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Olá, bem-vindos à Vici & Suave. O meu nome é Miguel Santos Carrapato, sou jornalista e editor adjunto de política do Observador. Tenho ao meu lado um dos maiores especialistas do país em tauromaquia, o Miguel Viterbo Dias, e as aficionados por política, Mariana Lima Cunha e Inês André Figueiredo. É este trio que me vai ajudar a explicar uma semana marcada pelo desafio de Luís Montenegro a Pedro Passos Coelho e, claro, pela despedida de Marcelo Rebelo de Sousa.

Gosto de ser claro e direto. Se houver um caminho alternativo e diferente, que seja apresentado.

O senhor primeiro-ministro desconfia. Diz que a tentação vai ser muito grande. Os oito anos antes eu já os defini. Éramos felizes e não sabíamos. Aqui eu definiria: fomos felizes e sabíamos.

Nós fomos felizes e fomos eficazes. Será mais estranho, será mesmo um equívoco gigante que sejamos nós a ter dúvidas sobre isto.

Porque depois não fica nem carne nem peixe.

Mas há que lealmente resistir à tentação.

Para discutir tudo isto e muito mais, venha daí a refeição mais deliciosa da política portuguesa. Miguel Viterbo Dias, é inevitável começar por ti.

Surpreendente.

Sim, até porque esta semana tens novidades para os nossos ouvintes. Compraste um tapete novo, é isso?

Não, não é verdade. Não posso confirmar essa informação.

Mas estás em vias de comprar.

Uma compração da tua parte. Não, não é necessário. Não será necessário.

Muito bem, então falemos daquilo que realmente importa. Tenho uma sopa terminada para falar naturalmente sobre a despedida de Marcelo Rebelo de Sousa. Tu tiveste a oportunidade de acompanhar in loco a conferência de imprensa de Marcelo e Luís Montenegro. Com que mensagem se despediu o ainda presidente da República?

Marcelo Rebelo de Sousa já se vai escudando a fazer grandes análises sobre a atualidade política. Já fala em jeito de balanço, porque voltou a garantir que depois de deixar o mandato, não vai falar. E confessou até que o primeiro-ministro fez uma aposta com ele a dizer que não acredita que Marcelo Rebelo de Sousa se consiga manter em silêncio durante muito tempo. Eu acho que, neste caso, Luís Montenegro representa uma maioria absoluta dos portugueses, que é o de acharem que Marcelo Rebelo de Sousa não vai conseguir resistir a meter uma bicada aqui ou acolá e arranjará certamente forma de o fazer. Esta conferência de imprensa, esta conversa, assim um bocado ao estilo Sala Oval dos Estados Unidos, com os dois sentados, cada um numa cadeira, com a possibilidade de fazer perguntas. Aliás, sabemos até do pouco amor que Luís Montenegro tem pela comunicação social e por responder a perguntas, e acabou até mesmo por ser o primeiro-ministro a pôr fim a esta conversa, porque dizia que já era tarde para o almoço. Mas no que toca ao conteúdo político, foi o Marcelo Rebelo de Sousa um bocadinho aqui a fechar o ciclo, como o próprio representa um bocadinho o virar de página dos primeiros 50 anos de democracia, e agora os protagonistas são outros e, portanto, é normal que a forma de fazer política seja também diferente. E tivemos também, acho eu, de forma algo curiosa, um Luís Montenegro até mais solto do que o habitual, porque foi Luís Montenegro o primeiro, por exemplo, a picar Marcelo com a questão do "fomos felizes e não sabíamos", aquela referência ao presidente, à relação com António Costa, e a dizer que aqui também foram felizes e eficazes. E até puxou por Marcelo Rebelo de Sousa nesse tipo de picardias. O que não puxou tanto foi sobre Pedro Passos Coelho, aí foi um pouco mais evasivo pra não dar também muito lastro num momento mais solene como este.

Mas a imagem que ficou, e permite-me usar este exemplo, é como tu costumas fazer quando recebes pessoas em casa, que na hora da despedida estás muito mais feliz. Pareceu-te assim Luís Montenegro. O primeiro-ministro garante que não há grande felicidade.

Miguel não quis confirmar nem desmentir. Depende das pessoas, Miguel.

Também porque a minha sala é diferente da sala aqui da lareira. Portanto, a minha, desde logo, não tem lareira.

Esta tem um grande tapete.

Esta tem um grande tapete também.

Não, mas o tapete que o Miguel vai comprar é pro quarto, pelo que eu percebi.

Pois é, isso não estou a par.

Nem os portugueses, nem vão estar. Mas Luís Montenegro afastou completamente essa imagem, e até procurou aqui vender um bocadinho que a relação com Marcelo Rebelo de Sousa era melhor do que aquela que se vendia nos jornais, ou seja, que falavam até regularmente para prevenir alguns problemas, que não dava a Marcelo Rebelo de Sousa as informações todas em cima da hora. Mas também deixou, é certo, elogios a António José Seguro. Recordou um bocadinho que já tinham uma relação antiga e já nessa altura frisou com respeito e lealdade. E, portanto, não sei se haverá aqui um certo suspirar de alívio por deixar de ter o imprevisível Marcelo Rebelo de Sousa e contar com alguém mais previsível como é António José Seguro, mas procurou aqui nesta última imagem, também é sempre no momento da despedida é que ficam as boas imagens. Procurou aqui dar o ar de que sempre se deram bem, que a relação era melhor do que aquilo que nós jornalistas íamos vendendo.

Claro, é sempre a terrível comunicação social que inventa estas tramas pitorescas. Vamos avançar para a segunda sopa deste programa. Uma sopa fantasma. Pedro Passos Coelho deixou finalmente de ser um fantasma, é alguém já de carne e osso.

Desafiou ou pressionou abertamente Luís Montenegro, que respondeu com um desafio para que o antigo primeiro-ministro fosse a votos já em maio. Achas que foi uma boa jogada, uma jogada inteligente de Luís Montenegro?

Ainda estou na dúvida. Ainda estou a processar. Eu já tinha dito aqui na Vixi Space que acho positivo, por um lado, o facto de Pedro Passos Coelho estar a assumir cada vez mais, não é que ele diga o que quer, mas que se vá percebendo melhor o que ele quer, qual é a opinião dele, qual é a opinião dele, de facto, sobre este governo e sobre o seu antigo líder parlamentar, e que não se fique só pelas farpas mais vagas. Sabemos todos com o que contamos. Eu percebo, em teoria, o exercício de Luís Montenegro, porque calculo que se esteja a tornar imperativo para o primeiro-ministro silenciar este ruído que vem de Passos, e este facto de Passos se ter tornado o principal vilão para a sua governação e neste momento fazer uma oposição talvez até mais eficaz do que o resto da oposição, é um grande incômodo para Montenegro. Mas não me parece que esse ruído se silencie marcando umas diretas para maio. Formalmente, é um argumento que Montenegro pode usar, dizer que abriu o PSD à concorrência e que, portanto, formalmente, de facto, deu uma oportunidade a quem quiser mostrar o seu caminho alternativo e o fazer. E se não, já que não quis tirar as teimas, então que se afaste e que lhe dê a oportunidade de governar. Percebe-se a mensagem. Agora, qualquer pessoa que tenha acompanhado António Costa e António José Seguro no PS, por exemplo, sabe que com um cadinho de arte e de habilidade política, o timing se arranja. E o timing de Passos, se Passos de facto quiser voltar, estará muito mais dependente da opinião que o PSD tiver sobre o próprio governo e do país, claro, e de se a tal vaga para o Passos se está a formar com eficácia ou não, do que propriamente deste timing, que Montenegro tentou antecipar para agora para tentar matar já o assunto, porque era muito improvável que Passos quisesse avançar já tão a quente, com o governo ainda a ter penso eu, que algum tempo para dar as suas provas, seria muito precoce Passos estar agora a lançar um ataque desses, definitivo. Mas não parece que a marcação formal de eleições dentro do PSD vá resolver o incômodo que é óbvio que existe. Fica obviamente alguma preocupação do partido. No fim de semana eu estava a falar com pessoas sobre as distritais, as eleições internas do PSD, que foram maioritariamente pacíficas. Tiveram um ou outro incômodo em estruturas muito específicas, mas em que houve alguma preocupação de pessoas do partido sobre o facto de se poderem começar a abrir brechas. E abrirem-se brechas que se vejam de fora. Há o apoio a Montenegro, obviamente Passos a entrar é outro fator nesse sentido, e Montenegro sabe o que é. Enquanto não houver uma oposição organizada, uma figura que consiga convocar o PSD, ele está relativamente seguro. Com Passos na jogada, fica muito mais difícil. E parece-me que umas diretas não o anulam.

Miguel Viterbo Dias, lembrei-me enquanto ouvia a Mariana Lima Cunha do porquê de ter usado a imagem da tauromaquia, porque a sopa, na verdade, era uma sopa de touro, porque no PSD está tudo uma tourada. Era essa a lógica.

Montenegro está a cenar. Miguel, ajuda-me. A capa? Como é que se chama?

O capote.

O capote para Passos avançar.

Era essa a lógica, mostrar o capote a Passos Coelho.

Mas entretanto, varreu-se-me da memória e agora estou a tentar recuperar. Miguel Viterbo Dias, como é que se resolve esta tourada no PSD?

Um capacete de sopa.

Com diretas, também estou como a Mariana, as diretas não são o alfa e o ômega da presença ou não de Pedro Passos Coelho no espaço midiático e da credibilidade que terá ou não para criticar este governo.

Só para efeitos de transparência, não está disponível para avançar para a liderança do PSD. Pois não.

Atenção, hesitação.

Hesitação.

Eu não ouvi.

Pensei que ia dizer: "Estou em condições formais de o fazer."

Não estaria em condições formais de o fazer.

Mas dizia isto...

Agora já não sei o que eu dizia.

Estávamos a falar sobre a confusão no PSD.

Sobre as diretas não resolverem.

Percebe-se a jogada de Luís Montenegro, mas o próprio formalismo de umas eleições partidárias não vai resolver uma questão mais abrangente. Há alguns articulistas que vão levantando algum pó da arena sobre novos problemas judiciais à volta de Luís Montenegro, e que isso pode ser o tal timing para o qual Pedro Passos Coelho se está a preparar. Hugo Soares tentou meter gelo nessa hipótese, mas o que é certo é que bastou Passos Coelho aparecer uma semana para Luís Montenegro contra-atacar e sair a contra-atacar com uma ideia ou com uma atitude já tida como definitiva. Ora, Pedro Passos Coelho, ainda agora, pelo que se vai percebendo, está a começar a aparecer com maior frequência, com maior intensidade. Disse que queria esperar pelo fim deste ciclo político. O que é certo é que se mantiver com esta intensidade durante os tais três anos e meio que toda gente apregoa a que vamos ter estabilidade política, então Luís Montenegro vai ter mesmo que encontrar muitas jogadas para tentar conter estes ímpetos do seu antecessor partidário em São Bento, porque Passos Coelho não parece querer ficar por aqui. E agora há esta curiosidade que é aguardarmos pela reação ou não deste desafio. É certo que Montenegro não pôs um rótulo, mas estava escrito em todo lado que a mensagem era para Passos Coelho e agora também a reação do antigo líder vai ser uma curiosidade.

Olé, Miguel Viterbo Dias, olé. Mariana Lima Cunha, finalmente pra ti tenho uma sopa misturada, porque de facto Pedro Passos Coelho apareceu, fez declarações, provocou reações também na Iniciativa Liberal E no Chega a direita está em grande convulsão. Vimos na Iniciativa Liberal Rui Rocha escrever um artigo de opinião publicado aqui no Observador a elogiar muito Pedro Passos Coelho. Vimos também Maria Morais Lopes, líder parlamentar da Iniciativa Liberal, a dizer que Pedro Passos Coelho está enganado ou profundamente enganado. No Chega, vimos André Ventura a elogiar também Pedro Passos Coelho, mas há um grande dilema no partido liderado por André Ventura, que é: se Pedro Passos Coelho aparecer, muito provavelmente o Chega será penalizado nas urnas ou pelo menos ficará mais pequeno. Falemos da Iniciativa Liberal. Consegues compreender estas diferentes reações? Por um lado, Rui Rocha, por outro lado, Maria Morais Lopes e podemos juntar também João Cotrim Figueiredo a Pedro Passos Coelho.

Acho que só consigo compreendê-los na medida em que consigo compreender que há alguma desorientação na Iniciativa Liberal, acho eu. E tem havido estrategicamente. Ou seja, nós estamos há anos a tentar perceber um pouquinho por que caminho é que os liberais querem seguir e os próprios também. Já tivemos uma Iniciativa Liberal que se tentava pôr muito no centro do combate político e do discurso político, colocando-se como uma potencial parceira do governo, uma Iniciativa Liberal a pedir reformas específicas ao governo. Aliás, acho que o Cotrim Figueiredo até fez isso muito especificamente com o Montenegro ainda nesta campanha, indicando que reformas é que ele achava prioritárias para o país. E depois acabamos por ver sempre a Iniciativa Liberal a recuar, estar sempre neste limbo, com medo de ou partir para a irrelevância se não colaborar com o governo, ou ser irrelevante se colaborar demasiado com o governo e se eclipsar um pouco na sua iniciativa própria. E ultimamente o que tínhamos visto mais era Mariana Leitão a optar pelo segundo caminho e portanto tentar distanciar-se. Havia pessoas dentro da IL que achavam que o partido tinha deixado de radicalizar e que estava demasiado colado às opções de Luís Montenegro. E portanto, eu acho que talvez se explique aqui um pouco pela desorientação estratégica da Iniciativa Liberal nos últimos anos, a desorientação também em relação ao papel de Pedro Passos Coelho nisto tudo, porque a IL ainda não decidiu se na verdade quer ser uma parceira deste governo ou não. Ou melhor, quando decidiu, decidiu que não era, mas não consegue decidir quando Maria Morais Lopes diz que Pedro Passos Coelho não tem razão. É preciso enquadrar isso depois, e aí poderíamos falar do Chega também, não é?

Enquadramos, sim.

Enquadrar em todo o cenário dos complexos apoios parlamentares de que este governo precisaria e aí, de facto, a IL vê-se um pouco entalada entre o cenário em que seria parceira, mas também teria, possivelmente, de estar metida num acordo com o Chega.

Porque falavas do Chega, André Ventura apareceu, deu uma entrevista onde elogiou muito Pedro Passos Coelho, aliás, como tem feito ao longo da sua afirmação política. Tivemos durante a campanha presidencial Diogo Pacheco de Amorim, aqui mesmo nos estúdios do Observador, a assumir que sim, se Pedro Passos Coelho aparecesse, isso seria uma dificuldade para o Chega, mas que para o país seria melhor que assim fosse. Como é que fica o Chega no meio disto tudo? Ou seja, ao mesmo tempo que deseja Pedro Passos Coelho, sabe ou sente que a aparição ou confirmação de que Pedro Passos Coelho pode de facto aparecer ajudará ou poderá contribuir para a diminuição do partido em termos eleitorais.

Sim, acho que André Ventura tem um problema claro, que é: ele pode e tem continuado a apelar a Pedro Passos Coelho, a pedir a participação política de Pedro Passos Coelho, a elogiá-lo, sabendo que assim está a atrair também um setor mais passista do PSD e potencialmente atrair alguns desiludidos do PSD com Luís Montenegro e com as tais reformas que não andam para frente, etc. Ou seja, Passos parece ser melhor para o Chega tanto quanto for uma ameaça que anda a pairar no ar, um fantasma sobre Montenegro e não uma existência real, porque a partir do momento em que for uma existência real, é uma ameaça também para o próprio Chega. E aí, como Diogo Pacheco de Amorim nos dizia aqui na Vixi Suave, o Chega, já não sei a expressão dele, penso que era temos de pegar nisto rapidamente, até porque Passos evidentemente seria um problema de crescimento para o Chega e o próprio Chega tem noção de que é muito difícil prever quem é que estaria no PSD num futuro em que o Chega cresça, mas sabe que tem um problema à partida, que é, em princípio, pelo que sabemos até agora, só conseguiria governar tendo maioria absoluta. Se houvesse um Passos Coelho, havia ainda outro problema, que é quando nós olhamos, de facto, para o que são as tais reformas, a TAP, por exemplo, a reforma laboral, na verdade, a conversa de Passos e do Chega não cola.

E quando se define contra esse tipo de propostas.

As tais políticas estatizantes que a Iniciativa Liberal muitas vezes fala.

Muito bem, a primeira parte da Vixi Suave tem de ficar por aqui. Voltamos dentro de momentos com a entrevista a Vasco Rato.