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Cabeleireiro com a cabeça entre Braga e Nova Iorque, António Variações foi um fenómeno que varreu a música portuguesa no início dos anos 80. Depois dele, vieram outros que o tentaram imitar ou que, inspirados por ele, tentaram seguir caminhos idênticos, mas Variações foi o único, irrepetível, o homem certo no momento certo, num país ainda a sacudir o pó e o cheiro a naftalina de décadas de ditadura.

Lançou apenas dois álbuns, mas também não precisou de mais. Em 1983, saiu "Anjo da Guarda" e, um ano depois, "Dar e Receber". O álbum saiu em fevereiro e alguns meses depois, a 13 de Junho, há precisamente 38 anos, António Variações morria no Hospital Pulido Valente, em Lisboa, com apenas 39 anos.

Deixou um legado imenso, que se tornou parte do nosso património colectivo, com uma canção que ouvimos, "O Corpo É Que Paga" ou "Esta É Para Amanhã", que bem podia ser o hino oficioso da nação.

Ao longo dos anos, foram muitas as homenagens feitas a Variações e muitos os artistas que pegaram no cancioneiro do artista e lhe deram novas roupagens. Em 1987, três anos após a morte de Variações, os Delfins fizeram uma versão da canção de engate, que se tornou tão ou mais célebre que o original.

E no mesmo ano, Lena d’Água foi mais além ou esteve "Mais Além".

Em 1994, para assinalar o décimo aniversário da morte de Variações, vários artistas juntaram-se num álbum de homenagem intitulado "Variações: as canções de António".

E havia Resistência, Sérgio Godinho, Madre Deus, Mão Morta, mas também havia a sublime versão do "Anjinho da Guarda" pelos Três Tristes Tigres. Um daqueles casos em que a versão é superior à original, digo eu, não sei se concordam, mas se não concordam, façam de conta que sim e desfrutem da voz de Ana Deus.

Ora, Tigres e bandas do Porto lembram o quê? Os Trabalhadores do Comércio, que em 1986 concorreram ao Festival da Canção, o nosso adorado Festival da Canção, com a canção "Os Tigres de Bengala".

Uma canção que chegou à final e à superfinal. Pois é, em 1986, houve uma superfinal com três canções. A vencedora foi "Não Sejas Mau Para Mim", de Dora.

E os Trabalhadores do Comércio lá ficaram fora do baile da Eurovisão. Acontece aos melhores. Falámos de tigres, trabalhadores e Porto, mas a canção de António Variações era sobre um anjinho da guarda.

E anjinhos da guarda, há muitos. Não confundir com Anjinhos da Guarda, capital de distrito, ou anjinhos da Guarda Nacional Republicana.

Quem não era anjinho, mas foi muito ajudado pelos anjos, foi o senhor Robbie Williams, que alcançou o maior sucesso da carreira a solo numa canção intitulada "Angels".

Robbie Williams, que era, para muitos, o elo mais fraco dos Take That, famosa boy band dos anos 90, rebentou com as tabelas de vendas com este single, retirado do seu primeiro álbum a solo. Alguém se lembra de qual foi o primeiro single a solo do artista?

Não.

Não?

Nada.

Pois eu sei, foi há muitos anos. Eu compreendo perfeitamente. Foi uma versão de "Freedom" de George Michael. George Michael queria libertar-se da editora, Robbie Williams queria livrar-se da sombra dos Take That.

Muito bem. Olha, vamos em frente com "Anjos". Lembram-se desta? Também é uma versão, mas é a versão mais conhecida desta música.

I see no need to take me home. I'm old enough to face the dawn. Just call the angel, the morning angel.

É um anjo da manhã. É um anjo madrugador, se calhar. Bom, a canção já tinha tido várias versões, nenhuma tinha tido tanto sucesso como esta da cantora country Juicy Newton. O vídeo de Angel of the Morning foi o primeiro de country a ser exibido na MTV, o que também ajudou à popularidade do tema.

Anos depois, o jamaicano Shaggy pegou na melodia da canção, juntou-lhe uns pozinhos e fabricou outro número um. Já sabem, na indústria musical, a reciclagem sempre foi muito popular.

E foi também graças a um anjo que os Eurythmics, banda de Dave Stewart e Annie Lennox, conseguiram o único número um da carreira no Reino Unido. There Must Be an Angel alcançou o topo em julho de 1985.

E eu que julgava que o maior sucesso dos Eurythmics era o Sweet Dreams, que depois foi aproveitada pelo senhor Marilyn Manson, provando, uma vez mais, as virtudes da reciclagem musical.

Nada se cria, tudo se transforma. Esta canção tem a particularidade de incluir a harmónica de Stevie Wonder, e nota-se, e de ter contado com a colaboração de Michael Kamen, que compôs muitas bandas sonoras para filmes de Hollywood, incluindo Arma Mortífera e O Assalto ao Reinoceres.

Isto está muito desequilibrado para o lado estrangeiro. E se falamos de anjos, temos de falar dos Anjos, claro.

João Miguel, temos de te agradecer o facto de teres lembrado os Anjos. Anjos, que são os irmãos Nelson e Sérgio Rosado, podiam ter o apelido Anjos, mas não têm, e que se atreveram a fugir do sétimo céu ou dos Sétimo Céu.

Explica lá isso.

Ora, eu vou explicar. Os Sétimo Céu foram uma boys band, estamos nos anos 90, andavam aí que nem cogumelos. A banda foi criada em 1997 pelos irmãos, e atenção a este twist, os irmãos Faria Gomes, de quem aqui já falámos há duas semanas, quando os rapazes eram mais conhecidos como Queijinhos.

Não sabia.

É verdade.

Quem diria? Começa-se cedo.

Começaram cedo.

E formaram uma banda da qual faziam parte, além dos irmãos Rosado, Pedro Camilo e Telmo Miranda. Vejam lá se se lembram desta.

Meu Deus, eu, para bem da minha idade, não me lembrava. Não sei se vocês se lembravam.

Não. Eu vi!

Mas com o fim da banda, dos Sétimo Céu, os irmãos Rosado bateram as asinhas e fizeram o próprio ninho, ninho angelical, bem entendido. Eu sei que passar de Variações para os Anjos não é propriamente uma evolução, reconheço, mas ao menos são anjos e nunca se sabe quando é que podemos precisar deles.

Estão aqui os Anjos a fechar a edição de hoje de "Uma Coisa Leva à Outra".