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Brincar na rua, cair, sujar-se, trepar árvores, inventar jogos. Durante décadas, isto fez parte da infância de praticamente todas as crianças, todos nós. Mas hoje, o cenário é muitas vezes diferente. Mais tempo em frente aos ecrãs, menos tempo em brincadeira livre. Neste Dia Mundial da Criança, perguntamos: estaremos a criar uma geração demasiado protegida e cada vez mais sedentária? Doutora Vanessa Mendes, bom dia.

Bom dia.

Brincar na rua continua a ser imprescindível para o desenvolvimento infantil, não é?

Eu diria que é fundamental.

Fundamental mesmo.

E hoje temos evidência muito consistente sobre este tema. A brincadeira livre é essencial para o desenvolvimento físico, emocional, cognitivo e social da criança. Quando brincam na rua, as crianças desenvolvem coordenação motora, equilíbrio, autonomia, criatividade e até capacidade de resolução de problemas. Aprendem também a lidar com a frustração, o risco e a própria interação social.

Tão importante a interação social.

Portanto, brincar não é apenas entretenimento, é desenvolvimento neurológico e emocional.

E ao mesmo tempo, doutora, estamos perante uma geração cada vez mais ligada aos ecrãs, não é?

Sem dúvida alguma.

É o que está a acontecer.

O tempo de ecrã aumentou drasticamente nos últimos anos, sobretudo com redes sociais, os vídeos que também circulam, as plataformas digitais. E sabemos hoje que o excesso de exposição em ecrãs está associado a maior sedentarismo, alterações do sono, dificuldades de atenção e até menor interação social, como já falámos. Além disso, o cérebro infantil é particularmente sensível a estímulos rápidos e recompensas imediatas, o que pode de alguma forma dificultar a tolerância ao aborrecimento e reduzir a capacidade de concentração sustentada.

E à parte de tudo isto, há também uma tendência crescente para proteger demasiado as crianças.

Sim, e aqui parece-me um tema que merece reflexão. Hoje existe muitas vezes receio de deixar a criança explorar, correr riscos ou até cair. Mas pequenas quedas, pequenas frustrações e desafios fazem parte do que é o desenvolvimento saudável. A criança precisa de experimentar o corpo, perceber os seus limites, desenvolver a sua autonomia, naturalmente com supervisão e segurança adequadas. Mas crescer implica também aprender a lidar com o desconforto e o próprio imprevisto.

E isto imagino que tenha impacto na saúde, a longo prazo.

Claro que pode ter impacto, porque menos atividade física e menos brincadeira ao ar livre estão associados ao aumento da obesidade infantil, uma pior condição física e até alterações posturais das crianças. Mas também a maior ansiedade, dificuldade da chamada autorregulação emocional e também menor resiliência. E a infância precisa de movimento. Há interações reais e estímulo fora do ambiente digital.

Então, o que devem os pais procurar fazer? O equilíbrio.

É isso mesmo, é equilíbrio, como já falámos tantas vezes. Limitar o tempo de ecrã de forma adequada à idade, incentivar atividade física e brincadeira ao ar livre, permitir momentos de autonomia, brincadeira não estruturada e, sobretudo, lembrar que o desenvolvimento infantil acontece muito para além do digital. Portanto, aqui gostava de reforçar que brincar é uma parte essencial do desenvolvimento saudável de uma criança e talvez uma das melhores coisas que podemos oferecer às nossas crianças seja precisamente aquilo que muitas vezes lhes estamos a retirar, que é tempo para brincar, explorar e simplesmente ser criança.

Simplesmente ser criança. É mesmo isso. tratardasaude@observador.pt é para onde pode enviar as suas dúvidas, as suas sugestões. Se preferir, também pode enviar áudio por WhatsApp. O número é sempre o mesmo, 910024185. Doutora Vanessa, até amanhã.

Até amanhã. Obrigada.