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Três Toques da Rádio Observador com o jornalista Carlos Pedro. Fala, Carlos, bom dia.

Muito bom dia a todos.

Estás eclipsado?

Não estou.

Conseguiste ver? Não tinhas óculos.

Não consegui ver. Vi o início, porque emprestaram-me uns óculos. Estava na Alameda e conseguiram emprestar-me uns óculos e vi o início.

Onde eu estava, havia quem estivesse a dar óculos porque tinha a mais. Imagina.

Não tive essa sorte. Ainda tentei comprar, no limite, mas não consegui.

Eu partilhei muito o único que tinha, porque via muita gente que não tinha óculos e que tentou e ficava: "Epá, está a ver."

E a solução era essa, partilhar. Mas não consegui ver o eclipse e também não consegui fugir a esse tema incontornável para o Três Toques de hoje. Quanto ao eclipse, vou ter de esperar, pelo menos, até 2144. Mas há quem não tenha visto o eclipse por birra. Tal como em Portugal, o eclipse, um fenômeno extremamente raro, gerou, sem qualquer tipo de surpresa, muita expectativa também em Espanha. Eu vi nas redes sociais, por exemplo, cá em Portugal, vários apelos de farmacêuticos para que as pessoas parassem de ligar para as farmácias a perguntar sobre os óculos. Eu confesso que fui a quatro ontem e todas tinham um papel à entrada a dizer que não havia óculos, portanto, não tive de chatear ninguém.

Não tiveste de entrar, é isso que queres dizer.

Exatamente.

Houve até quem tivesse tirado senha prioritária, só para depois perguntar pelos óculos. Nós demos conta disso ontem. Eu ontem estive numa ótica, mas para outra questão, e nos 10 minutos que lá estive, terão entrado umas 80 pessoas a fazer a mesma pergunta.

Exato. E o dia de hoje, verdade seja dita, deve ser um alívio para estes farmacêuticos, que a certa altura contaram-me: "Já nem bom dia, nem boa tarde." Entrava alguém na farmácia e era logo: "Olá, não temos óculos." Foi, de facto, uma correria louca e percebemos o porquê. Mas Marcos Llorente, jogador do Atlético de Madrid, não percebeu. Ele odiou o histerismo que se criou à volta de um fenômeno tão raro como o eclipse. Ainda não tinha acontecido e já o Llorente nas redes sociais, é uma pessoa com muitos seguidores, descrevia a situação como um pesadelo. Ele partilhou mesmo nas suas contas que não só não ia adquirir os óculos, como não ia olhar para o céu. E se olhasse, seria sem óculos.

Ia bater o pé.

Exatamente. Só porque não se fala de outra coisa nos meios de comunicação social e porque o governo mostrou-se entusiasmado e preocupado em deixar os alertas à população que o traz. O Marcos Llorente utiliza até a expressão famosa "pão e circo" para classificar este entusiasmo demonstrado pelas autoridades espanholas. Pão e circo, para quem não sabe, é uma expressão que descreve uma estratégia de controle social baseada na alimentação básica e no entretenimento que possa distrair a população. E claro que foi isso que o governo espanhol quis com aqueles 18 ou 26 segundos, eu não sei quanto tempo é aquilo.

Que foram eles que organizaram toda a situação.

Exatamente.

Houve uma parte de Espanha que teve 100% 26 segundos.

Eu já fui aos jornais espanhóis esta manhã e aparentemente continua tudo igual. Mas no cafeante conveio estar atento, nem que não seja para ver as brutais fotografias do eclipse nos jornais espanhóis, mas no Observador as fotografias são melhores. O Marcos Llorente. Eu fui pesquisar mais sobre o jogador, porque ele é um jogador de causas e de convicções. Ele é um autodidata, segue um estilo de vida baseado nas suas próprias pesquisas. Onde é que já vimos isto? Parece ter um estilo de vida saudável, mas não é a primeira vez que tem opiniões polêmicas envolvendo o sol. Ele disse, por exemplo: "O câncer da pele pode afetar tanto aqueles que se expõem ao sol como aqueles que vivem numa caverna. Não vejo uma relação direta." Portanto, entre a exposição solar e o câncer da pele.

Ele tem coisas a acertar com o sol. Está alguma coisa mal resolvida.

Mas ele diz que toma banhos de sol sem proteção há 20 anos. É saudável, aparentemente, e o pai há 40. E se nada aconteceu com eles, não vai acontecer com mais ninguém.

Eu tenho um primo que...

Exato. É um jogador muito peculiar. Ele tem apenas lâmpadas com luz vermelha em casa.

Sem a luz azul dos ecrãs.

Exatamente. Na casa do Marcos Llorente, só se recebe a luz do sol durante o dia e quando não há luz do sol, tem lâmpadas com luz vermelha em casa. Durante aqueles segundos do eclipse, não sei se na casa dele se viu muito bem, provavelmente ligou a luz vermelha. Bebe também café com manteiga.

Café com manteiga.

Não sei se já fizeram isso.

Não, mas pode ser interessante. Não, mas o bolo de bolacha leva café e manteiga. É muito bom.

E o Marcos Llorente-

O café quente derrete a manteiga imediatamente.

Eu acho que o Marcos Llorente não come o bolo, mas bebe café com manteiga. Utiliza também óculos com filtro de luz azul em ambientes fechados. Isso é, no fundo, uma dieta muito rigorosa. Mas sabem quais são as três coisas favoritas deste jogador? Acho que uma delas, chegam lá: o sol. Depois, a família e a gastronomia. Sol, família e gastronomia são as três coisas favoritas de Marcos Llorente.

Nada contra.

Nada contra. Mas eu pensava, na realidade, que ele tinha alguma coisa contra o sol.

Pois, mas aparece como favorito.

É uma das coisas favoritas. Mas vamos continuar a falar do eclipse Parou por completo, ou melhor, parou por quase completo os países que foram afetados. Houve coisas a acontecerem durante o fenômeno, uma dessas coisas foi um jogo de futebol feminino. O amigável entre Barcelona e Montpellier, na Catalunha, teve como grande protagonista precisamente o eclipse, que só não captou a atenção das atletas. Já os adeptos deliciaram-se a olhar para o céu, tanto que perderam um dos gols. Eu deixei-vos o link dos vídeos. Há um vídeo que mostra uma imagem espetacular da lua à frente do sol atrás do estádio.

Estava tudo a olhar.

E foi de facto o protagonista deste jogo, o eclipse que eclipsou as pessoas. Eu queria só dizer isso, que eu vi ontem muitas vezes nas redes sociais as pessoas a dizerem: "Então, mas é só isto? É só a lua tapar a luz do sol?" Estava à espera de quê? Precisamente.

Não há fogos de artifício, não há uma musiquinha.

Não houve uma grande cerimônia. Não há um coro lá atrás a acompanhar.

Não há um brinde. Não há bandeirinhas, não há um canapé.

Não há. Eu queria só falar-vos muito rapidamente também de mais um episódio que aconteceu em Espanha, em Málaga. Houve outro jogo amigável, o Málaga-Fulham, e ao cabo dos 90 minutos registou-se um empate a dois entre os clubes. E era a valer um troféu, e como era a valer um troféu, tinham de desempatar de qualquer das maneiras. Normalmente temos os pênaltis, mas a verdade é que antes dos pênaltis, o treinador do Fulham foi expulso por protestos e toda a equipa acabou depois por abandonar o terreno de jogo. Isto no jogo amigável é muito estranho, não faz qualquer tipo de sentido. Mas havia um motivo muito forte para isso, embora insólito. É que o desempate por pênaltis não estava acordado entre as duas equipas e caso acontecesse, os ingleses iam acabar por perder o voo de regresso a casa. E então decidiram: "Nós não queremos este troféu pra nada, fiquem com ele".

"Nós temos que apanhar o voo".

"Nós temos é que apanhar o voo."

"Tenho um avião pra apanhar."

Exatamente. "Levem lá a taça." O Málaga acabou por vencer o próprio troféu e ainda foi bater um pênalti sem o guarda-redes. Só pra que conste. Ok, pelo menos marcamos um. Ganhamos um a zero, está documentado, está visto.

Carlos Pedro, obrigada por mais um "Três Toques". Até amanhã.

Adeus.