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Olá, bem-vindos à Vício e Suave. O meu nome é Miguel Santos Carrapatozo, sou jornalista e editor adjunto de política do Observador. Tenho ao meu lado o dissolvente mor da telefonia portuguesa, o editor da rádio João Alexandre, e dois dos pilares da seção de política, as jornalistas Mariana Lima Cunha e Rita Penela. É esta maioria negativa que me vai ajudar a explicar uma semana em que Marcelo Rebelo de Sousa carregou finalmente no botão nuclear e não deixou pedra sobre pedra. Atingiu em cheio Rui Rio, que apesar de todas as pressões para antecipar as legislativas, terá mesmo de se preocupar com a sombra de Paulo Rangel. Atingiu em cheio a esquerda, que passou a última semana a culpar António Costa, Marcelo e até quem sabe Pedro Passos Coelho pelo chumbo do orçamento, e atingiu em cheio António Costa, que viu Marcelo Rebelo de Sousa a dizer que a geringonça morreu e que dificilmente ressuscitará. E logo Costa, que não perde uma oportunidade de dizer que ainda há estrada para andar. É possível que sim, mas Costa arrisca-se a ficar na berma e dar lugar a outro. Marcelo, curiosamente, só não atingiu Rebelo de Sousa. Toda a gente sabe que o presidente é presciente, omnisciente e magnânimo.

Encontro-me em condições de vos comunicar que decidi dissolver a Assembleia da República e convocar eleições para o dia 30 de janeiro de 2022. Confio em vós, no vosso patriotismo, no vosso espírito democrático, na vossa experiência, no vosso bom senso. Portugueses, ouvi os partidos políticos e o Conselho de Estado.

A ideia é que está a pôr à frente os interesses nacionais conveniências de candidaturas à liderança dos partidos da direita.

Foi da parte do governo, o senhor primeiro-ministro quem não pretendeu ter no processo de discussão do orçamento de Estado, um orçamento capaz de responder ao país.

Não era a data que preferíamos e a data que tínhamos indicado, como aliás a generalidade dos partidos. Compreendemos, porém, os argumentos que o senhor presidente da República aqui apresentou.

Respeitamos a decisão do senhor presidente da República na sua plenitude.

Começar debates na altura do Natal e do Ano Novo não seria certamente um bom serviço prestado.

Francisco Rodrigues dos Santos é o líder do CDS. Formalmente, o mandato mantém-se até 26 de janeiro, mas mantém-se obviamente, assim em qualquer partido, até ser substituído.

Pois, exatamente, é isso que eu estou a dizer.

Com quem é que ficamos? Afinal, quer as diretas mais tarde ou mais cedo? Agora estamos confuso.

Agora fiquei atrapalhado porque pensei que tinha sido claro e não fui claro.

Nós aqui também nos atrapalhamos de vez em quando e nem sempre nos conseguimos explicar bem, mas não é por isso que deixamos de tentar. Venha daí a refeição mais deliciosa da política portuguesa. João Alexandre, começo por ti com uma sopa que escolhi para tu comentares, a sopa de cianeto. E para falar de Marcelo Rebelo de Sousa e da sua declaração ao país. Sentiste muito veneno naquelas palavras do presidente da República?

Posso dizer que senti numa passagem, não consigo agora dizer ipse verbis, mas foi quando Marcelo Rebelo de Sousa explicou que a decisão dele era uma decisão que além de ponderada, na ótica dele fundamentada, era uma decisão que tinha muito que ver com aquilo que tinha sido as dificuldades de entendimento da esquerda, que Marcelo Rebelo de Sousa, atirando já para o futuro, diz que são desentendimentos de fundo, que não são de circunstância e que são inultrapassáveis. Averiguamos depois das eleições se são mesmo ou não, mas Marcelo Rebelo de Sousa pelo menos já deixou claro na comunicação que fez ao país que em caso de um cenário em que o Partido Socialista venha a vencer as eleições, mas com uma maioria relativa, que não uma maioria absoluta, e com a necessidade de fazer entendimentos, que Marcelo Rebelo de Sousa, a verificar-se esse cenário, vai exigir acordos escritos, à semelhança do que vimos em 2015, 2016. Portanto, o presidente da República creio que de alguma forma explicou, pelo menos ao país, que ele já acompanhava este dossiê daquilo que era a falta de entendimento entre o Bloco de Esquerda, o PCP e o Partido Socialista, nessas relações que são sempre bilaterais, que não há reuniões conjuntas porque o PCP e o Bloco não se reúnem, não comunicam também, e há sempre ali essas relações bilaterais do PS com o Bloco e do PS com o Partido Comunista. Mas creio que Marcelo Rebelo de Sousa Conseguiu com a comunicação que fez não dar argumentos a quem queria defender que o presidente da República estava a ir na onda daquilo que eram os conflitos internos dos partidos. Creio que conseguiu justificar por que dissolveu o Parlamento, por que decide convocar eleições antecipadas e não avançar para um cenário de permitir ao Partido Socialista e ao governo que apresentassem um novo orçamento do Estado, que era algo que o Partido Comunista vinha já a dizer também depois desse chumbo do orçamento na generalidade. Portanto, eu acho que Marcelo Rebelo de Sousa, ao contrário daquele som que ouvimos do Rui Rio, conseguiu clarificar um pouco as coisas. Não sei se consegue tornar mais tranquilo o debate, até porque estamos agora a falar de um momento muito conturbado no CDS, um momento muito conturbado no PSD. António Costa que parece desaparecido em combate, mas acho que conseguiu de alguma forma clarificar alguma coisa com a comunicação que fez ao país, e isso já não é mau.

Tu usas a expressão clarificar, eu vou usar outra expressão para chamar a Rita Penela para a nossa conversa. Achas que Marcelo Rebelo de Sousa branqueou o seu papel em todo este processo? Porque a determinada altura parecia que não tinha tido nada a ver com isso, que fez tudo ao seu alcance para evitar esta crise, quando nós nas últimas semanas temos discutido precisamente o contrário. Se Marcelo Rebelo de Sousa, ao discutir um cenário de eleições antecipadas muito antes do tempo, não terá também ele precipitado o chumbo do orçamento.

Eu acho que o presidente da República já pode lançar uns módulos de como apagar as últimas semanas, porque à direita há quem vá precisar disso depois das eleições internas e creio que aqui uma formação, uns módulos de como num discurso apagar tudo o que se fez recentemente pode ser útil.

Não quis ser juiz em causa própria, deixou para os outros.

Sim, mas foi conveniente. Não houve ali um único ato de contrição, nem uma sombra disso.

Não precisa, está acima e é isso que fica. Está aqui noutro plano.

Na verdade, também não pode ser candidato, nem ir a votos novamente.

Lançou o caos e de repente caiu mesmo. A dissolução avança no fim do mês para contar os tais 60 dias, mas parece que não aconteceu nada e saem bem toda a gente acha que o discurso foi ótimo e que apontou todas as coisas. Eu, por acaso, acho que foi mais uma jogada de Marcelo, daquelas estratégias bem delineadas desde o início e que este discurso também já estava pensado há muito tempo. Não que isso surpreenda alguém, aquilo que eu estou a dizer aqui, mas claro que as balas saíram. Estão a ver aqueles filmes que faz aquela câmera lenta e ele desvia-se das balas? É um bocado essa a imagem daquilo que aconteceu ontem, ao contrário dos líderes partidários à direita, que terão mais dificuldade.

Antes de irmos à direita, vamos falar também um pouquinho sobre a esquerda e se Marcelo deu uma de ficção científica, na verdade, a esquerda tem aqui uma grande dificuldade em contar uma nova história na próxima legislatura. Mariana Lima Cunha, tenho pra ti uma canja de galinha, porque atendendo ao que disse Marcelo Rebelo de Sousa, nós falávamos há pouco de parte do discurso do presidente em que fala em divergências inultrapassáveis. Canja de galinha porque a esquerda, e aqui incluindo também o PS, fica muito fraquinha depois disto, ou não?

Estava muito curiosa para saber onde é que esta tábua nos leva.

Gostaste do suspense?

Sim, estive aqui ao teu tempo no troféu. Viu-se que planeaste isso com afinco. Nós hoje temos a primeira sondagem que ainda é de alcance muito limitado, porque o trabalho de campo foi feito a partir do dia seguinte ao do chumbo, portanto a coisa é muito quente, e mesmo a amostra ainda é limitada, mas acredito que haja alguma esquerda que está a olhar com algum alívio para a sondagem de hoje. Por exemplo, no Bloco de Esquerda havia alguma preocupação de que os eleitores, pelo menos aqui na fase da cabeça quente, depois de terem visto o chumbo do orçamento, se zangassem e transferissem o seu voto, neste caso muito provavelmente pro PS. E estes primeiros indicadores podem fazer com que a esquerda pense que ainda tem aqui uma oportunidade de se encarar bem esta campanha e se agarrar bem o discurso da campanha e aí vai ser essencial rejeitar a narrativa. Cada um vai tentar rejeitar a narrativa de culpa pela crise que ainda possa estar a faltar coisa.

Estás a antecipar-te a outras perguntas. O que eu te perguntava é se de fato estas divergências inultrapassáveis de que Marcelo fala são ou não inultrapassáveis.

Sim, eu dizia isto pra chegar aí no sentido em que se ficar tudo na mesma, que é o que a tal sondagem prevê, as alternativas são ou de fato os partidos voltam a entender e PCP e Bloco de Esquerda pode ser discurso eleitoral ou não, mas garantem que há espaço pra que isso aconteça, que têm vontade disso. E também há outro fator em que podem apostar, que é a esquerda que parece que sai daqui fragilizada e com menos força negocial. Agora aquilo com que pode tentar jogar são até fatores que têm a ver com o PS e com António Costa, que é se o instinto de sobrevivência de António Costa e sua vontade de conseguir governar e de cumprir o programa que era desta legislatura, pelo menos até ao fim, o vai fazer de fato flexibilizar algumas posições ou ir mais ao encontro das posições da esquerda do que foi até agora. Eu acho que há alguma esperança disso na esquerda, aliás, muito a olhar, por exemplo, pro caso de Espanha, que chegou à revogação da Lei Liberal. Agora, isto são obviamente tudo cenários em que tem de haver uma vontade verdadeira de negociar, não pode ser só discurso eleitoral das partes todas, e cenários em que o PS não atinja a maioria absoluta, que eu diria que com o Parlamento tão fragmentado será sempre difícil.

Rita Penela, achas que António Costa tem razões pra ainda ter esperança numa solução à esquerda?

Ou ao contrário, se a esquerda ainda tem esperanças, ainda deve ter esperanças de se reencontrar com o PS.

Que o PS ceda em algumas coisas. A resposta política é: os portugueses dirão. Ainda pode chegar esta carta.

É sempre engraçado tentar perceber se o PS se reencontra ou não com a esquerda, tendo em conta que tem o nome de Partido Socialista. É sempre uma questão interessante que vamos debatendo ao longo dos anos.

Dava pano pra mangas, podemos perguntar se o PS é socialista ou social-democrata, mas acho que os nossos ouvintes não querem exatamente essa discussão agora.

Uma dissertação teórica sobre isso. Parece-me que será mais difícil hoje, depois destas legislativas, do que foi em 2015. Isso parece-me bastante claro. Até porque depois deste braço de ferro, e ouvimos, por exemplo, o PCP dizer que o PS não cedeu, porque aquilo que cedeu eram bandeiras do PS, e portanto, a deixar aqui também muito claro que precisa de mais, que quer mais e que está muito fechado, parece que estão a tentar direcionar o discurso para a oposição novamente e deixar isso bem claro, até porque têm que ir às urnas e de alguma forma não lhes convém perder ainda mais o eleitorado. E o Bloco sempre, acho que toda mundo percebe que não é propriamente o parceiro com quem o PS gosta mais de negociar e de dar a mão. Não sei se será suficiente, no caso de um PS minoritário, e assumindo que o Partido Socialista consegue mais votos do que qualquer um partido da direita, consegue depois quebrar esse muro que entretanto cresceu e com este discurso voltando atrás, Marcelo Rebelo de Sousa ainda por cima aqui.

Fica mais difícil.

Sim.

João Alexandre, tu há pouco dizias uma coisa engraçada, que António Costa está desaparecido em combate. Achas que o ainda primeiro-ministro está divertidíssimo a assistir à direita em convulsão, Marcelo Rebelo de Sousa autojustificativo, esquerda a queixar-se e muito preocupada com o futuro que aí vem e António Costa em silêncio? Achas que ele está divertidíssimo a assistir a isto tudo?

Eu ainda ontem coloquei essa questão também aqui numa emissão especial que fizemos pra acompanhar a declaração do Presidente da República ao país e no painel que tínhamos conosco aqui na Rádio Observador, eu coloquei essa questão e pelo que me recordo, as respostas eram mais ou menos essas, que sim, António Costa estaria muito satisfeito a esta hora a comer pipocas na cadeira, a assistir a tudo aquilo que está a acontecer.

Parece que toda a gente se esqueceu que é um primeiro-ministro que caiu.

Por um lado, pode ser bom, porque pode querer dizer que o governo está preocupado em governar e que não quer entrar em tudo isto. Obviamente que o governo querer estar preocupado em governar e não querer estar no meio deste debate, também é ótimo pro governo e pra António Costa, porque a imagem que passa pra opinião pública é de que há aqui esta convulsão. Qual era a expressão utilizada por Rui Rio ontem na entrevista? Uma balbúrdia. Dizia Rui Rio: uma balbúrdia no PSD, uma balbúrdia no CDS. Entretanto, há este ônus também no PCP. Diz, Mariana?

É aquela técnica Milmar que se chama fazer de morto.

Sim, quando passa um animal feroz, às vezes o melhor é uma pessoa fingir-se de morta. Não sabemos quem é aqui o animal feroz. Não sei se é o presidente da República, não sei. Vamos daqui começar a imaginar. Mas creio que é um bom momento pra António Costa, porque se não se está a falar neste momento do governo, de crise no governo, de remodelação no governo e daquilo que podem ser as dificuldades do governo logo no início do ano, a pressão por parte das forças sindicais também, por exemplo, pra aumentar já no dia um o salário mínimo, as pensões, a esquerda dizer que não vai suportar essa ideia de o Partido Socialista agora deitar fora tudo aquilo que foram já alguns entendimentos que foram alcançados. Os sindicatos também já foram por esse caminho a dizer que não lhes passa pela cabeça que aquilo que foi acordado à esquerda, com a esquerda parlamentar e que foi discutido na concertação social, que agora tudo caia por terra.

Mas é que, desculpem interromper-te.

Só pra terminar. Portanto, acho que António Costa, sim, está feliz da vida, o PS está feliz da vida nesta altura, pelo menos durante mais algumas semanas.

Não, ia te interromper, porque até os sindicatos estão a ajudar, porque entretanto as greves foram todas descansadas.

É verdade.

Tá tudo espetacular.

Porque não há com quem protestar.

Pois, de repente.

E alguns protestos tinham que ver com audições no Parlamento de ministros que iriam também mais falar sobre o orçamento do Estado perante os deputados, etc. Como não há governo a apresentar orçamento, como não há governo a explicar o orçamento e a debater o orçamento com deputados, entretanto, foram também desconvocados esses protestos. Portanto, creio que é um bom momento, ainda que circunstancial também de António Costa, porque Rui Rio já deixou esse aviso. O PS parte com algumas semanas de vantagem, mas o PSD vai estar mobilizado.

É isso. Balbúrdia, disseste tu, João Alexandre, citando Rui Rio. Mariana, uma última sopa pra ti e para servimos muito rapidamente uma sopa de batata. Ou seja, Marcelo Rebelo de Sousa atirou as eleições pra 30 de janeiro e deu luz verde a Paulo Rangel e a Rui Rio e ao PSD e ao CDS, se quisermos também trazer pra aqui o CDS, pra andarem todos à batatada, porque agora não faltará tempo para haver uma clarificação interna. Achas que o que vai resultar, e vamos deixar o CDS pra outras núpcias, porque já teremos tempo no futuro falar sobre isto, mas no caso concreto do PSD, achas que vai resultar em quê esta clarificação interna do partido? Sairá mais forte ou mais fraco?

Quer dizer, eu ontem quando estava a ver a entrevista de Rui Rio, fiquei como o próprio disse, um bocadinho atrapalhada a tentar compreender aquela mudança de estratégia, mas há uma parte, também achei estranho ele ter mudado de postura tão radicalmente sobre o Marcelo, que tinha atacado corrosivamente no outro dia e que agora decidiu calar-se e não falar mais sobre isso. Mas há uma coisa em que tem razão, que é o pingue-pongue. Eu não acho que o problema seja discutir de facto visões diferentes para o país dentro do PSD, acho até que é saudável. Se focar tanto em questões internas de datas e de coisas do gênero, é capaz de não ajudar a direita a dar uma imagem de credibilidade a tempo das eleições. O CDS então não se fala nesse capítulo, está a bater o PSD aos pontos. E portanto acho que acabou por ser inteligente a mudança de estratégia de Rio agora na questão das diretas, pra se livrar do tal ônus de estar a suspender a democracia como ele dizia, porque de facto

Se vai haver eleições num prazo em que vai haver diretas antes, o mínimo é que a liderança, seja ela qual for, possa ter esclarecido as pessoas a tempo, ter tempo para conduzir o processo, e isso parece mais ou menos natural.

Na verdade, Rui Rio faz uma coisa muito inteligente, que é pressionar Paulo Rangel, que tanto defendeu o adiar das eleições legislativas, que agora terá pouca margem para dizer que não quer eleições internas mais cedo.

Exatamente. E por isso mesmo acho que Rio foi inteligente aqui ao se livrar dessas acusações de que estava querendo acabar com a democracia no PSD. Deixou Francisco Rodrigues dos Santos sozinho nessa corrida.

Muito bem, temos que ficar por aqui na nossa primeira parte da Vixi Suave. Fique conosco. Na segunda parte teremos Miguel Tiago, ex-deputado do PCP e alguém que um dia disse que o PCP não se deixa comer. Bem-vindos à segunda parte da Vixi Suave. Temos conosco Miguel Tiago, ex-deputado do PCP. Viva, como está?

Bem, obrigado. Como estão?

Olha, é inevitável começarmos pela intervenção de Marcelo Rebelo de Sousa, que anunciou ontem a intenção formal de dissolver a Assembleia da República e marcou eleições para 30 de janeiro. Tenho uma pergunta pra você. Acho que não é muito útil revisitarmos todos os argumentos que Marcelo usou no discurso de ontem, mas o presidente da República acabou por dizer ou lembrar, com bastante veemência, as divergências inultrapassáveis à esquerda que conduziram a este chumbo do orçamento do Estado. Leu naquelas palavras de Marcelo uma tentativa de condicionar futuras alianças à esquerda?

Eu julgo que desde o início das declarações de Marcelo Rebelo de Sousa, do presidente da República, não apenas desta última intervenção, passa um apelo constante, apesar de um pouco velado, a que o povo português procure outras soluções, desde logo com a ameaça de eleições perante um chumbo, como quem diz: se este orçamento chumba, não há outra hipótese a dar ao atual Parlamento e é preciso reconfigurá-lo, até agora ao discurso associado à dissolução e à marcação de eleições.

Marcelo tem aqui uma tentação de devolver a direita ao poder? Acredita nisso?

Eu não consigo ver de forma tão líquida, até porque eu julgo que o que importa aos grandes interesses que estão por detrás, quer de Marcelo Rebelo de Sousa, quer por trás do PS, do PSD, do CDS, é mais arredar qualquer tendência de esquerda do Parlamento, ou seja, reduzir a possibilidade de a esquerda condicionar qualquer governo, do que propriamente qual é a cor que compõe o governo.

Ou seja Marcelo Rebelo de Sousa poderia estar tão interessado numa maioria absoluta do PS como num grande direita, por exemplo.

Sim, eu julgo que o que importa para os grandes interesses é estabilizar um governo que não precise negociar à sua esquerda e muito menos com os comunistas. Portanto, aqueles que lucram com a situação do país, aqueles que exploram os trabalhadores, que pretendem horários desregrados, salários mínimos abaixo do aceitável, todos esses têm como principal objetivo retirar qualquer possibilidade de os comunistas poderem influenciar a vida política nacional, porque também se viu durante os quatro anos após a troika, que a influência dos comunistas não era tão pouca quanto isso, quando lhes era dada a possibilidade de influenciar um governo. E portanto, essas conquistas que foram dadas, os passos em frente que foram dados nos primeiros quatro anos, portanto após 2015 a 2019, eu julgo que demonstrou que mesmo com uma correlação de forças em que o PS é majoritário em relação ao PCP, a verdade é que houve impacto nisso e esses impactos foram sempre contra os grandes interesses econômicos e a favor dos trabalhadores e das populações e dos jovens em geral.

Há quem faça ou há quem retire do voto do PCP uma seguinte leitura: o PCP decidiu voltar às origens e voltar a ser um partido de protesto. Concorda com esta análise? Na sua opinião, o PCP vai deixar definitivamente de negociar com o PS?

Não, eu julgo que o PCP nunca mudou quando negociou, nem mudou agora quando se criou aquela solução. Para dar possibilidade a um governo minoritário do PS, que não tinha sido a força mais votada, o PCP era o mesmo PCP de antes e é agora o mesmo PCP que esteve nessa solução. A questão é que as circunstâncias é que são radicalmente diferentes.

Isto não mostra aqui nenhuma mudança na linha política do partido, nenhuma decisão para futuro?

Se a circunstância fosse igual e o PCP estivesse a ter uma diferença na sua postura, nós devíamos tentar perceber, então talvez tenha sido o PCP a mudar. Mas é que aqui a circunstância é mesmo muito diferente. Reparemos, em 2015, o PS não tinha maioria, nem sequer era a força mais votada. Ou seja, era necessário criar condições para que uma força que não era a mais votada fosse governo, coisa que até então não tinha acontecido na República Portuguesa. Essas condições tiveram exigências por parte do Presidente da República de então e deram origem à solução que durante quatro anos esteve em vigor, digamos assim.

Sim, desde 2015.

Ora, os dois anos seguintes a isso já são num contexto completamente diferente, em que não há qualquer espécie de compromisso de governação. O PS é a força mais votada, portanto, seria governo de qualquer das formas. Não precisaria nem do PCP, nem do BE para ser governo.

Deixe-me perguntar-lhe sobre este orçamento, por isso entramos aqui a nossa conversa. Neste orçamento, apesar de não haver esses acordos, como dizia, há, por exemplo, medidas como o aumento das pensões, começar a gratuidade das creches, o aumento do salário mínimo, apesar de o PCP dizer que são insuficientes, eram ainda assim exigências do PCP. Como é que o partido explica depois aos eleitores que nada disto se concretize por decisão do PCP, ou seja, por decidir chumbar o orçamento?

Não, em primeiro lugar, tudo isso se pode concretizar. Aliás, o PS podia ter apresentado outro orçamento ou podia ter manifestado essa intenção. Não o quis fazer, porque o PS quis ir a eleições desde o primeiro momento Mas repare.

Sente que o PS quis mesmo provocar esta crise?

A mim não me restam muitas dúvidas. Basta ouvir a última intervenção de António Costa no debate do orçamento, que é um apelo descarado à maioria absoluta. Eu estou até convencido que muitas das propostas que o PS acrescentou à última hora, ou melhor, que o PS disse à última hora que estava disponível para fazer, porque não vinham nas propostas iniciais do orçamento, já o fez num contexto em que já sabia que não ia haver orçamento e portanto, à última hora disse que afinal até estava disponível para mais esta ou aquela questão, já numa perspectiva para depois poder dizer que só não se avançou nisto porque não há orçamento. Mas o orçamento naquela altura já não havia condições, tendo em conta que todas as conversações e debates-

Acho que o PS fez propostas que nunca teve a intenção de concretizar, só para culpar o PCP depois pelo orçamento.

Sim, eu julgo que isso é uma sensação. É claro que eu não posso comprovar isso. Mas se olharmos para o processo, sabendo como funcionam os partidos, sabendo como funcionam os debates entre partidos, como é compreensível que o PS guarde para a última hora, inclusivamente algumas das cedências, digamos assim, entre aspas, quanto às pensões, às creches e ao salário mínimo. Deixe-me dizer o seguinte: as pensões já vêm aumentando €10 por ano com aumentos extraordinários, se não estou em erro.

Sim, mas era uma base maior de pessoas abrangidas.

Mais pessoas abrangidas, o mesmo valor de aumento, se não estou em erro. Essa proposta é do PCP há cinco anos e não se pode dizer que seja uma conquista deste orçamento. Ou seja, já há cinco anos que essa proposta vinha entrando no orçamento do Estado, sempre proposta pelo PCP.

Faltavam bandeiras novas.

E se os reformados hoje, um vasto grupo de reformados hoje tem mais €50 de pensão, deve-se ao PCP. Agora, não se pode, cada vez que se prolonga essa medida no orçamento, dizer que isso é uma cedência ao PCP. Enfim, é fruto da persistência do PCP, mas não era uma nova introdução, não é um novo alcance, não é uma nova medida.

Vamos olhar aqui para o cenário daqui a uns meses. Se daqui a uns meses tivermos em Portugal um governo PS minoritário, o PCP vai ou não assumir a responsabilidade de salvar a maioria da esquerda? Tem dito, aliás, ainda ontem o PCP dizia que a única porta que abre à direita é a da rua. Nesse caso, vai preferir numa maioria à direita deixar que essa maioria à direita se forme?

A questão é esta: o PCP não olha ao nome dos partidos, olha às políticas que os partidos praticam. Se o PS quiser governar à direita, como aliás é a sua tradição, não vai contar com o PCP. Mais do que o nome, se se chama partido PS ou se tem lá um D e fica PSD, essa questão não é a determinante. Agora, eu julgo que pelo trajeto do PCP, pelo exemplo do PCP, está mais do que demonstrado que o PCP nunca abre as portas a nenhuma política de direita, venha ela do PS ou do PSD. Se nós olharmos com atenção, aliás, até percebemos que a única vez que o PCP abre portas ao PS para governar é num contexto em que fica claro que o PS terá que negociar com o PCP para poder ser governo. Nem sequer é só para aprovar o orçamento.

Mas o que é que é preciso que aconteça do lado do Partido Socialista para que tenha aqui um aval do Partido Comunista? O que o PS precisa de oferecer ao PCP e, neste caso, à esquerda, para que haja esses entendimentos ou essa possibilidade de entendimento, tendo em conta pelo que ouvimos também do Miguel Tiago e por aquilo que foi dizendo o PCP, o PS nos últimos meses, já desde a altura que se chamava da pré-negociação do orçamento, não dava sinais de que quisesse aproximar-se do PCP.

Sim, o PS não demonstrou em nenhum momento qualquer abertura para se aproximar naquelas questões que são as fundamentais.

Mas o que é que precisa de fazer agora? O que é que precisará de fazer também no momento pós-eleitoral?

Eu julgo que é difícil colocar as coisas nos termos em que é que o PS tem que fazer. O PS, se vier a constituir-se como uma força em maioria relativa, terá que olhar para o Parlamento e perceber que estando em maioria relativa, não está em maioria absoluta, coisa que agora não percebeu, quis comportar-se como se estivesse numa maioria absoluta para provocar, de facto, eleições, para ver se consegue essa maioria absoluta ou para pelo menos conseguir livrar-se dos entendimentos à esquerda. Mas não se coloca tanto no que o PS tem ou não tem que aceitar.

O que tem de oferecer, não de aceitar, neste caso. O que terá de oferecer também.

Mesmo esses termos são difíceis de responder da minha parte, porque a situação nacional hoje exigia respostas e permitia, não só exigia como permitia, por força da folga do déficit orçamental decretada por causa da pandemia, por força do crescimento econômico, por força até dos fundos europeus do plano de resiliência. Um conjunto de elementos permitiam dar resposta às exigências que se colocam, que podem ser diferentes para o ano ou que podem ser diferentes no próximo orçamento. É difícil colocar questões que sejam linhas absolutamente vermelhas e inegociáveis, até porque acho que nunca é com essa perspectiva que o PCP parte para debater. Mas entrando num orçamento do Estado, a preocupação do PCP vai ser sempre: este orçamento responde às necessidades prementes ou não responde às necessidades prementes?

E terá de haver já aqui numa futura negociação e olhando já para esse calendário depois das eleições, haverá aqui uma negociação entre o PS e o PCP, obviamente estamos aqui a falar em cenários hipotéticos, mas que possa já partir de um patamar superior, ou seja, com o trabalho já feito para o anterior orçamento, apesar de não ter havido esse entendimento de fundo e esse entendimento que levasse depois à viabilização do orçamento, mas há aqui matérias que já estão trabalhadas e que já estão, de certa forma, fechadas e pode-se passar neste momento para outras matérias nas quais ainda não havia entendimento, tendo em conta essa base que já foi construída, ou terá de se fazer tudo novo?

Eu julgo que pode estar a haver alguma confusão entre a forma como estes dois últimos orçamentos foram feitos e os anteriores. Os quatro primeiros orçamentos do governo minoritário do PS, de 2015 a 2019, foram feitos numa conjuntura em que havia inclusivamente um exame comum e prévio ao orçamento, em que os vários partidos PS, PCP, PEV e BE avaliavam e propunham e havia uma espécie de conversação inicial. Já não estamos nessa fase atualmente, o que existe são apenas conversas entre o PCP e o governo. Não há conversas entre PCP e PS. Não há uma espécie de um entendimento partidário.

Miguel Tiago, deixe-me só interrompê-lo, porque eu estou a ouvi-lo com atenção e continuo sem perceber o que de facto pode mudar de forma tão estrutural que volte a reaproximar esses dois partidos, se houver necessidade disso, se os partidos entenderem que há essa necessidade. Pondo-me nos seus sapatos, que sinais é que o PS tem de dar, seja em termos políticos, em termos de políticas concretas, seja em termos de atitude, se quiser, para que o PCP volte a acreditar que é possível conversar e negociar com o PS numa base de boa-fé?

Eu julgo que a questão se deve colocar desta forma: que sinal é que tem que dar o povo português para obrigar o PS a negociar ou a aceitar propostas de esquerda? Não é tanto o PS, mas é que sinal é que é necessário dar neste momento para que o PS se veja numa circunstância em que é obrigado a negociar à esquerda. E eu julgo que a resposta é evidente. O PS quis este orçamento, ou fingiu querer um orçamento, e o PCP, e também o BE e o Partido Ecologista Os Verdes, fizeram um conjunto de propostas que não tiveram cabimento nesse orçamento. Cabe-nos agora, enquanto povo, dizer assim: "Ok, eu quero o orçamento que foi chumbado, tal e qual como o PS o propõe, e então voto PS, ou eu quero aquelas propostas, o aumento do salário mínimo, a revogação da caducidade da contratação coletiva, o combate à precariedade, estabilidade na habitação, as creches gratuitas, um conjunto de propostas que vieram de vários partidos, não só do PCP." Querendo essas propostas, cabe às pessoas reforçarem essas propostas no Parlamento. E na nova maioria que vier a ser constituída, essas propostas vão estar reforçadas, independentemente de quem esteja no poder.

E admitindo que o resultado dessas eleições é uma configuração semelhante à de 2015, mas não se passa aqui pra solução da geringonça, portanto, um papel firmado. Isso não seria uma traição ao eleitorado que gostou desta experiência e que queria ver o PCP influenciar ativamente as políticas do governo?

No caso de haver uma maioria da direita, é isso que me está a perguntar?

Não, uma maioria de esquerda, semelhante àquela que aconteceu em 2015, mas os partidos não conseguirem chegar a acordo como chegaram em 2015 e em 2019.

E o partido mais votado seria?

PS.

Nesse caso, não há a necessidade de reconstituir nenhuma posição comum, nem nenhuma aquela que chamam hoje de geringonça.

Voltamos àquilo que tivemos em 2019 e um orçamento difícil de aprovar e voltamos a assistir uma discussão.

Voltamos ao que tivemos em 2019, mas também remeto pra minha última resposta. Se voltarmos a um resultado ou a uma situação como esta em que estamos agora, se o PS sair reforçado nas próximas eleições, a lição a tirar é o orçamento do PS é aquele que o povo quer. Se o PCP sair reforçado, a lição a tirar é: há um reforço daquelas propostas do PCP.

Sendo que nesta discussão do orçamento de estado, e está a falar no aval dos portugueses àquilo que foi o orçamento apresentado, mas não se ficou só esta discussão das últimas semanas ou meses pelo orçamento stricto sensu. O PCP, por exemplo, colocou a questão das leis laborais a meio do jogo. Já tinha dito que misturar as negociações não seria digno nem responsável. Não foi aqui uma incoerência do PCP?

Não, o que o PCP sempre disse foi que a avaliação para o orçamento conta essencialmente os aspectos contidos no documento, mas que a avaliação da política global pondera todos os elementos à volta, incluindo os sinais que são dados num conjunto de áreas, nomeadamente a política laboral, que é central na vida dos portugueses. Os nossos direitos no trabalho também definem os nossos direitos à família e ao tempo livre. Entendemos que essa questão é absolutamente fundamental.

Deixe-me perguntar-lhe de forma concreta, para mais uma vez sermos muito concretos na nossa conversa. Qualquer acordo à esquerda, que envolva naturalmente o PCP, tem de revisitar as leis laborais que foram alteradas no tempo da troica, é isso?

Eu julgo que não estamos sequer a ponderar que haja acordos à esquerda.

Sim, expressão minha.

Um entendimento.

Haver confluências.

Exato. Se quiser.

Para haver confluências, elas podem ser pontuais e portanto num projeto de lei específico e haver um voto em comum do PCP com o PS e, por exemplo, do BE, o que é raro, porque o PS até gosta mais de estar com o PSD e com o CDS e com a Iniciativa Liberal, do que propriamente com a esquerda. Mas é claro que pode haver confluências pontuais que não tenham a ver com um programa de fundo. Agora, em orçamentos do Estado, em grandes programas políticos, é claro que terá de haver respostas a questões mais largas, porque vamos ver, os primeiros quatro anos, a questão fundamental era impedir que a troica estrangeira continuasse a despedaçar o nosso país e que continuasse através do PSD e do CDS. Esta era a principal questão. E avaliou-se a situação política e era possível criar uma resposta parlamentar Já não estamos nessa circunstância. Eu julgo até que o PCP, quando houve a assinatura da posição comum, utilizou a palavra irrepetível. Portanto, esta solução é única e irrepetível. Não consigo reconstituir exatamente a declaração, mas julgo que era isto. Por quê? Porque de fato, aquela circunstância era para dar resposta a uma situação muito clara. Se nós olharmos agora, colocam-se outras questões, que é a de dar avanço. O PCP tem um programa que é diferente do PS. Se o PCP se reduzir ou se se colocar na posição de colocar o PS no poder acima de tudo, em vez de ser o PS e o CDS, ou seja, se o nosso objetivo passar a ser esse, só para não ter a direita, então há um conjunto de propostas do PCP que começam a ser sacrificadas só para ter o PS no poder. Isso também não é justo, nem é isso que os eleitores do PCP querem.

Antes de avançar, Miguel Tiago, só perguntar se o resultado do João Ferreira em Lisboa traz um ânimo ao partido e a pergunta clássica, se considera que ele seria um bom sucessor de Jerónimo de Sousa quando for o timing, que não sei quando é que considera que deve ser.

Não percebi a última parte da pergunta, desculpe.

Dizia que não sabemos qual é o timing da sucessão na liderança do PCP. Não sei se tem uma opinião sobre isso também.

Se os resultados são encorajadores, eu julgo que são. Os resultados da CDU em Lisboa demonstram que é possível, mesmo num contexto muito difícil, fazer um trabalho que convoca os eleitores a reforçar uma força política que à esquerda é a única que cresce. Quanto às outras questões, eu julgo que o trabalho, a capacidade e a intervenção do João Ferreira falam por si, mas eu não vou expressar opiniões nem sobre o João nem sobre qualquer outro camarada fora dos meus organismos, porque isso é como nós funcionamos. É claro que eu acho que há muitos quadros com condições para ser secretário-geral do PCP, felizmente. E acho que a forma como o João intervém na vida política fala por si. Eu julgo que não é por nada que tantas pessoas falam do nome do João.

Miguel Tiago, antes ainda de irmos ao nosso segundo segmento, eu pedia-lhe uma resposta muito breve a uma pergunta muito concreta. Tenciona voltar ao Parlamento ou isso é uma porta que já se fechou?

Não, eu nunca fechei a porta de estar na política consoante aquilo que a minha vida e os meus projetos de vida em cada momento me permitam. E se houver coincidência ou a possibilidade de conjugar os meus objetivos de vida num determinado momento com a participação política, seja no Parlamento, seja em qualquer outro parte, eu não ponho isso de parte.

Vamos então avançar para o nosso segundo segmento, o segmento Carne ou Peixe. Recordo que só pode escolher uma única opção. Portanto, venha daí a trilha.

Serão sintomáticos.

Miguel Tiago, quem preferia levar a uma concentração motardo em Faro, o Góis, Paulo Rangel ou Rui Rio?

Eu não posso ir sozinho, não é?

Não pode ir sozinho. Pode ir com o Miguel Oliveira, por exemplo, mas teria de levar na mesma Paulo Rangel ou Rui Rio.

Talvez o Rui Rio ia na moto do Miguel Oliveira.

Quem é que preferia barrar a porta de uma discoteca: João Oliveira ou João Ferreira?

Essa é bem mais difícil.

Tem que ser criativo.

Eu acho que barrava o João Oliveira, mas é só porque tenho mais confiança com ele. Depois diz que fui obrigado.

Não é para que danse pior. Quem convidava para passar um fim de semana numa das bonitas praias da Arrábida: Nuno Melo ou Francisco Rodrigues dos Santos?

Jesus! Eu fazia tudo para que eles não viessem à Arrábida se quer.

Mas tem que escolher um.

Pode ser num dia de nevoeiro.

Não, eu trazia aquele que vier agora a ser o próximo líder do CDS para depois passar aqui nas ruas de Setúbal e ouvir das boas.

Já agora por falar em Setúbal, para finalizar, quem mais facilmente convidava para pintar um mural do PCP numa rua de Setúbal: Marcelo Rebelo de Sousa ou Ferro Rodrigues?

O Marcelo.

A sério? Esta é a surpresa final.

Ainda preferia o Marcelo. Ao menos ainda me ria um bocado.

Olhe, vamos então ao nosso último segmento, a sobremesa. Como os nossos ouvintes sabem, os nossos convidados são sempre desafiados a escolher uma música e a explicar porquê. Miguel Tiago, que música é que nos vai servir?

É um tema da Garota Não, da Cátia Oliveira, que é uma música de Setúbal, uma cantautora, e o tema chama-se "80 Conto Nada" e é sobre as condições de vida dos jovens nos dias de hoje e pelo que a malta passa. Talvez na altura em que ela tenha escrito ainda não se sentisse tanto esta coisa da uberização e da total precarização das relações laborais, mas eu julgo que é um hino a essa malta e ao mesmo tempo uma convocatória para que possamos fazer alguma coisa contra a precariedade.

Miguel Tiago, muito obrigado por ter vindo à Vício Suave. Nossos ouvintes já sabem, voltamos na próxima sexta-feira à mesma hora.

Magoado e ri-te. Não há contrato, não há férias no verão e a complacência faz a fortuna do patrão. As horas extra não aumentam o salário, subtraem à vida. Grande vínculo vigário. IVA e retenção, ser pessoa, prestação, Segurança Social pode bem saber tão mal. Proteção, não sei o significado, mas em compensação sei o que é diferenciado. E o silêncio que se faz tira-me o sono e a paz. Desde quando temporário é sinónimo de otário? IVA e retenção, ser pessoa, prestação, Segurança Social pode bem saber tão mal. Proteção, não sei o significado, mas em compensação sei o que é diferenciado. E o silêncio que se faz tira-me o sono e a paz. Desde quando temporário é sinónimo de otário? Precariedade, inspiras tristeza aos dias mais leves que pudesse ter. E aos meus olhos cobres de cinzento os muros com cravos que cresci a ver. Precariedade, inspiras tristeza aos dias mais leves que pudesse ter. E aos meus olhos cobres de cinzento os muros com cravos que cresci a ver. Precariedade, inspiras tristeza aos dias mais leves que pudesse ter. E aos meus olhos cobres de cinzento os muros com cravos que cresci a ver.

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