdade, tem tido, nestes momentos, uma extraordinária disciplina, com um argumento, aliás, muito inteligente: "Eu estou aqui a ganhar anos de vida". E como é uma mulher otimista, apesar dos seus 87 anos, acha, e bem, ainda bem, que está ali a ganhar anos de vida. E é verdade. E portanto, eu acho que não está num gueto. Está efetivamente a ganhar anos de vida. E nós temos o dever especial de proteger os nossos idosos, se queremos efetivamente ser uma sociedade decente, onde estamos aqui todos para nos ajudarmos uns aos outros. Não se trata de guetizar, trata-se de proteger.
De proteger. A presidente da Comissão Europeia, também na mesma entrevista que deu a um jornal alemão, desaconselhava os europeus a planearem as suas férias de verão. O senhor também tem este conselho para os portugueses, para não fazerem grandes planos para as férias de verão, para não começarem a planejar já as suas férias no Algarve este ano?
Eu não querendo correr o risco de ser otimista, o que eu diria é que esperem talvez mais umas semanas, mas não deixem de pensar nas férias de verão. Seria, aliás, para a economia portuguesa, um dano imenso se o próximo verão fosse um verão onde o turismo não tivesse condições de funcionamento mínimo. Portanto, quero crer que até ao verão, a situação estará suficientemente controlada para podermos ter as férias, com certeza, e para podermos gozar o melhor possível. Agora, obviamente, não tenho dúvidas que tal como aconteceu quando foi o ataque às Torres Gêmeas, que durante bastante tempo isso teve impacto sobre a retoma da aviação, porque as pessoas tinham medo de andar de avião, seguramente, não creio que a primeira coisa que as pessoas vão fazer é marcar férias, sobretudo para locais muito distantes, sabendo que podem ser surpreendidas, como aconteceu agora a milhões de pessoas em todo o mundo, em pleno gozo de férias, a ficarem isoladas pelo encerramento de fronteiras, pelo cancelamento de voos, etc. Agora, para já aos portugueses, daria um conselho, que é: planeiem as férias cá dentro, porque estamos sempre mais seguros cá dentro, nesta fase, e menos sujeitos à incerteza.
Já que estávamos a falar da Comissão Europeia, ontem a comissária europeia Vestager falou de uma possibilidade que também é nova nos tempos que correm, que já vinha atrás, foi abandonada, mas agora parece ter ressurgido no discurso político, que tem a ver com os governos nacionais poderem tomar participação nas empresas listadas para antecipar qualquer eventual tomada de posição por parte de empresas chinesas. Começou a rir quando eu falei desta pergunta, por quê?
Não, comecei a rir porque tenho visto que esta crise tem sido de tal forma perturbadora que até as mentes mais liberais, de repente, redescobriram o papel do Estado. Eu, como social-democrata, só me posso regozijar com isso. Eu creio que o que a comissária Vestager tinha em mente é o fato de esta crise ter desvalorizado, na bolsa, muitas e muitas empresas e, portanto, elas estarem expostas a ataques ou OPAs mais ou menos hostis, designadamente por investidores externos, e quis alertar para o risco de, em alguns setores estratégicos, a Europa não correr riscos de o capital dessas empresas se transferir massivamente para capital de origem chinesa.
E acha que é uma possibilidade para empresas portuguesas o Estado vir a nacionalizar algumas delas ou tomar uma posição acionista forte?
Eu acho que não há nenhuma razão para excluir nenhum instrumento de ação pública que se venha a revelar necessário.
Mas isso é em tese? Por exemplo, pensando em empresas concretas como a TAP, ontem o ministro das Finanças falou nesse mesmo tom. É uma possibilidade, mas isso é tese ou a hipótese está em cima da mesa?
Vão ver, seguramente não está na nossa mente nacionalizar "O Observador". Não creio que seja algo que esteja em cima da mesa. Relativamente à TAP, onde o Estado, aliás, felizmente, já é acionista, todos nós sabemos que o setor da aviação civil foi dos setores que sofreu de uma forma devastadora esta situação de crise. Sabemos que, aliás, havia já alguma vontade de alguns acionistas em poderem alienar as suas posições, e que é uma empresa absolutamente estratégica para o país. Tivemos uma boa demonstração agora de quando tudo parou, quando muitos portugueses estavam isolados. Até aqui ao lado, em Marrocos, foi a TAP que os foi lá buscar. Quando é necessário organizar, montar uma linha de uma ponte aérea para a importação de bens provenientes da China, de um conjunto de equipamento médico de proteção individual, é com a TAP que temos que contar. Sem desprimor pelas outras companhias, também nacionais, que têm dado uma colaboração extraordinária, a TAP é fundamental. Quem é que tem assegurado a ligação entre o continente e as regiões autónomas, garantindo o direito constitucional à liberdade de circulação em todo o território? Tem sido a TAP.
Portanto, a questão da pandemia também pode vir a acelerar um processo que já estava em curso, no que diz respeito à nacionalização da TAP.
Como sabe, nós readquirimos uma posição de 50% na TAP logo no início do meu primeiro governo.
Agora havia conversas já bastante avançadas.
Agora, como é sabido, não havia com o Estado, mas havia entre os privados, que tinham manifestado já a sua intenção de poder alienar, estavam em negociações com uma outra companhia. Essa outra companhia, naturalmente, suspendeu as aquisições, como é normal.
Que está também numa posição difícil neste momento.
Sim, não creio que haja nenhuma companhia aérea que neste momento esteja a pensar em novos investimentos. Estão todas a pensar, basicamente, como é que se vão poder reerguer depois desta paralisação global. Nesse quadro, obviamente, não podemos excluir a necessidade de nacionalizar a TAP ou outra empresa que seja absolutamente fundamental para o país e que não possamos correr o risco de a perder no final desta crise. Quer dizer, isto é uma crise de saúde que se está a transformar numa crise económica e que não podemos deixar agravar esta crise económica, sob pena das consequências desta crise sanitária serem muito mais profundas e prolongadas do que elas seriam.
De qualquer forma, não tem um fiat vista mesmo para a questão da crise económica, porque também dependerá de haver ou não um segundo surto, que é uma possibilidade que tem falado. O que é certo é que já se comprometeu de que não vai...
Infelizmente, não sou só eu que tenho falado, porque se sou eu a ter falado, estamos nós bem. O problema é que todo mundo tem consciência.
Sim, vários economistas falam precisamente isso.
Vamos ter, porventura, segundos, terceiros e quartos surtos. O problema é: há uma coisa que nós temos de compreender, que é o seguinte: até haver vacina ou até haver um remédio eficaz, nós vamos ter que conviver com a presença deste vírus. Isto não é uma realidade nova para a humanidade, porque nós convivemos habitualmente com milhões de vírus. Este tem várias características diferentes. É novo, portanto, conhecemo-lo pior. Segundo, é fácil de transmitir. Terceiro, existe de uma forma silenciosa em muitas pessoas que vão sendo portadoras do vírus sem consciência disso e, portanto, o risco de transmissão aumenta significativamente. Depois, tem períodos de tratamento muito prolongados e tem danos para a saúde muito mais profundos do que os da gripe.
E tudo isso torna mais difíceis as decisões políticas, e temos acompanhado isso ao longo destas semanas. Mas a minha questão tem a ver com um compromisso que fez já publicamente, que é o de não aplicar em Portugal novamente a receita que foi aplicada nos chamados anos da Troika. Para sermos claros, o que se comprometeu foi que não vai aumentar impostos, não vai cortar salários ou abonos sociais, não vai fazer cortes na despesa pública daquela dimensão, é isso?
Sem querer reabrir as polémicas de há 10 anos, há uma coisa que é certa: nós hoje temos uma doença que é distinta da doença que tínhamos então. E portanto, se a doença é diferente, a terapia também tem de ser diferente. Nós temos uma crise econômica que tem uma origem não econômica. Nós temos uma crise econômica que temos que fazer tudo para já para a conter como sendo um episódio conjuntural e que não crie danos estruturais na nossa economia e nas nossas finanças. É por isso que a nossa prioridade, como aliás, a generalidade dos governos europeus, foi o quê? Primeiro, procurar defender as empresas para que elas existam no final deste túnel. Segundo, proteger os empregos e proteger os rendimentos. Empresas, empregos e rendimentos é absolutamente fundamental evitar destruir, para que todos estejamos nas melhores condições possíveis para poder relançar a economia no final deste período. Não sabemos até quando vai. Agora, há uma coisa que sabemos: se nós começarmos a cortar rendimentos, quando tomamos a decisão que os restaurantes podem reabrir, os restaurantes reabrem, mas continuam sem clientes. Não por estarem obrigados a estar em casa, mas por deixarem de ter dinheiro para ir aos restaurantes.
Portanto, aconteça o que acontecer, não há cortes de salários, não há cortes de pensões, não há aumento de impostos.
Essa seria uma estratégia profundamente errada na atual circunstância. E é por isso que é fundamental o debate que está em curso no seio da União Europeia.
Está a ter muitos cuidados em comprometer-se para o futuro, porque está a falar na atual circunstância. Ora, sabemos que daqui a seis meses a circunstância pode ser bastante diferente.
Sim, vamos lá ver, nós estamos a um quarto pras 10 do dia 13. É 13, não é? Hoje é 13.
Hoje é 14.
14. Desculpe. Dia 14 de abril de 2020. Infelizmente, ninguém pode saber qual é a situação que estaremos, com rigor, dentro de uma semana. Porque dá um grau de imprevisibilidade muito grande. Agora, há coisas que são certas. Tudo o que sejam medidas que asfixiem os agentes econômicos, sejam as famílias, sejam as empresas, serão seguramente más receitas para o futuro. E é por isso que é muito importante que o Eurogrupo, na semana passada, tenha conseguido abrir um conjunto de linhas de financiamento importantes para que os Estados se possam financiar nesta situação de emergência, sem terem de recorrer ou a cortes nas despesas que tenham que assegurar ou ao aumento de impostos. Em segundo lugar, é muito importante que agora se faça aquilo que o Eurogrupo abriu a porta para o Conselho Europeu fazer, que é começar a trabalhar num programa de relançamento da economia, que assegure o financiamento necessário para podermos relançar a economia, que é a forma de podermos agir, quer sobre a oferta, quer sobre a procura, sem a estar a asfixiar. Todas as medidas de austeridade que viessem a asfixiar, seja as empresas, sejam as famílias, seriam seguramente contraproducentes nesta fase de relançamento. Portanto, essa não é uma receita que faça sequer sentido.
Não faz sentido agora. Mas em fundo de certezas, há uma questão que tem a ver exatamente com o oposto daquilo que estávamos a falar, não tem a ver com cortes, pelo contrário. O aumento prometido dos salários para a função pública em 2021 está garantido ou não está garantido?
Nós temos, seguramente antes do orçamento estado para 2021, de discutir um orçamento suplementar para 2020, que tenha em conta e que incorpore o aumento brutal da despesa que resultou, seja dos investimentos no Serviço Nacional de Saúde, seja nos custos de medidas sociais, designadamente as medidas de apoio aos rendimentos e ao emprego. Lá chegaremos ao orçamento de 2021.
Mas admite que pode não haver condições para isso neste momento?
Ouça, se me pergunta assim, se pode não haver condições, pode não haver condições, como pode ser que haja condições. Portanto, o mix das políticas que nós teremos que adotar é algo que está em aberto. Como é sabido, eu hoje vou começar a ouvir um conjunto de economistas, quer de instituições que habitualmente produzem e que procedem às projeções econômicas, seja instituições oficiais, como o Banco de Portugal ou o Instituto Nacional de Estatística, seja institutos universitários, como a Universidade Católica Portuguesa ou o Instituto Superior de Economia e Gestão. Vou também à tarde, vou fazer um brainstorming com cerca de 20 economistas de diferentes escolas para poder também ouvir as suas perspectivas. E tenho estado a analisar também aquilo que são os debates e a participar ativamente nos debates no seio da União Europeia sobre os mecanismos e os instrumentos para o relançamento, porque obviamente nós não somos uma autarquia, somos uma parte de uma união econômica e, portanto, não é indiferente para pensar a nossa estratégia de relançamento, saber com que ferramentas é que contamos. Como já tive a oportunidade de dizer, uma coisa é a União Europeia dar-nos uma fisga para combater.
Ou então dar uma bazuca, isso ainda não está completamente claro. Mas deixe-me perguntar, até porque estamos a chegar ao final do nosso tempo, deixe-me perguntar se investimentos considerados essenciais e que já estavam numa fase avançada de desenvolvimento, nomeadamente o Aeroporto do Montijo, faz sentido continuar com esse projeto ou admite que isso agora tenha que ficar congelado, até porque é expectável que o número de turistas que se estava à espera não venha a concretizar-se nos próximos tempos?
Haverá seguramente uma quebra no turismo nos próximos anos, mas essa quebra não é uma quebra que comprometa aquilo que são os cenários de desenvolvimento de infraestruturas essenciais como o novo aeroporto internacional. Esse novo aeroporto internacional será sempre necessário, porque como vimos no passado, o crescimento ultrapassou muito as previsões.
Mas é para avançar como está previsto em termos de calendário?
Eu espero que seja, porque este não é o momento de desinvestir É mesmo o momento de investir. Há, aliás, obrigações contratuais nesse sentido e têm que ser criadas condições institucionais para que esse investimento seja possível de realizar. Seguramente, a quebra, que é previsível que se mantenha durante algum tempo da aviação aérea, vai ser absorvida pela expansão, que também está programada, do Aeroporto da Portela e pela diminuição do caos que já vivíamos em muitos dias no Aeroporto da Portela, mas que continua sem dispensar a necessidade de termos uma maior capacidade aeroportuária. Eu diria que, desse ponto de vista, ganhamos tempo relativamente ao atraso que tínhamos no desenvolvimento dessa capacidade.
Portanto, a obra começaria neste ano, como está previsto. Aliás, no Orçamento do Estado existe essa referência.
Não, não há no Orçamento do Estado. Como sabe, é um investimento.
Sim, mas está feita a referência.
É um investimento que, neste momento, é exclusivamente privado, que será realizado pela ANA.
Mas já está essa referência de que a obra começará.
E os contactos que tenho tido com a ANA, não obstante o gigantesco prejuízo diário que a ANA está a ter, é manter o calendário de investimento como previsto. E nós vamos mantendo os diálogos que tínhamos iniciado com as Câmaras Municipais, designadamente com a Câmara da Moita, tendo em vista a garantia absoluta que os problemas de impacto ambiental serão devidamente mitigados.
O senhor falou da reunião do Eurogrupo, as várias que têm sucedido nas últimas semanas. Neste momento em que estamos, é mais favorável para Portugal ter um ministro das Finanças a dirigir os trabalhos do Eurogrupo ou seria mais interessante ter o ministro das Finanças português a defender os interesses de Portugal?
Primeiro, eu acho que é uma sorte para a Europa ter o presidente do Eurogrupo que tem tido, que é capaz de gerar consensos, é capaz de não desistir, é capaz de persistir.
E para Portugal especificamente?
Há uma coisa que talvez as pessoas não saibam, mas Portugal está representado nas reuniões do Eurogrupo, tem estado desde que o Mário Centeno é presidente do Eurogrupo. Não tem estado representado nas reuniões do Eurogrupo pelo ministro das Finanças, mas pelo secretário de Estado Adjunto e das Finanças, Ricardo Mourinho Félix. E isso é muito importante para que Portugal mantenha sempre a sua voz autónoma, defendendo a sua posição, mesmo em confronto com outros Estados-membros, sem que o presidente do Eurogrupo perca a sua capacidade de arbitragem, que tem que necessariamente ter. E, portanto, as posições de Portugal têm incidido ao longo destes dois anos e tal.
Têm sido defendidas pelo secretário de Estado, portanto, não era necessário Mário Centeno para as defender.
Não. Mário Centeno, naturalmente, enquanto presidente do Eurogrupo, compete-lhe agir como presidente do Eurogrupo, no interesse comum da União Europeia e procurando estabelecer pontes, acordos, proximidades, mobilizar o conjunto dos 27 Estados-membros. Quem tem que expressar a voz de Portugal e o ponto de vista de Portugal, sem ter considerações de arbitragem e distanciamento relativamente aos outros, é quem representa Portugal nessas reuniões, que tem sido o secretário de Estado Ricardo Mourinho Félix, que aliás, ainda esta semana teve a oportunidade de dizer que tínhamos dado apoio à solução de compromisso que tinha sido encontrada, não obstante termos um conjunto de propostas que vão mais além do que aquilo que foi o compromisso. O que, aliás, é normal, porque os compromissos ficam sempre aquém das posições de cada um.
Havia um desenho formulado, antes desta crise ser conhecida, de substituição do ministro das Finanças este verão, porque era precisamente quando havia uma vaga para o governador do Banco de Portugal e que havia essa troca a ser feita. O que nós estamos a querer tentar perceber é se esta continua a ser a altura para essa substituição acontecer.
Essa hipótese que está como adquirida, havia, não havia. Dizia-se que podia acontecer.
Nunca foi desmentida, não é verdade?
Nunca foi verdade, nem disse. Não era assim.
Nada se alterou sobre essa questão. Tal como se dizia, pode-se continuar a dizer, tal como não era realidade, continua a não ser realidade. Tal como não estava garantido que fosse, continua a não estar garantido que assim seja.
Então vamos só por partes. Até porque nesta altura é importante que haja alguma estabilidade no funcionamento das instituições. Sabemos, e isso é um facto Que o prazo de substituição do Governador do Banco de Portugal está a chegar, falta pouco mais de um mês. Esse processo está a decorrer, está a fazer os contactos necessários para a substituição a tempo do Governador?
Esses contactos serão feitos no momento próprio. Por já o senhor Governador está no pleno uso das suas competências, está a cumprir o seu mandato, não há nenhuma razão para alterar ou limitar as competências ou o mandato do atual Governador. Devemos respeitar o mandato do atual Governador até o final. Tendo tido agora, aliás, um papel particularmente importante, tendo em conta que o Banco Central Europeu foi fundamental no primeiro impacto nas respostas desta crise, travando desde já os riscos de uma nova espiral que pudesse criar um risco de dívidas soberanas. A ação pronta do Banco Central Europeu foi importante e determinante nessa matéria e a participação do Governador do Banco de Portugal no Conselho de Governador do Banco Central Europeu é obviamente importante e devemos manter e respeitar esse calendário.
Mas a questão, e como sabe, porque tem acompanhado os vários debates, o próprio António Costa já disse isto aqui, tem acompanhado os vários debates e seguramente acompanhou esse também. O ministro das Finanças ainda ontem na entrevista que deu à TVI, não recusou a hipótese de abandonar o governo mesmo nesta fase para ir para o Banco de Portugal. Eu pergunto-lhe, para o primeiro-ministro faz sentido que nesta fase o ministro das Finanças mude?
Olhe, há uma coisa que lhe posso garantir. Se e quando houver qualquer alteração do governo, serei eu a decidir e eu a comunicar.
Mas não afasta essa possibilidade, mesmo estando nós nesta crise com dimensões ainda por perceber?
Há uma possibilidade que eu afasto totalmente, quer agora, quer depois, quer com crise, quer sem crise, que é discutir a composição do governo, não levem a mal.
Não, nós estamos a falar do cargo do Governador do Banco de Portugal.
Mesmo que seja o observador.
Mas o Governador do Banco.
Estamos numa situação comum, não é? A situação é delicada e o atual ministro das Finanças é presidente do Eurogrupo, portanto, também existe essa pressão, com certeza europeia. É o momento para haver essa instabilidade? Por que não é claro nesta altura sobre isto, já que isto é um ponto de interrogação sobre esta questão?
Mas eu acho que neste momento aquilo em que devemos concentrar toda a nossa atenção, e é nisso que devemos estar, é continuar a fazer o nosso melhor para estancar esta pandemia, criarmos as melhores condições para ir retomando a normalidade, sabendo que essa normalidade será sempre condicionada pela presença de um vírus para o qual ainda não temos armas para combater de outra forma que não seja a contenção dos movimentos e o afastamento social. Começar a pensar qual é a melhor estratégia de saída da crise, quais são as novas portas que esta crise abriu, quais são as portas que esta crise fechou, e olhar ao nosso redor e ver qual é a situação económica e social das empresas, das famílias, que são seguramente danos que estão ainda relativamente silenciosos, mas que já são bastante profundos. E, portanto, temos que concentrar-nos na recuperação. Esses debates políticos sobre o que é que vai acontecer, se a composição do governo é esta, se é aquela, como é que se vai comportar a oposição depois desta primeira fase da pandemia.
É indiferente para aquilo que está a fazer?
Como é que o governo vai agir, se o Presidente da República se vai candidatar. Ouça, são mesmo as últimas questões que neste momento estão na ordem do dia. Quer dizer, eu percebo que haja alguma tentação, essa ambição de recuperação da normalidade, recuperar todos os temas que estavam na agenda antes do início desta crise. Mas, de facto, esses temas ficam lá atrás, no passado.
A verdade é que não tirou o tema da agenda, não foi claro a tirar esse tema da agenda, não é claro que o ministro das Finanças continue a exercer.
Há uma coisa que nós sabemos na vida política é que não há nenhum cargo político que não seja a prazo. Seja o do ministro da Defesa, seja o do ministro da Educação, seja o do primeiro-ministro, e também o dos ministros das Finanças. As pessoas não são primeiros-ministros, ministros das Finanças ou ministros da Defesa. As pessoas estão no exercício dessas funções. E, portanto, não vale a pena andarmos a especular sobre o futuro do ministro das Finanças ou sobre o futuro de qualquer outro membro do governo, ou sobre o meu futuro, ou o futuro de quem quer que seja. Eu também não lhe vou lhe perguntar: "Vais te manter aqui no Observador até o final do ano ou vai sair antes do final do ano?"
Senhor primeiro-ministro, deixe-me só...
Então não me responda à pergunta.
Prefiro fazê-las eu. Mas há uma questão aqui que há pouco falou, da importância do Governador do Banco de Portugal, e que não será limitado o seu mandato, mas será prolongado? Há essa necessidade?
Bom, se houver essa necessidade, assim será, mas por que há de haver essa necessidade?
Por uma questão de estabilidade e dessa função importante do Banco de Portugal nesta altura.
Nós devemos procurar manter a maior normalidade possível no funcionamento das instituições. Isso é fundamental que aconteça. O estado de emergência que a Constituição nos permite não altera a normalidade institucional, nem suspendeu a democracia. E temos sido, aliás, bastante parcos no recurso à limitação das liberdades no âmbito de estado de emergência, ao contrário do que tem acontecido noutros países, onde as múltiplas liberdades têm sido suspensas e comprometidas, onde as conferências de imprensa passaram a ser as perguntas selecionadas, as coisas mais extraordinárias que aconteceram nos sítios mais extraordinários. Nós, nessas matérias, não foi necessário, até agora, afetar nada. Se forem ver, o número de levantamentos de autos pelo crime de desobediência que as forças de segurança levantaram ao longo deste quase mês e meio, é uma pequena gota d'água neste enorme oceano de civismo com que os portugueses têm Há pessoas que não respeitam. Sim, haverá, com certeza. Todos nós já vimos algum comportamento incivilizado ao longo destes dias, como também já tínhamos visto nos outros dias.
Mas não são para já números preocupantes, senhor Primeiro-Ministro?
Eu acho que não só não são preocupantes, como eu acho que se o país não tivesse um excessivo gosto pela autoflagelação, devia ser mesmo um motivo de orgulho. Tivéssemos nós o espírito de outros povos, celebraríamos coletivamente a enorme autodisciplina que conseguimos adotar. Você reparou que a generalidade dessas atividades que encerraram, tinham, aliás, começado a encerrar antes mesmo de ter sido decretado o estado de emergência. Mas espontaneamente, as pessoas foram percebendo que era essencial começarem a ficar em casa, começarem a desenvolver os mecanismos de teletrabalho, todas aquelas que puderam. Começaram a deixar de ir à escola, começaram a deixar de frequentar espaços públicos, começaram a deixar de viajar. Portanto, as pessoas, naturalmente, porque há de facto aqui um certo bom senso inato que os portugueses têm, souberam perfeitamente adaptar-se a esta crise. Se gostam? Não. Se começam a estar cansados? Sim. Se muitos já estão fartos? Sim. Mas todos percebemos que é agora mesmo o momento em que não podemos desistir. Por isso é que eu tenho dito que se havia dúvidas sobre se era aquele o momento exato para começarmos com o estado de emergência, há uma coisa segura: agora não é o momento de darmos o sinal errado, começando a aliviar as medidas. Ainda não é. Bem sei que hoje custa mais, porque a fadiga psicológica tem este efeito. Cada dia parecem dois primeiro, depois parecem três, depois parecem quatro e vão-se tornando insuportáveis. E é por isso que eu disse que este mês de abril é o mês mais difícil, porque é o mês onde a fadiga psicológica é maior, onde os custos económicos e sociais se começam a sentir mais, não só para as empresas, mas agora também nos seus trabalhadores. E, portanto, é aqui que temos que mostrar maior resiliência e maior firmeza. Está com ar insatisfeito, a torcer a cara.
Não respondeu a todas as perguntas.
Infelizmente, o tempo é curto.
Exatamente, o tempo é curto, não deu para lhe fazer todas as perguntas que tínhamos aqui programado para lhe fazer.
Eu respondi a todas as perguntas que fizeram.
Sim, não deu respostas tão claras como se calhar desejávamos. Se calhar é melhor essa a formulação. Em todo o caso, ficaram muitas perguntas por lhe fazer, portanto, um dia destes voltaremos a convidá-lo para regressar aqui ao Observador. António Costa.
Eu terei muito gosto em voltar.
Muito obrigado por esta entrevista. O Subscuta Especial fica por aqui. Regressaremos com outra emissão. Não sabemos exatamente quando, porque como se percebe também por esta conversa, os tempos são tempos ainda de alguma indefinição.
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