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Há uma cena que se repete todos os verões: duas pessoas estão sentadas na mesma esplanada, lado a lado, uma sai de lá cheia de picadas e outra nenhuma. Coincidência ou os mosquitos têm mesmo pessoas preferidas? Doutora Vanessa Mendes, boa tarde. A ciência já conseguiu responder a esta pergunta?
Sim, já. E a resposta é muito curiosa. Não é um mito. Os mosquitos escolhem realmente algumas pessoas mais do que outras. E essa escolha resulta da combinação de vários fatores. O principal é o dióxido de carbono que expiramos.
A sério?
Sim. Quanto mais dióxido de carbono produzimos, mais facilmente os mosquitos nos conseguem localizar. É por isso que os adultos, por exemplo, tendem a ser mais picados do que as crianças.
Isto é só uma questão de respiração?
Não é só. Cada pessoa tem uma combinação única de substâncias na pele, produzidas pelo nosso suor e pelas próprias bactérias que vivem naturalmente na nossa microbiota cutânea. Esses compostos funcionam como uma verdadeira impressão digital química, vamos chamar assim. Algumas pessoas libertam odores que são particularmente atrativos para os mosquitos. É uma característica muito influenciada pela própria genética e que não conseguimos controlar completamente.
Então há grupos de pessoas que são mais frequentemente picadas.
Sim. Infelizmente, sim. As grávidas, por exemplo, tendem a ser mais picadas porque produzem mais dióxido de carbono e têm uma temperatura corporal também ligeiramente superior. Também quem pratica exercício físico, por exemplo, pode atrair mais mosquitos porque aumenta a temperatura corporal, transpira mais e produz mais ácido lático.
Pronto, já posso encontrar mais uma explicação para não fazer exercício físico.
E depois também há estudos que sugerem que pessoas com o grupo sanguíneo O poderão ser ligeiramente mais atrativas para algumas espécies de mosquitos, mas este fator parece ter menos importância do que o odor corporal que já falámos.
Então e aquelas pulseiras, a vitamina B e os aparelhos de ultrassons funcionam?
Aqui a evidência científica é pouco favorável. Até ao momento, não existe demonstração consistente de que a vitamina B1 ou os aparelhos de ultrassom reduzam significativamente as picadas de mosquito. Algumas pulseiras podem ter um efeito limitado, normalmente aqui junto ao punho, que é onde as colocamos, dependendo da substância também de repelente que contêm, mas não substituem medidas comprovadamente eficazes. A melhor proteção continuam a ser os repelentes com substâncias como, por exemplo, o DEET, que é o composto mais comumente utilizado em todo o mundo, sendo que a sua concentração determina o tempo de duração da proteção e não a sua intensidade, sendo que normalmente usamos concentrações menores nas crianças. E depois é usar roupa que cubra a pele ao anoitecer, principalmente, e também eliminar ou evitar águas paradas onde os mosquitos se reproduzem.
Doutora, quando é que uma simples picada merece preocupação, uma ida ao médico?
Na maioria das vezes, uma picada vai só provocar alguma comichão, aquela vermelhidão e algum inchaço, vamos chamar assim. Mas devemos procurar assistência médica se surgir, por exemplo, uma reação muito extensa, quando há sinais de infeção, situações mais graves como dificuldade a respirar ou sintomas gerais como febre, sobretudo após viagens para regiões onde existam doenças transmitidas por mosquitos. Aqui estamos, por exemplo, a falar do dengue, do Zika e também, por exemplo, da malária. Em Portugal, o risco dessas doenças é baixo, mas os casos importados existem e, portanto, devem ser valorizados.
Portanto, afinal, quem diz que os mosquitos têm preferência por certas pessoas, até tem razão.
Tem. A ciência mostra que fatores como o dióxido de carbono que expiramos, a temperatura corporal e até o próprio odor natural da nossa pele influenciam a atração dos mosquitos e, portanto, não conseguimos mudar a nossa genética, mas podemos reduzir muito o risco de picadas utilizando os repelentes, protegendo a pele e evitando locais com águas paradas.
Doutora Vanessa Mendes, muito obrigada por mais um "Tratar da Saúde" e por esta primeira temporada.
Obrigada.
O programa vai de férias, regressa no início de setembro com novos temas e novas caras.