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Ora bem-vindos à segunda parte da Vici e Suaves. Esta semana há Congresso do Partido Socialista e a nossa convidada é Ana Catarina Mendes, que não vou dizer aqui os cargos todos pra ganharmos tempo de entrevista, mas além de fazer parte da atual direção, já foi ministra, já foi também secretária-geral adjunta do próprio Partido Socialista e atualmente é eurodeputada. Creio que assim a apresentação é quanto basta pra conversa que vamos ter. Faz parte da direção de José Luís Carneiro, como eu acabei de dizer, do Secretariado Nacional do PS, sem ser propriamente próxima do líder. Na altura, era necessário fazer essa integração e dar um sinal de unidade no momento em que foi definida esta composição.

Muito obrigada pelo convite para estar convosco esta tarde, na antecipação do Congresso, se é que assim podemos dizer. A minha avaliação quando o José Luís Carneiro me convidou, foi uma avaliação de um momento particularmente difícil para o Partido Socialista, onde considerei que era importante que todos nós pudéssemos contribuir para que o PS, na oposição, se possa reerguer. Na altura tínhamos o combate autárquico muito próximo para fazer e julgo que fiz bem e que era necessário que todos estivéssemos juntos neste momento.

E a segunda questão na decorrência disso é se faz sentido continuar nesse órgão de direção agora que o partido se reorganizou e tem liderança consolidada ou admite sair dessa primeira linha interna.

Sabe, eu estou sempre nas funções enquanto sinto que sou útil pra elas e que posso contribuir para a melhoria da vida do partido e, em consequência, a melhoria da vida das pessoas. Neste momento, essa questão não está em cima da mesa, nós vamos ter o Congresso. É um Congresso que eu espero que seja de reflexão política, de ambição pro país, de apresentação de bandeiras e de agenda para responder ao país, porque acho que há muita coisa a acontecer aqui na Europa. Tenho assistido a muitas ameaças à democracia. Acho que o Partido Socialista, como partido estruturante da nossa democracia, tem que liderar o combate à desinformação, o combate aos extremos, encontrar soluções pra vida das pessoas e é nisso que estou concentrada.

Mas Ana Catarina Mendes...

E veremos em que é que o Partido Socialista entende que eu deva ser útil nos próximos tempos.

Da sua parte, ainda tem contributo pra dar, é isso?

Como?

Ainda tem um contributo pra dar?

Eu acho que quando nós estamos na vida ativa política, temos sempre contributos pra dar. E eu espero continuar a trabalhar. Aliás, foi por isso também que apresentei uma moção ao Congresso Nacional do Partido Socialista, para que possamos discutir os grandes desafios que a Europa tem, porque desafios europeus são desafios portugueses também.

Há pouco falava se continuasse a ser útil. Pareceu-me que podia eventualmente não estarem a ser utilizadas as suas capacidades, no sentido de que se calhar estava no secretariado mais por uma questão figurativa e que não era chamada a essa participação.

Não, eu acho que nada disso. Eu não consigo estar nas coisas a meio termo e por isso estou no Secretariado Nacional, como disse, pra dar o meu contributo. Agora temos Congresso, o secretário-geral ainda não endereçou, tanto quanto sei, convites, cá estaremos pra conversar sobre isso na altura devida. Agora estou mais concentrada em contribuir pro debate e pra construção de uma agenda do Partido Socialista pro país.

José Luís Carneiro voltou a ser candidato único nestas diretas do PS. O partido está assim tão pacificado ou está deserto de alternativas?

Essa resposta é dada pela existência de um candidato. Apareceu um candidato, não apareceram mais e, portanto, acho que o que é preciso é olhar desta forma.

Mas isso quer dizer que não há alternativas, ou que as alternativas não estão interessadas, ou o partido está pacificado? O que isso quer dizer?

Rita, eu diria que toda a gente teve a oportunidade de se candidatar. Neste momento, há um candidato e há um secretário-geral eleito. Há um conjunto de noções setoriais que convocam o Partido Socialista para vários debates sobre vários tópicos. E, portanto, eu penso que aquilo que vai sair deste Congresso, é um Congresso com um secretário-geral eleito, com órgãos nacionais eleitos e com uma agenda definida pro país.

Há ainda uma terceira hipótese a estas duas que lhe coloquei pra esta falta de concorrência nesta altura, que é liderar um partido na oposição não é propriamente uma coisa atrativa. Há socialistas que aguardam por dias melhores.

O Partido Socialista teve sempre a capacidade de, na oposição, se organizar e de oferecer aos portugueses um contrato de confiança e um projeto de confiança pra o país. Não sinto que o país esteja adormecido, sinto que o país está a trabalhar na oposição e que o candidato que houve, foi o que houve. Essa pergunta talvez não seja boa pra mim, digo eu.

José Luís Carneiro deve ser o candidato do PS às próximas legislativas, sejam elas quando forem?

Ao dia de hoje, há um secretário-geral eleito. O secretário-geral eleito, havendo eleições legislativas, é o candidato.

Mas como toda a gente tem lembrado no Partido Socialista, as eleições legislativas ainda estão a uma distância de três anos e meio. O que eu lhe estou a perguntar é se ele tem o direito de ir a umas eleições nesse espaço de tempo, ou se não lhe dá essa garantia ser líder neste momento.

Sabe que eu acho que na política eu prefiro estar a falar o que há hoje é um secretário-geral eleito. É o secretário-geral eleito, havendo eleições legislativas, irá às eleições legislativas. Eu não sei o que é que vai ser daqui a dois anos, não sei se as eleições legislativas vão ser só daqui a três anos, não sei se vai ser daqui a um ano. Acho que estarmos a elaborar nesta tese é prematuro

Mas o José Luís Carneiro não é uma figura que a entusiasme para ser primeiro-ministro do país?

Rita, eu estou lhe a dizer que eu tenho um secretário-geral eleito, que foi eleito e que havendo eleições legislativas, no espaço em que for secretário-geral do Partido Socialista, em que é secretário-geral do Partido Socialista, qual é a dúvida de que será candidato a primeiro-ministro?

Deixe-me passar para a questão da reflexão pós-legislativas de 2025, que ficou adiada. Já devia ter acontecido, o Partido Socialista tem estado a perder tempo para se reposicionar?

Eu preferia que tivesse havido mais tempo para a reflexão. Na altura, aliás, disse isso. Acho que este congresso deve ser aproveitado para ser um congresso de debate, de reflexão e onde nós possamos também colocar em cima da mesa aquilo que foram momentos que nós dissemos que era preciso refletir. Eu acho, com franqueza, que o PS é um grande partido da democracia, tem sido sempre, tem contribuído sempre para soluções no país e deve aproveitar este momento do congresso, que é um momento alto da vida do Partido Socialista, para fazer balanços, fazer reflexões, mas, sobretudo, falar para o futuro. Quando eu digo que é preciso fazer uma reflexão e fazer debate, foi por isso que eu também entendi que fazia sentido apresentar uma moção setorial ao Congresso, fundada nas questões europeias, nos grandes desafios europeus. O PS celebra este ano a grande-

Deixe-me só interrompê-la, porque há também uma moção setorial ao Congresso, que tem socialistas de várias sensibilidades e que pede um distanciamento em relação ao PSD, que o partido saia de cima do muro, dos ses, dos nins. É aí que o José Luís Carneiro colocou o Partido Socialista, nalguma indefinição?

O José Luís Carneiro tem feito uma avaliação a cada momento daquilo que deve ser a posição do Partido Socialista. Eu acho que aquilo que é importante, mais do que isto, eu acho que muitas vezes olham muito para o Partido Socialista, como é que deve ser. Eu acho que o que é preciso que o Partido Socialista saiba é o que tem a apresentar aos portugueses e em que matérias é que fazia diferente. E eu devo dizer que aquilo que estou à espera é que haja uma oposição forte, como tem havido, de resto, em matérias como a saúde, onde o governo prometeu que era capaz de resolver os problemas em 60 dias, e é evidente que não conseguia, em matérias da habitação, onde o governo tem tido, do meu ponto de vista, alguma hesitação nas decisões que tem tomado e face à crise da habitação, é preciso que haja respostas muito concretas. Nós estamos neste momento com a guerra do Irão, com a possibilidade do aumento do custo de vida das pessoas e eu gostava de ver mais do que anúncios que o governo do PSD pudesse apresentar aos portugueses quais são as soluções que tem para mitigar os efeitos do aumento do preço dos combustíveis.

E a forma da oposição faz sentido? Ou seja, este envio de cartas ao primeiro-ministro é uma forma de fazer oposição que tem resultado?

É um estilo que eu não adotaria, mas é o estilo que o secretário-geral do Partido Socialista adotou. Isso não exclui, nem diminui, aquilo que deve ser o papel do Partido Socialista na oposição, como lhe digo. Há tantos problemas para nós falarmos, que mais do que estarmos a falar sobre a forma, é falar sobre o que é que vai sair do Congresso do Partido Socialista para resolver os problemas das pessoas. A Deco alertou ontem para o aumento substancial do cabaz alimentar. Quando houve a guerra na Ucrânia, o governo do Partido Socialista apresentou um conjunto de medidas para fazer face àquilo que era, desde logo, o IVA zero nos bens essenciais, a diminuição do preço do cabaz alimentar, a diminuição dos combustíveis. É disto que nós estamos a falar. O Partido Socialista, como partido estruturante da nossa democracia, tem que ser capaz de voltar a ganhar a confiança dos portugueses e ganhar confiança dos portugueses, não a discutir se a pessoa escreve uma carta ou não escreve uma carta, se faz um discurso melhor ou um discurso pior. Quais são as soluções que todos nós temos para o país? E muitos de nós, ao longo dos anos, não só nos últimos oito anos, temos experiência de autarquias, temos experiência de governo, temos experiência de parlamento e portanto, temos a obrigação de construir uma agenda que seja uma agenda capaz de renovar o contrato social com os portugueses e, sobretudo, de reconquistar a confiança daqueles que, por alguma razão, se afastaram de nós em 2025.

Ana Catarina Mendes, já disse que os-

Foi o pior resultado eleitoral que nós tivemos e, portanto, é preciso reconquistar as pessoas, não delapidar o patrimônio e o legado que nós temos dos últimos oito anos de governação, mas ancorados naquilo que fomos capazes de fazer, ter uma nova ambição para o país e ter novas soluções para o país. É nisto que eu estou mais concentrada. Se é uma carta a mais, se é uma carta a menos, o que me interessa mesmo é como é que eu vou resolver o problema da saúde, como é que nós vamos-

E nesse sentido tem dito que é preciso manter o diálogo, mas pergunto-lhe se existem condições para manter esse diálogo com o PSD, quando este partido se prepara para pôr o PS fora do arco constitucional

Eu tenho para mim que a democracia se faz do compromisso e do diálogo. A oposição desempenha o seu papel, ao governo cabe governar. No que ao Tribunal Constitucional diz respeito, eu começo por dizer o seguinte: o Tribunal Constitucional existiu e tem existido ao longo dos anos, e existe para garantir o cumprimento da nossa Constituição, para garantir que os direitos fundamentais dos cidadãos não são violados, para garantir que as maiorias conjunturais de um Parlamento não ponham em causa os princípios basilares do nosso Estado de Direito, da nossa democracia e da nossa Constituição. Dito isto, acho que era muito importante que o arco democrático do Parlamento pudesse escolher os melhores para desempenharem o lugar de juiz do Tribunal Constitucional, porque o Tribunal Constitucional não é para ser partidarizado. Aquilo que foi construído ao longo destes anos na nossa democracia, foi um equilíbrio de poderes que garanta que o Tribunal Constitucional continua a garantir o cumprimento da Constituição por parte dos diversos poderes políticos à cabeça. Aquilo que o PSD está a colocar em causa é, no seu direito legítimo, de dentro daqueles que lhe cabe designar, poder designar alguém indicado por um partido que é contra a Constituição, que é contra o nosso regime democrático, que é contra a democracia. E por isso, a minha grande surpresa com Luís Montenegro e com o senhor primeiro-ministro é como é que é possível que alguém queira, num lugar que fiscaliza e zela pelo cumprimento da Constituição, ter alguém que é completamente ao contrário. E, portanto, isso é uma rutura com os princípios basilares do nosso Estado de Direito, mas é uma opção política do primeiro-ministro. Eu já tive a oportunidade de dizer anteontem, há a possibilidade, até à escolha dos juízes, de que o PSD possa escolher o arco democrático no Parlamento para essa eleição.

E se isso não acontecer, o Orçamento de Estado deve ser colocado em causa?

Não acho que nós possamos colocar as questões dessa maneira. Não acho mesmo que devemos colocar as questões dessa maneira, porque as eleições para os órgãos externos e, em particular, para o Tribunal Constitucional, não têm a ver com a gestão daquilo que é a agenda política normal. Nós não conhecemos o orçamento. O senhor Ministro das Finanças hoje vem dizer que está muito satisfeito com os 0.7 para a seguir, duas horas depois, vir assumir que em 2026 podemos voltar aos défices. É preciso perceber que o Orçamento do Estado da almofada que foi deixada pelos governos do PS, ao longo destes dois anos, foi sendo desbaratado. Vamos ver como é que o governo vai reagir a este possível aumento de custo de vida dos cidadãos e, portanto, eu não misturava aqui essa discussão e já também tive a oportunidade de dizer: a política não pode ser feita de trincheiras nem de ultimatos. Mas é feito um apelo a que o equilíbrio dos poderes, o equilíbrio do Tribunal Constitucional, não seja colocado em causa por questões partidárias, porque isso é voltar ao contrário aquilo que tem sido o entendimento de todos, desde os professores de Direito Constitucional aos primeiros-ministros do PS ou do PSD. Tem sido assim ao longo dos anos, considerar que este é um órgão que não é partidarizado e não pode ser partidarizado, a bem dos direitos fundamentais de todos nós.

Mas como consequência, o PS não ser incluído e agora não conseguir um juiz, nunca deve ser esse corte até para debates alargados, para diálogos, quer que seja uma reforma da Justiça, ou pactos de saúde, ou para o pacto de imigração e asilo também que falou. Ou seja, não se deve cortar o diálogo mesmo com o Partido Socialista.

Eu dou-lhe exemplos dos quais, mesmo que não fosse o Tribunal Constitucional, não me parece que haja qualquer ponto possível com o governo por vontade própria do governo. Isto é, em matéria de imigração. Não, estou a lhe dar, por exemplo, em matéria de imigração, todas as medidas que foram tomadas pelo governo, a última das quais a semana passada, a Lei do Retorno, hoje votado no Parlamento Europeu, a possibilidade de agilizar as regras do retorno, de colocar crianças menores não acompanhados, sem os pais, deixados ao abandono num Estado, porque os pais são deportados. A extrema-direita a dizer: "Finalmente chegou a era da deportação de imigrantes." Sabe como é que votou o PSD aqui no Parlamento Europeu? A favor deste diploma. E, portanto, não me parece que queira haver uma construção em matéria de migrações para fazermos pontos nessa área. Falou na questão da Justiça. Não me parece que o doutor Luís Montenegro queira fazer qualquer reforma da Justiça. Aliás, tudo o que eu ouço do doutor Luís Montenegro sobre a Justiça tem sido contra a Justiça Tem sido tudo.

Mas o PS não deve, como consequência ou como castigo, se quiser, de não ser incluído agora nesta escolha de juízes, à partida, retirar-se dessas conversas. No fundo, era essa a minha pergunta.

A democracia não se faz com ultimatos, faz-se com alternativas. Se o PSD fizer essa escolha, é, do meu ponto de vista, uma escolha errada e o PS tem que continuar a combater os extremismos, tem que continuar a defender a democracia e o Estado de Direito, tem que continuar a trabalhar numa alternativa, porque a democracia se faz de alternativas, para voltar a ser poder, governar e poder resolver os problemas das pessoas.

Ana Catarina Mendes, o presidente da República devia intervir em defesa desse arco democrático, como lhe chama?

Sobre isso, posso dizer-lhe duas coisas. Primeiro, a figura do Presidente da República é a figura que tem uma influência de equilíbrio e de bom funcionamento da magistratura, de influência de bom funcionamento do nosso Estado de Direito. Mas eu quero só recordar que, recentemente, o senhor presidente da República foi eleito por dois terços de democratas em Portugal, portanto, estou convicta que defenderá o Estado de Direito, a legalidade e a nossa democracia.

Mas devia ter uma intervenção, devia ser audível neste momento sobre esta questão muito concreta?

Não compete ao senhor presidente da República colocar-se na esfera de outros órgãos de soberania.

E acredita que com António José Seguro em Belém, que tem valorizado muito a questão da estabilidade política e do cumprimento dos mandatos, o PS fica com um caminho mais estreito para fazer oposição ao governo?

Não. Não me parece que quando o doutor Mário Soares foi presidente da República tenha impedido o engenheiro Guterres de fazer oposição ao professor Aníbal Cavaco Silva.

Ele ajudou nessa oposição, na altura, não é? Até com o governo de Cavaco Silva.

Mas cada um dos presidentes da República terá o seu estilo e intervirá da forma que entender intervir. Não acho que a existência de um presidente da República, que vem da ala do Partido Socialista, mas que foi eleito, volto a dizer, por dois terços de democratas em Portugal, possa coartar em algum momento a ação do Partido Socialista e a forma como o Partido Socialista funciona. Mal estaríamos se um presidente da República pudesse influenciar a forma como os partidos funcionam ou como o partido funciona. Coisa diferente é o senhor presidente da República apelar ao bom senso do governo, por exemplo, na legislação laboral, para que se sente com os parceiros sociais e para que encontre uma solução que não seja uma solução como a que está em cima da mesa, que vai contra os trabalhadores. É diferente. Esta é a sua magistratura de influência a trabalhar para garantir que os trabalhadores também veem o direito ao trabalho.

Mas, por exemplo, imagine, se o PS um dia chegar à conclusão que a solução é uma crise política, umas eleições antecipadas, vê António José Seguro alinhado com essa estratégia?

Rita, sabe que em tempos o doutor Durão Barroso saiu para a Comissão Europeia e a minha expectativa como socialista era que o senhor presidente da República, Jorge Sampaio, convocasse eleições. O senhor presidente da República, Jorge Sampaio, entendeu que devia designar o doutor Santana Lopes. Os meus desejos valem pouco naquilo que é o saber interpretar o papel do Presidente da República, quais são as funções que o senhor Presidente da República tem, avaliar o momento político do seu país, garantir o funcionamento das instituições, garantir que o nosso Estado de Direito não é beliscado e garantir que a democracia funciona. E depois, a cada momento, fazer a sua avaliação.

Ana Catarina Mendes, o PS é dos poucos partidos que nunca teve uma mulher como secretária-geral. Era importante que desse esse passo num futuro próximo?

Acho que um dia o Partido Socialista lá chegará. Tem muitas mulheres que estão no Partido Socialista com enorme valor, umas mais conhecidas, outras mais anônimas. Um dia chegará a altura do Partido Socialista também ter uma mulher à frente do PS.

E admite que essa mulher possa ser a Ana Catarina Mendes?

Ora, eu agora estou aqui preocupada em fazer o meu trabalho no Parlamento Europeu e ajudar o Partido Socialista a encontrar uma alternativa credível e um projeto credível para o país.

Nos nomes de futuro, tem sido apontado muito o nome de Duarte Cordeiro. Acha que pode ser um potencial futuro líder do Partido Socialista?

Acho que falarmos disso neste momento, quando temos um congresso que começa daqui a dois dias com um secretário-geral eleito há 15 dias, não me parece correto.

Mas deixe-me insistir então com outro, porque há uma figura muito popular da esfera socialista, que é Mário Centeno, saiu esta semana do Banco de Portugal, tem sido sempre apontado aos lugares cimeiros em termos de popularidade. Apesar de não ser militante, o futuro da liderança do PS pode passar por Mário Centeno?

Também acho que estamos a antecipar cenários. Dito isto, acho que o professor Mário Centeno tem dado provas em todos os locais que ocupou, de grande competência, grande inteligência e grande capacidade de ler o mundo. Como digo, não vale a pena estarmos a antecipar cenários neste momento. Todas as pessoas de que está a falar são pessoas com as suas virtudes e as suas competências, mas acho que não devemos colocar isso em cima da mesa hoje.

Então, voltando ao atual secretário-geral do partido.

Meu Deus.

Ia lhe perguntar se compreendeu a visita de José Luís Carneiro à Venezuela, há cerca de uma semana, que foi questionada por alguns colegas seus no Parlamento Europeu.

Eu acho que o secretário-geral do Partido Socialista, usando do seu conhecimento enquanto foi secretário de Estado das Comunidades da Comunidade Portuguesa, entendeu que devia ir prestar solidariedade à sua comunidade e que devia tentar fazer algumas reuniões para a libertação dos presos políticos. Eu, no lugar do secretário-geral do Partido Socialista, talvez não tivesse ido neste momento, mas entendo a sua vontade de estar junto da comunidade portuguesa.

Atrapalha de alguma forma o trabalho que os eurodeputados portugueses, inclusive os do Partido Socialista, têm feito na questão da Venezuela?

Não. Sejamos claros. A intervenção dos Estados Unidos na Venezuela é uma intervenção a todos os títulos que viola o direito internacional. Nós não achamos, porque não gostamos de um ditador, que o retiramos do seu lugar e designamos uma outra pessoa, nós, outro estado qualquer designa uma pessoa.

Então ainda foi bom não acontecer a reunião com Delcy Rodríguez.

Também acho que devemos condenar sempre tudo aquilo que Nicolás Maduro representa, representou e do mal que fez. Nós estamos a falar de muitos milhões de pessoas que foram torturadas ou de muitos milhares de pessoas que ainda hoje estão presas. Sobre a Venezuela, isso não atrapalha o nosso trabalho que temos aqui feito. Aliás, são colegas meus que têm estado nestas relações também com a América Latina e continuamos a fazer o nosso trabalho defendendo o direito internacional.

O que lhe perguntava era como Delcy Rodríguez foi supostamente colocada pelos Estados Unidos, até foi bom o secretário-geral do PS não ter conseguido ter esse encontro para a imagem pública internacional do Partido Socialista.

Neste momento eu não quero comentar.

Muito bem. Como já estamos muito em cima, ainda vai regressar. Íamos agora à fase do cardápio. Tem que escolher uma, duas opções, vamos ver se não fica com fome e a seguir vamos à nossa sobremesa, que é a música que nos trouxe, mas antes disso, muito rapidamente, vamos à fase do cardápio. Vamos a isto. Ana Catarina Mendes, quem convidaria para ministro de Estado, caso um dia fosse primeira-ministra? Fernando Medina ou Eduardo Cordeiro?

Cabiam os dois.

Dois vícios.

Já houve vários ministros de Estado, têm os dois perfil.

Quem levava como companhia a um concerto dos Trovante, Pedro Nuno Santos ou António José Seguro? Há um que foi.

Quer dizer...

Tem que escolher um.

Eu, na verdade, como fui com vários amigos ao concerto dos Trovante, não sei. Ia com os dois.

Ao voltar de avião de Bruxelas, preferia que viesse ao seu lado António Tanger Correia ou Jordan Bardella?

Nem eu, nem outro, que o lugar fique vazio. Não. Tanger Correia.

Se fosse líder do PS na oposição, preferia negociar com o primeiro-ministro Passos Coelho ou o primeiro-ministro Luís Montenegro?

Puxa, tarefa difícil. Tarefa muito difícil.

Não há um melhor que outro para negociar?

Eu estive no Parlamento no tempo do doutor Passos Coelho e para negociar qualquer coisa com o PSD era muito difícil e era o líder parlamentar Luís Montenegro. Não foi tarefa fácil com nenhum dos dois. Olhe, não sei escolher.

Ana Catarina Mendes, chegamos assim ao fim agora e ia-lhe só perguntar o porquê da escolha que nos trouxe, a inquietação do José Mário Branco. Não sei se tem a ver com o estado atual do Partido Socialista ou se é só inquietação permanente dos socialistas.

Tem a ver com o estado atual do debate político em Portugal e na Europa, tem a ver com o crescimento dos extremos, que me está a preocupar, e tem a ver com uma coisa que o José Mário Branco dizia quando explicava esta música. A inquietação é o que nos dá capacidade para continuarmos a lutar e é essa a minha batalha, continuar a lutar para que o Partido Socialista seja mais forte, mais capaz de dar respostas às pessoas e que volte a ter a confiança dos portugueses.

É verdade, a música também diz que há sempre qualquer coisa que está para acontecer. Vamos ver o que é no Congresso do Partido Socialista. Lá estaremos, Ana Catarina Mendes. Muito obrigado. O "Vício e Suave" regressa como sempre na próxima semana.

"A contas com o bem que tu me fazes. A contas com o mal porque passei. Com tantas guerras que travei, já não sei fazer as pazes. São flores aos milhões entre ruínas. Meu peito feito campo de batalha. Cada alvorada que me ensinas. Oiro em pó que o vento espalha. Cá dentro inquietação, inquietação. É só inquietação, inquietação. Porque não sei, porque não sei, porque não sei ainda. Há sempre qualquer coisa que está para acontecer. Qualquer coisa que eu devia perceber. Porque não sei, porque não sei. Porque não sei ainda." Ensinas-me a fazer tantas perguntas na volta das respostas que eu trazia. Quantas promessas eu faria se as cumprisse todas juntas. Não me largues esta mão no torvelinho, pois falta sempre pouco pra chegar. Eu não meti o barco ao mar pra ficar pelo caminho. Cá dentro inquietação, inquietação. É só inquietação, inquietação. Porque não sei, porque não sei, porque não sei ainda. Há sempre qualquer coisa que está pra acontecer, qualquer coisa que eu devia perceber. Porque não sei, porque não sei, porque não sei ainda. Cá dentro inquietação, inquietação. É só inquietação, inquietação. Porque não sei, mas sei é que não sei ainda. Há sempre qualquer coisa que está pra acontecer, qualquer coisa que eu devia perceber. Porque não sei, mas sei é que não sei ainda. Há sempre qualquer coisa que eu tenho de fazer, qualquer coisa que eu devia resolver. Porque não sei, mas sei que essa coisa é que é linda.