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Bem-vindos ao "Sob Escuta" da Rádio Observador. Hoje estamos a entrevistar, na sede do CDS, Francisco Rodrigues dos Santos, líder do CDS. Um vogal da sua direção, Miguel Matos Chaves, escreveu a seguinte frase a propósito das saídas recentes de Adolfo Mesquita Nunes e de António Peixe de Lima: "O partido é finalmente gerido por pessoas e não por grupos globalistas, LGBT, etc." Também acha que antes de si o CDS era gerido por grupos globalistas e LGBT?
Obrigado pela entrevista ao Observador, obrigado aos dois Miguéis pela oportunidade. Deixe-me dizer que o dirigente nacional que cita pertence à Comissão Política Nacional do partido e não à direção propriamente dita, porque essa diz respeito apenas à Comissão Executiva, que é o núcleo mais íntimo das lideranças dos partidos, onde estão cerca de 60 elementos, cada um com a sua visão sobre o partido e um posicionamento histórico que decorre dos anos de militância que têm no CDS. Miguel Matos Chaves já pertenceu a direções de Paulo Portas, já foi secretário-geral adjunto do nosso partido, na altura em que o João Almeida era secretário-geral do partido. Eu, de facto, não tenho essa visão sobre o passado do CDS. Eu sei que foram cometidos alguns erros de gestão política, prova disso foi o pior resultado sempre que tivemos em eleições europeias e em eleições legislativas, mas eu creio que esse tipo de revisionismos históricos ou reinterpretações dos erros do passado não acrescentam rigorosamente nada na projeção de um partido para o futuro.
E não vê nenhum problema com a globalização, nem com os direitos LGBT?
Não, deixe-me dizer duas coisas sobre isso. Primeiro, não coarta ninguém ter a sua opinião sobre aqueles que entendem ter sido os erros que conduziram o partido a uma situação deficitária do ponto de vista eleitoral e débil do ponto de vista da representação política no Parlamento. E claro que não tenho. De facto, eu acho importante nós defendermos o nosso país, a nossa soberania no quadro da União Europeia, porque eu acho que Portugal terá tanto mais força quanto for a sua capacidade de se indicar e de reivindicar oportunidades de desenvolvimento no quadro da Europa. Portanto, a globalização entendida quanto mecanismo harmonizador do desenvolvimento equitativo dos países parece uma coisa positiva, desde que não dilua a voz do partido e do país, sobretudo, nas instâncias internacionais, reivindicando características muito especiais que o nosso país precisa auferir para conseguir ter níveis de crescimento económico que respondam às necessidades do nosso país. Do ponto de vista dos direitos LGBT, bem, acho que o partido tem um património consolidado a esse nível e creio que são matérias que estão, neste momento..
Distancia-se deste tipo de..
Evidentemente que eu não subscrevia essa crítica, mas também não me parece razoável que se procure, a partir dela, extrapolar uma posição da direção do partido ou da Comissão Política Nacional, na exata medida que ela só vincula o próprio. Podíamos também fazer esse exercício para um sem número de críticas que tenham sido tecidas por apoiantes do doutor Nuno Melo ou mesmo do doutor Mesquita Nunes, respeitante, sequer à minha pessoa, quer à direção do partido, tenha a certeza que os próprios também não estão em condições de assinar por baixo. Portanto, a vida dos partidos é feita deste tipo de contraste e de diferenças. E de facto, as posições no CDS estão muito extremadas nesta altura e este nível de conflitualidade não é bom e propicia que haja uma escalada de agressão verbal que não beneficia o partido e que só tem um único a beneficiar, que é o Partido Socialista, que já está em campanha eleitoral para procurar reconquistar o poder.
Posto isto, ainda assim, falando sobre o grupo parlamentar do CDS, olhando para os cinco deputados iniciais, excluímos Assunção Cristas, que deixou o Parlamento, depois abdicou de exercer o mandato de deputada assim que se concretizaram as legislativas. Olhando para os cinco iniciais, sobra um, sobra Telmo Correia, líder parlamentar. Numa entrevista ao Observador, creio que vai fazer quase um ano, disse que tinha uma boa relação com o grupo parlamentar e dizia que assumia essa frase com franqueza e honestidade. Se tem uma relação assim tão boa, como é que só conseguiu reter uma única pessoa no grupo parlamentar?
Muito bem. Eu não sei que contas é que o Miguel fez para dizer que só está retido apenas um deputado na bancada parlamentar do CDS.
Bessa, saiu João Almeida, vai sair Cecília Meireles, vai sair João Gonçalves Pereira, saiu...
Veja isto. Se sair no limite, podem sair todos, se houver uma renovação a 100% da bancada parlamentar.
E saiu sem vontade de voltar. Podemos concordar nesse aspeto.
Muito bem.
Por que não conseguiu reter esses talentos ou esses quadros?
Primeiro ponto, a Cecília Meireles é deputada e cumprirá a legislatura até o final, o João Almeida, idem, o Telmo Correia, aspas, aspas.
Já concordamos nesse ponto.
O que verificámos foi que houve uma substituição na lista de Lisboa, onde de resto nem o João Gonçalves Pereira foi eleito diretamente, foi deputado em substituição, como o Miguel disse, e muito bem. Aliás, o João Gonçalves Pereira nunca foi eleito deputado diretamente nas listas do partido, foi sempre deputado substituto. Agora, deixe-me dizer outra coisa. Eu não vejo como uma calamidade, nem uma catástrofe, que haja pessoas que interrompam os seus mandatos como deputado e abram espaço à renovação dentro do partido. O João Almeida disse que era deputado há 20 anos. Telmo Correia é talvez deputado há 30 anos do partido. A própria Cecília Meireles, que eu reputo como a melhor deputada do Parlamento, também já é deputada há um ano significativo.
Ou seja, deixe-me interromper. Não vê a indisponibilidade destas figuras para se recandidatarem ou para estarem disponíveis, para irem nas listas do partido como uma calamidade, é isso?
Não vejo como uma calamidade, até porque a história do nosso partido demonstra isso mesmo, é que há entradas e saídas no Parlamento, há espaço para a renovação de protagonistas que refresca o nosso partido. E se quiser que lhe diga até, eu acho que o nosso CDS está a precisar disso há muito tempo. Desde que eu fui eleito, não consegui projetar ainda na cena política nacional uma ideia de partido novo, renovado, com um novo frizo de protagonistas, capaz de representar a ideia da estratégia política da minha direção do partido. De facto, eu disse isso na entrevista que dei na sexta-feira à SIC. A doutora Cecília Meireles só não continuará como deputada no Parlamento se assim não o quiser, porque de facto teria lugar nas listas que eu proporei ao Conselho Nacional enquanto presidente do partido. O doutor Telmo Correia, nós não podemos ignorar Algumas declarações que tem mantido como líder parlamentar, quer nas suas redes sociais, quer públicas, que são, na minha opinião, impróprias de um líder de um grupo parlamentar, que não compreende uma tese que para mim é básica: não é o grupo parlamentar que tem o partido, é o partido que tem um grupo parlamentar. E a procura incessante de entrincheirar a sua liderança da bancada como uma plataforma de oposição à direção do partido publicamente, creio que é errada e não trouxe vantagens nenhumas, a nível político, à direção do CDS. Quando eu sempre defendi, e vocês têm essas provas porque me transcreveram, que o grupo parlamentar é um instrumento fundamental para a ação política do partido. Eu recordo-lhe isto: as últimas jornadas parlamentares foram um comício contra a direção do CDS. Eu fui brindado com um comício de pré-anúncio da candidatura do Nuno Melo, no jantar que antecedeu a minha ida ao encerramento das jornadas parlamentares. Eu, como líder do partido, não posso ignorar esta circunstância. Eu reconheço méritos-
Ser absolutamente claro, não conta com o Telmo Correia para as próximas listas da Assembleia da República.
Eu não disse que não contava com o doutor Telmo Correia. O que eu disse foi que o doutor Telmo Correia tem dado sinais de que não conta com a direção do partido e que nem está disponível para o mínimo de entendimento-
Também tem uma opinião sobre isso, conta ou não com o Telmo Correia?
Nós contamos com todos dentro do CDS. Eu não excluo ninguém, nem vou fazer delineamentos.
Vai ter um lugar de destaque nas listas de votação?
Esse é um debate que terá lugar em Conselho Nacional do partido, sendo certo que eu acho que estas eleições legislativas são uma oportunidade para nós apresentarmos um CDS renovado, que conte com todos, com aqueles que já estavam há mais tempo, com aqueles que chegaram, com aqueles que se podem vir a juntar, para que o partido tenha uma cara lavada e possa fazer o tal adjornamento que eu venho prometendo desde que fui eleito presidente do partido. E há uma circunstância que nós temos que admitir. Bem ou mal, eu não tenho espaço mediático, quer eu, quer a minha direção, para lançar novas caras. Nós vamos aos comentários da televisão, aos programas mais conhecidos. Não há uma única pessoa que seja próxima ou que possa repetir ou traduzir a estratégia política da direção do partido. É pior do que isso, Miguel. São pessoas que sempre, desde o início, lutaram contra a minha direção. E eu creio que isto não pode continuar como está.
Sem querer centrar a nossa entrevista na figura de Telmo Correia, é verdade que descreveu, a determinada altura, como um dos melhores tribunos da nossa Assembleia da República, um político experimentado e altamente experiente. Deixou de achar isso de Telmo Correia?
De maneira nenhuma. Eu reitero essas qualidades.
No entanto, preciso dar espaço a outros.
Eu referi-me ao quadro de deputados que tínhamos no Parlamento, até aos 230, e não falei de uma nova configuração do Parlamento. Se perguntar, nós só temos um excelente tribuno no CDS, só temos um político experiente dentro do nosso partido, alguém com capacidade para elevar a fasquia do discurso político do CDS no Parlamento ao nível do doutor Telmo Correia, eu acho que ele não é caso único dentro do CDS. Agora, eu não disse que foi excluído o doutor Telmo Correia das listas do partido. Estou a dizer que os sinais que ele deu publicamente a respeito da direção do partido, se for coerente com eles, acho que o próprio não quererá continuar a ser deputado. Mas se tiver nessa disponibilidade, eu também já o disse, eu não excluirei o deputado Telmo Correia. Agora, a ordenação no quadro das listas do partido terá que ser discutida em Conselho Nacional, sendo certo que isso recairá sobre uma conciliação de vontades, que eu espero, e uma capacidade de compromisso que possa existir entre todos aqueles que estão no nosso partido.
Falou agora mesmo das pessoas que sempre o criticaram, desde que foi eleito, mas houve muita gente que não o criticou e que até o apoiou. Por exemplo, Filipe Lobo d'Ávila saiu do último congresso como seu vice-presidente, entretanto demitiu-se em janeiro de 2021. Diz agora que o adiamento do congresso é um sinal de enorme fraqueza política. Não o preocupa perder o apoio de alguém que precisamente o apoiou no último congresso e foi muito importante para a sua vitória?
Muito bem. Sobre o apoio do Filipe Lobo d'Ávila no último congresso, eu apresentei uma moção de estratégia global que saiu vencedora no congresso, teve cerca de 47% dos votos. O Filipe Lobo d'Ávila foi meu concorrente, teve cerca de 15% dos votos. Depois de eu ter vencido a moção de estratégia global, fui convidado, naturalmente, a formar listas. E a minha primeira preocupação foi, num clima de conciliação e de união do partido, convidar aqueles que tinham sido candidatos contra mim a juntarem-se a este projeto de reunificação do CDS.
E ele aceitou. O Lobo d'Ávila aceitou.
E ele aceitou e depois retirou-se. E todos os outros subscritores, os principais das moções de estratégia global, aceitaram. O Filipe Lobo d'Ávila, acontece que em janeiro deste ano, decidiu desvincular-se da direção do partido. Portanto, em termos estritos, esse apoio eu já teria perdido em janeiro. E mesmo assim continuei como presidente do partido.
Precisamente, é isso. Não conseguiu manter esse apoio, perdeu-o em janeiro de 2021. Claro, e ele está a ser coerente com a posição de desvinculação que fez das posições da direção do partido, porque, nas suas palavras, discordou da estratégia. Agora, o doutor Filipe Lobo d'Ávila não tem uma posição hostil relativamente à direção do partido, emite discordâncias de opinião, mas num espírito de salubre debate. Mas aqui o ponto é: não conseguiu mantê-lo ao seu lado.
Exatamente, eu não consegui manter, e essa é uma evidência, mas eu já a ultrapassei há muito tempo. Como é certo, com umas pessoas que não estavam comigo na altura do congresso, que agora estão, e outras que não estavam, passaram a estar, e outras que estavam, deixaram de estar. Portanto, isso na vida dos partidos é normal.
Outro apoio importante nesse congresso foi o de António Lobo Xavier, que apareceu como um dos senadores do partido, um dos poucos, senão o único.
Foi o único.
Do partido que o apoiou no último congresso, mas que agora também critica duramente o adiamento das eleições internas e até diz que não tem nenhuma vontade de aconselhar o voto no CDS. Portanto, mais uma pessoa que o apoiou. Não estamos a falar de críticos de sempre. Estamos a falar de alguém que o apoiou e que agora deixou de o apoiar. Isto não é preocupante, a quantidade de apoios que tem vindo a perder?
Em primeiro lugar, eu não gostaria de quantificar o número de apoios que eu tenho ou deixei de ter no partido, porque a sensação que eu tenho, até pelas votações que são expressas nos órgãos próprios do partido, como o Conselho Nacional, é que a adesão à minha liderança está a crescer desde o dia em que eu fui eleito presidente do partido. Basta dizer que eu fui vencedor de uma moção de certeza global, que teve 47% dos votos, a minha moção de confiança que apresentei em janeiro teve quase 60% dos votos e as votações sobre proposta da direção, que aconteceram no Conselho Nacional, neste momento situam-se na casa dos 60%. Agora, sobre o doutor António Lobo Xavier, é uma pessoa que eu tenho muita amizade e muita estima, e verifiquei que, de facto, havia aqui uma discrepância de opinião relativamente às datas do congresso. Mas a avaliação global que ele faz no partido, ele tem o cuidado de dizer que não imputa responsabilidades apenas à direção do partido, mas a um clima de conflitualidade e de guerra interna, no qual ele não se revê. E atento a este quadro, a esta caricatura que alguns estão a formar no partido para o exterior, ele sente-se desaconselhado a propor o voto no CDS, que é uma situação que eu procurarei também reverter, sossegar e tranquilizar, de acordo com aquilo que eu procuro fazer a seguir, que é apresentar um bom programa para o país, um bom fris de protagonistas como candidatos e também uma boa estratégia eleitoral capaz de imprimir a marca do CDS no quadro de uma futura governação do país. Agora, os partidos são feitos disso, de divergências de opinião. O que eu censuro não é a legitimidade do debate, é os órgãos do partido pronunciarem-se e tomarem decisões e haver um grupo dentro do partido que acha que deve bloquear, cancelar e obstaculizar as decisões dos órgãos do partido. Isso é que não parece legítimo.
O único ponto é que as críticas não vêm só dos críticos de sempre. Mas são pessoas que significam alguma coisa, ou não?
Significam, claro. Miguel, isso é sempre como aquela máxima do copo meio cheio ou meio vazio. Filipe Lobo d'Ávila, pessoa que eu respeito, tem uma opinião divergente. Expressou-a. Doutor Lobo Xavier também. Agora, o que é certo é que os partidos devem ser geridos com base no princípio da democracia interna, onde as maiorias devem respeitar as minorias e as minorias devem acatar a autoridade democrática das maiorias expressas em Conselho Nacional. E o que se demonstrou é que o Conselho Nacional do partido, com cerca de 60% dos votos num órgão que reuniu cerca de 300 pessoas, decidiu cancelar o congresso. Portanto, todos nós podemos discordar. Agora, acho que não dá direito a nenhum de nós ter estados de alma sobre as decisões dos órgãos do partido, que é para isso que existem, é para tomar decisões. Portanto, eu não sei se é disso. Há muitas pessoas que apoiam esta decisão. Aliás, eu devo dizer que há mais pessoas dentro do CDS que apoiam esta decisão do que aquelas que discordam. Podemos concentrar-nos naquelas que discordam, acho legítimo esse debate. Agora, se excluímos todas aquelas que concordam, sobram aquelas que discordam. Eu preferia concordar, seguramente, sim.
Eu até estou a contextualizar ou encontrar as declarações de Lobo Xavier como a assunção de Lobo Xavier, dizendo que se o partido está mergulhado neste clima de conflito interno, então desaconselhava o voto no CDS. Mas acontece que Lobo Xavier não disse isso. Lobo Xavier disse que o líder, o presidente do CDS, está a revelar cobardia por fugir à clarificação interna e que está a mergulhar numa situação de fragilidade brutal. Era uma crítica diretamente a si e não ao CDS como um partido.
Não, há, de facto, essa parte que se refere, que é uma citação de um ex-apoiente seu. Mas Miguel, se continuar a ler, e você é um excelente jornalista, verificará que ele faz essa observação. Não imputa responsabilidade apenas a esta direção ao estado em que está o partido e devido a este quadro, ao estado da arte, ele desaconselha o voto no CDS. Essa é a conclusão que se tira.
Lobo Xavier acusou-o de cobardia, isto é uma crítica direta pessoal.
Não, isso é, mas eu vou responder a essa crítica direta, a ele e a todos aqueles que me acusam de cobardia política. Eu movo-me por convicções, não me movo por ocasiões. Eu gostava de saber, a todos aqueles que agora me criticam por ter cancelado o congresso, onde é que estavam há dois anos.
Lobo Xavier estava a apoiá-lo.
Não, muito bem, mas o doutor Lobo Xavier é uma pessoa que me apoiou, mas reproduziu no seu discurso uma crítica que não lhe é originária. Repete uma teoria que agora algumas alas do partido têm procurado deitar para fora. E eu gostava de responder essa mesma crítica, dizendo o seguinte: quando o CDS teve o pior resultado sempre em eleições europeias e eleições legislativas, depois de estar em falência técnica, de ter cinco deputados e dois novos partidos a concorrer no seu espaço, como nunca existiu, eu dei a cara pelo meu partido. E conduzi o CDS a um bom resultado nos Açores, que permitiu governar, reduzi 55% da dívida que herdei, nas autarcas o partido cresceu e governa mais câmaras em coligação com o PSD, mais do dobro, e consigo chegar aqui dizendo que entrego, mesmo que deixasse de ser presidente do partido, um CDS mais forte e mais representativo do que aquele que herdei. Eu não virei a cara à luta. Onde é que estavam os outros que agora me acusam de cobardia para assumir a sua crítica?
João Almeida estava a concorrer consigo.
Tem razão. João Almeida é único.
Filipe Lobo d'Ávila também.
Muito bem, esses dois sim. Mas onde é que estava o doutor Nuno?
Nuno Melo estava no congresso.
Estava no congresso, estava a fazer o quê?
E apoiou uma das candidaturas.
Mas sabe o que o Nuno Melo estava a dizer naquela altura?
Telmo Correia também.
Telmo Correia também, certo. Mas assumiram a responsabilidade de ser candidato a presidente do partido naquela altura de crítica ou escudaram-se num princípio de coerência basilar de que enquanto forem eurodeputados não tinham condições para ser presidente do partido, porque já tinham criticado em 2007 Ribeiro e Castro, em 2015 não se tinham candidatado.
Só as pessoas que apoiaram uma candidatura. Arranjaram uma candidatura personificada por João Almeida e concorreram contra si.
Mas eu apresentei-me, não me escondi. E também pergunto-vos outra coisa. Eu estou nesta circunstância a liderar o CDS em tempos muito difíceis. Eu nunca pedi autorização a ninguém para ser presidente do CDS. À exceção do doutor António Lobo Xavier, eu tive todos os notáveis, os entre aspas barões do partido, acerrimamente contra mim. Não, mas são um ponto para mostrar que eu não tenho medo de me apresentar.
Não, não me merece reflexão que o tal senador, o único que o apoiou, faça uma crítica tão violenta agora. O ponto da nossa questão é esse.
Mas ouça, eu aceito as críticas todas. Agora, posso não concordar com elas. E aquilo que me cabe a mim é mostrar que eu nunca tive problemas de coragem nenhuns em liderar o CDS.
Está respondido.
E acho que tenho mostrado isto ao longo do tempo. Eu tenho uma conjuntura dentro do CDS, uma nomenclatura anterior que, desde que fui eleito, procura sabotar e minar a minha liderança externamente. É uma opção mais do que interna, uma opção externa, e eu tenho-me mantido firme e procurado apresentar bons resultados neste quadro excecional que encontrei. E agora teria medo de ir a congresso? Repare numa coisa, fui eu que pedi a antecipação do congresso Eu teria medo de ir a votos quando a minha oposição interna não queria o congresso antecipado, porque precisavam de tempo e que era uma compressão da democracia interna do partido fazer um congresso em novembro, porque ele devia ser feito no calendário normal. Era isto que a minha oposição interna dizia e eu apresentei-me a votos e disse: "Estou aqui para liderar o CDS". Mas que medo é que eu tenho? Eu tive formação militar, entrei no colégio militar aos 10 anos e desde pequenino eu vivo com responsabilidade, com exemplo. Eu tenho medo de alguma coisa? Com 31 anos propus-me a liderar o CDS e estou aqui a dar a cara, com todos eles nas televisões, todos os dias, a dizer que cobras e lagartos me aminaram.
Falemos então da questão do tempo.
"Cadelas apressadas parem filhos cegos." Sabe de quem é esta frase? Do Antônio Pereira Lima, referi-se ao presidente do próprio partido.
É verdade. Vamos avançar.
Tenho medo de quem? Do Nuno Melo? Por amor de Deus.
As legislativas, antes do Conselho Nacional se pronunciar sobre o adiamento das eleições internas do Congresso CDS, foram entretanto marcadas as eleições legislativas para 30 de janeiro.
Sim.
Por que não há tempo para fazer um congresso do CDS?
Esta é a pergunta central. E eu respondo-lhe com a máxima sinceridade. Todos os partidos políticos têm que apresentar listas daqui a seis semanas, menos até do que isso. Até ao dia 20 de dezembro. E eu acho que gastar três semanas, metade deste tempo, com guerras internas, com esta escalada de violência e de agressão verbal, a que o doutor Nuno Melo e seus apoiantes votaram o partido desde que o congresso antecipado foi decretado, é fazer um frete e uma borla ao Partido Socialista. Nós, neste momento, íamos estar todos empenhados nas seis semanas que temos até à apresentação das listas, de construção do programa, da definição da estratégia eleitoral, em um clima de pacificação interna e de conciliação, darmos o nosso melhor para falar ao país e construirmos uma alternativa que derrube o Partido Socialista.
Se o PSD consegue fazer eleições internas, por que o CDS não consegue? Qual é a diferença entre os dois partidos?
Muito bem. As diferenças são abismais, até por uma questão de respeito institucional, eu não me permitirei comentar a vida interna dos outros partidos. Agora, como sabem muito bem, o próprio presidente do Partido Social Democrata queria adiar as eleições internas dentro do seu partido. O Conselho Nacional teve outra interpretação. Agora, o Conselho Nacional do CDS interpretou no sentido de fazer mais sentido dedicar-nos em exclusividade a este tempo, a construir esta alternativa, o programa e bons protagonistas, e até adquirir financiamento, porque não é coisa fácil. Fiz uma campanha sem um cêntimo da banca, a virar o partido para fora e não desperdiçar tempo, porque o CDS, na situação em que está, não pode continuar virado para si próprio, fechado sobre si mesmo, mas deve virar-se para fora e gastar três semanas, que é metade deste tempo, com guerras internas, eu acho que é um absurdo, é uma questão que é de bom senso. E eu acho que o CDS, através da decisão do seu Conselho Nacional, tinha aqui uma oportunidade para se diferenciar dos outros partidos, mostrar uma postura de responsabilidade, colocar o país em primeiro lugar, depois o partido e no final, as circunstâncias pessoais de cada um de nós. E como eu aprendi no colégio militar, primeiro mandamento de um código de honra que se preze, é amar e honrar a sua pátria. E nesta altura, estarmos todos divididos, com ameaças como temos visto, com a degradação do ambiente interno do partido, para depois o quê? No final de novembro, termos o congresso e esta debandada toda que estamos a ver agora, ir acontecer na altura que já estava preanunciada no semanário conhecido no nosso país. Alguém acha que estes problemas todos do partido ficavam resolvidos no congresso? Eu ouço-os dizer agora: "Bem, vamos a votos e quem ganhar, ganhou, e quem perder, respeita, quem ganhar, integra". Por que não fizeram isso há dois anos, desde que eu fui eleito? E nunca quiseram participar na direção do partido. O doutor Nuno Melo, o doutor Telmo Correia, participaram em duas, três reuniões da direção do partido, quer executiva, quer comissão política nacional. E agora que vão todos respeitar o veredito do Congresso, quando já estava prenunciada esta debandada, entre aspas, portistas do partido, caso me mantivessem funções, o que eles queriam fazer era criar este caos, não agora, mas daqui a um mês. E o partido não estava em condições de suportar uma coisa dessas.
Mas ainda olhando para o calendário, já vimos que o PSD vai ter eleições a 27 de novembro, o LIVRE vai realizar primárias até 28 de novembro, o Chega tem congresso a 28 de novembro, a Iniciativa Liberal tem eleições a 11 de dezembro. Todos conseguiram, menos o CDS. É isso?
Não, o CDS tomou uma opção diferente.
Todos tiveram a falta de bom senso.
Eu não comento a vida dos outros partidos, eu comento as decisões do CDS. Primeiro ponto, não é uma decisão do Francisco Rodrigues dos Santos, é uma decisão do Conselho Nacional do partido, que votou 60% o cancelamento do Congresso.
Que o líder do CDS e a atual direção patrocinaram, abençoaram, chame-lhe o que quiser.
Mas antes disso, deixem-me dizer outra coisa. É que recebemos uma carta de 13 presidentes distritais, mais o presidente da Região Autónoma dos Açores, que pediam o cancelamento do Congresso do partido. E em função desta missiva que nos chegou, reunimos os órgãos do partido, Comissão Executiva, Comissão Política Nacional, e convocamos o Conselho Nacional para deliberar sobre esse assunto. E o Conselho Nacional decidiu. Eu podia aproveitar esta sugestão do Conselho Nacional para dizer o seguinte: o CDS tem aqui uma posição altamente diferenciadora na nossa democracia. Quando todos os outros partidos estão a discutir internamente quem é que são os seus líderes, o CDS está virado para fora, porque na situação em que está o nosso partido, nós não nos podemos comparar com os outros, não podemos olhar para o lado, nós temos que olhar em frente. Nós não podemos desperdiçar três semanas em guerras, para depois termos um partido ainda mais frangalhado, em cacos, depois de uma peixeirada como aquela que vimos desde que o doutor Nuno Melo aceitou ser candidato a presidente do partido. Para depois agora o quê? Agora temos um mês, agora que vamos a votos com os senhores portugueses. Isto é que eu não concordo. Acho que o CDS mostrou uma postura de responsabilidade e de serviço nacional, que eu acho que é o que as pessoas esperam lá fora, nesta altura.
Usou a expressão peixeirada e há bocadinho também falou na escalada verbal. Mas sabe quem é que disse esta frase ou não? Esta que eu lhe vou ler: "Sei bem do terrorismo que vocês conseguem criar na comunicação, da falta de vergonha que têm."
Exatamente, fui eu que disse. Sabe onde é que eu disse?
E acha que isto é combater uma escalada verbal e é contribuir para a pacificação do partido?
Olhe, essa frase eu disse, Miguel, no Conselho Nacional do CDS
Sei bem.
E é lamentável quando declarações do presidente do partido, dentro de casa, saem pra fora. Há logo uma violação de um princípio de lealdade institucional. Que, de resto, acontece desde que eu fui eleito presidente do partido.
Em todos os partidos. Talvez só não no PCP.
Ok.
Exemplo.
O fato de ser uma prática que está democratizada nos partidos não deixa de ser censurável do ponto de vista ético e do ponto de vista moral. Agora, eu posso comentar essa declaração que fiz. Evidentemente, eu quis pôr cobro a uma escalada de violência que estava fora do Conselho Nacional, na comunicação social, a procurar condicionar os órgãos do partido e a acusar dos maiores impropérios a minha direção, por ter tido o discernimento de remeter ao Conselho Nacional a deliberação de um ponto daquela urgência. Então temos eleições antecipadas, há uma crise política.
Aqui o único ponto é de linguagem.
Pronto, ok.
No Conselho Nacional também se referiu aos seus críticos como Calimeros, luminárias, virgens ofendidas. Aqui o ponto é se está a cumprir aquilo que, pelo que percebo, entende que é o seu papel, que é o de evitar esta escalada verbal. Ou se, pelo contrário, está a contribuir pra ela.
Muito bem. Ainda assim, há uma grande diferença, Miguel. Aquilo que nós dizemos dentro de casa é num foro, que presumo eu, é absolutamente restrito. As coisas são resolvidas com recato e com a sobriedade, que muitas vezes acalma algum excesso de linguagem que possam existir. E eu permito-os em Conselho Nacional, desde que fiquem num ambiente completamente controlado. E eu aí, no Conselho Nacional, confesso que levei um pouquinho mais longe a linguagem tradicional que uso, sobretudo fora do partido, quando estou em representação institucional do CDS e uma linguagem externa ao partido. É verdade que o fiz, mas foi porque naqueles Conselhos Nacionais eu ouço dos maiores impropérios possíveis. Ou seja, eu já ouvi coisas no Conselho Nacional como apoucarem a idade que tenho, chamarem-me garoto, dizerem que eu não tenho pedigree pra ser presidente do CDS, que sou um inútil. Ouça, eu ouço das coisas, que se as pessoas soubessem aquilo que eu tenho suportado por ser presidente do CDS, nas circunstâncias em que herdei o partido, sobretudo por ter contra mim, constantemente, aqueles que se julgavam os donos do partido, aquele grupo restrito que é completamente estranho a pessoas novas e que não tolera que haja um fator de disrupção no status quo dentro do partido, se calhar compreendiam melhor o contexto em que essas afirmações são ditas. De fato, concordo consigo que não são declarações que acalmem o ambiente. É verdade, tem razão. Mas são declarações que estão inseridas num contexto que, pese embora, possam parecer manifestamente exageradas, estão a ser proferidas à porta fechada. E este é um ponto que a mim me tem indignado, que é notar que pra muitos daqueles que me criticam, eu nunca tive legitimidade pra ser presidente do CDS. Essa é que é a grande verdade. E não era um congresso que ia resolver este problema. Pra todos eles, que se viram derrotados no último congresso, eu não passo de um usurpador, de alguém que é ilegitimamente presidente do partido, que não tem qualificações para exercer essas suas funções e que, transitório, está em funções passageiras dentro do partido. E foi esta a versão que foram vendendo ao país e ao mundo. Internamente, eu sempre fui vítima disso, porque eu nunca contei com essas pessoas. Eu fiz gabinetes de estudo, eu fiz listas que integraram várias sensibilidades do partido. Eu, nas eleições autárquicas, procurei ser o mais abrangente possível, integrar todas as sensibilidades dentro do CDS e nunca fui correspondido. A verdade é esta. Eu sempre tive esforços de união e de conciliação que não foram bem sucedidos e não foi por falta de iniciativa da minha parte. Portanto, esta ideia de que o partido é um grupo que se habituou a tratá-lo como coisa sua, que ao longo dos anos se perpetuou no poder e que só aceita ser governado por eles e não por outras pessoas, diz muito sobre o estado em que eu herdei o partido, mas também diz muito sobre aquilo que eu quero pro futuro, que é um partido interclassista, um partido popular, um partido dos militantes, um partido que nasça a partir das bases, um partido que esteja com responsabilidade pra poder representar os eleitores e que fale aquilo que preocupa, evidentemente, os portugueses, que é o elevador social, é esta asfixia de impostos, é os idosos que têm que escolher entre comprar alimentos ou comprar medicamentos, é o jovem que não tem acesso a habitação, nem pode escolher a escola que quer estudar. E o partido não discute isto. Está numa guerra interna, isto é um assalto ao poder.
Se se queixa dessa falta de reconhecimento que se arrasta desde que assumiu funções. Se fosse a votos agora, não resolveria de vez essa questão.
Não, é o que eu estou a dizer, esta questão é anterior a isto tudo.
Então, por essa lógica, nunca irá a votos, porque se essas pessoas não vão desaparecer.
Eu vou a votos no tempo próprio. Eu não tenho que antecipar o congresso do partido só porque há eleições legislativas.
Não, mas o congresso do partido foi marcado por si.
Sim, ok, mas não foi por mim, isto tem que ser muito claro. O Conselho Nacional marcou o congresso antecipado, contra a vontade do Nuno Melo, que dizia que o congresso tinha que ser no calendário normal. Depois, o mesmo Conselho Nacional cancelou o congresso antecipado porque aconteceu uma alteração das circunstâncias, foi uma crise política e eleições legislativas.
Se fosse a votos agora, não resolvia essa questão de vez.
A votos onde? Diga-me.
A votos, internamente.
Pois, a questão é essa, é que eu já respondi essa pergunta. É que esta questão só se resolve se eu for capaz de reportar o meu trabalho ao longo do meu mandato ao ponto de ser verdadeiramente inquestionável, que realmente tenho mérito pra ser presidente do partido aos olhos desses senhores, porque eu já disse isto. O problema da minha legitimidade na cabeça dessas pessoas, que é apenas nessas cabeças que ela se coloca, não se resolve com congresso, como não se resolveu com o congresso de há dois anos. Nós já tínhamos debandadas anunciadas, que estão a acontecer agora. Nós temos desfiliações que ocorreram porque não aceitam, nem toleram que eu me mantenha como presidente do partido. Eu, depois de ter um bom resultado nos Açores, bom resultado nas autárquicas, ter recuperado a dívida do partido e de estar agora numa condição mais desafogada Eu nem sou reconhecido legítimo líder do partido, estão sempre a apoucar-me, a criticar os meus resultados eleitorais. Era agora depois de um congresso que iam realmente aceitar a minha liderança, que ontem em listas para fazer. O que esses senhores estão a fazer é uma tentativa ensaiada de assalto desesperado ao poder, para me tirarem de cena em véspera das legislativas, porque a única coisa que lhes preocupa e preocupou durante todo este tempo, foi evitar que eu alguma vez tivesse a possibilidade de fazer listas. É só isto que se passa. E eu tenho que ser cru e duro na forma como o digo, porque não há nenhum choque de ideias. Alguém já ouviu o Nuno Melo defender uma ideia para o país? Ele critica-me por tudo e por nada. Ele apresenta uma candidatura que é um desferir de golpes e de impropérios e injúrias à direção do próprio partido. Ele faz um comício numas jornadas parlamentares, a propósito de um artigo de opinião que alguém tinha publicado e com isto, tinha sido convidado para fazer um discurso sobre oposição ao Partido Socialista, e ele escolhe fazer uma oposição à direção do próprio partido. O doutor Nuno Melo criticou-me por fazer coligações nas eleições autárquicas. Ele próprio é eleito há vinte e dois anos, salvo erro, em coligação em Vila Nova Famalicão, e não exclui a hipótese de ser candidato em coligação se fosse presidente do partido. O doutor Nuno Melo diz que utilizámos um expediente que é ilegal. Era da direção do Paulo Portas quando por duas vezes o Conselho Nacional cancelou o congresso.
Já lá vamos.
Percebe?
Deixe-me só perguntar, as próximas legislativas são a 30 de janeiro.
Sim.
Em que dia que acaba o seu mandato enquanto presidente do CDS?
O meu mandato como presidente do CDS acaba no dia em que houver um congresso que eleja um novo líder.
Que deve ser realizado de dois em dois anos.
Pode ser realizado de dois em dois anos, mas no passado já aconteceu não ter sido assim.
Mas é a primeira vez que acontece com dois candidatos à liderança do CDS, ou não?
Não sei. Porque repare, veja uma coisa.
É a primeira vez que um congresso é adiado quando há uma disputa de liderança do CDS.
Veja isto que eu lhe vou dizer.
Entende, pelo menos, que é diferente adiar congresso onde só há candidato, ou adiar um congresso onde há dois candidatos.
Mas é isso que eu lhe quero dizer. O Filipe Anacoreta Correia, quando liderava o movimento Alternativa e Responsabilidade dentro do CDS, sempre afirmou que se a sua moção fosse a mais votada, ele era candidato a presidente do partido. Eu lembro do congresso, em 2014, em Oliveira do Bairro, em que ele disse expressamente isto, isto não é ser candidato a presidente do partido. É. Tanto é que quando Paulo Portas, em Conselho Nacional, cancelou o congresso, que estava marcado para 2013, perguntaram ao Filipe Anacoreta Correia qual era a sua posição, porque era oposição interna a Paulo Portas, e ele responde: "Estou de acordo com o cancelamento do congresso, porque o país está em primeiro lugar". Portanto, essa ideia que não havia candidatos é um absurdo, porque os candidatos podem surgir. Aliás, todos os subscritores da primeira moção de estratégia global podem ser candidatos a presidente do partido e afirmar-se apenas em congresso. O Jerónimo de Sousa Castro, tradicionalmente podia não ser candidato a presidente.
Esta não é uma situação diferente?
É uma situação.
Acha que é igual?
Não, repare numa coisa. Eu acho que é uma situação em que nós tivemos eleições-
Diferente, não é?
Sim, é uma situação diferente. Eu vou te explicar porque é que eu acho diferente. Eu acho diferente porque temos eleições legislativas e é isso que desperta esta indignação feroz da parte dos meus adversários políticos.
O Nuno Melo queria ser candidato antes de saber que existiam eleições antecipadas.
Pois, essa que é a questão. Por isso é que eu lhe vou dizer este ponto. O doutor Nuno Melo já era candidato quando o Conselho Nacional decidiu antecipar o Congresso. Já era candidato, já o tinha anunciado publicamente. E o que é que disse na altura? Que não concordava com a antecipação do Congresso, ele tinha que ser realizado no calendário normal.
Mas o ponto não é esse. Está a dizer que a candidatura existe para o impedir, a si, de fazer as listas. Mas quando essa candidatura surgiu-
Eu estou a falar da antecipação do Congresso. Esta é a ideia da antecipação do Congresso.
Mas quando essa candidatura surgiu, não havia a perspectiva sequer de fazer listas, porque não havia a perspectiva de haver eleições legislativas antecipadas.
Miguel, dois pontos. Primeiro, eu disse que esta ideia da antecipação do Congresso surge dada a urgência de fazer listas, porque aqueles mesmo que eram candidatos, eram contra a antecipação do Congresso e diziam que ele tinha que ser realizado no calendário normal. E realizado no calendário normal, mesmo contando os dois anos, o Congresso ou se realizaria naquele fim de semana onde há eleições legislativas, ou nos fins de semana seguinte, como aconteceu, haver deslocações até de meses no calendário dos congressos e os presidentes todos eles tiveram legitimidade. Depois, segundo ponto, era sempre uma questão de listas previamente também, porque repare, quem ganhasse o próximo congresso do partido, fosse ele em novembro, era sempre o presidente do partido que lidaria o CDS em eleições legislativas.
Claro. Diga-me uma coisa, se o Conselho de Jurisdição Nacional der razão a um novo pedido de impugnação a Nuno Melo, e se considerar nulas as deliberações do Conselho Nacional, admite fazer uma nova reunião para voltar a fazer a votação ou não?
Sobre o Conselho Nacional de Jurisdição. Eu acho que isto é matéria de interesse jornalístico, porque não podemos ouvir o Nuno Melo repetir à nausea falsidades à imprensa e não sendo interpelado. Ponto um, o Conselho Nacional de Jurisdição fez coisas ao arrepio da lei. A lei dos partidos e os estatutos do CDS impedem. Exatamente, o que o professor fez. Eu acho que o professor até tem sido bastante-
A questão não está resolvida, se houver uma nova decisão do Conselho Nacional de Jurisdição, vai ignorá-la ou vai marcar um Conselho Nacional?
O Conselho Nacional de Jurisdição, neste momento, está a deliberar de forma irregular, porque tem dois membros apoiantes do doutor Nuno Melo.
Três, um deles é seu.
Essas situações ainda estão por confirmar, mas aplica-se por maioria de razão. Ainda dá mais razão à questão da irregularidade do órgão. A partir do momento em que temos uma advogada do doutor Nuno Melo a deliberar, que é membro da sua distrital, temos o presidente do plenário concelhio de Oeiras a deliberar e, alegadamente, ainda está por confirmar, temos um membro que pode ser da regional dos Açores, executivo. Isto é manifestamente irregular, não pode tomar deliberações.
Mas se tem um Conselho Nacional de Jurisdição em situação irregular, isso não é mais uma razão para fazer um congresso e eleger um novo Conselho Nacional de Jurisdição?
Não, porque este Conselho Nacional-
Não se resolve esse problema também?
Não, porque não é o Congresso que resolve este problema, há formas simples de o fazer. As pessoas que lá estão renunciam ao seu lugar porque manifesta incompatibilidade e conflito de interesses ou até impedimento jurídico. É tão simples quanto isto. Isto resolve-se desta maneira Portanto, enquanto quisermos, algumas pessoas, não todos, um grupo pequeno dentro do partido, boicotar e bloquear as decisões do Conselho Nacional, através de um órgão de jurisdição, que ainda por cima toma decisões estando irregular, e mais, delibera ao arrepio da lei do partido, ninguém pode ser obrigado a cumprir decisões que são manifestamente injustas e que estão completamente ilegais. É isto que se passa no Conselho Nacional de Jurisdição do nosso partido. Então, se nós temos o regulamento do Conselho Nacional que diz expressamente que conselhos nacionais convocados com caráter de urgência não têm de obedecer a prazo mínimo de convocatória, por que o Conselho Nacional de Jurisdição diz que a convocatória foi ilegal? Quando, em 2013, com apenas 19 horas de antecedência, se cancelou um congresso e, na altura, tenho aqui as declarações de todos eles em ata do Conselho Nacional, apoiaram a decisão do cancelamento. E depois há este absurdo, vejam bem isto. Se este entendimento do Conselho Nacional de Jurisdição que diz os conselhos nacionais só podem ser convocados com oito dias de antecedência, isto significa que o próprio Conselho Nacional que antecipou o congresso, que foi convocado com seis dias de antecedência, é nulo. Portanto, este problema extingue-se por inutilidade ou por impossibilidade.
Certo. Vamos avançar para o que vem aí nas próximas legislativas. Em sua opinião, o CDS deve ir ou não em coligação com o PSD?
Muito bem. Essa é outra das razões pelas quais eu acho que o CDS, em vez de estar a desperdiçar o seu tempo em fazer fretes ao Partido Socialista, que se desconjuntou todo e a sua solução faliu com a extrema-esquerda, deve estar preocupado em definir uma política para ganhar as eleições legislativas, que pode, naturalmente, abrir espaço a uma coligação com o Partido Social-Democrata. E eu posso lhe dizer quais são as vantagens que encontro numa coligação pré-eleitoral com o Partido Social-Democrata. A primeira delas é o efeito psicológico e sociológico que tem no eleitorado. Eu andei na rua nas eleições autárquicas, percorri mais de 80 conselhos, e noto que existe uma urgência de responder a um povo do centro-direita que procura uma unidade dentro do seu espaço político, até para clarificar as suas escolhas, evitar esse espartilho e essa proliferação de forças políticas que existem do centro para a direita. Portanto, acho que o efeito psicológico de uma AD beneficiaria a hipótese de vencer as eleições à esquerda. Depois, há outra vantagem que eu também encontro. É a segunda, é que o método de Hondt favorece os grandes números. Ou seja, se somarmos os votos dos dois partidos, e normalmente o todo é superior à soma das partes, conseguimos eleger mais deputados. Conseguindo eleger mais deputados, mais próximos teremos da maioria absoluta. E o terceiro argumento que eu encontro é o histórico. É que nas eleições autárquicas demonstrou-se que os nossos dois partidos juntos conseguem ganhar eleições, derrubar a esquerda e governar em muitos sítios, muitos deles até implausíveis, de conseguirmos vencer eleições. Há estas vantagens, Miguel. Agora, a pergunta que você quer saber é: vai fazer uma coligação pré-eleitoral com o PSD? Eu também lhe devo dizer outra coisa. Eu não estou desesperado por nenhuma coligação pré-eleitoral com o PSD.
Pegando nisso, André Coelho Lima, vice-presidente da direção do PSD, numa entrevista ao Observador, disse que não quer uma coligação com o CDS. Rui Rio diz que ainda não tem uma posição fechada. Paulo Rangel já disse que não quer. Portanto, faz sentido continuar a insistir nessa ideia?
Eu não estou a insistir nessa ideia. Este é que é o ponto. Vocês perguntam quais são as vantagens de uma coligação.
Pergunto porque acho que tem, que não, que já viu que não há disponibilidade do PSD, portanto-
Vamos lá ver. O PSD vai passar por um processo eleitoral interno. E depois eu terei, como presidente do partido, que falar com o presidente do Partido Social-Democrata. O atual presidente do PSD disse que não exclui essa possibilidade, que de resto, é a posição que eu tenho vindo a manifestar publicamente. Depois, se eventualmente, num cenário qualquer, o doutor Rio não continue como presidente do Partido Social-Democrata, eu, como presidente do CDS, terei que conferenciar com o doutor Paulo Rangel, e essa é uma conversa que será feita entre líderes dos partidos, e não será mediada pela comunicação social. Agora, se não houver coligação com o Partido Social-Democrata, nós faremos o nosso caminho autônomo. Nem estamos à espera de uma coligação com o PSD. O CDS não está em stand-by. O que eu queria era precisamente começar, desde já, uma volta pelo país para dialogar com os portugueses, apresentar as nossas respostas, e são várias, para os idosos, para os jovens, para a saúde, para a economia, para o emprego, para os impostos. Queria, naturalmente, entrelaçar os portugueses nesta ideia de partido popular que eu quero representar, e renovado, olhando para o futuro. Um partido rejuvenescido.
Mas agora as únicas vitórias que tem a apresentar foram coligado com o PSD.
Mais ou menos. Repare, temos que ver as vitórias à escala de cada um dos partidos. Já falámos uma vez sobre isso numa entrevista, eu e o Miguel. E eu aprecio o seu registo direto, que é, eu acredito que aquilo que se passou nos Açores foi uma vitória para o CDS, a partir do momento em que nós conseguimos governar.
Eu não estou a dizer que não foi, só estou a dizer que só conseguiu vitórias coligado com o PSD, é só isso que eu estou a dizer.
Então veja. Nos Açores, tivemos cerca de 6% dos votos, fomos pela primeira vez governar, porque tivemos votos para isso e mandatos que permitiam formar uma alternativa de centro-direita.
Isso é a exceção, que é o círculo que pode ser comparado com o nacional, teve 1,5%.
Esse é o único que pode ser comparado com o nacional.
É o com mais fácil leitura.
Isso é a leitura dos meus opositores internos. Mas, senhor Miguel, não perdemos assim tantos votos comparados com...
A nível nacional, nas autárquicas, a sua média quando foi sozinho foi de 1,7%.
Está bem, mas isto aqui é que me faz uma confusão enorme. Como é que se diz que o CDS só vale 1,5% quando só foi sozinho em 99 conselhos? E nesses 99 conselhos elegeu mais autarcas do que o Chega, a Iniciativa Liberal, o Bloco de Esquerda e o PAN juntos em todo o país. Quer dizer, isto não faz sentido, o CDS não vale só 1,5%, senão o CDS da Assunção Cristóvão valia dois e pouco. Foi quando esteve sozinho também em urnas com menos coligações do que fizemos este ano. É óbvio que o CDS rende votos e tem votos nas coligações. Há, de resto, uma métrica. Se quiserem fazer aquela métrica.
Ninguém está a dizer o contrário, só estamos a dizer que as suas vitórias foram apenas quando somou.
Miguel, então nós ganhamos seis câmaras com maioria absoluta. Nunca tinha acontecido isto. Lá fomos sozinhos.
São as seis câmaras que já tinham sido ganhas por aqueles que diz que agora critica. Senão lá estavam, não é?
Não, mas eu não critico os meus autarcas Porque os bons resultados, quando são bons...
Mas então a vitória foi sua ou foi dos autarcas?
Não, mas eu nunca critiquei os autarcas. Como eu te disse, fui criticado porque foi uma vitória que foi das lideranças anteriores.
Mas temos só três minutos.
Sim.
Pediria só resposta pra mais duas perguntas rapidamente.
Sim.
Uma é precisamente falando de Açores, se admite repetir a nível nacional a solução dos Açores, em que há um apoio parlamentar da Iniciativa Liberal e do Chega. Está a ver esta fórmula a funcionar a nível nacional?
À partida pra umas eleições, eu devo fazer exatamente o mesmo discurso que fiz nos Açores, que é procurar que o meu espaço político, é um espaço do centro-direita, sozinho, consiga governar. E admitir esse cenário é, logo à partida, uma situação de enorme fragilidade, quer dizer, se calhar não vamos ser capazes.
Os portugueses têm que saber com o que é que contam. Os eleitores do CDS, a coisa vai pelo mesmo.
Claro. Mas o que eu queria dizer aos eleitores do CDS é: para evitar soluções como aquelas que aconteceram nos Açores, votem no CDS, que é certo. Se for necessário, isto não pode ser visto em abstrato, tem que ser visto caso a caso, em particular, dependendo daquilo que estiver traduzido no acordo de incidência parlamentar. Não pode ser visto em termos genéricos. A única coisa que eu posso apelar é dizer assim: eleitores portugueses..
Em teoria, não afasta a hipótese.
Em teoria, é uma solução que dependerá sempre dos arranjos parlamentares e do seu teor, da sua substância e do seu conteúdo. Não é uma situação que eu adore, como é evidente. Eu gostava que, à semelhança daquilo que aconteceu no passado, que o CDS e o PSD juntos formassem uma alternativa que permitisse governar. E é nisto que eu estarei focado. Os outros cenários, eu lutarei pra que não aconteçam.
Temos 30 segundos, mas aqui é mesmo uma pergunta de sim ou não. É fácil. Tem dito várias vezes que nas últimas legislativas o CDS teve os piores resultados de sempre.
Não soubemos.
Elegeu cinco deputados.
Sim.
Se não conseguir eleger mais de cinco deputados, demite-se?
Olhe, não sou o que digo. A realidade do partido é essa. Nós não podemos comparar situações que são incomparáveis. O CDS, há dois anos, nas últimas eleições legislativas, não tinha institucionalizados no Parlamento, dois novos partidos a concorrer consigo. Portanto, terá que ser avaliado o resultado que o CDS tiver. Não, não excluo essa hipótese. O que eu digo é: terá que ser avaliado em função da big picture que resultará dessas eleições.
Está conformado em ter um resultado ainda pior, é isso?
Não, acha que eu estou...
Não, quer dizer.
Não, claro que não estou.
Admite ficar com um resultado pior do que esse.
Mas o que é um resultado pior?
Menos do que estes cinco deputados.
Teremos que ver, de facto, a evolução do quadro político em Portugal e a nova correlação de forças do Parlamento. Agora, eu não escondo que o meu objetivo para as próximas eleições legislativas é crescer. Estamos aqui focados. Se o CDS tem menos. Bem, perguntem o que eu quero, qual é o meu objetivo? Eu nas eleições eu disse: qual é que é o ponto que fará o Francisco demitir-se do partido? O que é que é um mau resultado pra si? Perguntem-me o que é que é um bom resultado.
António Costa já disse que se demite se não ganhar. Rui Rio disse a mesma coisa. Estávamos a tentar a mesma franqueza da sua parte.
Muito bem, e a minha franqueza é esta: eu lutarei pra que o CDS cresça nas próximas eleições legislativas. E depois, em função do voto que os eleitores nos confiarem, farei as minhas interpretações dos resultados eleitorais. Podem ser positivas, podem ser negativas. No caso de eu entender que é um mau resultado pro CDS, naturalmente, não estou agarrado ao lugar e colocarei o meu lugar à disposição. Agora, eu não conto que isso aconteça, porque tenho confiança no meu trabalho e acho que o CDS tem todas as condições pra se afirmar como a direita certa, que soma, que une e que permite ao nosso espaço político ganhar eleições e governar.
Obrigado, Francisco Rodrigues dos Santos. Foi mais uma entrevista aqui na Rádio Observador. Obrigado, até breve.
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