Faltava meia hora para o início da cerimónia e a rua em frente à Igreja de Nossa Senhora das Salas começava a encher-se de sineenses ansiosos por assistir à reabertura da antiga ermida em honra da padroeira da terra, que esteve encerrada nos últimos dois anos para trabalhos de reabilitação e conservação financiados pelo Plano de Recuperação e Resiliência (PRR). Ilda Botelho foi uma dessas pessoas. Grande devota de Nossa Senhora das Salas, “que está primeiro do que tudo”, fez questão de estar presente no momento em que as portas foram abertas e a população começou a encher a pequena igreja mandada construir por Vasco da Gama após a sua viagem à Índia. Eram tantos os curiosos que chegou a temer-se que o espaço não chegasse. Mas, aos poucos, todos se foram acomodando, em pé ao longo das paredes ou sentados nas poucas cadeiras deixadas livres pelos muitos convidados. Quando entrou, Ilda não conseguiu esconder a sua alegria. A capela estava “linda”, “perfeita e sem nada a apontar”, e sem qualquer vestígio dos problemas que a afetavam. A humidade tinha desaparecido do teto e das paredes, e o antigo chão de tijoleira, que começava a ficar bastante degradado, tinha sido substituído por madeira. Por cima do altar, a imagem de Nossa Senhora das Salas, que Ilda “ama de paixão”, tinha sido restituída ao seu lugar. Por causa das obras, teve de ser guardada na Igreja Matriz de Sines e o padre Egídio Ramos Ferreira, que assistiu à cerimónia sentado numa cadeira no lado direito da igreja, teve de deixar de dizer a missa na antiga ermida aos sábados de manhã.
A cerimónia de reabertura da Igreja de Nossa Senhora das Salas, que decorreu esta segunda-feira à tarde, contou com a presença da ministra da Cultura, Margarida Balseiro Lopes, do presidente do Património Cultural, IP, João Soalheiro, e do presidente da Câmara Municipal de Sines, Álvaro Bejinha. Os intervenientes fizeram questão de destacar a importância cultural e histórica da igreja, o primeiro projeto de reabilitação financiado pelo PRR no Alentejo a ficar pronto, e de garantir a sua conservação. Desde 1997 que o monumento não era alvo de uma campanha de recuperação e apresentava vários problemas de degradação, a maioria provocada pela proximidade com o mar. O projeto financiado pelo PRR, com um custo total de 450 mil euros, dos quais 65.350 foram usados para a conservação, serviu para corrigir esses problemas, tanto no interior como no exterior do monumento, incluindo os que afetavam o portal de brecha da Arrábida, um tipo de rocha que existe apena na zona da Serra da Arrábida, em Setúbal, que é composta por sedimentos e que, por isso, se desagrega facilmente. Procurou-se também fazer com que o edifício, erguido sobre uma elevação com vista para o Atlântico, se tornasse mais resistente aos elevados níveis de humidade e salinidade da região.
▲ Muitos sineenses não quiseram faltar à cerimónia de reabertura da Igreja de Nossa Senhora das Salas, que esteve fechada durante dois anos para obras de recuperação
INÊS LACERDA/OBSERVADOR
Em declarações ao Observador, Rita Valente, chefe da Divisão de Monitorização e Alterações Climáticas do Património Cultural, IP, explicou que o principal objetivo da intervenção foi precisamente esse, “minimizar e mitigar” uma série de problemas, tendo também em vista as alterações climáticas, que começam a ser um problema para a conservação do património nacional. “Uma das coisas que fizemos foi por um pavimento ventilado para tentar retirar um bocado da humidade da igreja”, explicou. “Essas pequenas alterações não são irreversíveis, mas fazem a diferença na conservação do património. Do ponto de vista do Património Cultural, o que nos interessa é criar modelos de intervenção que sejam mais resistentes às alterações climáticas. Agora, teremos de fazer a monitorização, para ver se esta intervenção é, de facto, duradoura e o que será preciso reforçar nos próximos quatro, cinco anos, porque, se calhar, por causa da exposição da igreja, neste sítio, será preciso voltar a reforçar algum tipo de intervenções, na pintura, nas telhas, noutras coisas.” Na opinião da responsável, intervenções como a que foi feita na Igreja de Nossa Senhora das Salas podem servir de base para “estabelecer padrões” e outras obras “podem beneficiar deste conhecimento”.
Para a população de Sines, voltar a pisar o chão da igreja da santa padroeira da terra e dos seus pescadores tem um significado particularmente especial. Com a reabertura do monumento após dois anos de encerramento, “devolve-se à cidade um espaço que é muito mais do que mero património edificado — é um pedaço de memória”, salientou o autarca Álvaro Bejinha, a quem coube proferir o discurso inaugural da cerimónia de reabertura, esta segunda-feira. “Ao longo dos séculos, as paredes desta ermida testemunharam as preces das gentes do mar, as lágrimas da despedida e a alegria do regresso. Por isso, proteger este património é proteger a nossa identidade e honrar a memória daqueles que, a partir desta costa atlântica, desenharam os novos mapas do mundo”, declarou o presidente da câmara, referindo-se à tradição piscatória da região, à devoção dos pescadores e das suas famílias a Nossa Senhora das Salas e a Vasco da Gama, que viveu na localidade alentejana durante a primeira infância e que muitos historiadores acreditam ter nascido no seu castelo. A ministra Margarida Balseiro Lopes, que salientou o “lugar muito especial” da igreja “no património de Sines e do país”, descreveu-a como “um dos lugares que melhor ajuda a contar a história deste concelho e da relação que, ao longo dos séculos, construiu com o mar”. Um lugar “muito particular” pela sua arquitetura, com algumas das características que viriam, mais tarde, a integrar o estilo manuelino, “mas também por tudo aquilo que representa para sucessivas gerações [de sineenses] e pela ligação profunda que mantém com a identidade do território”, ainda “presente nas tradições, nas celebrações e no património que foi sendo construído e reconstruído pela própria comunidade”.
▲ A cerimónia de reabertura da Igreja de Nossa Senhora das Salas foi presidida pela ministra da Cultura, Margarida Balseiro Lopes. O autarca Álvaro Beijinha (à direita) fez o discurso inaugural
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Depois de concluídos os discursos e de a cerimónia ter sido oficialmente encerrada, foi dada aos presentes a possibilidade de visitarem a sala do Tesouro, que reúne algumas das ricas oferendas feitas a Nossa Senhora das Salas ao longo dos séculos. O espaço, inaugurado em 2005, encontrava-se num profundo estado de degradação devido a problemas de infiltração. O reboco das paredes tinha começado a cair e as vitrinas precisavam de ser limpas e pintadas. O alarme estava avariado. Por altura do início das obras, a sala encontrava-se encerrada e o Tesouro de Nossa Senhora das Salas encontrava-se em exposição no Panteão Nacional, em Lisboa, para onde foi transferido para assinalar os 500 anos da morte de Vasco da Gama. Maria do Carmo e a vizinha, outra Maria, foram das primeiras a entrar na sala do Tesouro. Também foram “de propósito” à igreja para assistir à reabertura. Nenhuma nasceu em Sines. Foi o casamento com homens da terra que as levou para a cidade onde dizem ter nascido Vasco da Gama. Embora se tenham mudado para a localidade há várias décadas, quando Sines era uma pequena vila “pobre” de pescadores, não se esquecem das suas origens e, antes de se dizerem devotas de Nossa Senhora das Salas, fazem questão de assinalar que nasceram noutras terras, não muito longe dali. Já Maria do Rosário, que acompanhava as duas Marias, mudou-se para a cidade há seis anos, por causa do filho, que foi para ali viver, mas não é por isso que deixa de prestar culto à padroeira da terra, que todos os anos sai em procissão durante a festa organizada em agosto em seu nome. Antigamente, a procissão enchia as ruas da cidade, e pessoas de diferentes localidades deslocavam-se a Sines para rezar a Nossa Senhora das Salas, cujo culto remonta, pelo menos, ao século XIV, quando uma primeira ermida foi construída perto da atual igreja em cumprimento de uma promessa feita por uma dama de origem bizantina. Nos últimos anos, por causa das obras, Nossa Senhora tem sido impedida de entrar na igreja no final da procissão, mas este ano pôde retornar à sua “casinha”.
Ao contrário deste grupo de Marias, Maria Augusta Rego Roupa, nasceu e cresceu em Sines. A mãe, Dina Rego Roupa, conhecida por muitos como Menina Dina, foi, durante 25 anos, a guardiã das chaves da antiga ermida, um detalhe biográfico que Maria Augusta partilha com orgulho. “Isso deve estar no arquivo do museu [de Sines]”, disse, enquanto avançava em direção à saída, onde se encontrava Ângela Ferreira. Ângela, que tomou conta da Igreja de Nossa Senhora das Salas durante dez anos, voltará agora a ocupar o mesmo lugar junto à entrada. À semelhança de muitos sineenses, a sua ligação com a igreja é muito anterior. Como recordou Maria do Carmo, a imagem de Nossa Senhora, que é “muito antiga”, costumava ser vestida por “uma senhora de Sines, que já morreu”. Essa senhora era a mãe de Ângela, Leonilde Ferreira, que, durante muitos anos, costurou as vestes da Virgem, que eram depois bordadas à mão por outra habitante da terra. Ângela nunca quis ajudar a mãe nesse trabalho (não gosta de costurar, prefere fazer malha), mas lembra-se de a ver a trabalhar nas roupas. Todos os anos, a imagem de Nossa Senhora das Salas estreava um vestido novo por altura da festa, em agosto. “Ela tem muitos vestidos”, disse Maria do Carmo. “É uma Senhora muito rica!” Essa riqueza é evidente pelas peças que fazem parte do Tesouro, mas as doações à padroeira de Sines contam outra história, a de uma antiga devoção que, tal como foi destacado pelos diferentes intervenientes durante a cerimónia desta segunda-feira, se cruza com a história do próprio concelho, da sua população e também de Portugal. É uma história feita de promessas, mas também de algumas peripécias, que envolvem uma influente dama, muito próxima da rainha D. Isabel I, e um importante navegador português, cuja insistência em permanecer em Sines, a sua “terra do coroação”, fez com que tivesse problemas com a ordem militar de Santiago e fosse expulso da localidade por ordem de D. Manuel I.
▲ Maria do Céu, Maria Gonçalves e Maria do Rosário (em cima, à esquerda) não nasceram em Sines, mas são devotas. Antigamente, a imagem de Nossa Senhora das Salas era vestida pela mãe de Ângela Ferreira
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A promessa de uma princesa e o sonho de um navegador
Antes de existir a Igreja de Nossa Senhora das Salas, existia uma pequena ermida que se tornou conhecida em toda a região pelos milagres realizados pela Virgem no seu interior. Construída na primeira metade do século XIV, provavelmente por volta de 1320, a ermida terá sido fruto de uma promessa feita por uma importante dama da corte portuguesa, D. Vataça Lascaris, durante uma perigosa viagem marítima. Diz a lenda que, durante uma viagem para Portugal, o navio em que seguia D. Vataça foi apanhado por uma violenta tempestade. Aflita, a dama pediu auxílio a Nossa Senhora, prometendo em troca a construção de uma capela no local onde desembarcasse em segurança. A ermida de D. Vataça chegou a coexistir com a igreja de Vasco da Gama durante cerca de 20 anos, mas o edifício mandado construir pelo navegador acabou por sobreviver ao outro monumento, cuja localização exata se perdeu no tempo.
Não se sabe ao certo porque é que a ermida recebeu o nome “Salas” (existem muitas teorias, que vão desde a palavra “salvação” até ao processo de salgar o peixe), mas a sua ligação a “uma das mulheres mais extraordinárias da nossa Idade Média” está bem atestada. D. Vataça nasceu e cresceu na corte de Aragão, onde a mãe, Eudóxia Lascaris, filha do imperador de Niceia, Teodoro II Lascaris, e outros importantes membros da corte bizantina procuraram refúgio no final do século XIII, durante um período de grande instabilidade no Império Romano do Oriente. As duas famílias reais tinham ligações de parentesco — D. Constança, mulher de D. Pedro III de Aragão, era sobrinha da viúva do imperador bizantino João III Ducas Vatatzes. Quando, aos 11 anos, D. Isabel de Aragão partiu para Portugal para se casar com D. Dinis, D. Vataça, então com 13 anos, foi uma das jovens donzelas que acompanharam a futura rainha, de quem se tornou confidente. “Era a mulher de confiança da Rainha Santa e foi uma mulher absolutamente extraordinária durante a Idade Média”, disse ao Observador Ricardo Estevam Pereira, coordenador do Museu de Sines e uma das pessoas que mais sabe sobre a história da Igreja de Nossa Senhora das Salas. Três anos após a sua chegada a Portugal, D. Vataça casou-se com D. Martim Anes de Soverosa, um rico vassalo de D. Dinis, que era bem mais velho do que a sua noiva de apenas 16 anos. D. Martim morreu dez anos depois e D. Vataça herdou muitos dos bens do seu marido, de quem não terá tido filhos.
▲ A Igreja de Nossa Senhora das Salas foi mandada construir por Vasco da Gama no século XVI junto a uma antiga ermida dedicada à mesma padroeira, datada do século XIV
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Em 1297, quando D. Constança, a primeira e única filha do casal real português, partiu para o reino de Leão e Castela para se casar com o futuro D. Fernando IV, D. Vataça fez-lhe companhia. Em Castela e Leão, a mulher de confiança de D. Isabel I desempenhou um importante papel diplomático, “apresentou os embaixadores de Aragão e fez um jogo para defender os interesses de Castela, Aragão e Portugal”. “Era uma mulher que se mexia ao mais alto nível e mostrava isso na sua casa, onde tinha tapeçarias, peças em prata dourada e grandes taças com as armas dos reis. Jogava xadrez e tinha uma biblioteca com livros em grego e latim”, enumerou Ricardo Estevam Pereira. “Numa altura em que achamos que as mulheres tinham sempre um papel muito apagado, esta mulher jogava nos tabuleiros da grande política ibérica da época.” E os seus serviços eram muito apreciados, de tal forma que, em 1310, foi presenteada com “amplos territórios” pelos reis de Leão e Castela. Apesar disso, quando, em 1312, D. Constança ficou viúva e morreu, D. Vatança decidiu regressar a Portugal e trocar os territórios e povoados que tinha perto de Tordesilhas pelo senhorio de Santiago de Cacém, que pertencia à Ordem de Santiago. Instalou-se no castelo de Santiago do Cacém e mandou construir em Sines, que na altura estava sob a alçada de Santiago do Cacém, a ermida de Nossa Senhora das Salvas. A partir do final da década de 1320, passou a viver sobretudo em Coimbra, onde D. Isabel I também vivia desde a morte de D. Dinis, em 1325. Foi em Coimbra que acabou por morrer, sendo sepultada na Sé Velha da cidade.
Quatro décadas após a morte de D. Vataça, Coimbra foi elevada a vila por D. Pedro I, que autorizou a construção de um castelo. Isso permitiu o desenvolvimento do porto e da própria localidade que, até então, tinha um pequeno número de habitantes. O primeiro alcaide-mor do castelo de Sines foi o pai de Vasco da Gama, Estevão da Gama, que fez obras “para melhor acomodar a sua família”. É por essa razão que muitos historiadores defendem que o navegador nasceu em Sines, embora não exista qualquer documento que o confirme. “O documento mais antigo onde aparece o nome de Vasco da Gama é a ata do seu crisma”, explicou o coordenador do Museu de Sines. “Ele foi crismado aqui, na Igreja Matriz. Teria uns 14 anos. O pai dele era alcaide-mor do castelo, portanto, viveu aqui na sua mais tenra infância. Isso está documentado”, salientou. “É provável que seja o lugar [do seu nascimento], porque era a terra a que ele tinha mais ligação, mas não temos 100% certeza.”
Prova da profunda ligação de Vasco da Gama a Sines foi que, após o seu regresso da Índia, em 1499, “voltou ao território das suas memórias mais antigas e, em agradecimento, pensamos nós, pelo bom sucesso da viagem, mandou construir a igreja, que era três vezes maior [do que a antiga ermida]”. A família de Vasco da Gama tinha uma grande devoção a Nossa Senhora das Salvas (tanto a mãe como os irmãos ofereceram paramentos e vestidos à imagem) e terá sido talvez por isso que o navegador escolheu construir uma nova igreja em honra da padroeira de Sines. “Lá fora, mandou por as suas armas e todos os seus títulos e [no interior, no teto,] o seu brasão, para termos toda a certeza que este edifício foi mandado construir por ele.”
▲ Ricardo Estevam Pereira é coordenador do Museu de Sines e uma das pessoas que mais sabe sobre a história da Igreja de Nossa Senhora das Salas
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Mas a história não termina aqui. Quando Vasco da Gama regressou a Portugal após ter identificado o caminho marítimo para a Índia, D. Manuel I, exultante com o sucesso da viagem, cobriu-o de ouro e honras. Presenteou-o com o título de Almirante dos Mares da Índia e prometeu-lhe o senhorio da vila de Sines. A promessa, firmada e confirmada várias vezes nos anos seguintes, mas nunca concretizada, deu origem a um conflito entre a Ordem de Santiago, à qual a localidade pertencia, e Vasco da Gama, o qual, cansado de esperar que D. Manuel I resolvesse a questão, decidiu ignorar os trâmites legais e instalar-se em Sines. Terá sido nesta altura que terá ordenado a construção da Igreja de Nossa Senhora das Lajes, na qual procurou integrar o que de melhor se fazia em Portugal, em termos artísticos e arquitetónicos, como o portal em brecha da Arrábida, feito no estaleiro do Convento de Jesus, em Setúbal, um dos locais que ajudaram a definir o estilo manuelino. O portal, com colunas em espiral, é “uma tentativa de recriação do portal do Templo de Salomão [em Jerusalém] tal como está descrito na Bíblia”, explicou o coordenador do Museu de Sines. Os medalhões exteriores, com as armas do almirante e o texto da fundação, são de pedra lioz, um tipo de calcário da região de Lisboa que foi usado no Mosteiro dos Jerónimos, mandado construir por D. Manuel I na praia de onde Vasco da Gama partiu para comemorar o sucesso da viagem à Índia. O interior da igreja seria igualmente rico, mas pouco sobra da decoração original. O painel de azulejos lisboetas que dá volta à igreja, que conta a história da vida de Nossa Senhora, foi instalado por volta de 1770.
A Ordem de Santiago, que era comandada por D. Jorge de Lencastre, primo em segundo grau do rei e uma figura influente no reino, não ficou nada contente com a mudança do navegador. Depressa começou a haver conflitos. “Houve um grande choque entre a família de Vasco da Gama e os seus criados e os criados do alcaide-mor do castelo de Sines. Houve rixas na rua e um criado de Vasco da Gama [Álvaro Pires] feriu, com um golpe de espada, um criado do alcaide-mor no ombro e na orelha.” Álvaro Pires foi perdoado pelo comendador e pelo próprio rei, mas isso não chegou para serenar os ânimos nas ruas de Sines. A situação ficou de tal modo explosiva que o rei foi obrigado a intervir e a expulsar Vasco da Gama, a sua família e os seus criados da vila. “Ninguém podia voltar sem autorização expressa do grão-mestre da Ordem de Santiago, o que nunca veio acontecer. A igreja ainda não estava acabada e as obras nas casas que estava a construir tiveram de ser paradas”, contou Ricardo Estevam Pereira.
▲ Embora a igreja tenha sido construída no século XVI, as decorações interiores são quase todas do século XVIII, incluindo o painél de azulejos pintados em Lisboa que conta a história da mãe de Cristo
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Para Vasco da Gama, a expulsão de Sines significou o fim do sonho de um dia residir de forma permanente na povoação onde passou os primeiros anos de vida. Quanto à promessa do rei de ter um senhorio, essa só foi cumprida em 1520, quando foi feito conde da Vidigueira, no Alentejo. “Ele morreu quatro anos depois, portanto, mal esteve na Vidigueira. Os seus descendentes, sim, estiveram. Construíram um paço e tudo mais”, lembrou o coordenador do Museu de Sines. Quanto à Igreja de Nossa Senhora das Lajes, a lápide de fundação refere que o edifício foi mandado fazer “pelo magnífico senhor D. Vasco da Gama, conde da Vidigueira, Almirante e Vice-Rei das Índias” em 1529. “Vasco da Gama morreu em 1524, portanto, não podia ter mandado fazer a igreja cinco anos depois de ter morrido, o que significa que a igreja só pôde ser sagrada nessa altura, porque, durante a vida dele, a Ordem de Santiago nunca deixou que isso acontecesse”, explicou Ricardo Estevam Pereira. “Em 1517, quando D. Jorge de Lencastre a visitou e viu aqui duas igrejas, a tal pequena ermida e a igreja, disse que era um escândalo que abandonassem a outra ermida, onde Nossa Senhora tinha feito tantos milagres, e que transferissem a imagem para a igreja de Vasco da Gama. Havia claramente uma má vontade da Ordem de Santiago contra ele”, que se manteve nas décadas seguintes. Em 1605, membros da ordem pediram a remoção das armas de Vasco da Gama da fachada do templo, porque a fundação do culto a Nossa Senhora das Salas não se devia ao navegador, mas sim a D. Vataça. Ironicamente, foi a igreja de Vasco da Gama que acabou por sobreviver e por se tornar o foco da devoção local a Nossa Senhora.
Um “tesouro desconcertante” na igreja de uma antiga “vila pobre de pescadores”
É impossível falar da história da Igreja de Nossa Senhora das Salas sem falar do seu Tesouro, o qual, embora pequeno, é de uma importância e riqueza extraordinárias. Ricardo Estevam Pereira considera-o mesmo “desconcertante”. “Estamos naquilo que sempre foi uma pobre vila de pescadores e, quando entramos no tesouro, não é nada disso que vemos”, explicou. A coleção é composta maioritariamente por peças de joalharia, principalmente por brincos e por alfinetes, em ouro e em prata, decorados com cristais e pedras semipreciosas como o topázio e a ametista. As jóias mais antigas remontam à segunda metade do século XVIII e as mais recentes ao século XIX. Entre estas últimas, encontram-se duas pulseiras que “têm paralelos no Museu do Louvre ou no Victoria and Albert” e que são um exemplo do que de melhor se produzia na altura na Europa em termos de joalharia. “Este porto era um porto oficialmente de pesca mas, no século XIX, com a Revolução Industrial e com a necessidade que os países da Europa Central tinham de importarem cortiça e outras matérias-primas, graças ao liberalismo, começou-se a exportar daqui laranjas para Inglaterra e, mais tarde, conservas. Isso levou a uma expansão enorme do porto e fixaram-se aqui famílias inglesas, catalãs e alemães com grandes recursos”, contou o coordenador do Museu de Sines. As duas pulseiras são um eco desse “mundo com grandes contactos internacionais”.
O Tesouro incluiu também relíquias e estatuária provenientes da Igreja de Nossa Senhora da Sala, da Igreja Matriz e de locais de culto entretanto desaparecidos, como a ermida de São Sebastião, que foram doadas por fiéis que não deixaram o seu nome por escrito. Uma das raras exceções é o relicário de São Sebastião, oferecido por D. Frei Manuel do Cenáculo. A partir de 1788, o fundador do primeiro museu nacional em Évora, que hoje ostenta o seu nome, começou a passar os meses de verão no castelo de Sines, onde compôs a maior parte das suas obras. “Em agradecimento pela forma como era recebido pelo governador militar, ofereceu um relicário com um fragmento de um osso de São Sebastião, porque a devoção do governador militar era a São Sebastião, que tinha uma ermida em Sines [hoje desaparecida], que era a ermida dos militares. É uma das poucas obras oferecidas que está claramente documentada”, explicou Ricardo Estevam Pereira.
▲ O rico Tesouro da Igreja de Nossa Senhora das Salas parece deslocado numa igreja antiga construída numa altura em que Sines era uma pequena vila pobre de pescadores
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Além destas peças, é possível encontrar, na pequena sala do lado esquerdo do altar, “este lado muito português do Menino Jesus, dos seus vestidos e adornos”. Numa das vitrinas, encontra-se exposto um pequeno vestido em seda com os respetivos sapatos em prata e duas coroas, uma delas para ser usada nos dias de festa. No centro da sala, encontra-se o melhor vestido de Nossa Senhora das Salas. Feita entre finais do século XVIII e inícios do século XIX, a peça em seda bordada a fio de ouro encontra-se atualmente num estado demasiado frágil para ser usada. “É do melhor que se produzia naquela época. Tem uma variedade enorme de pontos [de bordado], fio de ouro e aquilo a que chamamos vidrilhos, que são espelhos lapidados que imitam o brilho das pedras preciosas. Também tem um enorme simbolismo: temos a palma, que é o símbolo dos mártires e da vitória, porque está sempre verde e nunca morre; as rosas, porque Nossa Senhora é a mais perfeita das flores; os lírios brancos, um sinal de pureza; e as estrelas, que foram sempre associadas a Nossa Senhora, que é a estrela que mais brilha no céu, e porque, no Apocalipse, se fala de uma mulher vestida de luz com uma coroa de doze estrelas, que também foi sempre associada a Nossa Senhora. Portanto, temos quase um tratado de teologia neste vestido.” A impressionante riqueza desta peça e das restantes que fazem parte do Tesouro é indicativa do impacto regional que o culto a Nossa Senhora das Salas chegou a ter. Até 1960, existiram, ao longo de toda a faixa litoral, as Casas dos Romeiros, onde os peregrinos podiam ficar instalados. “Pelo menos em termos regionais, era um santuário importante”, disse Ricardo Estevam Pereira, sugerindo que “algumas das jóias mais antigas em ouro” possam ter sido oferecidas por “algumas famílias importantes do Alentejo”.
Para o coordenador, é muito importante “conservar o Tesouro de Nossa Senhora das Salas e alguns [objetos] órfãos perdidos [que pertenciam a igrejas e ermidas entretanto desaparecidas] dentro da própria igreja, ao lado da imagem, de forma a que se perceba o sentido disto tudo, ao mesmo tempo que a igreja permanece aberta ao culto”. “Há um texto de Proust que acho absolutamente magnífico que se chama ‘Em honra das igrejas abandonadas’ e em que ele diz que podemos ter uma igreja e por lá dentro os melhores atores do mundo a fazer a celebração, a melhor orquestra, o melhor coro e os melhores solistas a cantar, mas nada disso se compara ao que é genuíno. E aquilo que nós queremos ter é o genuíno”, frisou o responsável. “Temos o senhor padre Egídio, que, daqui a uns dias, vai estar a celebrar no altar, e vamos ter aqui a comunidade de Sines, a cantar melhor ou pior, mas com muita vontade”, dando assim continuidade a séculos de tradição.