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Olá, bem-vindos à Vixi Suave. Esta semana o cozinheiro de sopas frias dedicou-se à pastelaria, mais em concreto à bola de atum. O Presidente da República diz que vai sair de levezinho de Belém, mas deixa que sejam os portugueses a escolher se querem um sucessor com uma gastronomia mais forte ou um sucessor que seja adepto de uma gastronomia mais suave.

Eu sei que isto não é muito próprio comer em frente de câmara. São mais variados gastronomicamente e, portanto, passou a ser normal. Resistentes, criativos. Portugal não é uma ideia abstrata, não é apenas uma paixão, um amor. Se querem gente de gastronomia forte ou de gastronomia mais suave. A função do primeiro-ministro é decidir e fazer melhor. Está a patinar em muitos casos, a demorar muito tempo. De um muito gosto metafísico. É muito bom.

Eu sou o Rui Pedro Antunes, sou editor de política do Observador e comigo tenho o Miguel Vítor Dias, que é repórter parlamentar e coordenador de política da Rádio Observador e os jornalistas da seção de política Miguel Pereira Santos e Rita Tavares. Vai começar a Vixi Suave. Para começar eu propunha uma sopa pura. Miguel, o que é que tens a dizer sobre isso? Não foste ao 10 de Junho este ano.

Há partidos que vão falando do grau de pureza de ser português e o 10 de Junho foi muito uma mensagem antagónica face a isso. Se o discurso de Lídia Jorge foi interessante de ouvir, apesar de demasiado longo na duração, mas com sumo, como se costuma dizer, já o de Marcelo Rebelo de Sousa, que por um lado foi bastante curto e isso às vezes é uma vantagem, mas parece um bocadinho estar a chover no molhado. O próprio presidente da República lembrou no discurso de tomada de posse do governo que desde 2018 que tem avisado para os problemas dos populismos e nesse discurso que fez em 2018 e noutros que fez por essa altura, fez estes avisos que agora está a repetir novamente um bocadinho em fim de mandato. Portanto, parece que é um bocado sinal de que a mensagem que quis passar ao longo destes anos de presidência acabou por ir falhando e não chegar aos interlocutores, neste caso os portugueses. E agora vai repisando um bocadinho estes argumentos do não há portugueses de uma raça, não há portugueses mais do que outros. Está a repetir um bocadinho discursos que em 2018 faziam sentido, estavam bem construídos, eram estruturados e agora parece só que está a replicar a mensagem naquela do: "Eu avisei, eu tenho avisado, se isto correr tudo mal a partir daqui, não digam que eu não disse nada." E portanto soa um bocadinho a chover no molhado nesta reta final, no último 10 de Junho de Marcelo Rebelo de Sousa, que nesta altura já só vai ter mais um discurso de fundo, que é o 5 de Outubro, e portanto será a última oportunidade para deixar o legado dos 10 anos de presidência. Se na tomada de posse do segundo mandato Luís Montenegro conseguiu fazer a resenha histórica daquilo que foi entendendo como sendo as posses que dava aos primeiros-ministros e dos avisos que ia fazendo, este 10 de junho pareceu chover no molhado face a intervenções que fez muito por ocasião, por exemplo, das sessões solenes do 25 de abril. Tem agora uma oportunidade para corrigir a rota e deixar um grande balanço desta década.

Os portugueses são todos iguais, mesmo que sejam gêmeas luso-brasileiras amigas do Doutor Nuno, por acaso é meu filho. Ele esqueceu-se de dizer essa parte. Rita, alguma coisa a dizer sobre a sopa pura? O Marcelo, o último 10 de junho, vamos ter saudades.

Vou passar o prato à única pessoa desta mesa que esteve no dia 10 de junho e para perguntar o seguinte, também tenho direito.

Na ótica do utilizador.

Se achas ruim, que...

A Rita é grande repórter, só não admito isso, porque senão a introdução era exemplo.

Sou jornalista, é o que nós somos todos nesta vida. Para te perguntar se achas se Marcelo ainda tem alguma coisa para fazer, ainda pode marcar estes últimos tempos de mandato, que são já só meses, mas já não chega a um ano, e o que é que ele ainda pode fazer e se neste 10 de junho mostrou, de facto, que ainda tem cartas para tirar.

Eu acho que o presidente não irá resistir, não propriamente publicamente, porque aí fará só o tal discurso do 5 de outubro, vai tentar deixar a marca em algumas visitas que fará ao estrangeiro e está já marcado ser um país de língua oficial africana, de língua oficial portuguesa com que irá à última visita de Estado, portanto, quererá marcar um bocadinho essa parte, para depois se afastar, vai-se intensificar agora e depois a seguir às autárquicas ali ainda durante algum período até ao fim do ano e depois vai-se retirar um bocadinho para não interferir nas presidenciais.

Ele disse qualquer coisa sobre isso, sobre preparar a despedida antes, que é para depois ficar calado durante as presidenciais. Deu a entender que era isso.

Sim, ele diz que vai sair de fininho e disse uma coisa que Eu ficaria apavorado se fosse o Almirante Gouveia e Melo, ou mesmo Luís Marques Mendes, por muito que seja amigo de longa data de Marcelo Rebelo de Sousa, que ele prometeu que vai a todas as cerimónias oficiais em que tiver assento. Ora, os ex-presidentes da República têm assento em todas essas coisas, tipo 25 de Abril, 5 de Outubro, o 10 de Junho. Ele dizia: "Eu ali ao fundo, numa cadeira, vou ficar lá mais para o fundo." Mas ele marcará sempre.

Ele avisou que não ia escrever memórias.

Não é preciso, porque ele vai estar sempre presente.

Não ia voltar ao comentário. Vai aparecer pelo menos três vezes por ano, que é o 10 de Junho, o 25 de Abril e o 5 de Outubro.

E vai dar aulas por aí.

Exato. Miguel Pereira Santos, alguma coisa a dizer sobre a sopa pura? Não te apraz nada?

Sim.

Apetece-te voltar ao secundário para teres aulas do Marcelo, que é uma coisa que ele disse que ia fazer.

É para o secundário, não é para a universidade.

Não, é para o secundário.

Ele aproveita sempre para fazer uma recapitulação histórica. E um bocado como o Miguel Viterbo Dias estava a dizer, desta vez parece que a recapitulação não foi tão longe. Estivemos há pouco do 25 de Abril, que foi bastante mais longa. Mas pronto, acho que felizes os alunos que terão o tempo para ouvir o então professor Marcelo Rebelo de Sousa.

Ele depois pode condensar todas as grandes intervenções em vídeo e publicar isto no YouTube.

Ele ainda vai descobrir o TikTok, se foi o primeiro a descobrir as selfies. Rita, ia te sugerir agora uma sopa única. Podia ser sopa de Carneiro, mas nós não brincamos com os nomes das pessoas, sob pena do João Chândara entrar pelo estúdio adentro e dizer que não se brinca com os nomes das pessoas. Então uma sopa única. Quem é que é a única?

Uma sopa única é o único candidato que o Partido Socialista tem para nos oferecer neste momento, que é o José Luís Carneiro, e que apresentou a sua candidatura este sábado e mais um bocadinho esta quinta-feira, porque formalizou aquela formalização de entregar as assinaturas e a moção ao presidente do partido. E teve ali naquele sábado, naquela tarde de sábado, muito calor, em que havia bonés vermelhos a serem distribuídos por toda a gente, há fotografias icónicas desta apresentação de candidatura. Mas a verdade é que ele conseguiu ter ali, sendo candidato único, as várias alas do partido, representantes de várias alas.

Até a ala costista.

A ala costista também representada a vários níveis. E eu não vou dizer que a mulher de António Costa é ala costista, porque as pessoas têm direito à sua própria individualidade quando estão casadas com outra, mas o facto de Fernanda Tardeu ter aparecido na primeira fila, ter dado um abraço, ter estado no fim, no palco, junto de José Luís Carneiro, faz pensar. Pelo menos os socialistas que lá estavam. Houve leituras que foram feitas posteriormente sobre uma colagem de José Luís Carneiro ao costismo. Certo é que ele conseguiu ter ali representantes de várias dessas alas, até pedronunistas. Tiago Barbosa Ribeiro estava lá, estavam lá várias figuras, António Mendonça Mendes, Ana Catarina Mendes. Estava representado muito do Partido Socialista, mas não estavam três pessoas que são fundamentais e cuja leitura desta ausência traz o capítulo seguinte no Partido Socialista, que é Mariana Vieira da Silva, Fernando Medina e Duarte Cordeiro. Esses não apareceram. Duarte Cordeiro até já fez saber que vai sair da direção, que ainda se continua, porque há esta situação meia bizarra que é o PS eleger um secretário-geral agora no final de junho, mas vai manter a mesma direção que existia, porque tem que haver uma comissão nacional que eleja uma nova direção e isso só vai ficar tudo mais organizado depois do congresso, que será só depois das autárquicas. José Luís Carneiro já sabe, ou se não sabia, ficou a saber no sábado, mas eu cheira-me que ele já sabia, que vai ter três pessoas à perna e que a oposição interna está construída e tem rosto. Tem um particular que é Fernando Medina foi apoiante de José Luís Carneiro na candidatura contra Pedro Nuno Santos. Desta vez nem sequer estava no Largo do Rato e soube-se que ele foi um dos elementos, este que já é chamado núcleo de Lisboa, de ter tentado promover uma candidatura alternativa a José Luís Carneiro e portanto, esta oposição interna, apesar de não estar presente, ganhou forma também no sábado em que o futuro líder do PS apresentou a sua candidatura. Ficamos já a saber que algures nos próximos anos poderá aparecer alguém para desafiar José Luís Carneiro.

Miguel, a tua sopa única.

O curioso é se vai repetir com José Luís Carneiro a história de António José Seguro, que é ele aguentar o barco durante três anos e depois daqui a três anos, quando se aproximarem eleições legislativas, isto fazendo sempre fé que se vão cumprir os calendários tradicionais da política, o que agora também é raro, se um destes membros do grupo de Lisboa, Núcleo de Lisboa.

Eu ouvi a expressão núcleo.

É ótimo, ainda não tinha ouvido. Muito boa. Ainda tenho aqui vários por ler ainda, Rita.

Ouviste, Rui? A produção é muita.

Está aqui um do Seguro também ainda. Enfim. Bom, por falar em oposição interna, diga-se também, que é esta questão de José Luís Carneiro saber que tem à perna um conjunto de figuras midiaticamente fortes, como Fernando Medina e Duarte Cordeiro

Que daqui a três anos podem estar à espera pelo melhor momento para pegar no partido e que sabem que terão, se calhar, o apoio popular que António Costa teve na altura com António José Seguro. Não quero arrogar, muito menos eu, conhecer o PS ou as bases do PS, mas Duarte Cordeiro é quase um "the next big thing" do partido, tal como Pedro Nuno Santos foi e, sobretudo, depois do falecimento de Pedro Nuno Santos. Portanto, tendo essa oportunidade, é um nome que vale para qualquer-

Mas será com menos arestas do que tinha Pedro Nuno Santos.

Exatamente. Sim.

Como diria um estratega de comunicação, acho que sim.

É uma espécie de terceira via. Era o produto melhor para escapar aos dois maus.

Vocês estão a falar e na minha cabeça estou a imaginar a música dos Loucos de Lisboa, mas com o núcleo de Lisboa. Imagina o José Luís Carneiro que canta assim: "Cheguei ao rato e ele não estava, já não apoiou o Parque de Baião, ainda faz como o Costa fez ao Seguro e eu nem chego a eleição. É o núcleo de Lisboa." Eu estou a imaginar o José Luís Carneiro a entrar ao som desta música ao ver que Fernando Medina não estava lá.

Isso a tempo das marchas populares teria feito sucesso.

Verdade.

Tens que dar um separador de sopa.

Pois tenho. Miguel, tu queres dizer alguma coisa sobre a sopa pura ou posso avançar para a próxima?

Só acrescentar que o José Luís Carneiro vai ter que dar a mão, pelo menos nestes primeiros anos, ao PSD. Vai ficar conectado com essa proximidade à direita e depois, quando for a altura de aparecer uma alternativa à esquerda, é normal que haja esse apoio popular ao tal núcleo de Lisboa.

Eventual desafiador. Portanto, vai cometer algumas impurezas.

Já temos aqui um título para este programa. Terá que ser a volta do núcleo de Lisboa.

Eu agora ia sugerir-

Já está a coordenar o Miguel.

E acho que bem, porque evidentemente, quem estava a gerir este programa não tem credibilidade a partir do momento que o transforma num momento de karaoke, meio Paródia Nacional, que era um programa que existia antigamente. Barraca de sopa era a última sopa que eu queria propor. Miguel, queres falar sobre esta sopa?

Sim. Aconteceu aquele ataque, que é condenável. Foi um episódio de baixíssimo nível, podemos dizer assim. Há aqui uma diferença nas interpretações públicas se isto foi um atentado à liberdade de expressão no campo da cultura ou não. Não sei se temos elementos suficientes para apontar para aí, já que há testemunhas no local que dizem que foi um ato fortuito, mas ainda assim era um dia de Portugal e era um ator que ia participar numa peça no Dia de Camões. A peça tinha a ver com Camões e tinha uma perspectiva um bocado pós-colonial da coisa. Portanto, acho que isso fica um bocado no ar. O facto mais relevante da coisa, penso eu, é que o grupo neonazi, que terá estado por trás dos acontecimentos, foi mencionado num capítulo do RASI que depois acabou por não ser publicado. Acho que este episódio remete-nos para essa história que ficou um bocado por explicar por parte do governo. Nunca percebemos muito bem porque é que aquele capítulo acabou por ser omitido, ainda que, lá está, se esse capítulo tivesse sido publicado, não é que este ataque não tivesse acontecido, mas nós só continuamos sem perceber qual é que foi a razão para que isso tivesse acontecido na altura e acho que o governo ficou ainda por dar algumas explicações.

Não sabemos se há alguma limitação técnica, se há alguma questão técnica que leve a essa filtragem para o relatório final. Rita, alguma coisa a acrescentar? Temos um minuto.

Sim, nós não sabemos se há alguma questão técnica, mas não sabemos porque o governo não quis até hoje. Já ouvimos Paula Rangel a dizer que há uma explicação qualquer, mas era de esperar que ela já tivesse sido dada. Aliás, houve a oportunidade para isso. Houve um requerimento feito até na altura em que a Assembleia estava dissolvida, portanto, estava a comissão permanente a funcionar. Houve um requerimento feito pelo Bloco de Esquerda para que o assunto fosse a plenário, à comissão permanente, e isso foi chumbado por PSD, CDS e Chega. Essa parte ficou por explicar e só não está explicada porque esta maioria de partidos entendeu que não devia ser dada a explicação. Pode não ser de somenos na medida em que, ao que o Expresso noticiou, este grupo ou elementos que foram identificados como agressores pertencem a um grupo que estaria identificado no capítulo que desapareceu, que é um capítulo sobre extremismos. São dois capítulos, julgo eu, e que desapareceram do relatório anual de segurança interna. E depois ouvimos, logo não, que André Ventura, por acaso, neste caso, demorou um bocadinho a reagir. Foi só aí às 18h que a primeira vez que ouvimos o líder do Chega, que normalmente é gatilho rápido quando há algum caso deste gênero, do outro lado, claro está, mas no caso da barraca, André Ventura chegou só ontem às 18h para dizer que é apontar o dedo à esquerda, que também só aparece quando são estas situações que estão em jogo, mas a verdade é que ele faz exatamente o mesmo e tem ainda uma coisa a seu desfavor, que é que esteve, de facto, entre os partidos que chumbaram um requerimento onde podia ser explicada a tal questão do RASI, que lá está, não sabemos se resolveria alguma coisa, mas ficamos sempre com essa dúvida.

Ia só acrescentar uma coisa breve, que é: há dois meses o Chega prometeu, por causa disto do RASI, uma comissão de inquérito ao relatório anual de segurança interna quando fosse a nova legislatura. Não sei se agora, tendo em conta os novos avanços e os novos acontecimentos, ainda interessará muito ao Chega essa comissão parlamentar de inquérito, porque esse ponto dos extremismos é mesmo o que está mais por explicar. Sendo que a ideia da comissão de inquérito ao RASI por si só também é peregrina, porque sendo de segurança interna, a comissão de inquérito não tem efeito prático, ou seja, teria que ser muito à porta fechada e não iam existir conclusões públicas propriamente sobre o que por lá se falou.

Vamos ver que comissões de inquérito temos nesta legislatura que agora começa. A Vixissouaze regressa já a seguir. Continuamos nós aqui, uma espécie de loucos em Lisboa, não para todos de Lisboa, para ouvir um não louco de Portalegre, que é o João Miguel Tavares.