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Este é o homem que já publicou 9500 livros feitos à mão

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Apesar da sua dedicação, Alberto Casiraghy não é milionário e nunca terá bestsellers. Há 33 anos que publica um livro por dia. Pequenas obras de arte contra a ideia do fim do livro em papel.

Alberto Casiraghy, 63 anos, a trabalhar na máquina de caracteres móveis, na sua casa em Osnago

Esqueça tudo o que conhece sobre as modernas tecnologias de edição de livros, máquinas print-on-demand, e-books, livros abandonados em armazéns ou guilhotinados pela exigência mercantil de novidades. Em Osnago (Itália), na pequena casa do tipógrafo, poeta, artista plástico, músico e construtor de violinos Alberto Casiraghy, é possível regressar à Renascença, sentir a sombra de Gutenberg, sondar o cheiro que teriam as oficinas tipográficas do século XVI, ver como são os caracteres móveis, o papel cosido à mão, a mistura de odores de tintas, vernizes, madeiras. Tudo num espaço onde a vida e o trabalho se misturam e onde a mesa que serve para fazer livros é a mesma que serve para comer com os amigos. Bem-vindo ao mundo dos Pulcinoelefante.

Máquina tipográfica no meio da sala de Alberto Casiraghy

Máquina tipográfica no meio da sala de Alberto Casiraghy

Tudo começou em 1982, quando, numa tarde ventosa, Alberto Casiraghy, 63 anos, fez o primeiro libricino. Ou seja, os livrinhos feitos na máquina de caracteres móveis que comprou quando a tipografia onde trabalhava decidiu abandoná-la para começar a usar máquinas de offset (hoje, provavelmente, já usa técnicas de impressão digital).

A máquina ocupa hoje quase inteiramente a sala de Alberto e transformou-lhe a casa numa oficina. Mas ele gosta assim. Deixou o trabalho de tipógrafo que o fazia infeliz e começou a produzir pequenos livros de poesia ou de aforismos, cada um com uma ilustração original que vendia aos amigos. Nesse ano longínquo, Casiraghy estava longe de imaginar que os seus libricini, a que deu o nome de “Pulcinoelefante” (“pulcino”, em italiano, significa pintainho), o tornariam um artista conhecido e admirado em todo o mundo. Mais do que um editor, no sentido habitual do termo, ele é um artista conceptual que fez da produção de livros a sua forma de expressão artística.

logo

Logo das edições Pulcinoelefante

Mas, afinal, que livros são estes? São quatro ou seis folhas de papel Hahnemühle, tamanho A4, dobradas em A5. Contêm um aforismo ou um pequeno poema impresso em caracteres móveis, e uma ilustração, que tanto pode ser uma impressão digital dos desenhos de Alberto, uma xilografia, águas-fortes, litografias, fotografias, colagens, desenhos ou pinturas com todas as técnicas, ready-made, esculturas, entre outras intervenções. As tiragens são mínimas: vão de 15 exemplares a 30 ou 35, numerados sequencialmente.

Um Pulcino em formato ready-made

Um Pulcino em formato ready-made

Há medida que o tempo foi passando, o artista começou a produzir cada vez mais livros, homenageando poetas e escritores de todo o mundo como Rilke, Ezra Pound, Beckett, Cocteau, e incluindo portugueses como Pessoa ou Manuel Alegre. O facto de conhecer bem o meio artístico da região de Milão e, mais tarde, a amizade e a colaboração com a famosa poeta italiana Alda Merini (com quem fez mais de 700 Pulcini), trouxeram para a casa de Casiraghy um sem número de poetas, escritores e artistas plásticos que queriam escrever ou ilustrar um Pulcinoelefante.

Estes, por seu turno, multiplicavam-se como pães e começaram a ser expostos um pouco por todo o mundo, nomeadamente nos Estados Unidos e no Japão, onde foram alvo de grandes exposições e artigos académicos. Também em Portugal teve lugar, no final de 2014, na Biblioteca Nacional, uma mostra da Pulcinoelefante comissariada por Catarina Figueiredo Cardoso, cuja colecção pessoal já conta com mais de mil exemplares.

A poeta Alda Merino falecida em 2009

A poeta Alda Merino, falecida em 2009

É ela quem nos conta que Portugal “é uma presença antiga nas Edições Pulcinoelefante, com Fernando Pessoa a surgir logo no Pulcino n.º 414, em abril de 1993, com uma ilustração feita pelo próprio Alberto; e depois no n.º 1142, de outubro de 1995, com um desenho do artista plástico Salvatore Carbone”.

Em março de 2013, a presença da língua portuguesa foi reforçada com a publicação do poema “A Sombra”, de Manuel Alegre (é o n.º 8840), e publicou ainda o poema “Para Manuel Alegre” (n.º 8848), escrito em conjunto por Hélia Correia e Jaime Rocha. O Pulcino 8845 volta a homenagear Fernando Pessoa, e um outro (“A Vida, o Mundo”, n.º 8841) tem um aforismo escrito pela própria Catarina Figueiredo Cardoso e ilustrado pela Isabel Baraona.

“Em 2013”, explica Catarina, “o Alberto veio a Portugal onde fez um um workshop na editora Homem do Saco (que também imprime livros com recurso aos tipos móveis), explicando como deveriam ser feitos bons Pulcini. Dessa colaboração resultaram os Pulcinoelefante portugueses, que vão dos números 8855 a 8858.”

Mas há mais. “Do encontro feliz do tipógrafo italiano com Vasco Graça Moura nasceram mais quatro Pulcini, os números 8864, 8865, 8869 e 8877, feitos em março e em abril de 2013″. Depois, para a exposição na Biblioteca Nacional, Casiraghy fez um Pulcino em homenagem ao poeta e tradutor português falecido em 27 de Abril de 2014. Na mesma mostra figurava ainda uma obra insólita, feita a partir de um poema de Rui Moreira (esse mesmo, o actual Presidente da Câmara do Porto e ex-comentador de futebol num canal televisivo).

“Cada Pulcino é mais do que um livro: é um acto poético e uma forma de resistência contra a massificação do livro, e contra o fantasma da imaterialidade dos livros digitais. Cada Pulcino é um acto de resistência contra o desaparecimento físico do livro”, afirma ainda Catarina Figueiredo.

A nostalgia dos objectos manufacturados

Osnago é uma pequena vila italiana junto ao Lago de Como, que nos habituámos a conhecer como um lugar de celebridades milionárias, casamentos de estrelas de Hollywood, casas de férias de jogadores de futebol. Ali ao lado, Alberto Casiraghy não parece dar por nada. Raramente sai, detesta viajar, e só muito recentemente aceitou usar computador e internet. Mas à sua casa vêm ter artistas de todo o mundo. As portas estão sempre abertas, e invariavelmente o tipógrafo oferece uma refeição aos que o visitam. Oferece também um ou mais Pulcini dos muitos que, como conta Catarina, se espalham pelo chão, sobre os móveis, por toda a casa. Em Itália chamam-lhe “o mago” e as suas criaturas não são tanto livros mas sim puras manifestações de magia.

Imagem das placas de metal usadas na manufactura dos livros

Imagem das placas de metal usadas na manufactura dos livros

Estes dois mundos paralelos não colidem — são tão só a imagem de uma sociedade que, ao mesmo tempo, se esvai em mundanidades várias e se encanta e se comove com objectos imperfeitos, tácteis, saídos da mão humana e que parecem contrariar a passagem do tempo.

Se a casa de Casiraghy se tornou um ponto de passagem obrigatório para quem gosta de “objectos de autor”, isso é porque ali reside a possibilidade de fugir ao imediatismo da cultura contemporânea, que não tolera a memória e aposta numa sofisticação tecnológica à medida da produção incessante de novidades. O desejo de possuir este tipo de objectos reside na sua singularidade e na sua raridade, que os tornam símbolos contra o consumo e a rápida obsolescência de tudo. Há mesmo um fenómeno de moda na aquisição e coleccionismo destes “objectos de autor” de áreas tão diversas como livros, roupa, móveis, joalharia, música gravada em cassetes e com aparelhos antigos…

Porém, esta aparente pobreza de recursos não é um fenómeno de sociedades pobres, mas sim de sociedades ricas e entediadas com a “novidade” e a tecnologia, e que podem pagar caro para ter aquilo que mais ninguém tem.

O fenómeno Casiraghy não pode deixar de nos fazer lembrar o caso do poeta Herberto Helder e das suas edições irrepetíveis e de baixa tiragem. Querendo opor-se às leis do mercado, acabou por promover uma especulação que faz com que os seus livros mais antigos possam ser vendidos hoje por cerca de 2000 euros. Algo semelhante acontece com a arte de Alberto. Ele faz séries no máximo de 35 exemplares que vende a 10 euros, mas em poucos dias os seus revendedores já fazem circular o livro por 100 ou 200 euros, valor que tende a aumentar com a passagem do tempo e a fama do artista.

Isto é o que os estudiosos da Cultura chamam “mercado da nostalgia”. Não por serem coisas velhas, mas por serem coisas raras que trazem consigo a patine do tempo (esse, já se sabe, não tem preço). Paradoxalmente, devido à raridade destas máquinas, ao custo das peças que vão desaparecendo e à dificuldade de serem substituídas, aquilo que elas produzem torna-se um bem de luxo, como um carro do anos 20.

Na sua simplicidade, os Pulcinoelefante são objectos luxuosos e a sua sobrevivência está directamente ligada à vida de Casiraghy, ele, sim, uma figura verdadeiramente trágica: um editor-poeta que abdica da fortuna pela arte. Um verdadeiro fascínio para os habitantes da hipertecnológica e virtual sociedade do século XXI.

Em Portugal, há pelo menos duas editoras a usarem estas técnicas tradicionais de manufactura do livro, a Oficina do Cego e a O Homem do Saco. Por outro lado, há cada vez mais pequenas editoras independentes e autores que fazem os seus “livros de autor”. Usam máquinas digitais, mas fazem tiragens muito pequenas e depositam um forte empenho na criação do objecto livro que o torna quase uma peça de coleção. É o caso da Douda Correria, da Língua Morta, da Letra Livre, da Abysmo, da Mariposa Azual, da Companhia das Ilhas ou da já mítica &etc.

Primeiro livro em Portugal da promissora poeta brasileira Carla diacov

Plaquete da promissora poeta brasileira Carla Diacov na editora Douda Correria

Até ao final deste mês, sairá o catálogo da exposição dos Pulcino Elefante na Biblioteca Nacional e um livro sobre Alberto Casiraghy escrito por Catarina Figueiredo Cardoso e ilustrado por Isabel Baraona.

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