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Quando falo, descubro mais sobre mim e quando escuto, compreendo mais os outros. Mas quer abra a boca ou preste atenção, tenho cada vez mais a certeza de que somos todos malucos. Olá a todos, sejam bem-vindos a mais um episódio do Somos Todos Malucos. 2026, nova temporada, novos convidados, alguns também repetentes, que vão passando por aqui, porque as conversas são como as cerejas. Como se diz: "Atrás de uma, vem sempre outra". Já sabem, este é um podcast do Observador, é um podcast que está em todas as plataformas, o Spotify, iTunes, Google. Está também nas páginas do Observador e na minha página de YouTube, se forem daqueles que gostam de ver as imagens e que há muita gente que vai ouvir no Spotify, agora também se pode ver no Spotify, mas que vai ver e depois quer saber como é a pessoa para associar a voz à cara. Portanto, têm lá disponível todas as semanas uma conversa nova. Deixem o vosso like, aquelas coisas do YouTube. Partilhem as conversas, deixem o vosso like, ativem as notificações e venham aos comentários, porque já sabem que eu venho muitas vezes também aqui falar convosco nos comentários. Ora bem, a conversa de hoje. Eu sempre achei muito curioso, as pessoas que defendem que a nossa alimentação está diretamente relacionada com as nossas emoções e a importância de nutrir o nosso corpo como deve ser. E aqui entra logo a questão: mas o que é isto? O que é o como deve ser? É igual para todos? E as coisas têm sabor? Porque isso é o que muita malta diz, que não come ovo vegetariano ou não come vegano, não come legumes porque as coisas não têm sabor. São muitas perguntas para a Mariana Peçanha, nutricionista, e que fez, ela própria, este caminho de descoberta. Olá, muito obrigado.

Obrigada eu.

Por teres vindo. Eu gostava de começar muito pelo teu trajeto inicial. Como é que uma pessoa ligada ao marketing passa do marketing para a nutrição e depois, sobretudo, da nutrição para esta coisa que é a nutrição funcional? E mais holística, posso dizer?

Sim.

Mais holística.

É, porque depois é um bocadinho a junção das coisas que eu fui estudando e assim se deu esse nome. Então eu comecei com publicidade, porque na altura o meu objetivo era trabalhar como se fosse uma publicidade a reverter para causas sociais. Esse era o meu sonho, que eu sempre gostei muito de comunicar.

Para ONGs.

Sim, e achei que isso poderia ser possível, começando por ali. Depois comecei a perceber que não, porque estava sempre a vender detergentes e telemóveis e coisas assim. E comecei a pensar: "Isto não é nada daquilo que eu quero", porque ainda para mais vai contra aquilo que eu acredito, porque claro que a publicidade vai ter que ter um bocadinho aquele lado que, enfim, tentar vender tem isso, não é 100% verdadeiro.

É isso, é publicidade.

Exato.

É tornar o produto apetecível para ser consumido.

E eu não me identifico muito com isso. E percebi isso na prática. Mas foi muito interessante ter tirado o curso. Portanto, eu acho que isso me acrescentou imenso, porque na verdade é o que eu faço como meu trabalho, porque acho que tu hoje em dia teres a capacidade de comunicar aquilo que é.

Tornar apetecível a nutrição.

Aquilo que tu acreditas. Tu achas que isso é uma grande vantagem. E eu passei por tudo isso. Portanto, eu falo com conhecimento de causa e não só aquilo que vejo com os meus pacientes e aquilo que estudei. Então o que aconteceu foi que eu, em mais nova, como praticamente todas as miúdas, tinha já sofrido de ganho em excesso e perda de peso. Algumas vezes, algumas oscilações, dietas malucas, etc. E houve uma altura, que foi quando eu estava já a estagiar, que eu comecei a ficar muito pálida, sem energia absolutamente nenhuma, cansada, e fui fazer várias análises e nenhum médico me conseguia responder aquilo que eu tinha. E eu fiquei muito intrigada e como não estava muito contente com aquilo que estava a fazer, procurei um curso que fosse de acordo com aquilo que eu acreditava. Eu não tinha estudado ciências, eu venho da área de Letras, portanto imagina que não foi. Então eu procurei na faculdade de Naturopatia em Londres, daria para tirar este curso, que eu até achei que era só mesmo para eu perceber mais.

Para te dar umas luzes.

Exato. Nunca pensei que fosse dar consultas. Aliás, eu só decidi que ia dar consultas a meio do curso, porque no início eu ia mesmo para tentar perceber.

Para a descoberta.

E foi incrível, porque o primeiro ano era de biomedicina, os outros dois anos de nutrição e no último nós fazíamos 200 horas de estágio. Portanto, até chegar a essa altura, era perceber todo um mundo que para mim era completamente desconhecido.

E tu tinhas uma alimentação normal ou já cuidada?

Isso é tão relativo. Não, é de verdade, porque na altura tu tens-

Para a minha bisavó, uma alimentação cuidada era um copo de bagaço todas as manhãs.

Exatamente. A minha avó também bebia à noite a seguir ao jantar, tomava sempre lá o drinkzinho dela, que até hoje não sei o que é que estava lá dentro. Mas sim, eu achava que era relativamente cuidada. Hoje em dia tenho consciência que não, porque nós fomos aprendendo ao longo dos anos, especialmente na altura em que eu fiz essas dietas todas, o que estava muito em voga era tirosidade de carbono, consome proteína com legumes ou com salada e é isto.

O básico da roda dos alimentos.

Isso. E hoje em dia sabe-se muito mais do que isso. Então acho que a minha alimentação ainda assim oscilava um pouco. Passei por essas vertentes todas vegans e vegetarianas e essas coisas todas para tentar perceber efetivamente o que estava por trás. E isso já no curso, ou seja, eu experimentei tudo. Não há nada que eu passe às pessoas que eu não tenha experimentado. Posso dizer que não tive as melhores experiências.

Em relação a quê?

Por exemplo, porque eu acho que eticamente todos nós gostaríamos, ou a maioria de nós gostaria, de não consumir produtos animais, assim, de maneira geral.

Eu acho que há pessoas que nem pensam nisso.

Há, pode haver, mas acho que as pessoas que estão dentro da área ou pelo menos tentam perceber um bocadinho mais, a maioria, não estou a dizer todos, obviamente, mas acho que a maioria de nós tem alguma sensibilidade nesse sentido. E isso foi que me levou a tentar. Pelo menos eu tentei.

Vegan?

Tentei duas vezes, tentei vegetariana e tentei, mas esquece Impossível, porque o meu rendimento no treino não é o mesmo, a recuperação não tem absolutamente nada a ver.

Mas isso pode ser uma coisa muito específica tua.

Pode ser uma coisa específica minha, só que depois os estudos ajudam aqui. Aquilo que nós conseguimos perceber, e obviamente que isto depende de indivíduo para indivíduo, mas o que nós conseguimos perceber é que os aminoácidos que compõem a proteína, que estão disponíveis tanto no universo vegetal quanto no universo animal, tu consegues absorver mais facilmente os do universo animal do que os do universo vegetal. E não só por causa da proteína.

E em quantidades diferentes.

E em quantidades diferentes.

Tens de comer 300 quilos de brócolos para equivaler a um bife.

E o que é que vai acontecer ao teu intestino se fizeres isso?

Pois, vai soltar gazaria o resto.

Exatamente. E é completamente disfuncional. Não só isso, mas mesmo em relação aos minerais, por exemplo, o ferro. O ferro é dos minerais que mais fica embaixo, especialmente nas mulheres a partir de certa idade. Tenho as minhas dúvidas que seja a partir de certa idade ou se isto não acontecia antes e nós só começamos a testar a partir de certa idade. Porque nós analisamos mais a partir dos 30 do que temos propriamente parâmetros dos 20 aos 30. Não quer dizer que não exista, mas eu acho que é mais evidente também porque se procura mais. De qualquer das formas, a ferritina está quase sempre baixa nas mulheres acima dessa idade. Nós perdemos sangue, é verdade, tem essa história toda, mas a verdade é que tu para conseguires converter o ferro em forma de utilização no teu sistema, vindo, por exemplo, de espinafres ou de beterraba, tu perdes 70% na conversão do que se tu comeres um bife de vaca. Até mais do que se comeres um bife de frango. Não quer dizer que toda a gente tenha que fazer essas escolhas, mas consegues compreender que, se calhar, numa quantidade pequenina, nós conseguimos todos os nutrientes que precisamos no universo animal e no universo vegetal não é bem assim.

E tu passaste por isso tudo?

Passei por tudo isso. Cantei na prática.

E o que é que afinal tu tinhas para estar tão pálida?

Até hoje, eu acho que o que estava a acontecer é que havia uma oscilação no pH do meu ácido clorídrico, que é o ácido estomacal. Esta foi a conclusão a que eu cheguei naquela altura. Acho que havia várias coisas que estavam erradas. Por exemplo, eu lembro-me, comia sempre, quase sempre a mesma coisa ao almoço e era uma massa com vegetais, não tinha proteína absolutamente nenhuma e vai fazer isso. Ou seja, se tu começas a diminuir muito a proteína, o ácido do teu estômago começa a ficar cada vez menos eficaz. Tu precisas de otimizar tudo isso, por isso é que há muita gente até a tomar vinagre de sidra para ativar o suco gástrico, para conseguir ter uma melhor digestão. Essa era uma das questões que acontecia. Depois, o problema é que a maior parte dos médicos, quando tu estás assim, começam a dizer-te para fazeres cada vez menos, ou diziam. Acho que hoje em dia não é igual. Fazeres cada vez menos, treina menos, descansa um bocadinho mais, se calhar estás só esgotada. Enfim, conselhos que não tinham absolutamente nada a ver, porque quanto menos eu fazia, pior me sentia.

Sim, porque depois isso também vai afetar. Acaba a saúde mental por ser afetada por isso.

E isso eu sou uma fiel crente, se é que é assim que se diz, que o exercício físico faz milagres. A nível da parte emocional, a nível da parte mental, eu acho que faz muito mais do que muita coisa que se vende.

E o que é isto então da nutrição funcional?

É a nutrição em função da saúde.

E em função da pessoa?

Sim, mas não quer dizer que a outra nutrição não possa ser também. Só que a nutrição funcional é mais em função do problema que tu estás a trazer. Ou seja, dependendo das tuas características, dependendo dos teus objetivos, dependendo do funcionamento de todo o teu sistema, tu consegues elaborar um plano alimentar com suplementação, etc., que te dê as melhores ferramentas para tu conseguires lidar com a situação que estás a passar. Por isso é que isto é adaptativo. Ou seja, aquilo que eu te posso passar como plano alimentar agora, para as necessidades que tu tens, o estilo de vida que tu tens, se calhar daqui a uns meses ou daqui a um ano, é completamente diferente. E isto eu deixo sempre muito claro, e eu dou muitas vezes este exemplo, que eu tinha uma paciente minha que morava no Dubai e ela dizia: "Miriana, preciso deixar o café, ando muito acelerada, estou sempre muito acelerada, temos que deixar isto, ajuda-me, vamos começar agora". Eu disse assim: "Mas olha, essa fase de estresse que tu estás a passar, ela vai durar quanto tempo? É muito mais? Vai acabar? Como é que é?" Ela disse: "Acho que mais ou menos um mês, mais do que isso não será de certeza". "Então bem, falamos daqui a um mês". Porque estar a alterar alguma coisa naquela fase para ela ia ser mais estressante, porque ia ter que ter aqueles downs todos.

E se calhar o estresse todo nem sequer era do café, era só do trabalho.

Do trabalho, claro, o excesso.

Sim, o excesso de café ajuda.

Não vinha a ajudar, mas não era essa a causa principal. Aliás, ela estava a beber o café por quê? Devido ao excesso que ela tinha de trabalho. Então é muito interessante, e aí para pegar um bocadinho na parte emocional também, nós percebemos que a mim fascina-me perceber a intenção que antecede a ação das pessoas. Ou seja, quando tu percebes por que as pessoas estão a agir como agem, quando tu vais mesmo à raiz do problema, tu consegues a partir daí perceber o que é que tu estás a tratar. Por isso é que falar só da nutrição, para mim, começou a ficar pouco. Então em consulta acontecia muitas vezes isso. Acontece isso.

Tu tens muito isso naquelas questões que eu acho que são mais comuns ou televisionadas, que é a tal história das pessoas comerem muitos doces quando estão em déficit de alguma coisa emocional, de alguma questão emocional, se põem a comer doce. Eu sinto isso às vezes. Eu sinto, sobretudo, quando estou também muito cansado ou aborrecido com alguma coisa, dá-me vontade só de comer doces. É muito curioso.

E isso vem por duas vias. Vem pela via emocional mesmo, porque estás a ir buscar prazer nalguma coisa quando não estás propriamente feliz, entre aspas.

E a energia.

E o outro lado também, que é uma coisa que eu acho que é muito interessante perceber. Imagina que estás de ressaca ou porque bebeste, ou porque não dormiste o suficiente, e quando éramos mais novos era a junção das duas coisas. A pessoa não dormiu o suficiente e ainda bebia em cima. No dia seguinte, claro que só te apetecia comer as porcarias. E aqui não é muito diferente. Ou seja, quando tu levas o teu corpo a um extremo, no dia seguinte ele vai te pedir coisas de absorção rápida. Isto é muito comum. Quando tu não descansas como deve ser ou levas o teu sistema a algum extremo, o que vai acontecer aqui? Os minerais e as vitaminas que normalmente estão disponíveis pra ti no teu dia a dia, pra produção de energia, pra função cognitiva, enfim, pra todos os tecidos do teu organismo, vão estar em baixo. Então o teu organismo entra em estresse e começa a utilizá-los de forma errada. Por exemplo, quando tu começas a consumir refrigerantes, etc. Até se sabe hoje que quando tu consumes um refrigerante, tu não tens cálcio suficiente pra conseguir digerir esse mesmo alimento, se é que se pode chamar um alimento. Então é quase como se fosses tirar, tiras mesmo do osso pra conseguir fazer essa digestão. E o mesmo acontece com outros nutrientes. Quando tu não os tens disponíveis, tu vais aos tecidos pra conseguir efetivamente fazer com que isso aconteça. Então quando tu estás com essa sensação de cansaço, seja ele por um motivo-

Emocional ou mesmo de trabalho.

O que vai acontecer é isto, é que tu vais tentar repor de uma forma rápida. A mesma coisa acontece com os atletas, a mesma coisa acontece com as grávidas. E isso não está errado. Quando as grávidas me dizem-

Que têm aqueles desejos malucos.

Dependendo. Obviamente, tem que as acompanhar e perceber até onde é que aquilo é, de facto, aquilo que elas estão a dizer, porque nós temos que desconstruir às vezes. Mas muitas vezes é pra consumir. Estão a acontecer coisas dentro do teu sistema que precisam de uma energia rápida e não de uma energia lenta. Isso no desporto nós vemos muito.

Sim.

Vais estar a consumir alguma coisa com fibra antes do treino ou vais estar a consumir alguma coisa com fibra quando tu precisas de energia? Não faz sentido.

Sim. Mas diz-me uma coisa. Como é que a comida se relaciona diretamente com as emoções? Esse sentido, passo um pleonasmo, faz sentido. A questão de nós nos sentirmos em baixo e sentirmos a necessidade de comer algo que nos traga uma ideia falsa, se calhar, de satisfação, de alegria.

Sim.

Mas como é que o corpo transforma uma emoção, sei lá, de falta de autoestima em comida, em cookies?

Sim, porque tu estás à procura de um prazer. Tu estás à procura de uma sensação. Se tu não estás a sentir determinada coisa, o que tu queres sentir quando estás com a autoestima baixa? Tu tens algum tipo de valor. Claro que isso depois vai ser contraproducente, por isso que se tu começares a comer cada vez mais, isso não vai ter o resultado esperado. Mas é isto que acontece. Mas indo um bocadinho, eu acho que respondendo à tua pergunta, o que acontece, por exemplo, quando nós não dormimos como deve ser? Durante a noite, é quando nós produzimos o neurotransmissor serotonina, que é responsável pelo prazer, pelo bem-estar, pela saciedade, pelos apetites. Se tu não descansares como deve ser, tu já não produzes este neurotransmissor. Portanto, no dia seguinte tu já te vais estar a sentir como? Com a autoestima completamente em baixo.

Eu sou prova disso, porque eu lido com questões relacionadas com a perturbação obsessivo-compulsiva, que também está muito relacionada com a falta de serotonina. E eu, se durmo mal, eu tomo serotonina, o antidepressivo, a sertralina, neste caso.

Certo.

Mas eu noto claramente, se durmo mal, acordo, parece que o mundo vai acabar.

É isso.

É um bocado estúpido. Ou isso-

Mas é mesmo

...ou quando durmo demais.

Também acontece.

Acontece quando durmo demais.

Também acontece. E isso é uma coisa que se fala pouco. Trouxeste um ótimo exemplo, porque as pessoas não têm essa consciência de que quando vão pro extremo oposto, a sensação é parecida. E tu parece que ficas mais mole.

Que se junta a uma cena muito real, que é não só essa sensação que nós não percebemos muito bem de onde é que ela vem, como o: "Já perdi metade do dia, já estou atrasado pra uma data de merdas pra fazer". Também acontece.

É mais essa junção. Então, em relação à alimentação, existe isso. E, por exemplo, para a produção da serotonina, tu precisas de bons níveis de triptofano, que tu encontras nas aves, essencialmente. Precisas de bons níveis de magnésio e bons níveis de vitamina D. Sem bons níveis destes nutrientes, tu também não consegues produzir a serotonina adequadamente. E ela é produzida no intestino. Então se a função do intestino estiver comprometida, a probabilidade de tu também conseguires fazer isso é mais reduzida. Então tudo isto se junta. Quer dizer, que é difícil nós respondermos de uma forma isolada.

Sim, é porque se calhar as pessoas, às vezes, o tema da nutrição é algo que eu acho que já está inserido normalmente na nossa sociedade, mas esta questão da nutrição mais ligada às emoções, as pessoas ainda veem isto: "Ai, fogo, lá vêm estes gajos".

Até passarem pela situação.

Não, mas tu, na realidade, o que estás a dizer é um sentido muito prático e fisiológico. É algo que não vais curar. Quer dizer, não sei, se calhar até podes. Podes me ajudar a perceber isso ou não? Não vais curar mágoas do passado através da correção da alimentação, mas pode te ajudar a equilibrar-te para teres a coragem de curares as mágoas do passado.

Pode, até porque tu estares a tentar tratar, ainda que inconscientemente, essas mesmas mágoas através da alimentação, já nos está a dizer tudo.

Sim.

Já nos está a explicar que o buraco é mais embaixo.

Sim.

Então quando nós tentamos perceber, claro que cuidando de ti e tendo os nutrientes disponíveis, tu vais conseguir reverter muito mais facilmente a situação, seja ela qual for.

Pois.

Seja de uma depressão, seja de ataques de pânico. Se tu equilibrares a alimentação, tu tens os nutrientes disponíveis pra que as escolhas possam ser outras. Claro que os teus hábitos contam muito, porque se tu estás há muito tempo habituado a dizer-te a mesma coisa e a viver o mesmo estilo de vida.

E a comer o mesmo tipo de coisas.

E a comer o mesmo tipo de coisas, o resultado vai ser. Se tu começas a fazer um shift naquilo que tu comes, já começa a mudar muita coisa. É que nós podemos começar pelos dois lados. Nós podemos começar pela superfície, como podemos começar pela causa do problema. E eu acho que é interessante nós tocarmos em todos os pontos e perceber: "Ok, neste momento dá pra mexer aqui nesta parte emocional? Estou sem capacidade. Ok, vamos começar só pela alimentação e pela suplementação".

E pela mudança de hábitos.

Mudança de hábitos. O sono é fundamental.

Isso é um dos meus problemas.

Mas tu tens dificuldade em adormecer ou acordas no meio da noite?

Eu devia me deitar cedo.

Coisa que não acontece.

É a primeira. Mas depois ponho-me a ver séries, que é o clássico. Porque depois as miúdas, nós jantamos cedo, por acaso. Nós jantamos ali 19h30. Até no máximo 20h. Há dois dias que não dá, porque elas têm treinos à noite, então temos que jantar mais tarde. Mas 19h30 a 20h estamos jantados, mais ou menos. E eu tento não comer mais nada. Começo tipo jejum. A não ser, que é outra coisa que eu gostava de abordar, mas já vemos, que eu sinta mesmo a necessidade de comer algo que me satisfaça. Eu não bebo leite, mas a bebida vegetal com uma bolachinha ou qualquer coisa.

Quando é que isso acontece?

Não sei. Provavelmente também quando eu estou mais cansado. Não tem um padrão, não tem um dia, não tem uma hora, mas não acontece muito. Mas tenho por hábito fazer essas regras. Mas depois ponmo-nos a ver séries e descamba.

Sim.

E depois tenho outra questão também tem a ver que eu ressono muito.

Então vamos por partes. Em relação à questão das séries, são séries muito estimulantes ou são séries mais sossegadas?

Sossegadas não, que eu não gosto.

Pois, eu percebo-te perfeitamente.

Não, é ficção científica, é a minha cena.

Eu percebo que só as coisas dinâmicas. Só que é esse agora, se tu fores pensar.

Pois é verdade.

Estares a consumir esse tipo de coisa.

Eu sei. Não é aquela coisa: "Ai, por que é que isso me acontece?" Eu sei porque é que isso me acontece.

Mas olha, para explicar assim de uma forma simples, de manhã, quando nós acordamos, quando o sol nasce e quando nós acordamos, que deveria ser mais ou menos à mesma hora, no mundo ideal, nós produzimos cortisol. É a única altura em que ele é produzido naturalmente.

No inverno também é tramado.

Sim, é bem diferente. E está frio e não acontece. Sim, mas normalmente é produzido de manhã, vai decrescendo para a noite e conforme o dia vai passando e chegando a noite, o que vai acontecer é que tu começas a produzir a melatonina.

Exato.

E a melatonina é que te induz o sono. E o cortisol é aquilo que existe quando há estímulo, quando há sol, quando há vida, quando há movimento. E a melatonina é aquilo que existe quando há sossego, quando não há muita luz, quando vamos dormir.

Pois, se eu estou a ver séries e coisas, estou a estimular o cortisol, não estou a estimular a melatonina. Fogo, já posso ir dar consultas.

Podes mesmo. Tu tens, e eu já vi pelos teus podcasts, uma coisa que eu gosto muito, que é senso crítico, que eu acho que isto é muito importante para qualquer uma das áreas. Quando nós sabemos, mesmo que nós possamos não perceber muito do assunto.

Eu questiono tudo.

Eu acho que isso é muito importante.

E por isso eu gosto muito de aliar a ciência tradicional a tudo o resto, e já disse neste podcast muitas vezes isto, eu acho que a separação não foi feita pela espiritualidade, foi feita pelo homem, entre a ciência e o resto.

E não tem interesse nenhum, não é? Na verdade.

Eu acho que as duas coisas podem andar em conjunto. É como amigos meus, por exemplo, eu tomo a sertralina, já deixei de tomar, depois voltei a tomar, etc. Devo começar o desmame daqui a pouco tempo também. E eu tenho amigos meus que tomam antidepressivos, mas depois não alteram os hábitos. Portanto, isso vai dar ao mesmo.

É isso mesmo.

Eu acho que não serve de grande coisa. Eu tenho amigos que tomam os antidepressivos, mas continuam a beber 50 cafés por dia, a beber álcool em barda, a fumar, a passarem-se no trânsito e não sei o quê. E eu tento de alguma maneira fazer aquilo que eu acho que me poderá fazer bem.

Ou seja, se é necessário, ainda bem que estes medicamentos existem, porque eu acho que há alturas em que é efetivamente necessário, desde que faças também as alterações ao estilo de vida.

Desculpa, porque essas alterações vão promover que tu também, se calhar, mais rapidamente deixes de depender dessa medicação.

Deixes de depender dessa medicação e já seria o caminho que tu ias ter que fazer de qualquer das formas. Só que tu estás a fazer o caminho com uma certa ajuda, e ótimo, às vezes é preciso, não há estresse nenhum com isso. A mesma coisa acontece, em níveis um bocadinho diferentes, mas é o mesmo raciocínio, na minha opinião, com Ozempic, Mounjaro, etc. Ou seja, essas medicações que se dão hoje em dia para acelerar estes processos de emagrecimento, que hoje em dia são tomadas a torto e direito. Mas enfim, assim de uma forma muito resumida, se a pessoa pelo menos fizer alteração aos hábitos enquanto está a fazer essa toma, é muito diferente do que não inserir nada disto em contexto.

Sim.

Portanto, eu acho que isso é indispensável e não tem mal nenhum. Lá está, é tirar um bocadinho o preconceito. Não estou a dizer que as pessoas têm que recorrer à medicação. Na verdade, nós conseguimos fazer muita coisa sem recorrer, mas dependendo do estado em que tu estás.

Eu já fui, em alturas, a naturopatas a propósito da perturbação obsessivo-compulsiva e não senti grandes mudanças.

Lá está. Não dava.

Não dava, mas também tomo às vezes certos suplementos naturais que eu entendo que me ajudam.

Claro.

Por exemplo. E tens médicos que suportam isso. Por exemplo, o ômega 3, que é um suplemento simples que toda a gente podia tomar, melhora o efeito da sertralina, por exemplo.

Claro.

E eu tomo.

Exatamente. E na verdade, ias ter que tomar. Só que imagina, provavelmente o protocolo que tu estás a fazer, se fizesses um protocolo acompanhado por um naturopata, bem feito, seria aquilo que tu já ias ter que fazer de qualquer das formas, com ou sem a medicação. E vai ajudar sempre, porque lá está, ninguém está aqui para complicar. Por isso é que aquilo que estavas a dizer há bocadinho, eu acho que faz todo sentido, que é nós conseguimos integrar aqui os vários conhecimentos e os vários tipos de medicina, porque aí tu vais conseguir um resultado muito melhor.

Claro, faz sentido. Mas há comidas que podem provocar más emoções?

Essa analogia é engraçada.

Porque se tu tens o contrário, não sei. Estava a pensar nisso.

O que pode acontecer é: quando tu consumes alimentos que geram inflamação ao teu trato digestivo, a probabilidade de tu desencadeares determinadas emoções é maior. Então nós vamos dizer assim, eu costumo dividir, na medicina chinesa eles fazem muito esta comparação e separação. É quase como se as pessoas mais frias devessem comer coisas um pouco mais quentes.

Mais frias em que aspecto? De sangue?

Mais frias no sentido de pessoas que normalmente têm as mãos e os pés mais frios, têm hipotireoidismo, têm o intestino mais preso, tudo funciona mais devagar, são mais preguiçosas, são as pessoas que se agarram mais àquelas emoções da tristeza e ficam ali muito encolhidas e muito deixar a vida andar um bocadinho dessa forma, ou aquelas pessoas mais quentes, muito estressadas, tudo muito rápido, têm hipertiroidismo, às vezes, não necessariamente sempre. Às vezes até têm dejeções, não percebes muito bem por quê, mas rapidamente o intestino funciona e sai tudo e outras vezes parece que não, e umas oscilações assim mais clássicas. Então tens as pessoas mais quentes, as pessoas mais frias neste aspecto, são características físicas, mesmo aquelas pessoas que suam muito. "Mariana, eu estou sempre a suar das mãos". Isto é comum.

Ou seja, como se tivesse que contrabalançar as pessoas frias comer comidas mais quentes.

É, e o contrário também. E não é assim tão simples, mas é importante perceber que se tu começares a dar coisas mais picantes, com muitas especiarias às pessoas mais quentes, isto não vai correr bem, vais potenciar mais o que está a acontecer, e vice-versa. Em relação às emoções, não é diferente. Por quê? As pessoas mais frias tendem a ser as pessoas que vibram mais na tristeza. As pessoas mais quentes tendem a ser as pessoas que vibram mais na ansiedade e na raiva. Então, dependendo dos alimentos que tu fores consumir aqui, tu podes potenciar ou diminuir aquilo que está a acontecer dentro do sistema.

E quando é que uma pessoa sente as diferenças?

Como é que tu sabes?

Como é que sentes as diferenças que a mudança da alimentação mudou também a tua maneira de reagir?

Porque tu começas a sentir automaticamente no teu sistema que reages menos, estás menos reativo, estás mais tranquilo, porque a tua digestão está mais calma. Imagina, e por isso é que usam muito os elementos. O elemento do fogo nas pessoas que são mais ativas e mais agitadas. Se tu começas a consumir algo que vá contrabalançar isto, o que vai acontecer é que dentro do teu sistema começa tudo a ficar mais sossegado. Então a probabilidade de as coisas virem ao de cima dessa forma é menor.

Sim, e isso nem é sequer de um ponto de vista também fisiológico. A pessoa está menos irritada, sente-se menos cheia.

Isso. Uma digestão facilitada muda muita coisa.

Pois muda, é verdade. Nunca tinha pensado nisso.

Por isso é que as pessoas que dizem-

As pessoas estão enfartadas e ficam lá-

Imagina como é que ficas.

"Não apetece fazer nada".

Uma sensação horrível.

Pois é.

Mas se tentares, mesmo nessas alturas em que tu estás a sentir menos bem, talvez ir fazer nem que seja uma caminhada, não estou nem a falar de um treino nada puxado, a pessoa automaticamente já se sente melhor. Então, por isso é que os hábitos aqui nestas pessoas fazem diferença, muita diferença. Em relação às pessoas que são mais agitadas, etc., menos estimulantes, obviamente. As pessoas que são mais calmas, ok, podes tomar algum estimulante, alguma especiaria, etc., para apimentar, entre aspas, a tua vida, digamos assim. Mas essencialmente aquilo que vai fazer mudar mais é uma alimentação adequada e também um exercício físico, aqui para as pessoas mais frias, que faça o teu sistema começar a mexer. E aqui vamos falar em questões metabólicas. Fala-se muitas vezes que há alimentos que são termogênicos, que vão acelerar ou não o metabolismo.

A canela, o café.

Mas isso é muito reduzido o efeito. O que muda mesmo é aquilo que tu fazes fisicamente. Quando tu treinas, sabes muito bem, quando estás a suar, etc., estás quente.

Aliás, eu vou te dar um exemplo. Eu treino quase todos os dias. Fiz um cruzeiro há pouco tempo. Portanto, tu estás a ver os cruzeiros. Comida all you can eat.

Meu Deus!

Tudo.

Sim.

Eu comi normalmente. É engraçado, porque eu sempre procurei ter uma alimentação mais correta, e então naturalmente não exagero. E chega lá em uma altura que eu pensei: "Não quero comer mais". Mas eu comi normalmente, e comia doces, não tenho por hábito comer doces, mas aí acima do foda, não vou estar a perder um donut americano, vou comer o donut. Mas treinava todos os dias.

Certo.

Eu voltei com menos um quilo.

Pois. Faz todo sentido. As pessoas que estão habituadas a treinar e mantêm minimamente os hábitos durante as férias, normalmente voltam melhores.

Sim.

Porque também o nível de estresse baixa ou não.

E eu não sei se será isto ou não também, mas a energia que está disponível para treinares aumenta, o que te faz, se calhar, como também treines melhor, e permite que queimes mais e então fiques mais.

E por que isto acontece? Essencialmente, normalmente porque produzes menos cortisol, porque estressas menos e também a tendência é dormires melhor.

Sim.

Se tu descansas mais e produzes menos cortisol, tu gastas menos minerais, que era aquilo que nós estamos a falar há bocado. Ou seja, a disponibilidade das vitaminas e dos minerais que tu tens para a produção de energia, que é uma das coisas que são necessárias todos os dias, é muito maior. Logo, a forma como tu te sentes é muito melhor. Por isso é que isto é tudo tão fácil e tão simples. Não quer dizer que na prática dê para executar.

Mais do que fácil e simples, é lógico.

Isso, faz sentido.

Agora, há aqui outra questão, fazendo o papel do advogado do diabo, que é aquela malta que depois: "Vocês, nutricionistas, metem pratos muito bonitos" e o que toda a gente diz é: "Eu tenho lá tempo para fazer isto".

Mas olha, isso é muito-- vou te dizer, eu já tive. Eu comecei por, primeiro dei muitos workshops de culinária e depois eu abri restaurantes. Portanto, eu sei que-

Sim, tinhas um em Cascais.

Tinha no Estoril, que eu adorava. Depois estive no Mercado da Ribeira e no Chiado, mas aí já estava muito fora do meu controle, que já tinha tido a minha primeira filha. Enfim, mas o do Estoril eu adorava. Eu sou um bocadinho teimosa com as minhas ideias. Eu gosto muito que as pessoas percebam que aquilo que eu estou a dizer dá efetivamente para pôr em prática. Ela não está ali a viajar na maionese só porque parece que é bonito e depois não dá E eu explicava que dá, é possível, tanto a nível da restauração, que na altura fomos dos primeiros a abrir na vertente saudável, quanto em relação ao teu dia a dia. Então tem muito a ver com a organização da cozinha. Percebes? É muito mais sobre quando tu vais às compras e como é que tu fazes a preparação, como é que tu tens as coisas preparadas no início da semana para depois ser muito fácil de confeccionar as refeições. Às vezes tenho amigas minhas que vão lá almoçar comigo depois do treino e elas dizem: "Como é que tu fizeste isto em cinco minutos?" E eu: "Olha, tu viste, foram cinco minutos que nós só misturamos as coisas". Por quê? Porque já está tudo preparado. Ou seja, em relação, por exemplo, às fontes proteicas, seja carne, seja peixe, já está tudo temperado, já está tudo marinado. Por exemplo, os peitos de frango às vezes já estão até assados e cortados assim em fatias no frigorífico.

Fazes marmitas?

Sim, muito fácil, percebes?

Pois é, eu acho que às vezes é mais uma limitação mental do que outra coisa, no sentido em que eu também penso assim: "E agora fazer marmitas?" Mas também a verdade é que eu nunca tentei.

Mas olha-

Nem experimentei, se calhar vou fazer e digo: "Olha, afinal isto é prático".

E sabes, isso que tu acabaste de dizer, acontece-nos em relação a outras coisas. "Não me apetece nada agora ir a este jantar". Há coisas que às vezes não nos apetece fazer. E depois quando vamos e fazemos, dizemos: "Afinal, isto..." E eu acho que esse desbloqueio acontece, especialmente se for em relação a hábitos do dia a dia.

Sabes o que é que me acontece em relação ao treinar?

Pronto, tens um excelente exemplo.

Que eu acho que acontece com muita gente, que é tipo: "Como é que estás motivado para ir treinar?" E eu: "Eu não estou".

Não estou.

Eu não estou motivado.

É isso mesmo.

Não estou motivado, mas eu sei que quando vou e quando saio, não há uma única vez que eu não tenha dito: "Ainda bem que eu vim".

Não há uma única vez. E vou te dizer, eu estou grávida neste momento.

Parabéns.

Obrigada. O cansaço que nós temos, pelo menos até estes três primeiros meses, eu fiz três meses agora, portanto, agora estou muito melhor, é um cansaço extremo. E digo-te, mesmo assim eu digo: "Não, deixar de treinar? Se eu deixo de treinar, isto vai tudo por água abaixo". Portanto, deixar de treinar não pode ser. E depois fazes a mesma coisa em relação à preparação daquilo que tu comes. No outro dia eu estava a dizer ao meu namorado, quando nós saímos do ginásio, estava lhe a dizer: "Olha, eu seria incapaz, neste momento, de agora não fazer uma refeição que fosse boa". Nos outros dias, às vezes até faço. Agora, assim que saio do ginásio, de repente ir comer um monte de porcarias, não consigo fazer.

Mas por quê? Por sentimento de culpa?

Não tenho vontade. Sabes quando parece que tu começas a fazer uma coisa certa e só queres cada vez fazer mais essa coisa certa? Eu não estou a dizer que isto é sempre assim, mas a vontade de tu fazeres uma coisa bem feita, já que fizeste outra, é maior.

Sim.

Por isso é que as coisas andam de mãos dadas. A pessoa que treina, tendencialmente vai comer melhor. A pessoa que come melhor, tem uma vontade e uma disponibilidade maior para treinar. E a mesma coisa em relação ao sono, etc. Claro que há coisas que dependendo de pessoa para pessoa, são mais difíceis. Para ti pode ser mais difícil, porque aquele teu momento de ficar a ver as séries é um momento que tu não prescindes e está tudo bem.

Eu acho que essa questão lida muito também com o próprio sentimento de culpa que tu desenvolves em relação a uma data de coisas. Por exemplo, quando te perguntei se havia comida que desenvolvia certas emoções, eu sinto muitas vezes sentimento de culpa.

Ah, sim.

E não estou a comer nada de mais. Eu não tenho por hábito comer açúcar, mas às vezes apetece. E como, e ficava muito com aquela coisa: "E agora fui comer isto para quê?" Em vez de aceitar simplesmente o prazer de comer aquilo.

Porque tens consciência, não é? Nós sabemos que quando se sabe menos, tem-se menos sentimento de culpa, obviamente. Porém, isso é muito comum.

Tu não comes porcaria?

Eu antes de ir para aqui comi um Santini.

São bons gelados.

São ótimos gelados, mas não deixa de ser açúcar.

Sim.

Não deixa de ser açúcar. E é com alguma frequência. As pessoas dizem: "Ah, mas é de vez em quando". É mais ou menos de vez em quando. Normalmente nas refeições principais eu não costumo cometer assim muitos excessos, mas às vezes nas sobremesas isso acontece, mais com gelados e chocolate preto. Mas de qualquer das formas, esse sentimento de culpa vem se tu não fores, como é que eu explico isto? Carinhoso contigo, se tu não souberes dar colo. Porque aquilo ali é ótimo naquele momento para ti.

Tu perceberes de onde é que vêm as coisas.

Isso, e por que estás a fazer? Uma vez dei um exemplo, e as mulheres que acontece muito nas fases do ciclo menstrual, pode haver aqui alguma oscilação. E eu lembro-me que uma vez saí de casa no meio das consultas para ir buscar um bolo de banana, porque eu tenho a Gleba à porta de casa, e eles têm um bolo de banana incrível com chocolate. Eu disse: "Não, esquece, hoje vou lá". Mas eu fui na maior e voltei e comi e só me apercebi no dia seguinte que ia menstruar, nem tinha ocorrido na altura sequer. Só que quando tu estás tão habituada a treinar isto dentro de ti, em relação às vontades que tu tens e ao que tu te permites, isto começa a fluir mais naturalmente. E eu acho que isso acontece, acho e vejo isso na prática também em relação a várias outras coisas que não só em relação à alimentação.

Tipo?

Às vezes nós culpamo-nos se não rendemos tanto no treino, às vezes nós culpamo-nos se não ligamos àquele amigo ou não fizemos aquela coisa que nós: "Bolas, devia ter feito". Há coisas que nós às vezes pensamos tipo: "Olha, queria que as coisas fossem de uma forma um bocadinho diferente". Mas às vezes se nós também colocarmos isso em contexto e percebermos que por que não fizeste? Não fizeste por isto, isto e aquilo. Há uma justificação para as coisas não terem acontecido, o que não quer dizer que tu sejas essa pessoa desleixada. E isto vai bater no quê? Na forma como tu foste educado quando tu eras pequenino. Quem é que representava autoridade para ti quando tu eras pequenino?

Sim.

E como é que tu respondias essa mesma autoridade? E essa voz que tu ouvias em retorno, o que essa voz te dizia para tu te sentires culpado quando tu fazes alguma coisa que não é suposto? Porque essa é a voz que fica aqui dentro. Então nós que podemos ter ou não sofrido mais com questões de autoridade quando éramos mais pequeninos, vamos sentir mais culpa quando fazemos alguma coisa que é um bocadinho fora da caixa, ou que não deveria estar a acontecer.

Sim, faz sentido. Essa figura na minha família era muito a minha avó, provavelmente, e o meu pai. O meu pai era muito a cena de: "Olha, se não fizeres isto, acontece isto".

Consequência, automaticamente.

"Toma atenção a isto, toma atenção não sei o quê. Trabalha para isto, faz não sei o quê". E coitado, talvez ele também fazia o melhor que sabia, como é óbvio.

Obviamente.

Provavelmente os meus avós também lhe disseram o mesmo.

E isso vai ter coisas positivas também. Ou seja, eu acho que as pessoas que sentem culpa também são pessoas que têm um nível de exigência com elas um bocadinho mais elevado e isso leva-te a bons lugares.

Sim, mas eu acho que é isso que estás a dizer, tem que ser trabalhada essa compaixão para conosco.

O dar o colo.

E essa compaixão na alimentação também é importante.

É igual.

É só não torná-la um hábito ou perceber quando é que a coisa está a descambar. Por exemplo, Natal. Esquece, eu adoro castanhas de ovos. Adoro lampreia. É ovos e açúcar.

Ovos e açúcar, sim.

E eu já estava, não era a panicar, mas já estava fogo: "Só vou poder comer um bocadinho e não sei o quê". E eu disse: "Não, por que estás a comer? Tenta perceber quando é que já estás a ser garganeiro e enquanto é que estás a comer porque te está a dar prazer". E comia mais do que era costume, mas acho que facilmente percebia. "Não, agora já estou a exagerar".

E tu sabes, como estás a dizer, e muito bem. Tu sabes quando é que-

E tentar não me culpar, porque eu acho que a própria culpa pode levar a que ainda aumentes mais o comportamento.

Sem dúvida.

Tipo, perdido por 100, perdido por 1000.

E aí vai, e não é só nesse dia. E por isso é que as pessoas depois recorrem aos ditos detox, porque acham que precisam disso, porque entraram nesses comportamentos completamente compulsivos. Mas isso tem uma razão de ser também. Normalmente, tu tens mais essas vontades quando há outras que não estão preenchidas. Portanto, eu sou muito a favor de tu distribuíres os teus gostos, digamos assim. Ou seja, em termos de exercício físico, saberes bem o que é que gostas, quando não podes fazer uma coisa, poderes fazer outra. Em relação aos programas, tu gostas da mesma coisa. "Adoro fazer isto, mas quando não dá para fazer isto, gosto de fazer isto também". Um bocadinho à laia daquela coisa de quando tu tens dinheiro, tentar distribuí-lo em vários lugares diferentes, que é para se alguma coisa tombar, a outra não tombar.

Senão vais vir ao outro lado.

É igual. Aqui na gestão das emoções e daquilo que tu comes, é exatamente a mesma coisa. É nunca deixar de fazer as coisas que tu gostas. Portanto, isso é uma das coisas que eu falo em consulta todas as vezes. Primeira pergunta que eu faço às pessoas é com o que elas trabalham e se elas gostam daquilo com que trabalham, se isso traz ou não muito estresse, porque é aquilo que elas fazem todos os dias. Portanto, se eu não perceber qual é a relação que elas têm com isso, eu não vou perceber mais nada dali para frente. E quando tu começas a perceber que muitas pessoas não fazem aquilo que gostam, não só em termos profissionais, mas fora. Ok, neste momento vou ter que fazer isto profissionalmente, mas por fora consigo fazer isto. Adoro quando estou com os meus amigos, gosto quando vou saber-

Eu às vezes recebo muitas mensagens e às vezes partilho muito essa ideia de pessoas que não gostam do trabalho que fazem e estão a fazer porque têm, obviamente, contas para pagar. E eu digo: "Mas fora do trabalho, tens que arranjar espaço para fazeres aquilo que gostas".

Isso.

Seja ler, escrever, andar de desporto, seja o que for, qualquer coisa que te ajude também a ir com outra motivação para o resto do dia.

Isso. E quando tu fazes isso, a probabilidade de teres vontades para exagerar nas tuas coisas da alimentação diminui muito. Às vezes até te esqueces. Eu costumo dizer que as pessoas que estão apaixonadas muitas vezes esquecem-se de comer. É verdade. Às vezes até num nível que não é muito bom, mas isto acontece muito. E o contrário também, quando estão muito tristes, podem até não conseguir. Depois tens várias nuances, dependendo da história que a pessoa viveu. Mas é muito natural, o teu apetite oscila consoante aquilo que tu estás a sentir.

E que mensagens sutis é que o corpo dá para tu perceberes que há alguma coisa errada, sobretudo na tua alimentação? Eu sei que é muito vago o que eu estou a dizer.

Não, mas há coisas que são muito características. A barriga inchada é característico, só que as pessoas acham que é normal acordarem de manhã com uma barriga lisa e chegar ao final do dia com uma barriga inchada. "É normal, eu comi". Não é normal. Isso é uma das coisas que te indica. Outra coisa que te indica é tu ficares cansado sempre a seguir a comeres, que é diferente de: "Fiz um treino, comi, estou um bocadinho cansado, vou descansar". É diferente de teres um crash daqueles em que não consegues nem sequer concentrar-te e ficar a abrir os olhos. Isso é outra das coisas que acontece. Outra coisa que acontece, que é mais sutil, mas até é bom nós falarmos sobre isso, que é o coração começar a bater um pouco mais rápido quando as pessoas têm dificuldade na digestão. Parece que o coração fica um pouco mais acelerado.

Ou seja, é o sinal de que está a gastar mais sangue para fazer a digestão.

A digestão. Seja porque, por exemplo, tem resistência à insulina, que é das coisas mais comuns, e isto não tem necessariamente só a ver com os açúcares. Ou seja, é preciso insulina para a própria digestão, mesmo que não envolva doces, digamos assim. E então o que vai acontecer é que se tu fazes uma refeição grande e o teu coração começa a disparar, tu já sabes que houve ali coisas ou possivelmente algum alimento ao qual tu não reages muito bem. Produtos lácteos podem fazer isso facilmente com pessoas que não têm essa tolerância.

A Catarina tinha asma e tem, continua a ter asma, mas deixou de ter crises de asma quando deixou de beber leite.

Isso é um clássico. Crises de asma, sinusites.

Come queijo e manteiga, mas o leite-

É diferente. É uma toxicidade que é produzida no trato digestivo. Leite e iogurtes, provavelmente.

Iogurtes ela come, mas não come muitos. Às vezes sem lactose, mas muitas vezes não é a lactose.

É a caseína, tens os dois componentes inflamatórios.

Mas ela não come muitos iogurtes também. Mas foi uma mudança mesmo visível.

E isso vai acontecer tanto em relação às vias respiratórias quanto em relação à pele. São dois dos sistemas que nós notamos mais diferença quando tu retiras os produtos lácteos. O que não quer dizer, e como tu disseste muito bem, que seja preciso tirar todos os produtos lácteos. Até porque a quantidade que tu consomes, imagina se vais consumir um queijo parmesão, vais ralar um bocadinho em cima do prato que estás a comer. Não é a mesma coisa do que beberes um copo de leite.

Sim

E também o que lá está não é igual, porque os processos que envolvem-

E também pode ser diferente pra todas as pessoas, ou não?

Claro, sem dúvida. Mas eu digo de uma maneira geral, aquilo a que a maior parte das pessoas reagem ou não. E a mesma coisa acontece de forma um bocadinho diferente, por exemplo, em relação ao glúten. As pessoas que reagem mais, porque todos nós reagimos, há pessoas que sentem mais, outras pessoas que sentem menos, as pessoas que reagem mais, quando consomem determinadas coisas, ficam com a barriga deste tamanho.

Mas também há a moda do intolerante ao glúten.

É uma moda e até por um lado é mau, porque se vendem muitas outras farinhas e outros produtos embalados que são muito piores do que se calhar um pão.

E porque o glúten é essencial a quem não é alérgico.

Mais ou menos, porque, na verdade, só as aves é que conseguem digerir mesmo o glúten. Nós desencadeamos sempre uma reação inflamatória.

Uma ave rara.

Uma ave rara, tu consegues.

Eu consigo digerir o glúten.

Não tem que ter o rótulo sem glúten. Vamos falar em produtos mais artesanais e em produtos que passem por uma fermentação.

Fermentação lenta.

É o suficiente, porque é degradado.

Nos pães mais de farinha branca, as massas menos integrais.

Pães de supermercado, porque às vezes até aqueles pães embalados e coisas que tu achas que até vendem nas ervanárias, etc, são uma porcaria. Muitos deles não são bons. Se tu fores falar de um pão que esteve fermentado pelo menos durante 24 horas, 48 idealmente, mesmo se for de trigo.

Farinhas menos processadas.

Menos processadas, melhor ainda, mas mesmo se for uma farinha de trigo, se estiver a fermentar durante muito tempo, tu não vais sentir absolutamente nada a nível da digestão. Vou te dizer, uma vez fui jantar à casa de uns amigos meus, ela é brasileira, ele é italiano, têm uma descendência qualquer e eles iam fazer pizzas. E eles deixaram a massa a fermentar 36 horas. Ninguém teve absolutamente reação nenhuma de uma farinha normalíssima que compraram no supermercado.

Só que lá está, tu estás com o peso da sociedade rápida e de consumo rápido. E siga. Agora, como é que tu imaginas, como é que uma pessoa que está a ouvir esta conversa e que está habituada todos os dias a comprar um pão de forma e uma Coca-Cola e leite. Como é que estimular uma pessoa destas a praticar mudanças? Primeiro, tens a questão do preço.

E tem que ser bom. Tens o preço, tem que ser bom, tem que saber bem.

E tem que saber bem essas coisas todas. O preço logo é aqui um fator que ainda é muito impactante nos orçamentos. E depois, como é que tu mudas uma pessoa? Primeiro, ela tem que estar motivada. Deve ser o primeiro.

Por isso é que as pessoas normalmente querem fazer as alterações quando já está a dar alguma coisa para o torto. Normalmente é aí que elas te procuram, idealmente deveria ser antes, mas também existe hoje em dia muito esta cultura de fazer mais exercício físico e estar a querer cuidar mais da imagem. É discutível se isso é por um bom motivo no final, mas desde que as alterações sejam feitas, já é bom por si. Na minha opinião, se a pessoa começar a fazer alterações nesse sentido, já é bom. Agora, em relação a isso que dizes do preço. Sim, é verdade que algumas coisas são mais caras e se calhar vais ter que perder mais tempo. Por exemplo, as pessoas que me dizem que não têm capacidade financeira, se calhar pra comprar estes pães artesanais, porque são muito mais caros do que os outros, arranjam um bocadinho de tempo pra fazer o próprio delas, com as farinhas delas, que parece um bicho de sete cabeça, até tu fazeres a primeira vez.

É supersimples fazer pão.

E faz um pão em casa.

E não precisas daquelas máquinas de pão.

Nada. Fazes em casa, cortas fatias, pões no congelador e depois é só fazer torradas. Outro mito que existe muito em relação, por exemplo, à farinha de tapioca, que é só uma farinha. Aquilo é amido de mandioca. "Ah, tem um índice glicêmico muito alto". Não é muito diferente das bolachas de arroz. E hoje em dia as pessoas comem bolachas de arroz umas atrás das outras, receitado por nutricionistas, desde que o quê? Seja acompanhado de uma boa fonte de proteína.

Exato.

Portanto, se tu começares a ter consciência, efetivamente, do que é cada alimento isoladamente e o que tu precisas de misturar para que, de facto, se dê uma boa absorção e tu tenhas lá os nutrientes todos, começa a ficar um pouco mais simples. Em relação, por exemplo, a uma alimentação, digo-te porque eu fiz um estágio na Santa Casa de Misericórdia lá no Brasil, e fiz justamente por isso, pra perceber como é que nós conseguimos, pra pessoas que não tinham dinheiro absolutamente nenhum.

E que lá, infelizmente, são muitas.

Muitas. Fazer uma alimentação mais equilibrada. E foi muito bonito, porque tu consegues, efetivamente, a nível dos vegetais e dos legumes, consegues ali um universo relativamente disponível. Nas leguminosas também, não quer dizer que seja a melhor fonte proteica, mas se utilizares os processos de demolha e a confeção com a kombu, etc, pode ser também uma boa forma. Então as pessoas que às vezes não têm a possibilidade de estar a consumir carnes ou peixe, que efetivamente é o mais caro, quando nós estamos a falar de coisas de qualidade, consegues fazer algumas substituições. E mais, são coisas que duram bastante tempo quando tu as fazes. Agora vou te dizer uma coisa, passa sempre uma questão da organização da cozinha. É impossível, na minha opinião, tu conseguires uma alimentação equilibrada que não seja cara, se não a preparares na tua cozinha. Isso eu acho que não é possível.

Sim, porque eu caio muito no erro diário de "o que é que vamos jantar?" E depois dá uma vontade, e acabo sempre por estar a fazer as mesmas coisas.

Pois é.

Isso é um erro, sim.

Olha, por isso é que eu criei o curso das 30 receitas, por causa disso.

É online? Está na tua página?

Está na Hotmart, no meu Instagram consegues encontrar. Está na Hotmart e tens cinco receitas de carne, cinco receitas de peixe, cinco vegetarianas, cinco vegan e tens cinco de sobremesa, se não me engano. Então tens ali já margem. E o que isso significa? Em cada uma das receitas eu também explico que trocando dois ou três ingredientes, faz ainda outra receita. Ou seja, além daquelas serem diversificadas, tu ainda podes fazer mais receitas diferentes além daquilo que ali está. E eu acho que isso nos ajuda bastante, porque se tu tiveres as coisas preparadas, depois tu podes misturar de formas diferentes. Vou te dar o exemplo do frango. Se tu já tiveres um frango assado, tu podes utilizar esse frango tanto pra fazer um caril, faz ali um molho de caril, como podes utilizar numa salada, como podes só passar na chapa e até uma fonte de proteína diferente pra pôr numa torrada, em vez de ser sempre ovos.

Sim, uma sandes.

Isso é uma coisa que em vez de comermos-

Uma club sandes.

Uma club sandes. Fica muito fácil. E aqui a única coisa que tu tinhas que ter era um peito de frango. Passas um bocadinho de sumo de limão ou lima, um bocadinho de pimentão doce, pões no forno, sal Está pronto. Com isso, tu consegues fazer várias receitas diferentes para várias horas do dia diferentes.

É muito essa questão de se a pessoa já está numa roda dentada como os ratitos e está só naquela roda viva às voltas, fica difícil sair disso.

Mas olha, é uma coisa de cada vez. Sabes que eu sinto isso quando eu estava a estudar, eu lembro-me que as pessoas olhavam para mim de lado porque eu estava nas aulas e tinha que ficar muito concentrada. E sempre adorei chocolates e na altura ainda comia Snickers e porcarias dessas. E eu lembro-me das pessoas olharem para mim e dizer: "Essa está maluca, está aqui a estudar e a comer estas porcarias". E eu, na verdade, sim, eu ainda estou a comer isto, vai haver um dia em que eu já não estou a comer isto, mas fazia parte do processo. Eu acho que é isso que é importante nós percebermos.

É começar por algum lado.

Algum lado. A partir de agora, aumentei o consumo de água. Se calhar, daqui a uma semana ou duas, vou começar a reduzir os fritos. Mesmo do nível onde a pessoa está. E daí tu ires desconstruindo e aceitando que estás a fazer uma coisa de cada vez, só que qual é que é a questão? Na nossa mentalidade, muitas vezes é também para estar a fazer isto, ou faço tudo direito ou então não faço nada.

E querem fazer logo tudo.

Isso.

Pois é.

E essa é a questão, pois aí é que tu ficas empancado.

É isso, eu vou fazer isso. Vou lá assinar o teu curso e vou ouvir isso. Tenho que experimentar. Estou a falar sério, tenho que experimentar, tenho que perceber, porque eu cozinho bastante, e a Catarina, nós dividimos muito, mas é muito sempre em cima da hora.

E o que vocês gostam de cozinhar?

Olha, o que eu gosto de cozinhar? Deixa-me pensar. Nós não comemos carne.

Ok.

Comemos peixe. Faço geralmente lombos de salmão, por exemplo, gosto de fazer uns lombos de salmão na frigideira temperados com soja, limão e cúrcuma. Depois acompanho geralmente, como são as miúdas, tem que ser esparguete. Faço arroz também, desde que temos a máquina de fazer arroz, fazemos muito arroz.

Boa.

Faço feijoada vegetariana.

Boa.

Faço bolonhesa de lentilhas, por exemplo. O Pingo Doce tem umas almôndegas muito fixes de ervilha, que não têm muita porcaria. De vez em quando também fazemos almôndegas, quando faço um molho de tomate.

Boa.

Vamos variando, mas é muito concentrado em massas, sim.

Ok. Uma coisa que eu acho que te pode ajudar são os peixes, fazeres os peixes no forno, que é fácil.

Às vezes também fazemos peixe no forno. Sim. Há boas peixarias ali junto ao mar. E então, sim, também costumamos fazer. Compro um peixe grande, sendo que seja de mar. Um peixe grande e fazemos no forno com batatas.

Boa.

Consegui fazer as miúdas comerem tofu.

Como é que isso foi? Como é que isso correu?

Porque o tofu tem aquele problema de ser sem saborão, se tu não o souberes temperar.

Sim.

Eu vi uma miúda que eu seguia no TikTok. Eu sigo montes de contas no TikTok de receitas.

Dá imenso jeito.

Dá, porque são superpráticas. Então é: tu pegas no bloco de tofu e passas no ralador do queijo, na parte mais grossa e aquilo fica tudo ralado.

Certo.

Podes usar um tempero mais oriental, como quiseres. Eu geralmente meto soja, meto um bocadinho de azeite, sal, cominhos, um tempero mexicano que lá tem, de ervas, assim. Deixas aquilo a marinar imenso tempo.

Absorveu aquilo tudo.

Absorver essa merda toda. Metes num tabuleiro com o papel vegetal, espalhas aquilo pelo tabuleiro que é para ficar crocante.

Certo.

Aquilo demora um bocado.

Sim.

Depois, faço à parte um molho de tomate, mesmo com tomate e tem sempre uma polpa boa. Faço o molho de tomate, meto malagueta, etc.

Boa.

Depois aquilo vai tudo lá para dentro. E tu podes fazer isto com tacos, por exemplo, para fazer tacos, ou podes fazer um arroz para pôr por cima. Fica muito bom.

Eu acho que tu gostando de cozinhar da maneira que tu cozinhas, isto não é nada difícil.

É só uma cena de organização.

Eu acho que é mesmo isso. Acho que é mesmo uma questão de organização.

Acho que tem a ver um bocadinho com isso. Qual é o teu guilty pleasure?

Eu adoro pizzas. Adoro uma boa pizza.

Tu tens a Soldout lá para os teus lados.

Incrível.

Que foi uma pena que eles saíram dos meus.

Pois foi, já sei.

A Soldout, lá está, são massas de fermentação lenta, são pizzas vegan, que são incríveis.

São incríveis.

São incríveis. Eles abriram agora outro espaço, acho eu.

E eu sei que tem lá embaixo em Cascais, mas normalmente eu peço sempre para casa. Pois, têm em Colares, ali na Aldeia da Praia, não é? Acho que é.

É um sítio, eles parecem malta de uma seita. Eles pertenciam a uma cena kundalini, não era? De uma cena de ioga kundalini. Eu acho que sim. Eles andam lá com os turbantes, ainda, não andam?

Não sei. Eu peço para casa, normalmente.

São pizzas de massa de fermentação lenta, são muito boas.

São incríveis.

Mas isso não estás a comer nada de mal.

Sim e não, porque a nível proteico não é a coisa mais interessante. Mas sinceramente, essas, adoro as da Avó Maria também, não sei se conheces, mas a Avó Maria é uma pizzaria pequenininha que existe na Parede, que tem também pizzas nestes contornos. Adoro os gelados artesanais, como estava a dizer há bocadinho.

És gulosa. Eu sou bué.

Sim, mas com este tipo de coisas. Se me puseres um bolo cheio de coisas, eu não acho assim muita piada. Agora, tudo que seja de chocolate escuro, tudo que seja gelados. Então se me arranjares um gelado de nata com uma cobertura de chocolate quente em cima, então aí está tudo estragado.

Um sundae de caramelo.

Não, às vezes faço em casa. Arranjo um bom gelado de nata ou baunilha e derreto o meu chocolate. Para mais agora comprei um que era de 100%.

Isso é cacau.

É, mas aí junto-lhe açúcar de coco e dissolvo com um bocadinho de bebida de amêndoa.

Já que falas de açúcar, há aqui uma história que eu, lá está, como te disse, tenho as minhas questões relacionadas com a obstrução possível com o SIBO e tenho muitos medos, os cuidados com a alimentação, mas exagero sempre. E eu abominei o açúcar, os açúcares processados, mas isso também de alguma maneira me tirou, lá está O prazer de algumas coisas que eu gostava de comer. Uma bola de Berlim de vez em quando.

Incrível, no verão, principalmente depois de um mergulho no mar. Nada faz isso.

Porque tu estás a associar outras emoções, estás a associar memórias.

Isso, é uma sensação.

Não é o prazer da bola de Berlim, é de toda a história que envolve. O mínimo é a bola de Berlim.

E muitas vezes isso acontece na alimentação com outras coisas. Então é para comer a bola de Berlim, sim. Não é para comer a toda hora, obviamente.

Mas tu lembras-te de um prato, um bitoque?

Incrível.

Lembras-te do bitoque da tua mãe ou do sítio que comias com os teus pais?

Perfeitamente, quando eras pequenino, que depois molhavas o pão no molho, etc. Essas coisas são para continuar a fazer. Porque isso vai te levar a sentir coisas que tu não vais sentir com outros alimentos. Uma coisa que me irrita imenso é quando as pessoas querem trocar, por exemplo, uma mousse de chocolate convencional por uma mousse de chocolate feita com abacate. São duas sobremesas diferentes.

É uma merda.

É horrível. Eu, por acaso, não gosto mesmo.

Eu tentei fazer.

Não. Mas dá para fazer perfeitamente só com ovos, um bom chocolate e açúcar de coco, não precisas de fazer mais nada.

Sim.

Levas os ovos, mas aí não precisas de fazer mais nada. E, na verdade, até tem mais proteína. Quando há essas transições, de achar que está a comer uma coisa que depois é outra, para mim não há pior. Chamar esse doce de outro nome, porque isso não é uma mousse de chocolate. Então eu acho que isso é importante. Eu acho que há coisas que é exatamente para comeres como elas são. O que der para trocar, trocas. Por exemplo, uma das coisas que eu mais gosto de fazer é filetes com arroz de tomate. Eu faço uns filetes com arroz de tomate no forno. E o arroz de tomate, eu refogo sem gordura e depois ponho a gordura no fim. Então, na verdade, fica incrível, realmente muito parecido. Eu acho que até melhor do que aqueles que nós comemos em alguns restaurantes ou comíamos quando éramos pequeninos. E esses dá. Portanto, há coisas que efetivamente tu consegues trocar e elas serem boas. Há outras que não dá. Por exemplo, como é que vais fazer uma bola de Berlim ser uma bola de Berlim, se não for efetivamente aquelas tradicionais que nós já comemos?

Tenho um amigo meu que faz, mas são vegan.

Sim.

Que é o Dan's Donuts.

Não conheço.

O Nuno. E ele faz donuts, sobretudo, mas também faz bolas de Berlim que são muito boas.

Ok. E ele troca por...? Não sabes.

O açúcar é açúcar normal que usa.

Ok.

Mas não sei o que é que ele troca. A massa é muito boa. Mas ele esteve muitos anos a trabalhar naquilo, nesse produto.

A textura é o mais difícil de se reproduzir.

Ele tem donuts incríveis. Tem donuts incríveis e tem também bolas de Berlim incríveis.

Adoro que nós estamos a falar aqui só sobre porcaria, mas isto acontece muitas vezes. Faz parte.

Faz parte. Ao mesmo tempo, acontece aqui outra coisa curiosa que é: eu não quero dar às minhas filhas a imagem de fundamentalista, porque eu posso estar a limitá-las de certos prazeres. Não é prazeres do tipo: "Ela tem que provar isto", mas estar-lhes a dar uma imagem também de hipervigilância em relação a tudo.

Imagina o resultado disso no futuro.

Sim, acho que não é muito bom. Portanto, eu próprio, muitas vezes, forçava-me a comer, quando estava ao pé das minhas filhas, forçava-me a comer um bolo de chocolate normalíssimo. A minha cabeça: "Isso tem açúcar". E eu: "Ok, mas vou comer, porque as minhas duas precisam me ver a comer isto".

Sim, concordo 100% contigo.

E há aqui outra história, que é: eu estive a ler, não sei se isto é verdade ou não. Eu procuro sempre fontes-

Seguras.

Sim, procuro estudos, etc. A grande diferença entre o açúcar processado, o açúcar branco, e o açúcar, por exemplo, da flor de coco, ou um açúcar amarelo, mascavo, é sobretudo os valores nutricionais do produto em si, porque o corpo não distingue qual o açúcar que nós estamos a consumir, porque tudo é energia. Portanto, quando as pessoas dizem que o açúcar branco provoca cancro, não é neste registo.

Não é taxativo. Há uma coisa que é diferente, que são as quantidades.

Pode sobretudo desenvolver outras condições que essas sim, são propensas a desenvolver cancro.

Na verdade, uma fruta é muito doce. Uma manga vai ter um índice glicêmico altíssimo. Não quer dizer que não possa também ter a fibra, etc. Mas se tu consumires um açúcar branco, digamos assim, com alguma, como por exemplo, a tapioca, estava-te a dizer há bocadinho, no corpo comporta-se de uma forma muito parecida. Se tu consumires com uma fonte proteica ou com fibra, não vai fazer muita diferença.

Sim.

Porque tu naquela refeição já vai misturado daquela forma, portanto, o pico não vai aparecer.

Na realidade, tudo tem açúcar, a coisa mais salgada do mundo.

Agora, há uma questão aqui, desculpa interromper-te, que eu acho que é importante, que é: a quantidade de açúcar de coco, por exemplo, que tu precisas de utilizar versus a quantidade de açúcar.

Menos.

É muito menos, porque tu sentes mais o doce.

Sim.

Então, é nessas questões que eu acho que faz-

Usas o leite de arroz?

Não costumo, mas já consumi em outros produtos há muitos anos, mas hoje em dia, por acaso, não utilizo. Mas é exatamente isso que acontece, ou seja, dependendo da quantidade que tu lá colocares. Se a pessoa for fazer uma granola, é uma coisa muito comum hoje em dia das pessoas fazerem em casa. Uma granola adoçada com um mel que tu tens caseiro em casa ou uma granola adoçada com um que seja mais processado, depende das quantidades que tu vais utilizar. O mel é muito doce, tu não precisas pôr muita quantidade.

Sim.

Eu acredito muito em ingredientes inteiros, mais pela proveniência, os processos de confeção e até mesmo em termos de sustentabilidade, mais nessa ótica do que propriamente a diferença que vai fazer. Por exemplo, consumires uma bola de Berlim, que vais consumir, sei lá, duas, três vezes por verão, ou dependendo dos casos, com açúcar de coco.

No mesmo dia, duas, três vezes no mesmo dia.

Ou açúcar normal, não vais estar a fazer essas contas.

Foi com uma batata que foi demonizada em favor da batata-doce.

Isso é dos maiores mitos. Existe uma diferença a nível da quantidade de minerais e vitaminas, mas não quer dizer que a outra seja-

Vou-te dizer. Tenho duas sopas preferidas, uma dela é de abóbora e gengibre, e a outra é com batata normal, espinafres e bebida de coco. Essa sopa fica incrível.

Tens lá isso nas receitas? Por acaso não tenho a certeza. Se está, está com bebida de leite de coco. Bebida de coco. Na verdade, é a mesma coisa.

Não, o leite de coco é mais espesso.

Vai ser mais espesso, mas a bebida de coco funciona bem na mesma. Eu uso as duas, eu uso a de coco e uso a de amêndoa. São as duas que têm um pouquinho mais de textura. As minhas sopas são todas feitas com essas bebidas, não são feitas com água. E, na verdade, a minha filha é que é a cobaia, que eu vou testando tudo com ela, se passar nela, então quer dizer que passou. E essa sopa, para mim, é das melhores. Um pouquinho de lima também, porque dá o corte. E fica incrível, só que a quantidade de batata que tu pões é uma batata deste tamanho para uma catrefada de espinafres. A minha mãe no outro dia dizia-me assim: "Mas estás grávida e agora estás sempre a comer essas sopas?". "Eu estou". "Mas não tem batata". "Pois não", e eu: "Mãe, por acaso até tem". Sem consciência nenhuma, porque toda a gente diz: "Eu como sopa, mas é sem batata".

Que é para não engordares muito.

Como se uma batata deste tamanho ou até deste vá fazer diferença numa sopa que vai servir quantas taças, não é?

E em toda a tua vida. Em todo o teu dia a dia, em tudo aquilo que tu fazes, porque acaba por estar tudo interligado.

E então as fontes, para mim, são interessantes. Eu acho que faz muito mais sentido consumires uma sopa que tenha uma batata dessas do que estares a consumir uma sopa já confecionada.

Ou com aquela fécula de batata.

Fécula de batata, mais os Knorrs e essas coisas todas da vida, só para dar sabor e durabilidade, etc. Mas a batata não. É como o pão sem glúten.

Mas depois não leem o resto que está lá.

Dos ingredientes.

Sim.

Não faz sentido.

O pão é: quanto mais simples, melhor.

Quanto mais simples, melhor.

Sim. A farinha-

Não só o pão.

Sim.

Tudo. Quanto mais simples, melhor. Quanto menos ingredientes, melhor. Quanto mais fresco, melhor. Mas tudo posto em contexto. Uma coisa que eu utilizei o ano passado como recurso, que às vezes consumia, que eram aqueles iogurtes com whey. Aqueles da Yopro. Eu não consumo produtos lácteos, a não ser às vezes um queijo ralado ou uma coisa assim. E os gelados.

Esses não me fascinam, por acaso.

Só que aquilo era muito prático, para o estilo de vida que eu estava a ter. Só que, na verdade, sabes o que me aconteceu? Isto foi muito curioso, porque eu estive durante seis meses, se não me engano, a rodar médicos atrás de médicos, porque estava com tonturas, eles diziam que era questões de cristais e eu com um estilo de vida altamente saudável, sem perceber o que estava a acontecer. "Os cristais estão fora dos ouvidos". Faziam a manobra: "Está melhor?". E eu: "Não". "Mas não há nada que possa...". "Não, isso é estresse". E eu pensava assim: "Há qualquer coisa aqui que está esquisita, porque o meu sistema fica assim de uma hora para a outra e eu não consigo explicar o que é". Até que consegui perceber, sozinha, ao fim de muito tempo, que tinha a ver com esses iogurtes.

Comias o iogurte e...

Comia o iogurte, pouco tempo depois começava a sentir as tonturas, começava a não ficar tão bem.

Isso seria do quê?

Não tenho a certeza se tem a ver com a proteína do soro do leite. É possível que sim, porque outros produtos lácteos não me faziam nada e também já consumi outros iogurtes e também não me faziam nada. Creio que possa ter a ver com a proteína do soro do leite. Claro que isto é muito raro. Não te estou a contar isto a dizer que é uma coisa supercomum. Não, mas é só para nós conseguirmos colocar em contexto, porque dependendo de pessoa para pessoa, tu podes estar ou não a reagir a determinadas coisas.

Pois é, é curioso.

Isso é importante. Então tudo aquilo que um paciente me traz é para ouvir, mesmo que possa parecer a coisa mais estúpida. "Isto é um bocado esquisito, mas olha, acontece-me isto".

Às vezes não é assim tão esquisito.

Não é. Imagina que eu ia contar isto à maioria dos nutricionistas, que eu ficava com tonturas a seguir a comer whey. Eles iam mandar dar uma volta.

Era. Acho que sim.

Espero que não, mas infelizmente acho que muitos sim, como alguns médicos também. E não é por mal. É por ausência de estudo.

Sim.

Não há estudos científicos suficientes a compararem.

É aquela coisa, cada pessoa é uma pessoa, e se a ti podia te fazer diferença. Por quê? Sei lá.

A meu ver, tem a ver com esta questão da proteína do soro do leite e já estudei um pouquinho sobre isso e existem poucos.

Eu tenho uma coisa que é: às vezes os frutos secos caem bem, outras vezes caem mal.

E não depende das quantidades?

É possível que eu abuse como o caraças.

É isso. Provavelmente é isso, porque é uma quantidade de gordura exacerbada, provavelmente. E nos frutos secos é muito fácil isso acontecer.

Mas manteiga de amêndoa é inflamatória, não é?

Especialmente se tu aumentares as quantidades. E é muito difícil comer pouca quantidade, vamos lá ser sinceros.

É horrível. Mas é o que eu uso às vezes como pré-treino. Uma banana e uma colher de manteiga de amêndoa. Pumba!

Fiz isso durante muitos anos.

Mas agora estou a tentar substituir mais por manteiga de amêndoa.

É isso.

Ou de avelã. Não?

Sim, também, mas a de amêndoa é melhor. A de amêndoa é mais fina.

Mas a de amêndoa é um prato de Nutella.

Não, a minha filha no outro dia dizia-me assim, porque eu faço-lhes panquecas sempre com a manteiga de amêndoa. E ela: "Homem, nunca mais vais comprar a manteiga de amendoim?" Eu disse: "Querida, a manteiga de amêndoa é só de vez em quando, mas quando é que chega o de vez em quando?" Porque até ela nota a diferença da manteiga de amendoim para a manteiga de amêndoa.

Mas por que só as coisas boas nos fazem mal?

É a textura. Se tu paras para pensar, é a cremosidade, é a textura.

Às vezes, lá está a bola de Berlim. É o quê?

É a fofura, é aquele açúcar. Por isso é que eu te digo a seguir. E a bola de Berlim, não sei se isto te acontece, eu só como bolas de Berlim na praia.

Claro.

Se não for na praia, eu não como.

Porque isso aí é as memórias. Isso aí já tem a ver com as memórias e a tradição. Vais à praia, tens que comer uma bola de Berlim.

Exato. É isso.

Isso faz sentido.

Mas isso vale para os bons e menos bons hábitos, para não dizer maus. Porque a mesma coisa acontece quando tu treinas, era aquilo que tu estavas a dizer há bocado. A forma como tu te sentes a seguir a treinar, não tem preço. E se tu te habituas a fazer isso várias vezes, já entra no teu sistema como uma ótima sensação.

E às vezes também, outra coisa que eu procuro é não ter sentimento de culpa quando não treino.

Também.

E tentar perceber por que eu não estou a treinar.

Isso. Viste como tu desconstruíste rapidamente o raciocínio, que era aquilo que nós estávamos a falar há bocado em relação à culpa daquilo que tu comes.

Hoje duvido que treino, mas ontem treinei duas vezes, estou todo amassado.

Pronto.

E pensei: "Se calhar vou só fazer a sauna, se der".

Isso. E também é importante, sabes que o descanso, e sabes de certeza, tu que estudas tanto, sabes que o descanso é das coisas mais importantes. Há pessoas que não conseguem desenvolver a massa muscular porque não descansam o suficiente e treinam Que nem os cavalos.

Não é que eu tenha grandes abdominais, mas perguntam como é que se treina abdominais e eu digo: "É a fazer tudo o resto, menos os abdominais".

Exatamente. Isso é uma excelente resposta. Eu com a minha PT tivesse a conversa.

É treinar o corpo todo, é ter uma boa alimentação.

A maior parte das pessoas tem lá os abdominais, só que não se veem, porque não comem direito. A maior parte das pessoas tem lá uma excelente parede abdominal.

E eu por acaso não tenho, porque tive uma hérnia de linha.

Tiveste?

Sim.

Fizeste cirurgia?

Fiz, e depois correu mal a cirurgia, tive uma infeção, tive um mês com dreno. E então isto ficou cheio de fibrose. Portanto, eu nunca vou ter abdominais definidos, mas a parede está riginha.

Está lá.

Está lá, está definida, mas ainda tem aqui uma camada adiposa que é difícil tirar. Mariana, que mensagem é que tu gostavas de deixar a quem nos está a ver e a ouvir?

Acho que aquilo que nós falámos há bocadinho de fazerem mudanças pequenas, uma de cada vez. Acho que isso é o mais importante de tudo, porque isso é o que te vai dar consistência no final, isso é o que te vai dar os resultados que duram e não coisas que tu sentes: "Pronto, já estou outra vez nesta, a fazer outra vez". Se eu pudesse deixar uma mensagem, aquilo que eu acho que é mais importante.

E verem o todo.

Isso.

E não quererem tudo para ontem. Porque se já tiveram uma vida ou um período da vossa vida a ter determinados hábitos, também é normal que as coisas demorem a mudar.

E tudo aquilo que tu sentes de um bocadinho melhor, de um dia para o outro, já é uma vitória.

Pois é.

E tendencialmente, se fizeres desta forma, não anda para trás.

É isso.

Isso dá-te uma segurança, eu acho, diferente.

Obrigado, Mariana. Vamos comer um Snickers. Por acaso nunca gostei. Não era Snickers, era do Tics. Gostava do Tics.

Era bom, era crocante.

Quanto a vocês, muito obrigado por estarem desse lado. Já sabem, podcast "O Observador", está nas plataformas do Observador, está no meu YouTube, no Spotify, iTunes, todas as plataformas. Sigam, partilhem estas conversas, vão aos comentários no YouTube, digam o que acharam e já sabem, esta é a nova temporada de 2026. Temos várias conversas para trás, podem pesquisar à vontade, há sempre coisas que ficaram por ver ou que são interessantes rever. E quanto a mim, até para a semana. Muito obrigado. Quando falo, descubro mais sobre mim e quando escuto, compreendo mais os outros. Mas quer abra a boca ou preste atenção, tenho cada vez mais a certeza que somos todos malucos.