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Seja bem-vindo ao "Vozes Circulares", é o podcast do Observador em parceria com a associação Smart Waste Portugal, que nos fala de sustentabilidade e economia circular. Hoje vamos falar de uma nova geração de pontos de reciclagem que prometem simplificar a vida dos consumidores: os EcoSpots. Estes espaços integrados que reúnem vários fluxos de resíduos e que estão preparados para integrar o sistema de depósito e reembolso, que também vamos conhecer neste episódio, que conta com o apoio do Continente. Conosco estão hoje a Mariana Pereira da Silva, diretora de sustentabilidade do Continente, e Lia Oliveira, diretora de marketing e comunicação da SDR Portugal. Muito obrigado às duas por estarem aqui no Observador. Começaria aqui pela Mariana. Mariana, os EcoSpots foram apresentados como uma forma de colocar cada resíduo no seu spot. Parece-me feliz esta definição. O que é que são exatamente e que problema vem resolver também no dia a dia do consumidor?

Ora bem, nós criamos no Continente este conceito do EcoSpot, muito pela consciência que temos que para além de tudo aquilo que nós fazemos no Continente para reduzir a pegada e o impacto das nossas operações e, portanto, a forma como nós gerimos a energia das nossas lojas, a forma como valorizamos os resíduos, como combatemos o desperdício alimentar, há claramente uma responsabilidade de levar ao consumidor também estas práticas. E, portanto, criamos este conceito do EcoSpot, que vai estar em todas as nossas lojas e onde, de uma forma bastante conveniente, facilitamos o seu encaminhamento. Isto para nós é particularmente importante. Sabemos que o consumidor é um dos aspetos que mais valoriza quando tentamos perceber o que é que, em termos de sustentabilidade, os retailistas deveriam fazer mais, e temos o desperdício alimentar e a circularidade. E, portanto, encontramos esta solução de responder também a uma necessidade que o consumidor tem vindo a expressar cada vez mais.

Já vamos saber mais sobre estes EcoSpots, mas Lia Oliveira, antes de falarmos um bocadinho da integração, importa aqui enquadrar o que é este SDR, o sistema de depósito e reembolso, e que mudança estrutural é que ele traz também este sistema das embalagens em Portugal.

Obrigada pelo convite, primeiro. Bom dia a todos. O sistema de depósito e reembolso aparece de um sistema que já existe numa série de países, em 18 na Europa, para ser mais precisa, e muitos outros no mundo, e que visa promover a economia circular. Como é que isto funciona em termos práticos? A SDR Portugal foi a entidade, uma associação sem fins lucrativos, a quem foi atribuída uma licença governamental para operar este tipo de resíduos. Estamos a falar de embalagens de bebidas de uso único, garrafas e latas até três litros, de plástico e lata. E essas embalagens de bebidas, e estamos a falar de 2,1 mil milhões de embalagens em Portugal todos os anos, hoje em dia, o que vai acontecer a partir do dia 10 de abril é: o consumidor vai comprar a sua bebida no seu local de compra normal, regular, habitual, na loja, consome a sua bebida, guarda a embalagem, essa embalagem tem que estar intacta e depois devolve-a. Ele quando compra essa bebida, paga um valor adicional, um valor de €0,10, que foi ainda há muito pouco tempo fixado pelo governo, e ele recebe integralmente esses €0,10 se for consciente ambientalmente e devolver essa embalagem numa das 2500 máquinas que vamos ter espalhadas por todos os supermercados e hipermercados do país. E nessa devolução, quando devolve essa embalagem, que não pode estar espalmada, tem que ter o rótulo, tem que ter a tampa, no caso das garrafas, e tem que ter um símbolo, que vai ser o símbolo que vai marcar a embalagem, que é o símbolo Volta, a marca do sistema de depósito e reembolso, recebe de volta esse valor dos €0,10. Recebe como? Ou recebe em talão, que depois pode pedir a devolução do valor em dinheiro, portanto, as máquinas não vão ter dinheiro, ou recebe em desconto para descontar no supermercado onde comprou, ou recebe em meios digitais e ainda pode doar esse valor para uma instituição de solidariedade, se assim o pretender. Depois disso, como é que funciona a questão da economia circular? Essas embalagens são recolhidas nessas máquinas, passam por um circuito dedicado só para este tipo de embalagens, são triadas nos centros de contagem e triagem, vendidas aos recicladores e com esse material de alta qualidade, que só é possível ter pelo fato de ser um circuito dedicado, essas embalagens podem voltar a entrar no circuito alimentar. Uma garrafa pode voltar a ser uma garrafa, uma lata pode voltar a ser uma lata, que depois volta à mão do consumidor. E daí fazer-se este circuito da economia circular, que é o propósito da SDR Portugal.

Mariana, os EcoSpots, pelo que eu percebi, reúnem aqui num único sítio, a possibilidade de deixarmos desde cápsulas de café, rolhas de cortiça, pilhas, óleos, equipamentos elétricos. Foi importante centralizar todo este fluxo num só local?

Sem dúvida. A ideia e o conceito que nós pretendemos passar é que passa a haver um sítio único, um destino único, onde podemos, de forma bastante responsável, descartar aquilo que são os objetos, as embalagens, que chegaram ao seu fim de vida e, portanto, garantir que depois são devidamente encaminhados para parceiros do continente e garantir que são efetivamente reciclados e ganham uma nova vida. Acreditamos que a capilaridade que nós temos das nossas lojas vem ajudar e dar uma resposta a uma necessidade que os consumidores têm partilhado. E portanto, achamos que este era o momento certo de criar este único espaço. Vamos ter lugares dedicados para quem quer vir trazer os seus resíduos às nossas lojas e sempre nesta lógica de conveniência. E temos isto para esses fluxos, que na verdade, ainda não temos fluxos em termos organizados a nível do país, mas também para aquilo que nós chamamos as nossas campanhas específicas, porque aquilo que nós acreditamos é que nós somos responsáveis pela colocação de produto no mercado e, portanto, tudo aquilo que possa promover esta circularidade, tanto melhor. Um exemplo típico é a campanha que fazemos de regresso às aulas, em que temos todos os anos o nosso cadernão, em que convidamos os nossos consumidores a trazerem aquilo que são os cadernos antigos, os livros que já não podem ser reutilizados, que nós garantimos o correto encaminhamento para valorização e reciclagem, e com o produto dessa reciclagem promovemos a arborização de zonas ardidas em Portugal.

Mariana, ainda aqui nos Ecopontos, pelo que eu percebi, eles já estão atualmente em mais de 150 lojas do continente. Há aqui uma previsão de expansão a toda a rede. Que impacto é que isto pode ter nas taxas de reciclagem a nível nacional?

É difícil dar-lhe um número, porque, na verdade, nós o que estamos a recolher em termos de Ecospot são produtos em fim de vida que não têm um fluxo organizado, que não estão no âmbito daquilo que nós chamamos o SIGRE, o Sistema Integrado de Gestão de Resíduos.

No caso das roupas, por exemplo, é mais difícil.

É mais difícil.

As próprias cápsulas de café exigem ainda um trabalho para a sua reutilização.

Exatamente. E, portanto, o que nós podemos dizer é que aquilo que nós conseguimos ao encaminhar, retirar de aterro, porque é o que acontece quando não há um fluxo organizado, os resíduos ou são encaminhados para aterro ou valorizados energeticamente e, portanto, tudo aquilo que possam ser recolhas feitas junto do continente, garantimos que não vão para aterro.

Já é um ponto bastante positivo. Lia Oliveira, o SDR contempla metas ambiciosas no que toca à recolha. Como é que soluções integradas como estes Ecospots também podem ajudar Portugal a cumprir esses objetivos?

As nossas metas são muitíssimo ambiciosas. Estamos a falar de 90% de recolha deste tipo de embalagens de bebidas até 2029. É verdade que temos um grande garante que conseguimos atingir estas metas, porque em todos os outros sistemas de depósito e reembolso existentes no resto dos países da Europa, as taxas médias de recolha andam à volta desses 90%, e estamos a falar de sistemas com graus de maturidade muito diferentes, desde sistemas que existem há mais de 30 anos, como sistemas que arrancaram há dois, três anos. Ainda assim, nós sabemos que temos um desafio muito grande a nível de mudança de comportamentos e de mudança de mentalidades dos consumidores. Estivemos 30 anos habituados a esmagar as garrafas e as latas e a pô-las no Ecoponto amarelo. Queremos que as pessoas continuem a pôr os restantes resíduos que não fazem parte do SDR no Ecoponto amarelo, mas este tipo de embalagens vão deixar de poder ser esmagadas para serem postas intactas nestas mais de 2500 máquinas que vão estar espalhadas por todos os supers e hipermercados. Obviamente que é absolutamente fundamental, num sistema que visa mudar comportamentos, haver a maior conveniência possível e o consumidor poder ir a uma loja e ter um espaço dedicado para deixar os seus resíduos todos, sejam as embalagens de bebidas, sejam as cápsulas de café, ajuda muito para que essa mudança seja o mais simples possível.

A simplificação é amiga da mobilização das pessoas.

É claro que sim. Mas obviamente, também vamos ter que fazer, e vamos começar a ouvir falar disso muito em breve, grandes campanhas de sensibilização no sentido de garantir que o cidadão sabe o que tem que fazer, sabe o que tem que mudar. Ainda por cima, estamos a falar de um sistema que vai arrancar no próximo dia 10 de abril, mas que até dia 9 de agosto está num período de transição, ou seja, vão coexistir no mercado para comprar embalagens com o símbolo volta e que fazem parte do sistema, que vão dar azo a pagamento do valor de depósito, os tais 10 cêntimos por embalagem, e depois à sua devolução, quando a embalagem é entregue nas devidas condições, e outras embalagens que ainda não o vão ter, que vão ser embalagens ainda do sistema antigo e que têm que ser continuadas a ser postas no seu respetivo Ecoponto, neste caso, no Ecoponto amarelo. E portanto, é muito importante que esta informação chegue aos consumidores para garantir que as pessoas não estão já a guardar embalagens para no dia 10 de abril irem pôr nas máquinas, porque as máquinas não as vão aceitar. E então esta comunicação é fundamental para mudar comportamentos.

A chave passa também por essa palavra-chave, diria, que é o reembolso. Muitas vezes o SDR pode ser visto até como essa obrigação legal, mas há aqui também uma ideia de mudança cultural na relação das pessoas com as embalagens.

Claramente. O reembolso foi algo que, quando os sistemas de depósito e reembolso começaram a aparecer, há mais de 30 anos, se percebeu rapidamente que independentemente do valor se perceber por alguns como muito pequeno ou muito grande, fazia efeito nas pessoas. Essa responsabilização dos cidadãos enquanto contribuírem para o planeta e contribuírem para o ambiente e para o seu próprio país e para a valorização deste tipo de materiais, foi algo que foi muito bem recebido pelas populações e, portanto, se nós formos cidadãos conscientes Para nós é absolutamente neutro, porque adiantamos o valor, mas depois recebemo-lo na sua totalidade. Para quem não é responsável, vai perder esse valor. O que nós sabemos é que em todos os países em que isso já foi implementado, o valor do reembolso faz efetivamente diferença e mobiliza os cidadãos. No entanto, nós também acreditamos que o próprio sistema em si, o perceber-se que estes materiais, pelo seu circuito dedicado, conseguem dar origem a outros materiais com muito valor, nós acreditamos que isso vai ser uma mudança de paradigma para o consumidor e que em um espaço de tempo razoável.

Isso estará assimilado.

Isso estará assimilado e inclusivamente pode ser abrangido por outro tipo de embalagens e outro tipo de materiais, e isto criar aqui realmente uma mudança de paradigma importante.

Mariana Pereira da Silva, em 2024, estava a ler: "O Continente geriu mais de mil toneladas de resíduos depositados nos seus pontos de recolha". Que leitura é que faz destes números? O consumidor parece-lhe mais disponível para participar?

Sem dúvida que está cada vez mais disponível. As novas gerações estão bastante conscientes daquilo que são.

Os mais novos obrigam também os pais, se calhar, a ter um comportamento mais responsável.

E, por outro lado, a falta de resposta que se encontra muitas vezes para encaminhar este tipo de resíduos, as cápsulas, a roupa, os óleos usados e portanto, aquilo que sentimos é que, de facto, este conceito que criamos tem um valor muito grande para o consumidor e temos estado a alargá-lo a todas as nossas lojas.

Tinha curiosidade de perceber também se o Continente, para além da infraestrutura física que é necessária para implementar esse sistema, está a trabalhar também nessa comunicação e sensibilização junto dos clientes. Imagino que surjam campanhas para explicar melhor o que são os Eco Spots.

Sem dúvida, mas até antes do próprio Eco Spot, a nossa primeira preocupação foi levar para o produto essa informação.

Para a própria embalagem.

Para a própria embalagem. E portanto, em 2020, o Continente desenvolveu uma iconografia pioneira em Portugal, com a Sociedade Ponto Verde, em que explicávamos exatamente como é que cada embalagem, cada produto devia ser encaminhado de uma forma mais responsável. E começamos efetivamente com esse trabalho, que hoje em dia encontramos em todos os nossos produtos, também nas nossas plataformas digitais, de uma forma muito clara. E depois complementamos desde programas como a Missão Continente, que é um dos maiores programas que existem em Portugal nesta área e onde temos conteúdos específicos sobre circularidade e o tema da reciclagem, o tema do combate ao desperdício alimentar, uma alimentação saudável e também tudo aquilo que é a nossa comunicação em loja, em que reforçamos precisamente esta mensagem, que é sempre o objetivo de criarmos maior conhecimento, maior awareness e literacia junto do consumidor. E aquilo que cada vez mais vão ver nas nossas lojas é, na própria prateleira, uma indicação que este produto pode voltar ao Eco Spot e nós daremos o destino correto.

Só para terminar, Lia, estamos a caminhar para um modelo em que o retalho também deixa de ser só um ponto de venda. É um grande aliado, com estas infraestruturas como o Eco Spot, pode tornar a reciclagem mais simples, mais acessível, mais eficaz. É uma ajuda o retalho envolver-se nesta questão?

É absolutamente fundamental. Na verdade, se este sistema existe, e não é só em Portugal, existe também nos outros países assim, assente no chamado retorno ao retalho. O facto de o retalho estar disponível com a capilaridade, que inclusivamente a Mariana já falou, essa capilaridade permite trazer a tal conveniência para que todos os cidadãos consigam de uma forma prática, inclusivamente pondo estes hábitos dentro daquilo que já são as suas mecânicas normais, domésticas, de vou ao supermercado, vou fazer as minhas compras da semana e aproveito e levo os meus resíduos e deposito-os nos locais corretos. É absolutamente fundamental haver esta rede no retalho para garantir que, para o cidadão, este é um comportamento muito simples de conseguir fazer, exatamente para que haja cada vez mais notoriedade, cada vez mais consciência, mas acima de tudo, cada vez mais simplicidade nestes atos que devem fazer parte das nossas vidas e devem fazer parte de nós todos querermos contribuir para o planeta onde vivemos.

Muito obrigado, Mariana Pereira da Silva. Lia Oliveira, esta conversa muito interessante foi sobre a inovação em loja, no fundo, que pode tornar esta reciclagem mais simples, mais acessível, mais eficaz também. A economia circular constrói-se quando os sistemas funcionam, mas também quando a participação se torna intuitiva. E os Eco Spots mostram como essa integração pode acontecer na prática. Este foi o último episódio da segunda temporada do Vozes Circulares, é o podcast do Observador em parceria com a Associação Smart Waste Portugal. Neste episódio, contou com o apoio do Continente, mas não vamos parar por aqui. Continue a acompanhar-nos naquela que será a terceira temporada do Vozes Circulares. Até lá, ouça todos os episódios nas plataformas de podcast e continue a descobrir tudo sobre sustentabilidade e economia circular.