Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

Sejam bem-vindos. Começa aqui mais um episódio de Transformar Portugal. Este é o podcast do Observador, em parceria com a EY, onde discutimos os grandes temas que vão definir o futuro da economia portuguesa. Neste episódio, olhamos para a energia, como é que um sistema energético mais limpo, mais resiliente e competitivo pode ajudar ao crescimento do país, pode reduzir a dependência externa e acelerar a transição para uma economia de baixo carbono. É para debater este tema que temos como nosso convidado Thomas Carrier, CEO da REGA Energy, que se junta a José Roque, que é partner da EY, é líder do segmento da prática de energia, e Norma Franco, também partner da EY, na área de alterações climáticas e serviços de sustentabilidade. Eu sou o Paulo Ferreira, dou as boas-vindas aos três. Bem-vindos, é um gosto tê-los aqui. José Roque, começando por si. Quando olha hoje para o sistema energético português, qual acha que é o principal desafio?

Muito obrigado, Paulo. Não sei se é um principal desafio, acho que é um conjunto de desafios. Mas se tivesse que escolher um bastante macro, começaria pela dependência energética de Portugal. Ou seja, Portugal, neste momento, tem uma dependência energética do exterior de cerca de 64%. Assim, à primeira análise, pode parecer um número elevado, dado que a média da União Europeia é 57%. Mas se olharmos para 2005, essa dependência energética era de 89%.

Foi feito um caminho grande.

Um caminho de largos passos e ambiciosos passos. 2015 era 78%. Portanto, continuamos, efetivamente, nesse caminho e, do nosso ponto de vista, esse continua a ser o principal desafio e o que temos que ultrapassar, no fundo, reduzir essa dependência energética do exterior, como portugueses e como europeus. Para termos uma visão global do mundo, os Estados Unidos são exportadores líquido de energia. Nos últimos seis anos, com o seu investimento no shale gas e no petróleo, e o shale oil também, passaram de uma trajetória descendente para uma trajetória de exportação.

Certo.

E como a energia é tão fundamental a qualquer economia, existe um relacionamento direto do PIB com o consumo energético, essa independência é profunda.

Certo. A nossa dependência está muito colocada no petróleo e gás natural, não é?

Exatamente, porque nós, na Europa, importamos mais de dois terços da energia que não nos é endógena.

Sim, não a temos no nosso solo, claro.

Exatamente. E Portugal, o que tem de endógeno é sol, água, vento, resíduos. Parece-nos que esse tem que ser o caminho. Um caminho de continuar a investir nessa autossuficiência, no fundo, investindo nas redes de transporte e distribuição de eletricidade, capturando o poder de energia renovável, uma aposta continuada no autoconsumo, nos recursos de energia distribuída. A eletricidade que nós geramos através dos painéis solares nos nossos telhados não tem que vir de lado nenhum, está ali pronta para ser consumida. Se tivermos armazenamento, as chamadas baterias, podemos depois utilizá-la também mais tarde no dia, quando o sol não está a brilhar. Temos um desafio também de mercado. No fundo, o mercado de energia que existe é um mercado, olhando para a eletricidade, é um mercado marginalista, que foi pensado nestes grandes grupos geradores de barragens, de centrais de ciclo combinado a gás. É preciso repensar um pouco o sistema para dar garantia a alguns desses investimentos, para assegurar que os investidores, e o Thomas vai falar disso.

Já nos vai contar isso, claro.

De certeza que tem várias cicatrizes do processo de investimento em energia em Portugal, para assegurar que isso acontece. Mas há um fator aqui que gostava de relevar, porque ao mesmo tempo que é difícil, se dermos um passo atrás, é fácil. Em que sentido? E é a digitalização.

Já vamos depois explorar isso, José. Trazer à conversa já a Norma Franco. No fundo, olhando para este caminho de transição energética que estamos a fazer, Norma, vou perguntar: em que ponto é que estão as empresas portuguesas neste processo?

Olá, Paulo. Claramente, a transição energética nas empresas portuguesas está a acontecer, contudo, a duas velocidades distintas. E quando nós pensamos em duas velocidades distintas, há aqui a necessidade de pensarmos o que é que está a acontecer dentro das grandes empresas e também nas PMEs. E isto é absolutamente decisivo para percebermos o ponto onde estamos. Face a isto, e considerando aquela que foi a informação de 2024, partilhada pelo Aerobarámetro, cerca de 44% das PMEs portuguesas já tinham investido pelo menos 1% do seu volume de negócios em medidas de eficiência energética e de recursos, colocando, na verdade, Portugal acima da média europeia, que ronda aproximadamente 38%. Contudo, e aqui há a necessidade de relevar este aspecto, a transição energética para as PMEs ainda é vivida numa perspectiva ou de uma forma muito reativa e não numa perspectiva estratégica. E, portanto, acontece esta transição energética quando acontece, sobretudo, um custo de energia que pesa no final do mês na fatura, quando existem incentivos disponíveis a que eventualmente as PMEs possam aceder, ou quando, na verdade, a cadeia de valor assim o exige.Inevitavelmente, aquilo que se sente no ecossistema nacional é, de fato, uma desigualdade absolutamente estrutural, porque por mais que as PMEs queiram avançar, existem limites reais. Limites reais que estão muito relacionados com aquela que é a capacidade financeira destas organizações. Um contexto regulatório que é complexo e, para além de complexo, tem sido muito volátil nos últimos tempos. A legislação altera de ano para ano as exigências, os thresholds, e portanto, a complexidade cresce também para este target das PMEs. E depois há a falta de escala para planear no médio e no longo prazo, o que, na verdade, e para as PMEs que configuram, na prática, aquela que é a espinha dorsal da economia portuguesa, pode representar um risco sistêmico na transição energética. No entanto, quando pensamos um bocadinho mais sobre aquelas que são as grandes empresas, o cenário já é completamente distinto. E nestes casos, a transição energética já está muito ligada a questões mais relacionadas com o risco e a resiliência de negócio.

Numa posição mais estratégica, certamente.

Claramente.

E não reativa.

Exatamente. E é nesse aspecto que nós sentimos que estas empresas estão muito mais focadas em reduzir a sua exposição à volatilidade dos preços de energia, em proteger aquelas que são as suas operações, em garantir as cadeias de abastecimento e em antecipar o risco regulatório. E para estas empresas, o contexto regulatório faz toda a diferença, e é isso que nós temos vindo a sentir nos últimos tempos. Para acelerarmos para uma sociedade de baixo carbono, que se quer justa e resiliente, na verdade, é algo que tem sido amplamente defendido no contexto do desenho do pacote ecológico europeu, não basta descarbonizar e é preciso que as empresas consigam adaptar-se sem perder a competitividade, algo que também tem sido muito defendido, sobretudo no último ano, com a apresentação do Clean Industrial Deal e também com o relatório do Draghi. Competitividade é aqui a palavra-chave. Por esta razão, nas grandes empresas, a transição energética passou a ser uma ferramenta de gestão, eficiência para reduzir custos estruturais, eletrificação para reduzir dependências e renováveis para ganhar previsibilidade.

Claro, temos, no fundo, dois países, se quisermos, empresariais, na forma como abordam esta transição energética. Vamos agora então olhar para a perspectiva de um operador, de um investidor. Thomas Querier, está em Portugal há seis anos a dirigir a REGA Energy. Antes de mais, explique-nos rapidamente o que é que faz a REGA Energy.

Obrigado pelo convite. Eu confesso que fico com um pequeno orgulho de estar aqui com vocês. Valida tanto a minha integração no mundo do negócio português como o meu português. Espero que o meu sotaque não vai.

Perfeito. Acho que está perfeito.

Não denuncia.

Obrigado. Antes de falar da REGA, a minha experiência, eu trabalhei em 10 países, no mundo do gás, gás renováveis, na China, na América, 10 países. E escolhi Portugal para a minha vida pessoal e profissional, porque Portugal tem tudo para liderar e é um mundo, é um país, além disso, os portugueses, uma cultura que tem tudo para construir um mundo resiliente, um mundo novo, com uma indústria competitiva, num contexto mundial que sabemos que é uma grande loucura.

Cada vez mais, aparentemente.

Cada vez mais. E por isso Portugal destaca-se cada vez mais como um porto razoável, eu diria. Neste sentido, eu tenho esta visão há muitos anos de que a indústria portuguesa, e falamos das empresas portuguesas, mas os produtos portugueses podem ficar competitivos. Com esta visão, por exemplo, podemos falar das vidreiras portuguesas ou das cerâmicas.

Que consomem muita energia.

Consomem muita energia. Estas empresas são um setor estratégico de Portugal, podem produzir os produtos mais sustentáveis da Europa para atingir os clientes europeus, que estão sensíveis para comprar produtos made in Europe. E em Portugal, vai ser estruturalmente mais competitivo. Por quê? Por duas coisas. A primeira é que a energia renovável portuguesa, a eólica, a solar, a hídrica, tem que ser mais competitiva do que o resto da Europa, e também os portugueses, que são competitivos e têm a estabilidade razoável regulamentar aqui em Portugal para produzir estes produtos. A REGA, neste contexto, é uma empresa que está dedicada a fornecer gás renováveis a estas empresas, a estas indústrias, como vidreira e cerâmicas, alavancando o potencial dos resíduos portugueses, transformando em biometano, e o biometano é uma substituição direta do gás natural importado, fósseis que estas empresas estão a consumir.

E em termos de recursos em Portugal, já vão existindo recursos suficientes para alimentar isso, que é uma tecnologia inovadora?

Não é inovadora. Parece, aqui em Portugal, mas é muito tradicional.

Pouco utilizada, então, em Portugal.

Não é. É o início do mercado, mas na Dinamarca já tens quase 40% do consumo de gás natural do país é de fonte biometano. Na França, estamos a atingir 10%. Em Portugal, isso está só a começar agora. Na Espanha, está já três, quatro anos à frente de Portugal. É madura, é só execução.

Agora então é executar. Muito bem, portanto, há um longo caminho para Portugal fazer nessa área.

Um longo caminho, eu não sei, mas com um potencial enorme e acho que temos todo o contexto e as estrelas estão alinhadas para acelerar.

Muito bem. José Roca, há pouco falámos essencialmente da diminuição da dependência energética de Portugal, da autossuficiência. Pode haver aqui dois objetivos em confronto: um é autossuficiência, outro é competitividade, porque muitas vezes nós conseguimos ir buscar a energia fora mais barata do que aquela que produzimos cá, não é?

Normalmente até há três, e a indústria até tem o nome para a coisa, que se chama o trilema energético. São três vetores que estamos sempre a tentar, como se fosse uma balança com três pratos. Estamos sempre a tentar equilibrar os três. Uma é a segurança, eu consigo ter a energia quando preciso dela e na quantidade necessária. A sustentabilidade, é uma energia que é renovável e que não prejudica o ambiente ou que prejudica o ambiente. E a terceira então ligada à equidade, à competitividade. É o preço, consigo ter o preço certo. E cada uma das tecnologias tem as suas características. O gás tem a sua, consegue dar um base load para a produção de energia elétrica fundamental, assim como a hídrica, a solar e a eólica são muito boas, mas nem sempre estão lá. Nem sempre o sol está a brilhar, nem sempre o vento sopra. Daí aparecerem também novas tecnologias como o armazenamento, o armazenamento em baterias, que nos permitem guardar essa energia quando o sol está muito alto para depois utilizarmos no final do dia. Mas esses são efetivamente os três pratos que estamos a tentar equilibrar. A Norma também tocava no tema, no fundo desta, olhando para a competitividade, nós em termos de preços grossistas do mercado da eletricidade, somos o quarto país com preços mais baixos da Europa. Mas depois quando passamos do mercado grossista para o impacto no cliente final ou no consumidor final, em termos da indústria, baixamos para oitavo. E em termos do consumo doméstico, ficamos a meio da tabela.

Perde-se alguma competitividade no trajeto, claro.

Ou seja, há um custo de gestão do sistema, incentivo de tecnologias, que entra aqui, onde temos continuamente que continuar a trabalhar. Daí também entra o tópico que abordávamos no início da digitalização, que é fazer mais com menos, introduzir inteligência artificial, gerir também a procura, não só olhar para a oferta. Mas o Tomás tocou neste ponto da competitividade portuguesa e ibérica destas nossas fontes renováveis.

São fontes naturais.

Ninguém nos cobra pelo sol, não nos cobram pelo vento. E a Península Ibérica, comparada com o resto da Europa, tem uma vantagem competitiva na geração destes megawatts-hora de 16%. À cabeça, para começar. Parece-me que está na raiz do pensamento estratégico do Tomás e do valor que nós queremos capturar para Portugal, porque baixa a dependência, melhora a nossa economia como um todo e torna-nos mais competitivos. É um win-win, sendo que há questões técnicas que também temos que endereçar, naturalmente.

Tomás, pegando nisto, claramente a competitividade portuguesa está assegurada a esse nível, isto é, somos à partida uma economia que pode ser competitiva.

Sem dúvida nenhuma. É por isso que eu apostei esta empresa, este investimento na REGA. A competitividade vai acontecer, é estruturante da parte da energia, mas em vez de exportar esta energia competitiva para o resto da Europa, consumida no resto da Europa, é preciso atrair investimento na indústria existente e nova indústria, que vão colocar-se aqui em Portugal para alavancar a competitividade da eletricidade renovável limpa portuguesa, para produzir os produtos mais competitivos. E eu queria dizer que a competitividade não só significa custo baixo, mas também significa mais valor. E na Europa temos valor a comprar produtos, serviços que estão feitos aqui na Europa e made in Portugal. E por isso temos dois aspectos: competitividade do custo da energia renovável e também criar mais valor aos clientes finais.

Norma, pegando neste ponto e fechando aqui quase o nosso slot de rádio FM, depois vamos continuar em podcast, esta questão de quando se fala de competitividade e energia, fala-se muito mais do que o preço. Ou seja, a sustentabilidade é fundamental, o trabalho que as grandes empresas, sobretudo, como há pouco disse, fazem com os seus fornecedores e clientes também é fundamental. Ou seja, há aqui outros valores em ponderação quando se analisa isto tudo.

Existem vários valores, na verdade, porque, na prática, quando falamos da rendibilidade das empresas, há que pensar naquilo que está a acontecer neste momento. A transição energética coloca a pressão financeira, sobretudo em setores intensivos em energia, mas neste momento começamos a notar algumas mudanças. Cada vez mais as empresas estão a encará-la como uma estratégia de resiliência e não apenas como um custo adicional. Há pouco falávamos do setor do vidro e da cerâmica. Na prática, o que tem acontecido nos últimos tempos é que, de facto, existem um conjunto de setores à nível nacional que estão a desenhar aqueles que são os seus roteiros de descarbonização e, na perspetiva destes setores, há o reconhecimento de que o maior risco não se traduz apenas no preço da energia ou do carbono, mas sobretudo da exposição combinada à instabilidade climática, à volatilidade dos mercados e à pressão regulatória. Há multivariáveis, multifatores que estão a influenciar toda esta dinâmica que nós estamos a observar aqui em Portugal, na Europa, com todo o contexto regulatório que nós temos, mas também numa perspetiva mais macro, com todas as forças de mercado que nós conhecemos e que estão a influenciar toda esta dinâmica a nível global.

Muito bem, muitos fatores sempre a ter em conta neste setor da energia. José Roque, nós neste momento temos condições no mercado internacional altamente voláteis. Aliás, este é dos primeiros setores, digo eu, que sente logo a volatilidade de qualquer mudança, qualquer conflito, qualquer tensão internacional que haja. Isso, de alguma forma, deve acelerar decisões de política energética em Portugal, ou vamos ter que aprender a viver com isto?

Como no trilema energético, um pouco de tudo. Estes choques energéticos, este conflito no Médio Oriente e o bloqueio do Estreito de Ormuz, a região produz cerca de 20% do gás natural e do petróleo mundial. É fácil imaginar, se isto fica bloqueado, o impacto que tem direto na economia. Vimos um aumento de mais de 80% do preço internacional do gás, mais de 90% do petróleo e também um conjunto de outros efeitos nos fertilizantes, na ureia, que é um fertilizante muito rico em nitrogénio e que também é produzido na região. Por quê? Porque a região tem muito gás natural e o gás natural é uma matéria-prima e uma matéria energética para a produção do hidrogénio. Vimos aumentos também de mais de 60% e até bloqueios já na quantidade. Estes choques são, infelizmente, chamadas de atenção. São um alarme para despertarmos para a dependência. Nós vimos em 1973 e 1979, com os choques anteriores, Guerra do Yom Kippur, o conflito no Irão, preço do petróleo a disparar. O que na altura foram as duas grandes medidas que foram implementadas globalmente para depender menos do petróleo e do gás natural da região? Um, eficiência energética. Os americanos apostaram em carros, obrigaram a sua indústria a tornar-se muito mais eficiente.

Que consumiu imenso.

Exato. Duplicou, ou seja, a autonomia dos veículos basicamente duplicou, baixou o seu peso, melhorou a eficiência dos motores e tudo mais, e vimos um disparar ou um acelerar significativo da indústria nuclear.

Como alternativa.

Exatamente, como alternativa. E eu acho que esse será um dos grandes benefícios que estes conflitos, tanto o conflito da Ucrânia como do Médio Oriente, irá trazer para o resto da indústria. O equilíbrio do prato da autonomia irá ficar com um peso maior. Porque nós não queremos efetivamente estar dependentes, queremos apostar naquilo que é nosso, nas fontes endógenas. Se pensarmos que o planeamento de todo o sistema precisa de todo o sistema global de energia, leva isto em conta, temos o Fatih Birol, que é o presidente da Agência Internacional de Energia, a chamar a esta crise a mãe de todas as crises energéticas. E nós parece que ainda não sentimos bem a coisa. O preço do alumínio está em máximo de quatro anos. Estes impactos, estes choques na cadeia de abastecimento, que a Norma também referiu, vai nos impactar profundamente. E a melhor maneira de não depender disso é apostar naquilo que é nosso e que não nos é cobrado. E em Portugal são estas fontes renováveis, sem dúvida nenhuma.

Thomas Carrier, neste sentido, e tendo em conta este cenário que o José acaba de descrever, este é um bom momento para reforçar investimentos em energias alternativas e que sejam de geração endógena em Portugal.

Estamos a falar de dramas e de guerras, e é muito importante perceber que este contexto de incerteza não ajuda o negócio. De qualquer maneira, não ajuda, porque há incerteza e com incerteza não vamos, todos nós investidores, investir muito rapidamente, porque temos que ter um pouco mais de certeza, visibilidade do que é o impacto desta crise, das policrises, podemos dizer, porque estamos em um mundo policrise, que vai ser, sem dúvida, a normalidade.Acelerar, eu não sei, mas se começamos para ver um first principle thinking, que é dizer o que o José estava a dizer: na Europa não temos alternativa do que energia renovável para consumir energia europeia, em Portugal ainda mais. Então não é segredo, é preciso investir nesta cadeia de valor, nesta estabilidade. E vai trazer não só segurança de disponibilidade de energia, estabilidade de preço, mas também mais empregos e pode ser um projeto societal. E para Portugal, mais uma vez, é uma maneira proativa de promover o que está a acontecer, porque não há nada a fazer. A eletricidade de Portugal é renovável, 80%, e por isso os produtos que estão feitos com a eletricidade portuguesa e com biometano, são sustentáveis. É só promover o que está feito para atingir o mercado mais profitável, para extrair mais valor e para propor um projeto societal mais otimista do que só reativo, dizendo que há guerra, há problema e por isso temos que investir mais. Não, temos que investir mais nas renováveis, porque é um projeto mais otimista.

Norma, há pouco falava aqui, de facto, da dualidade que há entre a abordagem das grandes empresas e das pequenas empresas, tendo em conta, obviamente, que, como disse também, que o nosso tecido empresarial é sobretudo composto por PMEs, há um grande caminho, sobretudo, a desenvolver aí. Agora, em empresas mais pequenas, como é que se trazem para passar aqui da reação e dos mínimos para a ação e para que a energia seja também estratégica para elas?

Eu acho que quando nós pensamos naquilo que é a grande diferença entre as grandes empresas e as PMEs, a forma de, na prática, levar todos a jogo, tem que ver, obviamente, com a pressão da cadeia de valor. E na prática, o que também tem acontecido é que todo o desenho do contexto regulatório tem trazido a pertinência e a relevância de ter o efeito cascata numa cadeia de valor. E é isso que acontece neste momento a nível nacional também. Enfim, muitas das vezes, e mais recentemente, temos ouvido que as empresas têm que começar a reportar, ao abrigo daquela que é a nova diretiva de reporte de sustentabilidade corporativa, têm que começar a reportar aquele que é o seu desempenho em matéria de ESG. E esta última diretiva, CSRD, que entretanto mudou alguns critérios de abrangência, foca-se também naquele que é este potencial que existe como um todo, que é o efeito da cadeia de valor. Ou seja, de facto, já as grandes empresas são obrigadas a reportar aquele que é o seu desempenho, mas obviamente as empresas não se limitam àquela que são as boundaries, as fronteiras físicas do seu negócio, e dependem todas de uma cadeia de valor que está a montante e a jusante, e que, na prática, para apresentarem aquele que é o seu desempenho, convidam, incitam a que estas organizações mais pequenas façam também parte desta narrativa. E é isso que nós vemos, por exemplo, com a CSRD, a taxonomia europeia, enfim, muitas das vezes consideradas pelas organizações quase como um novo bicho-papão. De facto, podem ter aqui um efeito absolutamente estrutural naquilo que também é trazer um conjunto de boas práticas em matéria de eficiência energética, mas não só, não se esgota apenas neste tema, e portanto, estas PMEs ficarem um pouquinho contaminadas, inspiradas, no bom sentido, claramente, da forma como as grandes empresas estão a operar no mercado.

Muito bem. Vamos aqui entrar na nossa ronda final. José Roque, vamos imaginar a próxima década. O caminho que está a ser trilhado parece bem definido, de facto, uma aposta cada vez maior nas renováveis e na tal diminuição da dependência energética. Vamos conseguir reforçar esse caminho, nomeadamente em termos de custos? As renováveis será que vão ser consistentemente mais baratas, mais competitivas, se quisermos, tudo pesado, do que as outras fontes?

A história recente diz-nos que sim. Portanto, nós olharmos para o que é chamado o LCOE, o Levelized Cost of Energy, mais baixo que se consegue para gerar eletricidade hoje em dia é com utility scale solar, portanto, grandes centrais solares. Mas isto é parte do custo. Há um custo depois de gestão de sistema, precisamente porque o solar não está lá sempre e depois precisamos de gás. Uma coisa curiosa é que quando olhamos, por exemplo, para a China, a China demorou um ano e meio, algo assim do gênero, até começar a investir nas tecnologias renováveis. Hoje dominam 65% da cadeia de produção, tudo o que é tecnologia renovável, desde o solar ao eólico.

Eles fazem os equipamentos.

As bombas de calor, tudo mais. Eles não só fazem os equipamentos, como depois usam o seu mercado interno para puxar precisamente por essa procura e conseguem escala. E aqui é onde nós, na Europa, precisamos de continuar o caminho, porque essa escala traz competitividade. Perdemos também um pouco a noção global

A China instalou no ano passado dois terços da capacidade mundial de energia renovável. A China, um país.

É outra dimensão, de facto.

É outra dimensão. A Norma falava de regulação, que naturalmente desempenha um papel importantíssimo para assegurar condições competitivas para todos, equidade, mas seguramente que, olhando aqui para o Thomas, que está a investir numa indústria nascente em Portugal, de certeza tem muitas histórias complicadas e desafiantes e muitas noites mal dormidas sobre o processo de investimento em Portugal. Portanto, o caminho está cá, mas precisamos efetivamente de acelerar. Nós falávamos antes aqui a debater alguns tópicos, e um dos tópicos ligava ao tópico da digitalização que estávamos a abordar no início. E estávamos aqui a chegar à conclusão que digitalizar, automatizar muitos dos processos de licenciamento. Portanto, são coisas que já existem, já têm enquadramento regulamentar, têm pessoas, têm entidades, têm processos. É muito difícil.

Sim, é muito claro.

Mas é muito difícil por quê? É um problema de tecnologia? Não é, seguramente. É um problema de processos? Um processo, mas o que é que custa gerir o processo? É um problema de dinheiro? Se é fundamental e crítico para o país, o dinheiro tem tendência a aparecer. É um problema de pessoas? Talvez. Mas o Estado é uma entidade muito complexa, muitas entidades, mandatos diferentes, com independência, com a sua visão, a olhar para o problema de maneiras diferentes. Mas não estamos todos a trabalhar para a mesma coisa.

É uma questão de cultura, talvez.

Exatamente. Ou seja, difícil era se nos pedissem para ir daqui a 30 minutos a Júpiter. Isso para mim é difícil.

Claro.

Aqui, as variáveis estão todas em cima da mesa. E eu dava o exemplo chinês, um pouco só para nos obrigar também a pensar muitas vezes de maneira diferente. Sabemos que naturalmente estas entidades, estes processos de licenciamento, têm a sua razão de ser, estão a defender o país, mas de certeza que são passíveis de melhoria. E a melhoria, se calhar, não deve ser incremental, deve ser uma melhoria que muda o paradigma. E se nós entrarmos a pensar, já vai ser difícil, vou ter que sentar 20 pessoas à mesa, todas elas têm que estar de acordo. Mas é perfeitamente possível, temos tudo ao nosso alcance para acontecer isso. E sinceramente, esse parece-me o maior low hanging fruit da transição energética e do que está a causar um obstáculo ao acelerar da transição.

Deixe-nos perguntar aqui ao Thomas Carrier, de facto, como é que tem ultrapassado estas dores, se quiser, a burocracia e processos que são, por vezes, demasiado longos para aquilo que é a vontade do investidor.

Na infraestrutura, estamos a falar de uma mudança de infraestrutura, é normal ter regulação, é normal ter processos para fazer as coisas de maneira séria em qualquer país. E em Portugal, como outro país, demora tempo. O que acontece com o biometano, o caso do biometano, é que estamos também a resolver um problema dos agricultores, porque estamos a valorizar os resíduos dos agricultores. Alinhar os planetas, os agricultores, o investidor no mundo do biometano, para produzir o biometano, que depois é consumido pela indústria portuguesa para produzir os produtos mais sustentáveis da Europa e vender com uma marca como Made in Portugal, Made Sustainable, esta linha de alinhamento já está feita. E por isso o desafio que temos não é um desafio tão grande, realmente. Eu vou dizer isto e temos a equipa certa para fazer as coisas certas. Temos dinheiro, claro, temos procura, claro, é só uma execução. E por isso que eu diria que temos nós, portugueses, de ser otimistas, porque é estrutural aqui em Portugal, e não é daqui a 10 anos, é hoje. Produzir já a eletricidade mais barata, quase mais barata e mais sustentável da Europa, o biometano para complementar o que não pode ser eletrificado, com indústria que já existe, para produzir os produtos que já existem, com dinheiro que já existe, o conhecimento, a tecnologia já existem. Para mim, o meu trabalho não é o mais difícil dos portugueses.

Norma, para fechar também, voltando um pouquinho à questão, se calhar, das empresas mais pequenas, se soluções que são mais pequenas em termos de implementação, autoprodução para autoconsumo, a associação de várias fontes de energia, se a solução poderá passar por aí, obviamente com o apoio depois para a gestão disso tudo do mundo digital.

A solução ou as soluções tecnológicas são absolutamente fundamentais para acelerar esta transição. Eu acho que antes da solução, enquanto solução, acho que há algo maior que ainda tem que ser feito, que é literacia e capacitação. Porque no final do dia nós podemos falar de descarbonização, podemos falar de emergência climática, podemos falar de transição energética, parece que estas são as buzzword e é a resposta para tudo, mas se nós não estivermos disponíveis para agir, independentemente de sermos uma grande organização ou uma pequena, será difícil. E, portanto, ainda há este trabalho estrutural de base que é fundamental para se tentar explicar de que forma a introdução destas soluções podem, de facto, criar valor dentro das organizações e, sobretudo, conferir a tal resiliência de negócio que todos nós procuramos todos os dias levar também aos clientes da EY.

Muito bem, fechamos aqui então este episódio de "Transformar Portugal". Este é o podcast do Observador em parceria com a EY. Hoje falámos com o José Rocha, com a Norma Franco e com o Thomas Carrier, a quem agradeço a presença. Falámos da energia, das grandes mudanças deste setor e de como está e pode impactar na competitividade do país. Nós voltaremos com um novo episódio, um novo tema e novos convidados. Até lá.