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Há dois meses e 10 dias que Moçambique é sacudido por uma onda de manifestações que paralisaram o país, com centenas de mortes, centenas de feridos e milhares de detidos. Isso numa primeira fase, foi a violenta repressão policial de protestos pacíficos que se destacou e chocou o mundo. A partir do dia 23 de dezembro, quando o Conselho Constitucional validou a vitória a Daniel Chapo, o candidato da FRELIMO, partido no poder há 49 anos, foram as pilhagens e saques de lojas, armazéns e propriedades privadas que se tornaram notícia num caos instalado, com o poder a cair definitivamente na rua. Mais, com uma divisão na grande massa popular que antes se manifestava unida. Esta revolta popular tem um nome, Venâncio Mondlane, o candidato independente que se afirma vencedor das eleições de 9 de outubro e que tem liderado os protestos de fora de Moçambique por razões de segurança. E é este engenheiro de formação, pastor evangélico por vocação e político por convicção, candidato apoiado pelo partido Podemos, que está hoje conosco na Rádio Observador. Venâncio Mondlane, bem-vindo, a partir deste momento está sob escuta.

Muito obrigado, Dulce, pelo convite, pela oportunidade. São raríssimas as ocasiões que nós temos pra podermos ser ouvidos e dar a nossa versão sobre os fatos. Obrigado, Dulce.

Muito bem. Há 55 dias, quando o entrevistamos pela primeira vez, a 6 de novembro, dizia-me que havia ingredientes para uma revolução sem armas em Moçambique. Isso não aconteceu, o povo não tomou o poder e há muito sangue derramado. Ontem, na sua última comunicação em direto no Facebook, na mais recente, não a última, dizia que são muitas as dúvidas sobre o caminho a seguir. Sente-se numa encruzilhada?

Não propriamente uma encruzilhada. O que está a acontecer é que, neste momento, as autoridades moçambicanas adotaram uma estratégia, que precisa ter um outro tipo de abordagem do nosso lado. Sobretudo, essa estratégia que tem a ver com implantar o terror no meio da população, a estratégia de dividir para reinar, como estava a dizer a Dulce, e disse muito bem. As nossas manifestações, quando iniciaram por volta do dia 21, 22 de outubro, estavam a ter um condão interessante, que pela primeira vez, depois da independência de Moçambique, havia um sentimento de unidade entre os moçambicanos, um sentimento pátrio muito forte, a questão simbólica de cantar o hino nacional, de cantar o hino da África, as pessoas de mãos dadas em momentos específicos, de tocar as panelas. Tudo isto estava a criar uma espécie de uniformização social, econômica entre as pessoas.

Mas isso acabou.

Sim, não posso dizer que acabou. O que acontece é que existe uma estratégia que está sendo implementada, que visa quebrar esses laços que estavam sendo criados entre os moçambicanos e que estávamos todos nós afunilados pro mesmo objetivo. Então, agora, a estratégia que está sendo adotada é exatamente dividir os moçambicanos uns contra os outros. Por exemplo, agora deixa eu falar do que aconteceu após o anúncio do acórdão do Conselho Constitucional. O que aconteceu é uma coisa muito simples. Graças a Deus, agora está ficando cada vez mais claro o que realmente aconteceu no dia 24. As pilhagens que ocorreram foram exatamente protagonizadas, planificadas pela polícia da República de Moçambique. Vamos ver dois ou três casos só pra concretizar o que estou aqui a dizer. Nós temos imagens, que se tornaram virais, de um BTR, de um carro militar, um carro anti-motim, que derrubou os portões do armazém e era a própria polícia que dizia às pessoas que entrem. Temos o caso que ficou chocante num bairro que se chama Benfica, na cidade de Maputo, em que num armazém, de uma empresa que é representante de celulares e outro tipo de aparelhos, a polícia trancou no armazém mais de 60 pessoas e ateou fogo sobre elas. É um caso que chocou Moçambique, chocou o mundo. O que acontece? Por exemplo, nós temos a nossa Central Nacional de Medicamentos, que se encontra num bairro chamado Zimpeto, em que os portões foram derrubados, a população entrou, mas foi colocado fogo lá. Não faz sentido. Se a população precisa de medicamentos, não faz sentido que essa população carente, que precisa de medicamentos, depois de saquear medicamentos, coloque fogo na maior central de medicamentos do país. Quer dizer, há coisas que não fazem muito sentido. Há uma empresa que se chama Autopac, que acho que é uma das maiores de empacotamento de vários produtos alimentares. A população lá entrou e depois disso também ateou fogo sobre a empresa. Quer dizer, se a pessoa está faminta, se a pessoa está necessitada, ela não vai atear fogo, porque o básico, o mais lógico, é que ela mentalize: "Olha, eu vou roubar hoje, vou comer, eu preciso roubar amanhã também". Eu não vou colocar fogo numa empresa, num empreendimento que sei que vai me dar possibilidades de roubar durante três, quatro, cinco dias.

Mas as pilhagens não são todas da polícia ou de pessoas mandatadas pela FRELIMO, convenhamos. E, por outro lado, com as patrulhas dos bairros, parece que há aqui uma outra lei, um faça-se justiça pelas próprias mãos. Parece que os jovens não só sofrem às mãos da polícia, como também dos vizinhos, da justiça dos bairros. Será que perdeu o controle das ruas? Ou seja, eu estou a entender o que me está a dizer. Por um lado, há ações para lançar o terror e para atemorizar as pessoas, mas, por outro lado, parece que há aqui uma falta de controle do poder das ruas.

Eu não poderia ser tão pretensioso a pensar que eu vou controlar toda a população que neste momento está a manifestar-se ou quer demonstrar algum repúdio em relação a esta matéria. O que acontece é que eu faço apenas os indicativos das datas e também, mais ou menos, o padrão em que as pessoas se vão manifestar. Agora, o que acontece, só pra voltar um pouco atrás, Dulce. O que acontece é o seguinte: logicamente, que não são os elementos da polícia que fazem pilhagem, porque eles são em minoria. O que acontece? A polícia é que faz os arrombamentos, a polícia é que derruba os portões e depois manda a população entrar nesses estabelecimentos e saquear. O que é que acontece? É que ao longo deste tempo todo, colocou-se o povo numa situação de miserabilidade, colocou-se o povo em situação de pobreza extrema. E o que acontece é que nessa situação, se você tem um armazém de alimentos em que os portões são derrubados e depois se diz: "Olha, se vocês querem comer, entrem e comam", é lógico que as pessoas vão entrar e comer. E quem olha pra isso não vai perceber a estratégia, vai pensar que a população está a pilhar. O que está a acontecer é o uso estratégico perverso da situação de miserabilidade das pessoas e levar as pessoas a saquear empreendimentos privados. Para fazer o quê? Qual é o objetivo? O objetivo é colocar a classe empresarial dos pequenos e médios empresários na situação de sentirem-se tão prejudicados com o movimento e se rebelarem, não com as autoridades que planificaram isto, mas se rebelarem com o próprio movimento contestatário. Esta que é a estratégia. Isto é uma estratégia de manipulação de massas, que já foi usada em várias ocasiões, e que em Moçambique está sendo experimentado. Mas em Moçambique, de uma forma perversa, por quê? Porque é uma população que o próprio governo coloca na situação de miserável e usa a miserabilidade e a situação de famintos, para que esta mesma população saqueie bens dos pequenos e de médios empresários, para criar a divisão. Aquilo que eu disse no início, que havia uma tendência para o sentimento pátrio, havia uma tendência pras pessoas estarem cada vez mais unificadas, mais unidas, então era preciso quebrar essa tendência da unificação, desta empatia, desta unidade que estava acontecendo entre as pessoas. Então, essa é uma estratégia que está sendo utilizada.

Ou seja, aquilo que as balas e o gás lacrimogêneo não conseguiram, porque ficavam ainda mais revoltados, consegue-se através do medo e da desconfiança de uns pelos outros.

Sim, e Dulce, isto não é novo. Eu, por acaso, estive a ler um pouco sobre isto, as tais técnicas de mind control, de controle mental. Esta, por exemplo, que eles estão aqui a fazer, é aquilo que se chama de problema, reação e solução. Quer dizer, eles próprios criam um problema, que aterroriza as pessoas, veem a reação das mesmas pessoas e depois eles aparecem mais tarde com uma solução desse problema. Como é que eles estão a fazer isto? Saltando pra um outro tema. Soltam-se presos na maior cadeia, na maior unidade penitenciária do país. Isto cria uma reação na população de temor, a população fica aterrorizada. E veja só uma coisa, Dulce, só pra tu perceberes que realmente isto foi engendrado. O comandante-geral da polícia dá uma conferência de imprensa depois da soltura dos presos e ele passa uma mensagem, não de tranquilidade, não uma mensagem de colocar as pessoas serenas, que esta mensagem é normal de qualquer responsável da ordem e segurança no país, ele passa a mensagem do terror. Ele próprio, é como se devesse ser o porta-voz, exatamente, dos malfeitores. Ele começa a dizer: "Olha, agora soltaram-se 1500 presos. Se cada preso tiver acesso a quatro, cinco casas, então na cidade de Maputo vai se gerar um caos total". E veja esses presos. Ele começa a categorizar. Aqui há presos muito perigosos, incluindo 25 terroristas que tinham sido capturados em Campo Delgado. Ele descreve o tipo de crimes. Eles vão começar agora a fazer violação de mulheres, vão fazer assaltos à mão armada. Eles são, até certo ponto, tão ingênuos, que é o próprio comandante da polícia que denuncia quais são as mensagens que eles próprios estavam a passar, para que os homens tenham sido, de forma propositada, soltos da cadeia. Eles criam essa situação de terror E depois a população reage. Eles próprios que fazem reuniões com base nos tais chamados secretários dos bairros, a incentivar que hajam patrulhas nos bairros. E essas patrulhas são feitas com quê? São feitas com objetos contundentes. Portanto, os vizinhos começam a pegar também em catanas, em bastões e passam a vida toda a patrulhar o bairro. Logicamente, o que isso cria? Cria o desvio da atenção, já ninguém pensa nas manifestações, já ninguém pensa na injustiça eleitoral. E depois, no meio disto, eles aparecem com uma solução. Diz: "A solução disto é exatamente a estrutura governativa". Daí que vêm os chefes do quarteirão, os secretários do bairro, vem a polícia a dizer que vai colocar ordem numa desordem e num perigo que foi a própria polícia causar.

Já que fala nisso, no outro dia ou ontem, Carayo, dizia que as pessoas eram enterradas vivas. Porque se acredita que as balas não as matam, penso que estará a falar dos naparama, mas quer explicar melhor isto? Que situações foram estas em que as pessoas foram enterradas vivas?

Sim, isto ocorreu em Nampula e aconteceu também na Zambézia. O que acontece? Eu também estou com alguma dúvida do movimento dos naparamas. Como é que ele surge, portanto, eu não consigo te explicar com muito detalhe quais são os reais objetivos. Numa primeira fase, dá impressão que os naparamas, os antibala, numa primeira abordagem, dá a impressão que eles se revoltaram contra as unidades governativas. O ataque que eles fazem, fizeram alguns ataques a algumas esquadras, aparentemente não estavam atacando a população, estavam atacando órgãos públicos, e por essa via, criou-se uma impressão de que os naparamas também estavam como justiceiros. Mas os últimos vídeos que nós estamos a ter acesso, em que eles, neste momento, usando a ideia de que os naparamas estão espalhados em tudo que é lugar, estão a fazer sequestros e raptos de jovens. E, por exemplo, no distrito de Monapo, em Nampula, numa localidade que se chama Nakoololo, ainda ontem, foram sequestrados 45 jovens acusados de terem no seu corpo incisões com lâminas, que são sinais de métodos mágicos para os tornar imune às balas de armas convencionais. Então estes jovens foram sequestrados e a justificativa é que estes jovens queriam fazer parte ou faziam parte do grupo que estava a passar por rituais mágicos para se tornarem naparamas. Então aqui arranja-se também um óbito para que se comece a fazer sequestros, raptos seletivos, porque já existe uma justificativa, porque os naparamas atacaram as esquadras, por essa via, eles podem sequestrar pessoas como quiserem, sequestrar jovens e executá-los.

Então, mas quem é que é enterrado vivo?

São estes jovens que são enterrados vivos, porque se diz: "Bom, já que vocês têm no vosso corpo escoriações e vocês são antibalas". Então pegam neles e há vídeos. Uma coisa curiosa é que a polícia filma isso, filma esse tipo de crimes, quer dizer, pegam neles, enterram e dizem: "Já que vocês não morrem com balas, pelo menos vocês vão morrer por baixo da terra". Estão a fazer isso.

Quando começou esta luta, esperava que o curso dos acontecimentos trouxesse o país até este caos? Há mesmo quem fale de uma certa Haitização, por referência ao que se passa no Haiti.

Não esperava, por uma razão muito simples: as nossas manifestações nunca visaram fazer nenhum tipo de caos no país, de destruição no país. Desde o início, nós sempre afincamos para fazer manifestações pacíficas. E quando eu falei de uma revolução sem armas, falo de uma revolução no sentido de conseguirmos ter o número de pessoas mobilizadas a aderir às manifestações, que obrigariam, naturalmente, o regime a ter que ceder em função de perceber que as pessoas estão todas mobilizadas para o protesto contra a governação.

Mas isso não aconteceu. O regime já mostrou que não deixa o poder, de forma alguma, pela força das ruas. Até quando é que isto vai continuar?

Podemos dizer assim: ainda não aconteceu, porque ainda não é um processo conclusivo. O que acontece é que há diferentes estratégias que estão a ser implementadas, mas se me permitires só concluir o que estava a dizer antes, Dulce. É o seguinte: se reparares, desde as nossas primeiras manifestações, a primeira, o ponto de referência dessas manifestações foi dia 21 de outubro. No dia 21 de outubro, conseguiu-se o assassinato do meu advogado pessoal, o Elvio Dias. Eu convoquei, foi a primeira convocação nacional que eu fiz para uma greve nacional. Chamamos de greve nacional no sentido que era a paralisação de toda a atividade laboral. Só pra tu veres. Quer dizer, a nossa tendência sempre foi uma manifestação cujo fim nunca era destruir absolutamente nada, nem privado, nem público.

Certo, a intenção era essa, mas a realidade é outra, não é?

Sim, mas esta realidade, que é outra, não é uma realidade criada pelos manifestantes. Tem que ficar claro isto. Esta realidade outra, é uma realidade criada e induzida pelas autoridades policiais e pelo atual governo Esta é a questão que tem que ser verificada, porque o que está a acontecer? As pessoas estão-se a deixar levar pelos efeitos e as pessoas não olham pras causas. Por exemplo, as pessoas já viam o famoso armazém que eu te falei de um homem chinês, de um dos bairros lá. A população entrou e tirou arroz, não sei o quê. "Estão a saquear, a destruir os bens dos empresários". Mas ninguém, por exemplo, olhou antes, que a polícia usou um carro blindado militar pra destruir o portão e a própria polícia convocou as pessoas a entrar no armazém. Isto é importante verificar, porque se a gente só ver a parte dos efeitos, vamos ficar sempre com a tendência de que se perdeu o controle, de que já se perdeu a direção das coisas, mas não, é que tem que se pensar um pouco nas causas disso.

Muito bem.

Por exemplo, se alguém olha e diz assim: "Ah, mas agora tá tudo mal, porque há homens catanas que andam pelos bairros". As pessoas têm que perceber esses homens catanas, qual é a origem disso? Os homens catana é uma criação exatamente da própria polícia. É uma ideia que eles lançaram e as pessoas andam aterrorizadas, a correr, já não dormem à noite, a fazer as patrulhas e não encontram nenhum homem catana. Este que é o fato que tem que ser analisado e ver se, de facto, essas são as reais causas.

Mas também há ativistas que disseram que alguns dos reclusos foram munidos de catanas, por isso deve existir alguma base de verdade nisso, não?

Sim, mas eu não sei onde é que foram buscar esses dados. Eu não tinha essa informação, com esse detalhe, que foram munidos de catanas. Se os reclusos foram munidos de catanas, então também tens aí mais uma razão de suspeita. Veja, Dulce, uma coisa muito simples, no âmbito da simples lógica. Eu estou evadido de uma cadeia. A tendência natural do ser humano normal é pra tentar um ponto de fuga ou meter-me na população, vou pra minha família ou fujo da área. Isto é a tendência normal de qualquer fugitivo. A pessoa não vai sair da cadeia e a primeira coisa que faz é buscar uma catana pra andar nos bairros aterrorizar. Isso não faz sentido nenhum. Na mais básica lógica, isso não faz sentido nenhum. A não ser que, ao evadir-se da cadeia, ele esteja já num esquema previamente montado e com objetivo concreto em que ele sai pra ir executar. Aliás, como acontece, por exemplo, em Moçambique, com os tais chamados esquadrões da morte. Os esquadrões da morte não são mais, nem menos do que reclusos que são retirados na calada da noite, são armados pela própria polícia, é indicado um alvo, eles vão lá, abatem o alvo e de dia voltam à cadeia. Os esquadrões da morte são exatamente isso.

Muito bem.

Devem ser uma reprodução.

Mas o número de mortes é elevado, de feridos e detidos também. Os empresários de Moçambique dizem que pelo menos 500 empresas foram vandalizadas e/ou saqueadas e que, por causa disso, há 12 mil pessoas no desemprego e que vai haver escassez de bens, além de que os preços vão subir. Penso que já lhe fizeram esta pergunta muitas vezes, não é? Mas até onde é que está disposto a ir? Quanto mais sangue terá de ser derramado?

Olha, Dulce, se fosse pela minha sensibilidade como indivíduo, pelo meu sentimentalismo, já teria parado essas manifestações. Mas a questão que se coloca aqui é que não estou exatamente a sacrificar-me todo na minha vida por razões meramente pessoais. É que há uma necessidade, há um grito de socorro de uma população que quer acabar com o atual sistema de coisas que existe em Moçambique. E é por isso mesmo que nós, por exemplo, fizemos um ensaio ainda há pouco tempo e que dissemos: "Olha, existe uma possibilidade de dar uma trégua de cinco dias, mas eu precisava de ouvir qual é a percepção que as pessoas têm". Nós recebemos quase 50 mil e-mails. Humanamente falando, não podíamos ver e-mail por e-mail, mas hoje tenho aqui uns jovens de um centro tecnológico que nós temos no meu gabinete, e que com inteligência artificial conseguem fazer estatísticas dessas coisas. 70% das pessoas que mandaram-nos e-mail, querem que as manifestações continuem. Significa que é preciso também fazer essa avaliação. As pessoas, o moçambicano no geral, está ainda interessado que as manifestações continuem. Olha, qualquer luta que nós temos, o grande problema que se coloca aqui é o seguinte: as pessoas têm um claro sentimento, e isso digo com certeza, de que o partido que está a governar, está a governar, primeiro, de forma ilegítima, ao longo de 30 anos. Dois, que a FRELIMO tornou-se claramente uma organização criminosa. Isso não há dúvidas nenhumas. Três, as pessoas sentem que, neste momento, o ambiente de insegurança, mesmo antes deste movimento, era extremo em Moçambique. Só pra teres uma ideia, nós agora estamos com o problema do conflito em Cabo Delgado, que há uma sensação nas pessoas de que o conflito foi criado, porque não é um terrorismo convencional, que a gente tem visto em outras esferas. É um terrorismo induzido e há uma percepção cada vez que vai se consolidando, de que é um terrorismo induzido por interesses econômicos da atual elite econômica de Moçambique. E também há os raptos e sequestros que vêm há mais de 11 anos criando um ambiente de instabilidade no país. Portanto, os raptos, sequestros, há uma instabilidade total. E depois, por outro lado, a miserabilidade em que o país, o povo se encontra, em contrapeso ou em contradição Com a descoberta de novos recursos que são os maiores do mundo. Então as pessoas tiveram a convicção de que nós temos que nos manifestar, temos que nos rebelar, temos que protestar contra esse sistema de coisas.

Certo, mas há mais de dois meses que estão nas ruas a protestar e não está a resultar. Até quando?

Como é que tu fazes a medição exata de qual é o tempo ideal pra uma manifestação? Depende. Em Malawi, por exemplo, foram três meses. Malawi teve uma situação idêntica em 2019. Claro que não houve tantas mortes como em Moçambique, mas houve uma tentativa de fraude, o povo foi pra rua. A diferença é que em Malawi o exército acabou se juntando ao povo, mas foram três meses.

E aqui o exército não se está a juntar ao povo, contrariamente à sua expectativa inicial.

Mas houve realidades que foi um mês. Há outras realidades que foi uma semana. Há outros casos, foram dois dias. Estamos a falar de fenômenos sociológicos e não propriamente fórmulas de um laboratório ou uma fórmula química. Não é tão linear como esses fenômenos ocorrem e como é que eles se consomam.

Tem havido uma grande pressão e várias vozes a pedirem diálogo. No dia 18, quando esteve numa conversa organizada no Parlamento Europeu, disse que o presidente moçambicano lhe tinha telefonado. O que saiu dessa conversa? O que lhe disse Filipe Nyusi?

Dessa conversa não saiu nada. Foi uma conversa amena, com alguma cordialidade, com respeito mútuo, não restam dúvidas, mas em termos concretos, tudo ficou tal e qual. Quer dizer, a única questão que o presidente fincava era que tínhamos que esperar pelos resultados a anunciar pelo Conselho Constitucional, que não havia outro caminho senão esperar pelos resultados. Mas todas as manifestações, tudo quanto ocorreu, era exatamente porque estávamos à procura de encontrar-se uma plataforma de entendimento que não fosse arrastar o caso até o Conselho Constitucional, porque todo o processo desde o início, desde a votação até o Conselho Constitucional, são mais ou menos cinco a seis etapas. Se já na primeira etapa tínhamos irregularidades registradas, não só por nós, até por comissões de observação eleitoral, significa que o processo já vinha viciado desde a primeira etapa, o chamado apuramento parcial. Então, até chegar o anúncio dos resultados definitivos e a proclamação dos mesmos, estávamos a admitir que vamos esperar pelo anúncio de uns resultados cujo processo estava visível que estava viciado. Então, por que não podemos esperar para o anúncio dos resultados do Conselho Constitucional, porque toda gente sabe claramente que esse processo já vem inquilinado, já vem viciado. Tem que haver uma outra abordagem. "Ah, mas ele dizia que não, ele insistia, era por essa via". Então a coisa ficou por aí.

E entretanto, nesta segunda-feira, os quatro partidos da oposição, incluindo o Podemos, que o apoia, reuniram-se com o presidente Nyusi e disseram que iriam dialogar. Isto é um movimento à sua margem? Sente-se isolado?

Não, não me sinto isolado, porque tive conhecimento. Tive conhecimento e dei a minha opinião do que se deveria dizer e graças a Deus, todos os partidos que estiveram neste encontro foram unânimes, pelo menos a dizer que os resultados eleitorais eram adulterados e não reconheciam os resultados. Pelo menos esta base, eu pronunciei-me sobre isto antes da reunião e foi isto exatamente que foi dito lá. O resto, houve algumas nuances, mas na essência, no essencial, a rejeição dos resultados eleitorais, todos os partidos foram unânimes a repisar este ponto.

Tem-se dito sempre aberto ao diálogo, nos seus termos, referindo que nem o presidente Nyusi, nem a Frelimo aceitaram dialogar. Tem havido vários apelos pra que as duas partes façam cedências. Está disposto a ceder em algum ponto?

Dulce, quando digo que estou aberto ao diálogo, e se for realmente diálogo, temos que estar dispostos a ceder. Haverá, naturalmente, ganhos e cedências, é natural no diálogo. O único problema é que como não tenho os termos de referência do que eles podem propor, fica um pouco difícil, mas em termos de princípio, sim, não restam dúvidas. No diálogo, sempre temos que ir abertos, não pra impor a nossa vontade, mas também pra saber qual é o equilíbrio que podemos encontrar entre o que nós queremos.

Disse que vai tomar posse a 15 de janeiro. Como é que vai tomar posse?

Sim, Dulce, é o seguinte. Na minha página, tenho organizado uns webinários há algum tempinho, que chamamos de Papo com Venâncio Mulare, e já tivemos alguns debates relativamente aos aspectos constitucionais, de como é que se poderia fazer uma tomada de posse paralela. E nós, neste momento, temos já elaborado, no fim, um tribunal popular, e os termos técnicos de como é que funcionaria esse tribunal popular. Se não estou em erro, antes dessa nossa conversa, mandamos já o draft. Existe um tribunal popular, porque tem que ser um órgão judicial que certamente tomamos, que vamos consagrar.

Mas não vai governar. O país vai ter dois presidentes. Vai governar?

Posso não governar em termos convencionais, mas certamente que eu vou governar, como se tem visto até agora Já fizemos o ensaio disso. Neste momento, se for eu a dizer que amanhã vamos parar a atividade laboral e se for o Presidente da República a dizer que vamos trabalhar, a gente já sabe a quem as pessoas vão obedecer. Então, isso é governar.

Ou seja, de facto, tem o poder da rua. Mas eu tenho aqui uma dúvida: saiu do país depois de ser atacado com gás lacrimogéneo, quando dava uma conferência de imprensa. Depois disso, sofreu algumas tentativas de assassinato, mas diz que a 15 de janeiro, dia da tomada de posse de Daniel Chapo, estará em Moçambique para tomar posse. Já não receia pela sua vida? O que é que mudou?

Olha, eu desde o início, já tinha anunciado que eu queria voltar a Moçambique, inclusivamente no dia 7 de novembro, eu tinha marcado como a data de retorno a Moçambique, mas começaram a chover vídeos, áudios, e-mails, das pessoas a dizerem que não posso voltar a Moçambique, a desencorajar-me, até posso dizer, a proibir-me de voltar a Moçambique. Então, por essa via, eu não fui a Moçambique a pedido dos moçambicanos.

Mas não tem medo de ser assassinado agora? Não tem medo?

Não, é que é assim, Dulce, em algum momento, eu não estarei no exílio para sempre. Eu terei que voltar ao país. E essas manifestações que nós fizemos, eram manifestações pra ver que se no entretempo entre a realização das eleições até a tomada de posse, pudesse haver alguma mudança naquilo que eram os resultados falsos anunciados pela Comissão Nacional de Eleições. Terminado este período, por que eu tenho que continuar no exílio? Não faz sentido, eu volto ao país. Agora, se isso resultar, digamos assim, numa tentativa contra a minha vida física, ok, são os riscos que todos aqueles que carregam causas comuns têm que passar por elas.

Por isso está disposto a morrer?

Sim, quer dizer, não porque seja um masoquista ou um suicida, mas no sentido de que não vou ficar no exílio para sempre e volto para país. Só Deus sabe do futuro, mas eu volto para país.

Tem sempre falado em tirar a FRELIMO do poder. A questão é: está preparado para governar? Tem uma equipa, tem um governo-sombra?

Sim, quer dizer, olha, logo depois de nós fazermos a contagem paralela. Portanto, as eleições foram no dia 9, nós no dia 10, 11, nós já tínhamos uma boa parte da contagem paralela feita, estávamos a 25%. E nessa altura, nós temos uma conferência de imprensa e eu disse claramente que já tinha uma equipa formada para um diálogo pra transição governativa. Portanto, já temos uma equipa, pelo menos nos setores-chave de governação preparada. Claro, naturalmente, que não posso neste momento dar a conhecer essa equipa por razões óbvias. Deve saber, Dulce, eu não vou expô-los agora, mas já tenho uma equipa formada que pode responder pelos vários setores capilares da governação.

O que acha que pode acontecer até 15 de janeiro? Porque a luta pela verdade eleitoral parece ter chegado ao fim, não é? Porque o Conselho Constitucional, a última instância, já validou os resultados da Comissão Nacional de Eleições. Está disposto a manter estas manifestações pacíficas até então, assume o poder no Tribunal Popular a 15 de janeiro, mas qual seria o cenário ideal para si, pra isto acabar? A FRELIMO pedir desculpa e convocar novas eleições? Um governo de unidade nacional?

Olha, claro, o nosso primeiro ponto, não restam dúvidas, que era a verdade eleitoral. E a verdade eleitoral, inclusivamente, algumas organizações da sociedade civil, já tinham dado até alguns palpites das várias alternativas de como se chegar a isso. Primeiro, podia ser uma recontagem. Há várias alternativas, uma recontagem. A segunda podia ser a partir de uma auditoria forense. Portanto, havia várias formas de chegar à verdade eleitoral. Ok. Se caso esta questão da verdade eleitoral fique ou se considere que se tornou inviável, naturalmente que podemos passar, e eu penso que aqui era mais pacífico, uma anulação das eleições. Anular as eleições e, naturalmente, convocar novas eleições. Portanto, seria por essa via. Agora, o quadro, o modelo do tal governo de transição entre a anulação e as novas eleições, há vários modelos que foram criados. Há muitas propostas em Moçambique sobre isso. Por exemplo, a sociedade civil tem uma, tem um grupo de acadêmicos também que fez uma diferente. Quer dizer, há muitas propostas à volta desse assunto. Portanto, não há problema nenhum, isso ia se discutir depois, entre as várias propostas, qual é que seria a mais viável. Mas já existem muitas propostas.

Tem-se afirmado sempre como um pacifista. No entanto, numa das suas lives, parece ter aberto a porta a um armamento das suas hostes de apoio. Depois clarificou, disse que queriam, estavam disponíveis, mas que têm resistido. A minha questão é: já alguém lhe ofereceu armas?

Armas, não. Quer dizer, e também eu nunca faria isso. Eu sempre que lidei com esses grupos Ou para militares ou grupos ligados às Forças de Defesa e Segurança. Quando me falam de um golpe de Estado movido pelos militares, eu disse: "Olha, essa nunca vai ser a minha opção". Nunca. E sempre finquei o pé e disse claramente que eu sou civil e a minha luta vai ser por meios puramente civis. Também não teria sentido nenhum chegar ao poder por via de um golpe, por via de força militar. Não fazia sentido absolutamente nenhum. Agora, o que acontece é que em face desses assassinatos que estão a ocorrer, eu já recebi vários contatos a dizer: "Olha, Finácio, nós podemos defender a população. O que você acha? Nós podemos, com a força das armas, somos pessoas qualificadas". Desde os ex-guerrilheiros da Renamo, algumas forças do atual exército também já me contactaram sobre isso. Eu nunca dei uma resposta sobre isso, mas há uma necessidade de se defender a população que está sendo chacinada. Houve isso. Então eu falei disso no sentido que, bom, se isto continuar dessa forma, a gente vai pedir apoio também a essas forças que já existem pra defender a população.

Então aceita essa possibilidade de armar?

Não, não no sentido de eu armar ou eu criar um exército paralelo, isso nunca eu farei. Ou criar um movimento rebelde, isso nunca eu farei. O que estou a dizer é que dentro das Forças de Defesa e Segurança, existem pessoas que dizem claramente que queriam defender a população, queriam se rebelar contra isso.

Mas está disponível a aceitar essa oferta ou não?

Essa não é uma oferta no sentido de uma força à minha disposição. Essa seria uma iniciativa dessas mesmas forças, elas próprias, usando os meios que conhecem pra defender a população. E eu penso que se for pra defesa do povo que está sendo chacinado, isso seria bem-vindo.

Na sua última comunicação em direto no Facebook, a que chama de live, disse que não havia dinheiro nenhum do mundo que o fizesse abdicar da sua luta pelo povo. Já lhe ofereceram dinheiro para desistir deste processo de contestação?

Já me fizeram algumas propostas, de como é que eu poderia deixar as coisas correrem, e ter alguns privilégios pessoais.

Quem é que lhe fez essas propostas?

Naturalmente que eu tenho que preservar a imagem dessas pessoas, porque acho que agora não convém ainda aumentar a legião de inimigos nessa altura. Mas isso é uma coisa que tem acontecido comigo ao longo da minha história como político, não só como político, mas ainda como comentador de televisão. Isso sempre marcou a minha história. Sempre ofertas materiais e financeiras. Isso sempre aconteceu comigo.

Na última live, disse também que vivia um calvário e que se sujeitava a uma vida muito complicada por causa dos seus valores. Quer explicar-nos que calvário é esse? Como é que tem vivido?

Sim, um calvário, no sentido de ter que atravessar constantemente, cruzar fronteiras. Ter que mudar-me sempre de localização, de acomodação. É uma vida que não é assim muito simples. Ficas três dias num sítio, tens que pegar nas malas, mudada, tens que ter vários vistos, tens que cruzar fronteiras, que isso é uma vida muito complicada. É muito difícil, é realmente uma vida baterizada, mas tem que ser feita.

A Frelimo é conhecida por destruir os seus inimigos políticos de uma forma ou de outra. Ou os conquista, ou acaba por, sob muita pressão, os arruinar economicamente e depois, mesmo psicologicamente. Tem tido algum apoio ou está sozinho?

Sim. Olha, o melhor e maior apoio que eu tenho, e graças a Deus, essa sempre foi a forma que eu preferi. Eu sempre preferi fazer um pedido de apoio abstrato, no sentido de quem quiser, quem estiver disponível, indicamos uma conta, as pessoas transferem pra conta e tenho feito isso. Mesmo durante a campanha, durante a pré-campanha, sempre fiz assim. Aliás, quando eu estava ainda na minha batalha pela luta dentro da Renamo, também fiz o mesmo. Então, esse sempre foi o meu método. Eu abro as contas, coloco uma conta que as pessoas depositam e que muitas vezes eu nem sei exatamente quem são.

Ainda falando no seu calvário, é cristão. Como é que passou o seu Natal?

O meu Natal. Onde estou, passei orando. O mais importante aqui não é propriamente ter uma mesa faustosa ou ter ali o presépio do Pai Natal, mas o importante é a comunhão espiritual. Portanto, eu passei meditando, orando e passei bem.

E como é que vai passar a passagem de ano? Já pediu aos moçambicanos pra cantarem o hino a partir das 23h45. O que vai fazer?

Vou fazer o mesmo. Onde estiver, também estarei a cantar o hino a essa altura da transição. Só isso. Sem festa, sem dança. Também já não sou de festas há muito tempo, mas não acho que seja alguma coisa que faça Que faça tanta diferença.

O que responde aos que dizem que é um político de extrema-direita com pendor populista?

Os adjetivos são tantos que me possam dar. Ainda vi, há pouco tempo, alguém que fez um Photoshop e pôs-me lá uma casaca das SS alemãs, dizendo que eu era um discípulo do Hitler. Todo esse tipo de adjetivações podem aparecer e são várias. Sobretudo quando alguém ganha muito destaque, se torna uma figura pública, tem que estar disponível a ter esse todo tipo de adjetivos. Agora, o que importa, eu acho que o mais importante é saber os valores concretos que estou a defender. Eles têm que falar dos valores, das metas e dos objectivos. Aí que vamos perceber se sou realmente de extrema-direita com pendor populista ou não, porque o que nós estamos aqui a defender? Estamos a defender a verdade eleitoral. Eu acho que isto não tem nada a ver com ideologia política, nem nenhuma doutrina. Dois, estamos a defender que Moçambique cesse os raptos e sequestros que vêm há mais de 13 anos, digamos assim, martirizando a população moçambicana. Estamos a dizer que nós queremos, em Moçambique, a despartidarização de todas as funções públicas que foram tomadas pela FRELIMO ao longo de 50 anos. Nós queremos uma política fiscal que já apresentei durante a nossa campanha, toda a gente já conhece, que é exatamente pra beneficiar o desenvolvimento local. Já apresentei propostas concretas sobre que tipo de educação queremos para Moçambique, que tipo de sistema de saúde queremos.

Muito bem, isso faz parte do seu programa eleitoral, não é?

Sim, e tudo não sei se é populista, eu acho que é aquilo que o país está a precisar. Temos um país riquíssimo em termos de recursos naturais, uma população jovem com potencial de trabalho muito grande e o país miserável. Quer dizer, querer tirar o país desta situação, não sei se é populismo.

Uma última questão. Não gostou da atitude do governo português quando, depois do anúncio do Conselho Constitucional, criticou-a, mas depois disse que teria sido por falta de informação. Alguma coisa mudou desde 23 de dezembro? Alguém o contactou?

Não, de forma nenhuma. Digo isto de forma nenhuma, por quê? Porque o que aconteceu com o governo português aconteceu também com muitos moçambicanos. Por exemplo, no dia 24, eu arrisco-me a dizer que cerca de 40 a 45% dos moçambicanos estavam a ficar um bocadinho desapontados com os objetivos dos protestos. Por quê? Porque até dia 24, criou-se a ideia de que os protestos se cingiam apenas a saques, à destruição de bens, por aí fora. Mas já no dia 25, as coisas começaram a ficar claras quando começam a aparecer provas, evidências de que muitos dos saques, muitas das destruições tinham sido preparadas e promovidas pelas próprias forças de defesa e segurança.

Mas a reação do governo português foi ainda no dia 23.

Sim, então o que estou aqui a dizer. Sim, naturalmente que nessa altura não havia motivos de o fazer. Quer dizer, eu acho que já se debateu demais até isso. Em Portugal mesmo, pelas redes sociais, os portugueses já fizeram crítica mais do que suficiente sobre isso. Mas eu creio que, olhando pro cenário pós dia 24, temos elementos mais do que suficientes pra o governo português perceber que o posicionamento não podia ter sido aquele. Há muitas provas, há muitos elementos que estão à disposição pública hoje, que não havia antes. Vou dar um exemplo muito simples. No dia 24, no âmbito das manifestações, foram descobertos em várias sedes do Partido FRELIMO, um monte de cartões e editais falsificados, por aí fora. Essa informação, por exemplo, não existia antes do dia 23, mas a informação agora está disponível. Então eu penso que com estes novos elementos, com esta atualização e a forma da atuação do próprio regime, quem ganha eleições de forma legítima, não precisa tornar-se sanguinário. Se um regime se torna sanguinário, faz uma repressão no extremo da brutalidade, da violação mais profunda dos direitos humanos, isso é indicativo de que esse regime não foi eleito de forma legítima. Porque se ele foi eleito de forma legítima, de forma livre, não precisa repreender a sua própria população. Se a população acredita neles, votou neles, basta uma palavra deles pra própria população obedecer e entrar na tranquilidade.

Muito obrigada por ter estado conosco na Rádio Observador.

Obrigado.